Marielle Vive: dois meses de luto e luta

Editorial de 14 de maio de 2018

No dia 14 de março de 2018, há exatos dois meses, as ruas do Centro do Rio de Janeiro foram cenário do brutal assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O crime bárbaro chocou o país e o mundo, por se tratar principalmente de um crime político cometido contra uma parlamentar, em plena intervenção militar no estado do Rio de Janeiro.

O carro de Anderson e Marielle foi seguido após sua saída de uma atividade política no Centro do Rio. Ao chegar na Rua Joaquim Palhares, no bairro do Estácio, pelo menos 13 tiros foram disparados contra o carro, tendo quatro deles atingido o rosto de Marielle. Uma assessora da vereadora, que estava no banco de trás, ao lado de Marielle, conseguiu sobreviver.

O dia após sua execução foi marcado por um ato gigantesco que levou milhares às ruas da Cinelândia no Rio e tantos outros milhares no Brasil inteiro e no mundo. Era visível a emoção e dor das pessoas presentes, mas também a indignação e vontade de justiça. Já são dois meses de muita luta dos movimentos sociais, partidos de esquerda e ativistas para que sua memória não seja esquecida e para que a justiça seja feita. Mas, também são dois meses em que a mesma pergunta ainda ecoa: Quem mandou matar Marielle?

O crime segue sem solução e ninguém foi preso, apesar de a polícia considerar o crime premeditado. A perícia confirmou que a arma utilizada foi uma submetralhadora MP 5, de calibre 9 milímetros, como as utilizadas pelas forças especiais das polícias Civil, Militar e Federal. A munição já havia sido identificada como parte de um lote pertencente à Polícia Federal, comprada em 2006, a mesma utilizada na maior chacina de São Paulo, em 2015, e nos assassinatos de cinco pessoas em um confronto de facções em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio.

Na última semana, a imprensa divulgou que uma testemunha teria apontado como mandantes do crime o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM Orlando Oliveira de Araújo, preso suspeito de comandar uma milícia na Zona Oeste do Rio. Reportagens ainda mostraram o vereador em telefonemas com líderes de milícias da Zona Oeste. Marielle havia se enfrentado algumas vezes com Marcello em sessões da Câmara, por conta de seus posicionamentos políticos. O vereador já tinha tido seu nome ligado ao crime na ocasião da morte de um colaborador, Carlos Alexandre Pereira Maria, executado na Zona Oeste pouco após a morte de Marielle. Ambos negam as acusações, mas já são considerados oficialmente como investigados.

Na madrugada do dia 11 de maio, a polícia e o exército realizaram uma reconstituição do crime, o que durou cinco horas, no local do ocorrido e com a presença de testemunhas, entre elas a assessora de Marielle que sobreviveu ao ataque. A polícia espera que a reconstituição ajude a solucionar dúvidas sobre a arma utilizada e o grau de especialização dos criminosos.

Crime político e racista
Marielle Franco foi eleita a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro em 2016, pelo PSOL. Mulher negra, da favela da Maré, lésbica e de esquerda, Marielle se elegeu tendo como centro do projeto político seu lugar de favelada e sua luta contra as opressões, contra a violência nas favelas e por direitos para estas comunidades. Ou seja, Marielle tinha lado.

Seu ativismo contra o racismo estrutural, o machismo e a lgbtfobia era também parte de tudo que ela era. E a sua existência e militância era negra, mulher e LGBT justamente no país onde a taxa de feminicídio é a quinta maior do mundo e uma mulher negra tem duas vezes maior chance de ser assassinada que uma mulher branca.

Seu estado é um dos que mais mata e encarcera a juventude negra no Brasil. Também é o lugar eleito para a inédita intervenção militar, desde a ditadura, na segurança pública do estado, sob a justificativa do combate à violência através de mais repressão. Contraditoriamente, os números apontam que, desde a intervenção, a violência aumentou principalmente sobre a população negra, revelando a ineficácia e falência da medida diante do problema crônico de violência do Rio. É importante lembrar que Marielle era relatora e presidia a comissão da Câmara de Vereadores criada para acompanhar a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro e tinha posicionamento público contrário à medida.

Sua execução gerou a comoção e revolta de milhares de ativistas negros, principalmente mulheres negras, que estiveram à frente dos atos por sua memória e sua luta. Isto ocorreu não somente pelas lutas de Marielle pelos direitos da população negra e favelada, como pela identificação destas mulheres com a própria Marielle. Poderia ser uma delas. Pode ser elas a qualquer momento.

Vítima de fake news
Desde a morte da vereadora, as redes sociais foram inundadas de notícias falsas e boatos sem nenhuma prova acerca de possíveis relações de Marielle com o tráfico em troca de ajuda eleitoral, chegando a ser apontada como “esposa” de um traficante. As fake news chegaram a ser reproduzidas por um deputado do DEM-DF e uma desembargadora do TJ do Rio, onde ambos alegam ter recebido de terceiros e repassado as notícias sem “saber”.

Os boatos foram desmentidos por sites de checagem de dados e uma importante campanha contra as Fake News sobre Marielle foi impulsionada por um grupo de advogadas do PSOL, resultando em ações vitoriosas contra as calúnias e difamações espalhadas.

Essa medida sem dúvida foi fundamental no combate a outro mal que vem assombrando nossos dias: o avanço da extrema-direita. Uma das armas mais poderosas utilizadas por estes grupos são as Fake News e boatos, buscando gerar confusão na opinião pública e angariar apoio a suas ideias. Não se pode ter nenhum grau de tolerância com a disseminação do ódio e do medo apoiados em mentiras.

Quantos mais vão ter que morrer para que essa guerra acabe?
Sem dúvida, o assassinato de Marielle Franco foi um dos fatos políticos mais chocantes dos últimos anos e ainda tem forte impacto sobre a esquerda e os movimentos sociais, que desde sua morte têm realizado manifestações, atos e tantas outras atividades para lembrar sua luta, contar sua história e seguir seu enfrentamento ao machismo, racismo e lgbtfobia.

Uma série de projetos da vereadora foram recentemente aprovados em sessão da Câmara, com as galerias lotadas de ativistas, mostrando a força de suas pautas. Em plena intervenção militar e aprofundamento da barbárie social, a famosa frase de Marielle “Quantos mais vão ter que morrer para que essa guerra acabe?” precisa de uma resposta categórica da esquerda: nem uma a menos; chega de genocídio do povo preto e pobre; nos queremos vivas!

Sua morte foi um duro golpe em todos os oprimidos que lutam e sonham com um mundo justo e humano. Tentaram calar uma voz, sem saber que aquela voz seria a de milhares. E Marielle se tornou semente do projeto de mundo que sempre defendeu: o de uma sociedade igualitária e livre.

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