Vitória de Democratas Socialistas da América (DSA) causa terremoto político no Partido Democrata e nas Eleições Legislativas dos EUA

Por: Gabriel Santos, de Maceió/AL

Os Estados Unidos vão passar por suas eleições legislativas (as midterms) no mês de novembro. Elas são realizadas justamente no período em que o presidente chega na metade de seu mandato. Por isso servem para avaliar o governo, agora com Trump à frente. O número de parlamentares eleitos pelo governo e oposição define a relação de forças entre os Democratas e os Republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado.

Tradicionalmente, a oposição tende a ganhar essas eleições. Os analistas já apontam que os Democratas vão se tornar maioria na Câmara dos Representantes, mas dificilmente conseguem superar o número de Republicanos no Senado, visto que a maioria das cadeiras que serão trocadas são de Democratas. De toda forma, a vitória dos democratas na Câmara dos Representantes praticamente já inviabiliza a aprovação de qualquer coisa por parte de Trump.

Mas o que tem chamado a atenção é o fato de que nas internas que escolhem os candidatos do Partido Democrata, uma nova geração de candidatos que se apresenta como socialistas, muitos deles gente comum, está sendo escolhida pelos eleitores do partido. Dentre esses estão os candidatos dos Democratas Socialistas da América (DSA, Democratic Socialist of America).

Vitória de socialista gera crise no partido Democrata
O resultado da plenária (prévias) do Partido Democrata no distrito catorze de Nova York surpreendeu todo o país. No distrito de Queens e Bronx, bairros com um importante peso operário, a candidata Alexandria Ocasio-Cortez, uma garçonete de 28 anos, socialista, feminista, latina e membro do DSA, venceu o atual congressista Joseph Crowley, um candidato experiente, com uma política centrista, representante clássico da máquina eleitoral Democrata, de Wall Street e do establishment.

A vitória de Ocasio-Cortez gerou um verdadeiro terremoto político. Mesmo não sendo favorita, alcançou 58% de votos. Todos os mais importantes jornais, até aqueles com pequena circulação, estavam comentando e divulgando a vitória da jovem socialista. Ela se tornou uma espécie de nova celebridade da política norte-americana, colocando a discussão sobre o socialismo e as injustiças do capitalismo nas casas de milhares de pessoas.

Inclusive por meio de mídias nada tradicionais, como a revista Vogue, na qual a filha de porto-riquenhos deu uma entrevista e falou sobre socialismo: “Quando falamos sobre a palavra socialismo, eu penso que isso realmente significa a participação democrática onde o povo decide, e uma dignidade econômica, social e racial (…) em uma sociedade moderna, moral e rica, nenhuma pessoa na América deve ser pobre demais para viver”.

Seu adversário nas plenárias democratas, Joseph Crowley, 56 anos, atua no Congresso desde 1999 e era apontado por muitos como o futuro presidente da Câmara. Ele usou 3 milhões de dólares em sua campanha, tendo apoio de todo o partido em Nova York.

O jornal New York Times afirmou que o resultado nas primárias com a vitória de Ocasio-Cortez foi “a parte mais significativa para um candidato democrata em mais de uma década, e que terá reflexo para o partido e para o país”.

Ocasio-Cortez foi a primeira em 14 anos a disputar o domínio de Crowley no distrito NY-14. Foi uma vitória imensa. Com uma campanha que tinha slogans como “Nós temos as pessoas. Eles têm dinheiro” e “Esse é o momento de um dos nossos”, Ocasio-Cortez agora é vista como favorita para derrotar o representante do Partido Republicano, Anthony Pappas. O distrito em disputa é historicamente dos Democratas, assim ela tem tudo para se tornar a mulher mais jovem a chegar ao parlamento dos Estados Unidos.

A campanha da membro do DSA arrecadou 313 mil dólares, não recebendo dinheiro de nenhuma empresa ou corporação. Da quantia final, 210 mil vieram das chamadas pequenas doações, onde apoiadores doam um valor na quantia de até 200 dólares.

Sua campanha focou em questões essenciais e controversas na política norte-americana. Ocasio-Cortes buscou dar voz aos setores oprimidos, como LGBTs, mulheres, negros e imigrantes. Um dos focos foi a defesa de um sistema de saúde público, o Medicarer for All, luta da qual os membros do DSA são linha de frente. Outro foco foi pelo fim do Serviço de Imigração e Controle, sendo a primeira candidata a levantar esta pauta após os escândalos de separação de crianças imigrantes e seus pais, que chocaram todo o mundo.

Muitos comentaristas e antigas lideranças do partido Democrata atacaram Ocasio-Cortez, afirmando que ela não irá conseguir manter suas promessas de campanha. Um dos ataques mais frequentes era colocá-la, por conta de seu discurso radical, no mesmo patamar de Trump, afirmando que nem um tipo de “radicalismo” seria saudável. Outros, como a colunista do Business Insider, Daniella Ngreenbaum, criticou o Partido Democrata por aceitar que Ocasio-Cortez e outros membros do DSA concorram pelo partido.

