Iraque quer virar a página após a invasão americana

Por Zara Ali*, de New Jersey/Estados Unidos

As eleições legislativas no Iraque confirmaram a desconfiança da população com o sistema político religioso imposto pelos Estados Unidos após a invasão de 2003. A relativa vitória da coalizão entre sadristas e comunistas é uma de suas expressões.

A atmosfera dos últimos dias no Iraque, marcada pela decisão da comissão eleitoral de anular o resultado de cerca de mil colégios eleitorais por suspeita de fraude revela o que caracterizou as eleições deste ano: a falta de confiança com a classe política. De fato, a primeira lição a tirar é a mais alta taxa de abstenção já conhecida na história do país: menos de 44,5% dos iraquianos se mobilizaram para votar (foram cerca de 62% em 2014 e 2010).

Assim, mais da metade dos 24 milhões de eleitores e eleitoras esperados não foram votar. Poderia-se pensar que essa taxa de abstenção de 55,5% seria em parte resultado das condições nas quais vivem mais de 2,5 milhões de pessoas que migraram, em particular como conseqüência da guerra contra o Estado Islâmico que causou a destruição de grande parte da cidade de Mosul e seus arredores. Os precários colégios eleitorais – e em número limitados – em regiões que habitam as pessoas desalojadas não garantiram evidentemente sua participação, mas isto não explica a taxa de abstenção recorde. Na verdade, a abstenção indica um protesto claro, expressado particularmente pela juventude, não somente contra a classe política, mas também contra o sistema político criado após a invasão americana de 2003.

Uma estranha aliança entre comunistas e sadristas
Depois do verão de 2015, um movimento de protestos populares tem balançado o país, cobrando uma revisão da questão sobre o sistema de cotas étnicas, religiosas e confessionais no qual o regime iraquiano se baseia desde a invasão norte-americana de 2003. Desde a praça Tahrir em Bagdá e através de todo o país, os manifestantes têm gritado “Pão, Liberdade e Estado civil (não religioso)”. Expressavam seu descontentamento em relação a falta de serviços mais essências como ao acesso a água potável e a eletricidade, denunciando o desemprego generalizado, o clientelismo, a corrupção, a incompetência e o sectarismo religioso da classe política.

Manifestações massivas compostas em particular por jovens dos setores mais pobres têm expressado também seu rechaço a instrumentalização da religião por parte dos partidos islâmicos no poder. Uma das palavras de ordem mais populares nestas manifestações tem sido: “Em nome da religião, temos sido roubados por ladrões”.

Sairún (Em marcha), a coalizão que venceu as eleições (com 54 cadeiras no Parlamento) é produto da aliança entre a corrente sadrista, o Partido Comunista e diferentes grupos e indivíduos. Foi realizada durante as mobilizações massivas contra os sistemas de cotas religiosas e a corrupção. Muita gente jovem da sociedade civil que lançou esse movimento de protesto, sejam eles próximos da esquerda ou independentes, tem sido críticas sobre a aliança com os sadristas.

Enquanto alguns temem a instrumentalização e o monopólio dos sadristas neste movimento que surge originalmente na sociedade civil, outros veem uma contradição essencial entre a natureza “civil” dos protestos e a identidade confessional e islamita dos e das sadristas, assim como seu envolvimento com a corrupção governamental e a violência religiosa. Assim frente ao fracasso dos protestos massivos por uma reforma da lei eleitoral que privilegia os grandes partidos no poder, muita gente simplesmente decidiu boicotar as eleições. Era possível ver nas fotos de perfil de jovens nas redes sociais a bandeira de: “Boicote, para não legitimar os grupos corruptos”.

Estado civil ou religioso
Sairún representa também um avanço crucial para as forças políticas que reivindicam reformas radicais no sistema político. O fato de uma corrente como os sadristas, que possuem uma imensa base proletária e uma inigualável audiência entre os jovens do país, decida se declarar como “civil” e “não religiosa”, rompendo assim com a sua identidade islamita e xiita, é certamente um ponto de inflexão importante na vida política do país.

No entanto, este avanço deve ser visto com precauções: o líder sadrista Moqtada Al-Sadr não resolveu a questão da dissolução do braço armado de seu movimento, e muitos o acusam de oportunismo. Além disso, a ascensão das correntes não confessionais e a favor da reforma do sistema político, ilustrada na vitória da coalizão Sairún, deve ser matizada tendo em vista quem obteve o segundo lugar nas eleições. A lista Al-Fatah (A conquista) liderada por Hadi Al-Amiri, que conseguiu 47 cadeiras, ficando à frente do atual primeiro-ministro Haider Al-Abadi, que ganhou 42 cadeiras.

