Carnaval em Brasília tira sarro de Temer e dribla repressão



Por: Ademar Lourenço, de Brasília

A capital federal é muito mais que política e viadutos que desabam. O carnaval na cidade tem uma bonita tradição de ser um ato de resistência e protesto. O destaque é o tradicional bloco do Pacotão, que neste ano teve como música tema “O presidente Despirocado”.

Os versos tiram sarro de Michel Temer e seu governo: “Esse golpista é muito chato/perde o pinto mais não perde o mandato/ Ô Charles Preto, estamos na Pista/ Na contramão para derrubar este golpista”.

A cantora Maria Sabina foi uma das compositoras da música. Para ela, o carnaval ainda pode ser uma festa subversiva. “A liberdade de tomar as ruas cantando, vestindo fantasias ou se despindo é um movimento muito rebelde, por mais que se tente colocar regras nisso. Blocos como o Pacotão representam a resistência dos valores carnavalescos de zombar dos governantes e da nobreza, da elite”, disse a cantora para o Esquerda Online.

Para ela, é importante que o artista assuma uma posição política. “A militância dos artistas contra o golpe e contra Michel Temer é uma demonstração de solidariedade com o país. Não é fácil para um artista se expor politicamente, é um sacrifício que se faz em nome de uma causa que justifica os riscos dessa atitude”, disse.

Nas ruas, vários temas políticos foram fizeram parte das fantasias e adereços, com destaque para a reforma da previdência. Em várias bandeiras, era lembrado que o deputado que votar a favor da reforma “não volta” para a cidade. A falência da guerra ás drogas, a luta contra o assédio ás mulheres, a liberdade dos LGBTs, tudo era motivo para cair na folia dando algum recado.

O Pacotão surgiu há quarenta anos fazendo uma sátira do chamado Pacote de Abril, uma série de medidas do governo militar. Todo ano o bloco escolhe temas políticos e críticas sociais para suas músicas.  Por tradição, o bloco vai na contramão da via W3, principal avenida do Plano Piloto de Brasília.

Apesar da intolerância, Brasília ainda tem um grande carnaval

Infelizmente, não é todo mundo que tolera a folia de carnaval. O público da tenda montada na Praça dos Prazeres, na Asa Norte, sofreu com a repressão da polícia, que usou gás de pimenta para acabar com a festa na segunda de carnaval.

“Permitir este tipo de prática, faz com que a vida cultural e criativa das pessoas seja marcada pelo pânico, pela dor, pelo trauma. Isto é muito sórdido, pra dizer o mínimo” disse a produtora cultural Jul Pagul, uma das organizadoras da tenda, em seu perfil no Facebook.

Um dos problemas que Brasília tem passado nos últimos anos é a intolerância a atividades recreativas nas quadras cidade. Desde bares, rodas de samba e até mesmo rodas de violão, parte da população local costuma chamar a polícia para impor o silêncio. O próprio governo do Distrito Federal queria obrigar alguns blocos a não desfilar nas ruas da cidade. Apesar disso, dezenas de milhares de pessoas brincaram carnaval e ignoraram a imposição do silencio em Brasília.

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