Um fenômeno que é continuidade do que expressou Bernie Sanders
A vitória de Ocasio-Cortez, apesar de ter abalado fortemente o partido Democrata, o establishment e ter chocado a mídia, não foi um raio em céu azul. Em primeiro lugar mostra o desgaste dos já conhecidos figurões da política norte-americana e da própria máquina do partido democrata. É um rechaço ao establishment, assim como também é uma mostra de que as pautas voltadas a questões sociais e a classe trabalhadora tem peso efetivo nos Estados Unidos. Programas como o Medicare for All são defendidos pela maioria da população, e movimentos grevistas da classe trabalhadora, progressistas e manifestações massivas estão crescendo como uma resposta a Trump e o fortalecimento de ideias nacionalistas e de extrema-direita.

Em segundo lugar, por isso mesmo, embora Ocasio-Cortez seja a maior expressão no terreno eleitoral do crescimento de pautas progressivas, mas não foram as únicas. Em maio desse ano, nas prévias do partido Democrata para a Assembleia Legislativa do estado da Pensilvânia, o DSA conseguiu três vitórias contra membros da máquina eleitoral do partido. Summer Lee, 30 anos, e Sara Innamorato, 32, derrotaram membros de uma importante família local, que já eram membros da Assembleia. Nas eleições locais para Câmaras locais e algumas estaduais, o DSA impulsionou em todo o país – em alguns locais com membros e em outros apoiando independentes – 15 candidaturas eleitas, um número expressivo e nunca alcançado antes.

Num sentido, esse fenômeno político à esquerda é continuidade do que ocorreu com a candidatura de Bernie Sanders nas primárias para a presidência dos Democratas em 2016, quando então enfrentou Hilary Clinton. Seu programa defendia os serviços públicos, como saúde e educação, o salário mínimo e o emprego universal, sendo contrário as grandes doações para a campanha e a interferência do mercado financeiro na política. Embora reformista, Sanders se autodenominou socialista, coisa que até então era praticamente impossível de se ver nos Estados Unidos. Sanders perdeu para Hillary Clinton nas primárias, mas o efeito que sua candidatura foi enorme: ainda hoje é o político preferido por 53% dos americanos.

O despertar dos Millennials e sua aproximação dos socialistas
Uma pesquisa feita no ano passado demonstra o que está por trás desses fenômenos: 51% dos jovens americanos entre 18 e 29 anos preferem o socialismo ao capitalismo. Ainda de acordo com o jornal The Nation, mesmo entre os adultos, a preferência pelo socialismo é de 37% da população. Ainda que a definição de socialismo seja difusa, confundindo-se na maioria das vezes com a defesa dos serviços públicos e do estado de bem estar social, significa um enorme e importantíssimo avanço, particularmente para um país como os EUA.

A crise econômica, a falta de emprego e de perspectiva, a falta de saúde, educação e previdência pública, assim como os efeitos negativos que o governo Trump vem causando, fazem com que surjam novos movimentos sociais, como o Black Lives Matter e o Occupy Wall Street, assim como o fenômeno Bernie Sanders e, agora, os candidatos socialistas, no aspecto eleitoral. Os jovens americanos nunca viveram o socialismo e não têm uma grande referência sobre o que ocorreu na União Soviética. Porém, eles vivem sob o capitalismo, desumano, e percebem que a única alternativa é mudar esse sistema.

O fato de Sanders dizer que adota como política o “socialismo-democrático” terminou ajudando, ainda que de forma inconsciente, a que milhares de pessoas, sendo a ampla maioria os jovens, passasse a procurar organizações socialistas. A literatura socialista e mesmo a marxista também vem chamando atenção dessa nova geração, os Millennials (a geração da internet), como vem chamando a sociologia.

A revista Jacobin, que é considerada a publicação de esquerda radical de maior sucesso nesse século, tem uma audiência de mais de 18 mil exemplares vendidos por tiragem, e um acesso de 700 mil visitas por mês em seu website.

Organizações como o DSA, de Ocasio-Cortez, teve um crescimento exponencial após a campanha de Bernie Sanders, saltando de sete mil membros filiados para 37 mil e, em julho, alcançaram 44 mil membros. O grupo que não faz parte do partido Democrata, mas apresenta a maioria de seus candidatos nas internas, é hoje a maior organização socialista dos Estados Unidos.

Além do DSA, organizações marxistas e revolucionárias também tiveram um expressivo crescimento como é a Organização Socialista Internacional (ISO, International Socialist Organization) e a Alternativa Socialista (Socialist Alternativ). Este último conseguiu eleger uma vereadora na cidade de Seattle. Sem dúvida, os socialistas norte-americanos estão ante um novo momento histórico.

 

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