Lula Livro: 86 maneiras de dizer Lula Livre

Paulo César de Carvalho*, de São Paulo/SP

Não é nada fácil organizar um encontro de poetas, cartunistas, romancistas e músicos: nem em mesa de bar, nem em simpósio acadêmico, nem em conferência cultural, nem em reunião política, nem em livro. Parece mais difícil ainda contar com a presença de um frei entre eles. Isto é, nem tanto, se o religioso for poeta, cartunista, romancista ou músico: e se a pauta do encontro, de preferência, tratar de cultura e arte. Frei Betto, por exemplo, é dominicano e escritor: com a bênção de Machado, ele estaria na mesa como “dominicano-autor”, não como “autor-dominicano”. Ao lado, por exemplo, do amigo Chico Buarque, que também é escritor, mas é músico e não é dominicano. E do poeta Augusto de Campos, que não é músico nem dominicano. E de Caco Galhardo, que não é amigo de Frei Betto, não escreve poesia, não faz música, mas é cartunista. E de Chico César, que é poeta, músico e – como seu xará de Holanda – não é dominicano nem cartunista. E do cronista Xico Sá, xará com “x”, que rima com a poeta Alice Ruiz, que também é solução. E de Chacal, que também escreve poesia, não faz cartoon, não é frei e se escreve com “ch” – como Chico, que não é seu xará nem de Raduan Nassar, que também entrou na história.

A propósito, que história é esta, afinal, que conseguiu reunir poetas, cartunistas, romancistas, músicos e um frei-escritor em um mesmo livro, cujo tema não é estética, nem política cultural e produção artística? Por que razão estariam conversando na mesma mesa Chico Buarque, Xico Sá e Chico César, na companhia de Frei Betto, Alice Ruiz, Caco Galhardo, Raduan Nassar e tantos outros trabalhadores da cultura e da arte? Reformulando a pergunta, e lembrando mais dois, qual seria a ponte entre o Capão Redondo da perifa paulistana do escritor Ferréz e o bairro carioca do Estácio do letrista Aldir Blanc? Em outras cores e nomes, por que linhas e traços os “Piratas do Tietê” de Laerte navegariam até o porto do escritor santista Manoel Herzog? Entre sertões e veredas, em que terra brotariam lado a lado haicais da araucária paranaense de Alice Ruiz e cordéis do cacto paraibano de Chico César? Em outros termos e extremos, em que ponto se ligariam a “dura poesia concreta” das esquinas geométricas da “sampa” de Augusto de Campos e as ipanêmicas curvas das “dunas do barato” da “poesia marginal” de Ricardo Chacal?

Enfim, entre as várias não muitas semelhanças e as tantas não poucas diferenças entre eles, o que justificaria o encontro improvável de “concretistas” e “marginais”, a reunião inesperada de cartunistas e músicos, a unidade quase impossível de trotskistas e stalinistas nas páginas deste livro? Aliás, considerando que seu título é LULA LIVRE LULA LIVRO, uma leitura rápida e rasteira concluiria que todos estão juntos porque, a despeito das diferenças, haveria um ponto central de intersecção entre os autores: românticos ou realistas, dominicanos ou ateus, cisgêneros ou trans, poetas ou romancistas, curitibanos ou paulistas, anarquistas ou maoístas, todos seriam petistas. Aproveitando a rima, essa justificativa simplista, evidentemente, não é solução: desafetos na arte e adversários políticos não se uniram nas barricadas desta obra para brigar pela liberdade de um suposto candidato comum à Presidência da República. Embora não haja dúvidas de que vários dos 90 nomes votam em Lula, outros têm muitas divergências com o PT, defendendo o programa do PSOL e fazendo campanha para Boulos. Por isso, é necessário sublinhar que o papel da palavra de ordem LULA LIVRE, nesta antologia, não é servir de palanque para a liderança petista (ainda que, indiretamente, também possa vir a cumprir essa função).

Para dar lentes aos leitores míopes, tentando evitar distorções interpretativas, é fundamental deixar bem claro que LULA LIVRO não foi organizado pelos escritores Ademir Assunção e Marcelino Freire com o objetivo de funcionar como uma “frente eleitoral”, mas com a finalidade de atuar como uma “frente única” de trabalhadores da cultura e da arte na luta pelas liberdades democráticas. A defesa da liberdade do ex-presidente e de seu direito de disputar as eleições, assim, não é uma declaração de voto, mas a expressão do combate aos desmandos autoritários dos golpistas, que descaracterizam o “regime democrático”, deformando o Estado de Direito. Para quem ainda não consegue enxergar o que está em jogo, um exemplo “esportivo” pode servir de binóculo: se o tema deste livro fosse o futebol, o tricolor das Laranjeiras Chico Buarque e o alvinegro de São Januário Aldir Blanc, apesar das afinidades musicais, sentariam em lados opostos das arquibancadas. Em contrapartida (com o perdão do trocadilho), se o Fluminense ou o Vasco fosse impedido de disputar o campeonato por arbitrariedade da cartolagem, os dois compositores vestiriam a mesma camisa, xingando juntos o juiz (qualquer semelhança com o Judiciário, neste campo, não é mera coincidência).

