O novo plano naval chinês: dominar o Mar do Sul da China e conquistar o Pacífico até 2030

Por: Lucas Fogaça, de Porto Alegre, RS

O 19ª Congresso do PCCh, ocorrido em 2017, anunciou um plano ambicioso: o Estado chinês se tornar a maior potência mundial até 2050. Como parte deste plano, a China desenvolve vários projetos, entre eles a “Nova Rota da Seda” e o novo plano naval.  

A nova rota da seda
A “nova rota da seda” é um ousado projeto de conexões e infraestrutura chinês que abrange 68 nações, que somam 4,4 bilhões de pessoas e 40% do PIB mundial. O ambicioso projeto de expansão quer construir um cinturão e uma rota que liga a China à Europa e África. Inclui diversos projetos, como o trem Madri-Yiwu, o corredor China-Paquistão e um oleoduto que ligará o sul da China a Myanmar e ao Golfo de Bengala. Segundo o governo chinês, pretendem investir 732 bilhões de euros (R$ 2,48 trilhões) até 2022.

Segundo informou Macarena Liy para o El País, com o plano, o governo chinês quer desenvolver as províncias do Oeste do país, mais pobres que as da costa, e criar novos mercados nos países da Ásia Central, tradicionalmente dominados pela Rússia. Ao mesmo tempo, também almeja aproveitar parte do excesso de capacidade que apresenta em setores como o aço, permitindo que suas empresas de infraestrutura obtenham, no exterior, contratos que já não conseguem no mercado interno.

Para a China, o projeto também tem uma importância geoestratégica. Permitiria realizar o desejo de abrir uma saída para a África, Europa e Oriente Médio que não passe pelo congestionado estreito de Malaca (entre Malásia, Indonésia e Singapura) nem por um possível conflito no Mar do Sul da China.

Imagem: navalbrasil.com com informações de counterpunch.com

Imagem: navalbrasil.com com informações de counterpunch.com

 

O Mar do Sul da China
Segundo artigo de Waldo Mermelstein neste portal, no Mar do Sul da China circula metade da tonelagem da frota mercante do mundo. Transportando 5 trilhões de dólares em produtos é a via de comunicação marítima quase exclusiva da China e dos países por ele banhados. As demais grandes economias do Extremo-Oriente, o Japão e a Coreia do Sul, além da Austrália na Oceania, utilizam também outras rotas a partir do Estreito de Malaca, como o Estreito de Lombok entre as ilhas de Bali e Lombok no arquipélago indonésio.

Imagem: U.S. Energy Information Administration.

Imagem: U.S. Energy Information Administration.

Além da China, influenciados ou diretamente controlados por outras potências, Filipinas, Vietnã, Brunei, Malásia e Taiwan disputam a soberania sobre diferentes partes de um território que é chave para o tráfego marítimo mundial, especialmente de navios petroleiros.

Imensas reservas de gás e petróleo foram detectadas nas águas do Mar do Sul da China e algumas delas começaram a ser exploradas. Além disso, o alto consumo de peixe na região (24 kg por habitante por ano, em comparação com 9 kg no Brasil) torna muito importante a pesca, que, por exemplo, representa 3% do PIB da China. Há na região uma frota pesqueira equivalente a 12% da mundial.

Para se tornar a potência global que planeja ser, a China precisa antes se consolidar como potência regional hegemônica. Para isso construiu em tempo recorde ilhas militares no Mar do Sul da China. São 29 hectares de instalações militares concluídas em 2017, segundo a BBC.

Imagem: South China Morning Post

Imagem: South China Morning Post

Além disso, o governo chinês anunciou que, em 2019, colocará em órbita três satélites que vão monitorar a região 24 horas por dia.

Os EUA estão conscientes do plano e estão dispostos a reagir para não permitir o crescimento da influência chinesa. O secretário de defesa, o ex-general da Marinha James Mattis, ao apresentar a nova Estratégia de Defesa, foi bastante enfático ao apontar as preparações abertas do imperialismo norte-americano para um conflito militar direto com a Rússia e a China. Em seu discurso acusa a China de buscar “a hegemonia na região Indo-Pacífico em curto prazo e a deposição dos Estados Unidos para alcançar o predomínio global no futuro.” Afirmou também que a “A China é um concorrente estratégico que usa economia predatória para intimidar seus vizinhos e militarizar recursos no Mar da China Meridional”. E que pretende intensificar as alianças com Austrália, Nova Zelândia e Índia.

 

O novo plano naval e o controle do Pacífico
Segundo Jonathan Marcus publicou na BBC em fevereiro deste ano, o novo plano naval chinês busca, na eventualidade de um conflito armado, que o poder militar dos Estados Unidos seja empurrado o mais longe possível das fronteiras chinesas. De preferência, para o meio do Oceano Pacífico. Baseado na tática conhecida como A2AD (Anti Acess/Area Denial), que significa impedir o acesso ao território, a China quer empurrar a guerra para o Pacífico.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o Mar do Pacífico é controlado pelos EUA. Em sintonia com o relativo declínio do império norte-americano e o esforço chinês por se reposicionar na ordem mundial, a China busca alcançar a curto prazo uma posição sobre o Mar do Sul da China e a médio prazo uma posição sobre o Mar do Pacífico. As recentes iniciativas de inteligência representam vitórias táticas que parecem confirmar a hipótese deste projeto estratégico chinês.

Na opinião de Lioman Lima publicada em de junho pela BBC o plano naval chinês é o de superar os EUA e controlar o pacífico até 2030. Na matéria citam James Fanell, ex-diretor de Inteligência da Sexta Frota dos Estados Unidos, que “apresentou em maio diante do Congresso americano um relatório de 64 páginas em que garante que a China desenvolve atualmente um plano para ter, em um futuro não muito distante, uma Marinha duas vezes maior que a dos Estados Unidos”.

Versão corroborada também por Lyle Goldstein, professor do Instituto de Estudos Marítimos da China do Colégio Naval dos Estados Unidos, que afirmou “A armada chinesa está em um processo acelerado de desenvolvimento e expansão de sua capacidade, e isso está logicamente gerando preocupação nos Estados Unidos (…). Nos últimos tempos, temos visto que (os chineses) desenvolveram um porta-aviões próprio, projetado por eles mesmos. Também se fala que estão construindo um terceiro, com capacidade nuclear”.

Segundo o relatório apresentado por Fanell ao Congresso norte-americano, a armada chinesa já supera a dos Estados Unidos em alguns aspectos. Pequim conta com 330 navios e 66 submarinos sob seu comando, enquanto os norte americanos têm 211 navios e 72 submarinos. De acordo com os cálculos de Fanell, a China chegará a 450 navios e 99 submarinos em operação até 2030, enquanto os Estados Unidos chegarão a um total de 355 embarcações.

Uma dinâmica que pode se aprofundar uma vez que o presidente chinês Xi Jinping realizou uma profunda reforma das forças armadas logo que chegou ao poder em 2013: cortou 300 mil soldados em troca de mais investimentos em tecnologia para modernizar as áreas naval, aérea e de mísseis e vem reforçando substancialmente o orçamento militar.   

O império norte-americano ainda é muito superior ao chinês. Mas aos poucos a China vem conquistando espaço e consolidando projetos. O domínio do Mar do Sul da China e do Pacífico são desafios estratégicos para o desenvolvimento da influência chinesa. Os próximos anos serão decisivos para este desfecho.   

 


 

Leia mais:

https://esquerdaonline.com.br/2017/06/06/nova-rota-da-seda-o-anuncio-de-um-seculo-chines

 

 

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