Cinco coisas que Daciolo deveria saber sobre a América Latina

Por: Nericilda Rocha*, de Fortaleza/CE

A trapalhada do Cabo Daciolo (Patriota) no primeiro debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, viralizou e foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. No afã de parecer mais conservador e antiesquerda, Daciolo perguntou, em tom acusatório, o que Ciro Gomes (PDT) teria a dizer sobre um plano para criar a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Parece que a intenção do Cabo era desmascarar um “esquerdista” sobre um plano diabólico prejudicial ao povo brasileiro. Nem Ciro Gomes é de esquerda e nem existe o tal plano Ursal. Virou piada.

Mas o candidato, em sua vã filosofia e ódio à esquerda, trouxe à tona um debate histórico, sobre a integração dos povos da América Latina. Um tema estratégico e que tem seu nascimento nas lutas no continente pela independência dos colonizadores europeus.

1 – Colonização foi feita com saque às riquezas, escravidão e massacre
Como todos sabem, a expansão marítima e comercial levada a cabo pelos países ibéricos (Portugal e Espanha) no final do século XV, realizou-se com a perda de milhões de vidas e o extermínio completo de muitas civilizações indígenas. Esta expansão era um projeto consciente para impor e manter um sistema de colonização que garantisse que a riqueza do “Novo Continente” sustentasse as monarquias parasitárias do Velho Continente, ao mesmo tempo que a acumulação de capital também serviria para a posterior ascensão da nova classe burguesa. Assim se impôs, pela força da espada, o regime colonial de exploração e dominação, que transformou o que hoje conhecemos como América Latina, em meras colônias.

Tão logo foram descobertas as minas de ouro e prata no Peru e no México, a Coroa espanhola começou a explorá-las, utilizando-se para isso da mão-de-obra indígena. A partir daí, foi organizado um vasto sistema de exploração econômica, que baseava-se na servidão e na escravidão. No Brasil o mecanismo não foi diferente, e contou com seis milhões de negros e negras escravizados e trazidos da África.

Embora houvesse diferenças, as relações entre as metrópoles ibéricas e suas colônias americanas seguiam mais ou menos a mesma lógica: as colônias deveriam produzir mercadorias rentáveis no mercado europeu (principalmente gêneros agrícolas tropicais e metais preciosos) que seriam exportados para a metrópole e de lá reexportados para outros países; as colônias não poderiam fabricar produtos manufaturados, tendo que comprá-los da metrópole.

2 – Povos indígenas resistiram e cercaram colonizadores
Essa colonização enfrentou uma permanente resistência, com rebeliões indígenas contra os colonizadores, como a revolta de Tupac Amaru II, em 1870, iniciada com o cerco à antiga capital inca, a cidade de Cuzco, logo se expandindo pelas terras altas do Peru e chegando até o norte do atual território argentino. Tupac Amaru II foi preso e entregue aos espanhóis, acabou torturado e morto, em maio de 1781. Sua língua foi cortada, por recusar-se a revelar os nomes de seus aliados, e seu corpo, não tendo sido desmembrado após sofrer a força contrária de quatro cavalos puxando-o em direções distintas, acabou esquartejado por seus captores. Seus membros e sua cabeça foram enviados a diversas províncias, como lembrete do poder da Coroa espanhola e como forma de intimidação aos demais indígenas e mestiços insatisfeitos.

Bartolina Sisa

Bartolina Sisa

De todas as rebeliões na América Latina, a que conheci seus impactos mais de perto e sua força simbólica até os dias atuais na consciência dos povos indígenas foi a rebelião liderada em março de 1781 pelo indígena Julián Apaza, mais conhecido pelo nome de Tupac Katari, e sua esposa e comandante Bartolina Sisa, que cercou a cidade de La Paz. Aqui um parêntese para esta mulher, Bartolina Sisa, que, aos 25 anos, comandou as tropas de indígenas que sitiaram La Paz por duas vezes no decorrer do ano, em um cerco contra os colonizadores espanhóis.

Concentraram-se onde hoje se localiza a cidade boliviana de El Alto (mesmo local onde explodiu a revolta popular de outubro de 2003 que expulsou o governo do gringo Goni) e mantiveram o cerco por meses, até serem derrotados pelos reforços militares enviados pelo Vice-Reinado de Buenos Aires. O nome de Bartolina tornou-se exemplo de luta para as mulheres bolivianas.

A crueldade de sua morte e de seu esposo entrou para a história, assim como sua valentia. Katari foi esquartejado e Bartolina foi levada nua pelas ruas de La Paz e torturada em 1782. Arrastada por cavalos pela praça central, sua língua foi arrancada para calar os gritos. Partes de seu corpo foram levadas a locais simbólicos de resistência indígena, para exibição pública. Além de Bartolina, há Gregoria Apaza, Micaela Bastidas (uma comandante indígena peruana brilhante!) e tantas outras que se levantaram contra a exploração e o jugo dos colonizadores.

Mas, estas histórias são pouco conhecidas. Afinal, são apenas mulheres indígenas (o machismo desconfigura até os fatos). Os mais progressistas reconhecem o papel libertário de Simón Bolívar (1783-1830) e San Martín (1778-1850), e o ideal de Pátria Grande de Bolívar. Evidentemente, que o Cabo Daciolo, idealizador da URSAL, nem mesmo isso (re)conhece.

3 – Simón Bolívar liderou a luta pela Pátria Grande, contra os opressores
Bolívar foi o principal líder da independência da América do Sul espanhola. Seu nome está em monumentos de praticamente todos os países da América Latina e batizou até mesmo um país: a Bolívia. Nascido em Caracas, na Venezuela, e em uma família rica, teve acesso à educação mais avançada de seu tempo. Em sua temporada na Europa, testemunhou o sentido progressista da Revolução Francesa associado ao fim do Antigo Regime. De volta a Caracas, era um republicano, filho das oligarquias locais, mas apenas um crioulo. Ou seja, como eram chamados os descendentes de europeus que nasciam em países originários da colonização europeia e por isso não gozavam de todos os privilégios.