Para os leitores que não sabem quase nada de futebol, entendem um pouco de política e desconhecem um pouco menos literatura, este exemplo substitui o binóculo pela lupa: se o tema deste livro fosse a poesia, o “concretista” Augusto de Campos seria, obviamente, adversário do “marginal” Ricardo Chacal. Entretanto, apesar de representarem valores estéticos diametralmente opostos, se um deles fosse impedido de publicar por uma medida autoritária de censura, o outro gritaria em protesto, atirando versos (“reversos e controversos”), com “muito prazer”, na cabeça sem juízo do juiz. Não importa, nesse contexto, se um é palmeirense ou corintiano, ou se o outro torce para o Fluminense ou para o Vasco: não interessa, nessa partida, se um é do time da “poesia concreta” e o outro veste a camisa da “poesia marginal”; se o estilo de um é “construção” e a ginga do outro é “descontração”. Entre “formalismos” linguísticos e “informalidades” de linguagem, ambos jogam do mesmo lado pela liberdade de expressão: afinal, os dois “times” têm consciência de que, antes da disputa estética, é necessário que não sejam proibidos de jogar. Por isso, ver os dois juntos neste LULA LIVRO, vestindo a camisa LULA LIVRE, é ouvi-los cantando o mesmo hino pelas “liberdades democráticas” antes do apito do juiz: “É proibido proibir”.

Trocando as lentes analógicas, em respeito ao leitor que enxerga melhor as “imagens religiosas”, a questão pode ser traduzida assim: se o tema deste livro fosse de ordem “teológica” (com o perdão do duplo trocadilho), haveria divergências, por exemplo, entre a fé do dominicano Frei Betto, a “descrença e fé” do “catolaico” Chico César e a descrença de autores ateus (como eu). Apesar de todas as discordâncias entre católicos e protestantes, umbandistas e espíritas, babalorixás e ateus, todos acenderiam velas pela “liberdade de credo”, para exorcizar qualquer proibição de culto. Independentemente de qual fosse a crença ou a descrença, todos se uniriam para que nenhum livro jamais parasse no Index Librorum Prohibitorum (aquele famigerado Índice dos Livros Proibidos da Idade Média): santos, orixás, espíritos e entidades somariam forças sobre-humanas para apagar todas as fogueiras desumanas da “Inquisição”. Nesta trágica parábola reacionária, o inferno é o judiciário, e o diabo veste toga!

Em síntese, LULA LIVRO é isto: uma seleção de corintianos e palmeirenses, tricolores e vascaínos; uma procissão de dominicanos e protestantes, espíritas e ateus; uma plêiade de românticos e realistas, de marginais e concretistas; uma “frente única” de trotskistas e anarquistas, revolucionários e reformistas. Entre poetas e cartunistas, romancistas e músicos, contistas e cronistas, que são ou não lulistas, enfim, eis a questão: LULA LIVRE é uma palavra de ordem em defesa das liberdades democráticas, um chamado à reação contra os ataques reaças dos “bonapartes togados”. Subvertendo o ditado, escreveu e leu, o pau comeu: está dado o recado!

LISTA COMPLETA DOS AUTORES
ADEMIR ASSUNÇÃO * ADEMIR DEMARCHI * ADRIANE GARCIA * AFONSO HENRIQUES NETO * ALBERTO LINS CALDAS * ALDIR BLANC * ALICE RUIZ * ANDRÉA DEL FUEGO * ANTONIO THADEU WOJCIECHOWSKI * ARTUR GOMES * AUGUSTO DE CAMPOS * AUGUSTO GUIMARAENS CAVALCANTI * BEATRIZ AZEVEDO * BERNARDO VILHENA * BINHO * CACO GALHARDO * CARLOS MOREIRA * CARLOS RENNÓ * CELSO BORGES * CHACAL * CHICO BUARQUE * CHICO CÉSAR * CLAUDIO DANIEL * DIANA JUNKES * DOUGLAS DIEGUES * EDMILSON DE ALMEIDA PEREIRA * EDVALDO SANTANA * ELTÂNIA ANDRÉ * ERIC NEPOMUCENO * EVANDRO AFFONSO FERREIRA * FABIO GIORGIO * FABRÍCIO MARQUES * FERNANDO ABREU * FERRÉZ * FREI BETTO * GERO CAMILO * GIL JORGE * GLAUCO MATTOSO * JESSÉ ANDARILHO * JORGE IALANJI FILHOLINI * JOSELY VIANNA BAPTISTA * JOTABÊ MEDEIROS * JUVENAL PEREIRA * KAREN DEBÉRTOLIS * LAERTE * LAU SIQUEIRA * LINALDO GUEDES * LUCAS AFONSO * LUCIANA HIDALGO * LUIZ ROBERTO GUEDES * MANOEL HERZOG * MARCELINO FREIRE * MÁRCIA BARBIERI * MÁRCIA DENSER * MAURÍCIO ARRUDA MENDONÇA * NOEMI JAFFE * PATRÍCIA VALIM * PAULINHO ASSUNÇÃO * PAULO CÉSAR DE CARVALHO * PAULO DE TOLEDO * PAULO LINS * PAULO MOREIRA * PAULO STOCKER * PEDRO CARRANO * RADUAN NASSAR * RAIMUNDO CARRERO * RICARDO ALEIXO * RICARDO SILVESTRIN * ROBERTA ESTRELA D’ALVA * RODRIGO GARCIA LOPES * RONALDO CAGIANO * RUBENS JARDIM * SANDRO SARAIVA * SEBASTIÃO NUNES * SERAPHIM PIETROFORTE * SÉRGIO FANTINI * SÉRGIO VAZ * SIDNEY ROCHA * SUSANNA BUSATO * TARSO DE MELO * TEO ADORNO * VANDERLEY MENDONÇA * WALDO MOTTA * WELLINGTON SOARES * WILSON ALVES BEZERRA * XICO SÁ


*Paulo César de Carvalho (Paulinho) é militante da RESISTÊNCIA-PSOL e um dos autores presentes na barricada antológica LULA LIVRE LULA LIVRO

Foto: Ademir Assunção, um dos organizadores do livro. Reprodução Youtube

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