Brasil 2018: A batalha dos vices

Por: Edgar Fogaça, de Porto Alegre/RS

“Verba volant, scripta manent” (As palavras voam, os escritos permanecem): assim está escrito na abertura da carta que Michel Temer enviou para Dilma, em 7 de dezembro de 2015. Na ocasião, o então vice-presidente tornou pública sua insatisfação com o governo: “Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso.” E o fecho foi o indicativo do que viria: “Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã”.

Sabemos tudo que aconteceu depois, inclusive o impedimento de Dilma e o governo do odiado Temer. Desde então, o cargo de vice ganhou novo status. Com protagonismo renovado, na última semana, as chapas para a corrida presidencial indicaram seus candidatos a Vice-Presidência, em uma trama complicada, de apoio político e financeiro, geralmente em troca de cargos e permutas na base parlamentar dos estados. Durante um período “decorativo”, agora os vices no Brasil ganham poder e influência. Confira quatro vices anunciados(as) nesta semana e a pré-candidatura do PSOL.


 

Ana Amélia – “queridinha do MBL”, a extrema direita na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB)  Ana Amélia Lemos fez carreira como comunicadora do grupo RBS (afiliada da Rede Globo no Rio Grande do Sul). Ainda na ditadura, foi funcionária fantasma do Senado Federal, ao ser nomeada para cargo de confiança no mandato de seu marido, o ex-senador biônico Octávio Omar Cardoso. Sempre ligada ao latifúndio e o agronegócio, entrou na política profissional em 2010, quando foi eleita senadora pelo RS, com mais de 3 milhões de votos, adotando um perfil anti-petismo.

Bastante ligada ao MBL, anunciou sua entrada oficial no grupo (que teve dezenas de páginas retiradas do ar nas redes sociais por espalhar perfis e notícias falsas nas redes) em 2017. Filiada ao PP (partido com mais nomes envolvidos nos casos de corrupção) veio para aumentar o tempo de televisão e disputar os votos do eleitorado da extrema direita para a chapa do tucano.

Dentre outros absurdos, defendeu bater de relho (espécie de chicote típico gaúcho) nos seus adversários políticos, apoiando agressões aos eleitores do PT e da esquerda durante a campanha.

Líder no impedimento de Dilma, votou contra os trabalhadores e pela reforma trabalhista, pela PEC 55 (congela os investimentos nas áreas sociais por 20 anos), pela venda do pré-sal e da Petrobrás para as empresas estrangeiras, além de apoiar a reforma da Previdência e a desastrosa reforma do ensino médio. Lutou pela redução da maioridade penal e o aumento do tempo de internação de menores de idade. Aliada de primeira hora da intervenção militar no RJ, acostumada a espalhar notícias falsas, usou de uma entrevista de Gleisi Hoffman (PT) a uma rede de televisão do Qatar (Al Jazeera) para atacar ao PT e a esquerda, dizendo que esta seria prova de envolvimento com terroristas.

Inimiga dos pequenos agricultores, é defensora dos agrotóxicos e contra a demarcação de terras indígenas no país.

 

General Mourão – presidente do Clube Militar, golpista e vice de Jair Bolsonaro (PSL) Depois de flertar com Magno Malta (do PP), com o astronauta Marcos Pontes, com a advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, e com Luiz Philippe de Orleans e Bragança, membro da família imperial brasileira, o candidato Jair Bolsonaro apontou Hamilton Mourão, do minúsculo PRTB de Levy Fidélix, como vice na chapa presidencial, em evento que contou também com o lançamento de Alexandre Frota, ator pornô, para deputado por São Paulo.

Em setembro de 2017, em três oportunidades, defendeu a necessidade de intervenção militar no país, caso a crise política não fosse resolvida pelas instituições democráticas. Foi para reserva do exército em março deste ano, e no seu discurso de despedida saudou o coronel Brilhante Ustra, chamando-o de “herói”. Falecido em 2015, Ustra foi o primeiro militar reconhecido oficialmente pela Justiça brasileira como torturador.

Liderança do que há de mais atrasado na política nacional, o militar da reserva é favorável a todas as reformas anti-povo, quer a venda da Floresta Amazônica e, em sua primeira declaração como vice, disse que “índios são indolentes e preguiçosos”. Já dos negros, segundo o general, o brasileiro herdou a “malandragem”.

Suas bravatas fizeram com que o Exército retirasse seu nome do Comando Militar do Sul e depois da secretaria de Economia e Finanças do Exército.
Agora na reserva e presidente do Clube Militar (organização golpista que reúne o que há de pior nas Forças Armadas), nem o exército aguenta suas boçalidades!

 

Katia Abreu – “rainha da motosserra” e vice de Ciro Gomes (PDT) Liderança do agronegócio, foi fundamental no desmonte do Código Florestal e figura como suspeita de envolvimento em diversos crimes no campo, que vão da grilagem de terras à utilização de mão de obra análoga à escravidão em fazendas de sua família.

Ministra no governo Dilma, é considerada uma liderança moderada junto ao agronegócio, frente aos absurdos dos grandes proprietários de terras. Na posse como Ministra, defendeu que não existem latifúndios no país e que por esta razão, a reforma agrária deveria desacelerar. Ganhou o prêmio de “Miss Desmatamento”, em 2014, dado pelo Greenpeace.

Dona de uma fazenda de soja e de gado no Tocantins, ela nunca escondeu suas posições contra a demarcação e o assentamento de terras.

Expulsa do (P)MDB em 2017 após fazer muitas críticas ao governo Temer, descontente com o pouco espaço que angariou após o golpe em Dilma, possui trajetória na defesa da utilização dos transgênicos e dos agrotóxicos na lavoura.

 

Manuela  – “plano B do PT” e vice de Lula ou Haddad (PT)  Em 2004 foi eleita a vereadora mais jovem da história de Porto Alegre, sendo a deputada mais votada do estado em 2016, com mais de 270 mil votos. Possui trajetória ligada aos movimentos sociais e estudantis, tendo sido vice-presidente da UNE.

Militante do PCdoB, é uma das mais fiéis aliadas de Dilma e Lula desde o início dos governos de frente popular, em 2002.

Militante contra o impedimento de Dilma, sempre teve posição firme contra a retirada de direitos do governo Temer.

Defensora de um projeto desenvolvimentista para o país, de perfil ultra pragmático, já viu seu partido fazer alianças com toda e qualquer organização política do país, inclusive com a direita, com os ricos e com os golpistas.

É contra a liberação do porte de armas, pela legalização das drogas, do aborto, pela liberdade religiosa e o casamento homoafetivo no país.

 

Sônia Guajajara – co-presidenta pelo Psol, na chapa com Guilherme Boulos   Primeira opção na chapa do Psol, representa uma importante aliança entre os povos da cidade e do campo, sendo uma lutadora dos movimentos sociais combativos.

Esteve à frente das principais lutas travadas em defesa do meio ambiente e dos direitos indígenas, unificando mais de 305 povos em torno de pautas que combatem os interesses dos setores mais poderosos da sociedade brasileira. É enfermeira e tem formação em Letras, sendo umas das mais destacadas lideranças dos povos originários em nosso país.

Sua trajetória é marcada pela luta contra o agronegócio e a liberação dos agrotóxicos, além de ser referência na demarcação de terras indígenas na Amazônia brasileira. Foi destacada na luta contra o Código Florestal e a retirada de direitos.

É oposição firme ao governo Temer e seus aliados e apresenta sua candidatura como uma alternativa de esquerda a conciliação de classes e ao golpismo, linha de frente na defesa dos(as) trabalhadores(as) contra o avanço da extrema direita.

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