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Colunas

Resposta pública ao ameaçador

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas. Travesti socialista que adora debates polêmicos, programação e encher o saco de quem discorda (sem gulags nem paredões pelo amor de Inanna). Confira o canal no Youtube.

Por Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online.

Você prometeu recompensa a quem jogar ácido em mim e outras três mulheres em uma página na segunda-feira, dia 22/01. Eu sei que uma resposta não vai mudar sua cabeça, mas eu tenho direito de dizer publicamente o que eu penso.

Você não me conhece.

É bizarro que você, de verdade, acredite que uma travesti é “tudo que há de mais errado neste mundo”, enquanto que jogar ácido na cara de mulheres inocentes, pra você, é absolutamente normal. Você quer jogar ácido na cara de mulheres porque simplesmente se recusam a abaixar a cabeça para você. E eu, que absurdo, que horror!, uso roupas femininas, tomo hormônios e falo fino.

Você diz que eu me tornei trans pra poder “pegar mulheres lésbicas”. Fica evidente que você não nos conhece nem um pouco. Nenhum homem teria coragem de se tornar uma mulher pra “pegar mulheres lésbicas”. Pra ser uma travesti, é preciso muita coragem, coisa que a maioria dos homens não tem. Aliás, você mesmo diz, com seu raciocínio machista, “era muito mais fácil pagar uma puta”. Ou (cruzes!) estuprar alguém.

Ironia: você, que não tem nem coragem de dizer quem é nem onde mora, diz que é fácil estuprar (sic) uma mulher. Isso é óbvio, não é preciso coragem para estuprar. Basta ser um homem vil e desprezível para se cometer esse crime. Agora, pra se tornar uma travesti, você mesmo admite, é muito difícil.

Homens não são tão corajosos quanto se diz, aliás, muito pelo contrário. Nós, travestis, mulheres trans, ferimos a masculinidade dos homens. É por isso que você tem ódio de mim. Porque nós somos a prova viva de que as mulheres não são inferiores aos homens, não são inferiores a você. Minha existência questiona o poder de macho que você pensa que tem, fere de morte a sua masculinidade.

E só pra constar, eu não sou mais administradora da página Feminismo Sem Demagogia, aliás, desde o ano retrasado. Mas não foi por isso que você escolheu meu nome, não é? Você escolheu a dedo as vítimas. Em primeiro lugar, a Verinha, principal administradora da página. Em segundo, Gleide, uma administradora negra (e você não consegue esconder seu racismo) que tem muita visibilidade. Em terceiro, eu, uma ex-administradora trans, junto com minha companheira. Você escolheu meu nome porque eu sou “tudo que há de mais errado neste mundo”.

A História não perdoa os nazistas. No futuro, você será visto como os inquisidores da Idade Média, que tinham ódio de quem escrevia com a mão esquerda, de quem tem algum tipo de deficiência, das “bruxas” e dos sodomitas. Você será visto como os nazistas, que tinham ódio de todas as pessoas diferentes. Afinal, você é um nazista, não é mesmo?