O Estado de Israel não pode limpar sangue palestino com a bandeira LGBT

Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

No domingo, 03 de junho, na Parada LGBT de São Paulo, um bloco chamado “Tel Aviv Israel” compôs a manifestação. Assim, o Estado de Israel, o único no mundo que mantém um apartheid étnico-racial e religioso em suas leis e em sua Constituição, participou da maior Parada LGBT do mundo para se autopromover e tentar apagar a má fama que tem pelo sangue palestino que escorre todos os anos na faixa de Gaza. Infelizmente, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) soltou uma nota defendendo o bloco.

Organizado pelo estilista Alexandre Herchcovitch com o Consulado de Israel, o bloco teve parceria da Câmara de Comércio e Turismo LGBT do Brasil, uma associação que atua com o empresariado do turismo LGBT, e a AccorHotels, a maior rede hoteleira do mundo.

O Estado de Israel, representado pelo Consulado, não deve ser confundido com o povo que vive em Israel, nem com turistas de Israel que vieram para a Parada, tampouco com as pessoas judias que vivem pelo mundo todo. Nós somos absolutamente contra o antissemitismo, seja aquele praticado contra os judeus ao redor do mundo, seja aquele praticado contra os próprios palestinos e outros povos islâmicos, que também são semitas.

Contudo, não podemos aceitar que o Estado de Israel utilize os turistas de Israel que participaram da Parada como escudo para a prática de pinkwashing, ou seja, a prática do Estado de Israel de usar a bandeira LGBT para se autopromover e apagar a infâmia que tem pelo genocídio do povo palestino.

A participação da Câmara de Comércio e Turismo LGBT e da AccorHotels tem como objetivo aumentar os lucros dos empresários do turismo e do comércio LGBT, o chamado pink money.

O massacre da Palestina no século XX
Em 1947, apenas 6% do território da Palestina eram áreas ocupadas por judeus. A população da Palestina era composta por 1,181 milhão de islâmicos, 630 mil judeus e 143 mil cristãos. O país era até então colonizado pelo Reino Unido, que mantinha bases militares supostamente para “resolver o conflito étnico-religioso”, mas que na verdade promoviam limpezas étnicas contra os palestinos. Após inúmeros ataques de palestinos às bases britânicas, as tropas britânicas se retiraram, deixando os armamentos para os sionistas. O Reino Unido apresentou à ONU uma proposta de “partilha”, que previa que 56% do território se tornaria o Estado de Israel, enquanto os demais 44% se tornaria um Estado Palestino.

No ano seguinte, os países árabes limítrofes (Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque) organizaram um exército que invadiu Israel em defesa dos palestinos. A derrota desse exército fez com que 78% do antigo território palestino se tornasse território israelense. 700 mil árabes se refugiaram nos países vizinhos. É a chamada Nakba (desastre, em árabe).

Ao longo das décadas, o território israelense foi se tornando cada vez maior. Israel promove a criação de assentamentos judeus para justificar a limpeza étnica e a apropriação de cada vez mais territórios, como pode ser visto na imagem abaixo.


É preciso compreender, acima de tudo, que a limpeza étnica e a apropriação dos territórios palestinos não são uma política do atual governo de Israel. É uma política de Estado que é levada a cabo pelos governos contra a vontade da maioria da população israelense, que condena essa política.


A crítica desonesta de Jean Wyllys
O Setorial LGBT do PSOL de São Paulo, corretamente, elaborou uma nota de repúdio ao bloco, salientando que não se tratava de uma nota de repúdio ao povo israelense, mas sim de repúdio à presença do Estado de Israel e ao que ele representa para o povo palestino.

Jean Wyllys, em resposta, fez nota de repúdio ao Setorial LGBT, afirmando, de forma desonesta, que se tratava de uma nota de repúdio à população judia de Israel, que não tinha culpa do massacre.

Ora, é preciso entender que o bloco não foi simplesmente uma reunião sem compromisso de turistas israelenses, mas sim uma política oportunista criada por empresários em aliança com o Estado de Israel para promover o último.

Jean Wyllys precisa explicar por que ele é a favor dessa política. Por acaso ele é a favor do oportunismo do Estado de Israel? Por acaso ele defende os interesses das empresas ligadas ao turismo LGBT?

Nós, do Esquerda Online, somos absolutamente contra qualquer Estado capitalista que queira intervir na Parada LGBT para se autopromover, ainda mais um Estado que mantém uma política de apartheid e genocídio contra o povo nativo. Nós também somos contra a presença dos empresários do pink money nas Paradas LGBTs, que devem ser construídas de forma independente por LGBTs da classe trabalhadora em defesa de seus interesses e de seus direitos.

Abaixo o pinkwashing e o pink money! Por uma Parada do Orgulho LGBT organizada pelo movimento LGBT em defesa dos direitos das LGBTs!

Foto: Bandeiras LGBT e de Israel na Parada LGBT de SP. Detalhe Facebook FISESP

 

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