Se a lista Al-Fatah tem em comum com Sairún o fato de serem grandes representantes da juventude pobre do país, isto também ocorre com as Hachd al-Caabi (Unidades de Mobilização Popular) que combateram ao lado do exército iraquiano na linha de frente contra o Estado Islâmico. Hachd al-Caabi é composta de numerosos e valentes voluntários preocupados em libertar o país do EI, mas também de milícias que têm muito a ver com a violência política e religiosa que atormenta o país. A militarização extrema da sociedade iraquiana desde 2003, assim como no contexto da guerra contra o EI, coloca um grande desafio para o poder civil e para a estabilidade política.

Um balanço moderado da participação das mulheres
A cota de 25% de mulheres adotada em 2005 garante sua real representação política no Parlamento. Entretanto, não define a natureza das tendências políticas das eleitas e muito menos seu real interesse pelos direitos das mulheres. Se olharmos mais de perto a lista “A mudança” Sairún, constataremos que algumas das mulheres eleitas são verdadeiras líderes políticas. Majeda Al-Tamimi, eleita em Bagdá, candidata pela lista Sairún, venceu a maioria dos homem eleitos, com 55.184 votos. Para comparar, o primeiro-ministro Haider Al-Abadi conseguiu 59.710 votos. Esse impressionante resultado confirma a popularidade de uma mulher que se tornou famosa por sua luta contra a corrupção, o sectarismo religioso e por seu trabalho entre a população pobre e marginal. Ela se diferencia de outras mulheres xiitas eleitas por seu rechaço a “Ley Jaafari” que questiona com bases conservadoras diversos direitos jurídicos das mulheres.

Haifa al-Amn, parlamentar comunista eleita no Iraque.

Haifa al-Amn, parlamentar comunista eleita no Iraque.

Entre as eleitas por Sairún, outra mulher se destaca: Haifa al-Amn, eleita em Dhi Qar com 12.395 votos. Este resultado é notável se falamos de uma província bastante conservadora, e em que os demais grupos xiitas, muito tradicionais no local, também obtiveram bons resultados. Ela é uma conhecida líder comunista, militante da sociedade civil por direitos das mulheres dentro da Liga das Mulheres iraquianas.

A jovem Refah Al-Aredhi, 34 anos, foi eleita pela província de Mthana, uma das mais pobres do país. Entrou na política durante os movimentos e protestos de 2015, representa uma juventude crescente na sociedade civil, comprometida, guiada pela vontade de combater a pobreza e a corrupção.

Contudo, deixando de lado estas poucas exceções, a maioria das mulheres eleitas na lista do Sairún (15 no total) não são militantes independentes, mas sim sadristas conservadoras e, acima de tudo, ativistas que não se diferenciam por seus interesses no avanço dos direitos das mulheres. As liberdades individuais, a luta contra a militarização da sociedade, a independência política, entre tantas questões centrais para o movimento de mulheres no Iraque, não constitui uma prioridade para estas eleitas.

E é motivo de preocupação a crescente popularidade das eleitas islamitas vindas dos demais partidos xiitas como Al-Fatah, Al-Nasr (A vitória), ou também Al-Hikma (A sabedoria), cujas visões em torno dos direitos das mulheres são conservadoras e reacionárias.

É importante notar que menos de vinte mulheres entre as 86 eleitas ao todo, tiveram mais de 10 mil votos, cerca de trinta obtiveram 5 mil votos, e mais de sessenta obtiveram 2 mil votos. Isto significa que a maioria das iraquianas eleitas ao Parlamento poderiam ser eleitas sem a ajuda do sistema de cotas. Porém, é este que garante o número mínimo de 25% de representação de mulheres nas listas das coligações. Teríamos que nos perguntar o que seria a presença das mulheres nestas listas se não houvesse essa obrigação. Mas, positivamente, o número de candidatas nestas listas ultrapassou os 25% necessários: foram 2.014 mulheres no total de 6.984 candidatos, ultrapassando a cota mínima em mais de 265 nomes.

Mas, além desses números que representam um balanço positivo, o que caracterizou a campanha eleitoral foi o assédio do qual diversas candidatas foram vítimas. Verdadeiras campanhas de calúnias para atacar a reputação, a competência e sua credibilidade, assim como sua moral através de acusações de conteúdo sexual. Todas estas pressões levaram um bom número de mulheres a retirar sua candidatura e representa assim uma barreira importante para todas as mulheres que ainda relutam a se envolver com política. O sexismo a que foram vítimas impulsionou personalidades feministas e da sociedade civil a assinar um texto lançado pelo movimento de mulheres, denunciando a situação e chamando a ONU para efetivar alguma ação.

* Zahra Ali é socióloga, professora assistente em Rutgers University, New Jersey. Seu livro Women and Gender in Iraq: Between Nation-Building and Fragmentation (Mulheres e gênero no Iraque: Entre a construção da Nação e a fragmentação) será publicado nas edições de Cambridge University Press.

Artigo publicado originalmente em Orient XXI e em Viento Sur.
Tradução: Gabriel Santos, de Maceió (AL)

Foto:Mulher vota em Sulaimaniyah, no Iraque. Reuters/Arab News

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