Bolívar foi um revolucionário para sua época. Compreendeu a necessidade de ampliar as bases sociais da luta contra os colonizadores, e o fez. Compreendeu que era necessário uma revolução e a empreendeu. Libertou escravos e rompeu com o horizonte aristocrático e constituiu um exército de base popular. De muita capacidade política e habilidade militar, Bolívar conduziu seus homens a Nova Granada (atual Colômbia), e após alguns combates vitoriosos, entrou triunfante em Bogotá, em 1819. Assim foi fundada a República da Colômbia, que, originalmente, compreendia o território dos atuais estados de Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador. A libertação da atual Venezuela seria um feito espetacular na batalha de Carabobo, dois anos depois. Não por acaso, Bolívar é o maior herói popular venezuelano.

Vitoriosa a independência ao Norte, Bolívar deslocou-se rumo ao Peru e reuniu-se com o comandante da revolução do sul da América, o general San Martín, que em 1822 já havia tomado Lima e declarado a independência do país. Em seguida, Bolívar se soma ao exército comandado pelo general Sucre na batalha de Ayacucho, em 1824, símbolo do fim do império espanhol na América continental.

Para os libertadores da América, a construção de uma Pátria Grande latino-americana era uma necessidade. Só a união dos povos hispano-americanos permitiria derrubar o poder colonial e garantir a soberania política. A ideia de uma Pátria Grande supunha, na época, a unificação territorial, a soberania política e o anti-imperialismo. A Pátria Grande só seria possível no contexto de um projeto político sustentado pela mobilização popular e oposto aos interesses das elites oligárquicas associadas às potências estrangeiras. Por isso o exército constituído popularmente e as batalhas travadas já eram parte dessa integração e causa comum: a libertação dos colonizadores.

A “Pátria Grande” representaria, principalmente, integração entre os povos para sua libertação e construção de um futuro onde não estivesse reservado a esses países o papel de colônias. Significaria independência econômica e política, autonomia e soberania.

4 – Os Estados Unidos fazem de tudo para manter o controle da Região
O imperialismo estadunidense sempre atuou contra a integração latino-americana e essa soberania dos países. Do slogan “América para os americanos” ao “America First”, de Trump, os EUA impuseram uma “integração” voltada aos interesses de sua economia, aos seus moldes e sob seu controle. Para isso, através de regimes militares, deflagrou uma contrarrevolução que sangrou as economias latino-americanas com o mecanismo da dívida externa, nos anos 1960 e 1970. Depois, voltou a carga para recolonizar-nos com o neoliberalismo, com a abertura completa de nossas economias com a globalização, a privatização de estatais, a reativação em 2008 da Quarta Frota da Marinha dos EUA para patrulhar os mares da América Latina e o projeto da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).

As lutas dos trabalhadores e movimentos sociais barrou a ALCA, mas os tratados bilaterais, os Tratados de Livre Comércio (TLCs) e o controle dos recursos naturais dos países latino-americanos, em especial o petróleo, prosseguiram. Neste momento, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Mattis, está no Brasil. Vem garantir mais entrega do pré-sal e a instalação de uma base militar dos EUA em Alcântara (MA).

A nova estratégia do imperialismo para a América Latina, no governo Trump, é parte da resposta à disputa agressiva com outras potências mundiais por mercados e, por isso, já produz ainda mais interferência sobre a economia e a política dos países da região.

5 – A luta antiimperialista e por uma segunda independência continua atual
A luta pelo que muitos autores e movimentos sociais chamamos de Segunda Independência foi o grande tema de todo o século XX e XXI e segue atual, já que a dominação continuou por outras formas e mecanismos e se ampliou após a crise econômica.

É necessário lutar por uma nova independência, por soberania e pela integração dos povos e países latino-americanos. Uma integração que vá muito além das iniciativas dos governos ditos progressistas, que ascenderam após o fracasso do neoliberalismo e das rebeliões que sacudiram o continente na primeira metade dos anos 2000. Mesmo Hugo Chávez, com a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, fundada em 2004), a Unasur (União de Nações Sul-Americanas, criada em 2008) e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, fundado em 2010), ao não romper com o imperialismo de fato, não obteve êxito.

Precisamos de uma integração que se enfrente com o imperialismo, rompendo com o modelo de exportação de matérias-primas (commodities), como petróleo, soja e minério, e os mecanismos das dívidas. Com a crise econômica mundial, esse modelo econômico de exportação e o projeto de colaboração de classes – inclusive o do PT – vieram abaixo, pois não há mais espaço para concessões, por mínimas que sejam.

Todos os 50 tons de Temer, no debate ou fora dele, se incomodam com o tema da integração dos povos latino-americanos numa perspectiva antiimperialista. Interessa a eles que o Brasil continue de costas para seus irmãos latino-americanos, como colônia, sem enxergar o significado e o potencial de uma integração econômica e solidária de uma região com tantas riquezas.

Acima de tudo, sabem da trajetória de nossos povos, de nossa longa história de revoluções e insurreições indígenas, negras, operárias e populares. Temem uma luta permanente antiimperialista, que busque uma segunda independência, que reestabeleça a unidade dos trabalhadores e povos da região, apontando, nessas lutas, uma perspectiva socialista.

Obviamente, com um nome mais criativo do que URSAL…

*Nericilda Rocha é mestre em Educação pela UFCE (Universidade Federal do Ceará) e viveu em La Paz, Bolívia.

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