A estratégia do Syriza na Grécia



Por Tiago Castelhano, `Portugal

Artigo publicado originalmente no site do MAS de Portugal

No passado dia 15 de janeiro, o Governo Syriza/Anel aprovou mais um conjunto de medidas de austeridade que lhe foram solicitadas pelas instituições europeias (UE/BCE) e o FMI. O Governo do Syriza/Anel como bom aluno que se tornou acedeu ao pedido.

Uma das medidas aprovadas é a alteração à lei da greve que visa dificultar a convocação de greves. Isto porque as greves convocadas a nível local passam a requerer um quórum de 50% +1, em vez de um terço dos trabalhadores sindicalizados. Na verdade, trata-se de uma lei anti greve.Saliento esta medida de forma simbólica pelo passado do Syriza. Este é um partido com tradição no movimento de trabalhadores e que era constituído essencialmente por sindicalistas, trabalhadores(as) e jovens. Esta medida demonstra simbolicamente como o Syriza há muito passou para o outro lado da trincheira na luta de classes.

É aqui que se coloca as questões: A estratégia que o Syriza adotou era a única possível? A estratégia da esquerda de aliar-se a partidos da classe dominante e às suas instituições é correta?

Não nos parece. A história provou que não existe futuro para organizações de esquerda que não tem claro qual é a sua estratégia. O caminho do mal menor e da conciliação das classes é uma estratégia que tem condenado ao fracasso a construção de uma verdadeira alternativa à esquerda.

O Syriza começou mal o caminho quando se coligou com um partido burguês (Anel). Além disto, toda a sua estratégia foi concebida com o intuito de manter a Grécia dentro da zona euro “custasse o que custasse” e em parceria com as instituições europeias e o FMI. Tirando os primeiros 6 meses em que o Governo Syriza/Anel tentou negociar – embora dentro dos marcos da zona euro – não assinando de cruz logo o que lhe iam propondo. A partir do referendo que se realizou no Verão de 2015 e em que o povo grego disse não ao acordo – já de si muito mau para a Grécia – o Syryza fez o contrário do votado. Contudo, esta decisão foi consequente com a sua estratégia de conciliação de classes e respeito pelos seus credores. Esta estratégia não poderia dar em outra coisa do que na total capitulação às instituições europeias e ao FMI e na consequente quebra das promessas que tinha apresentado ao povo grego.

O recuo do Governo é tão gritante e humilhante que Alexis Tsipras, recentemente, em entrevista ao Diário de Noticias, chega ao ponto de salientar como grande diferença, entre os Governos anteriores (Nova Democracia e do PASOK) e o seu Governo, o timing quando é assinado o acordo: “Tivemos pela primeira vez umas eleições depois de um difícil acordo. Os anteriores governos decidiram sempre fazer os acordos só depois das eleições. Nós fizemos o oposto.”

A estratégia de conciliar os interesses antagónicos da classe dominante e dos trabalhadores(as) gregos(as) teve como consequência a aplicação de duros programas de austeridade – com cortes nas pensões, flexibilização do mercado de trabalho, privatizações etc. – que em nada diferem dos aplicados pelos Governos anteriores da Nova Democracia e PASOK.

A estratégia seguida pelo Syriza está bastante clara no recente livro intitulado “Comportem-se como adultos” de Varoufakis. Este saiu do Governo em julho de 2015 e demonstra claramente que a estratégia era chegar a acordo com os credores para manter a Grécia dentro da zona euro. Apesar deste se tentar demarcar de Tsipras afirmando que entre a capitulação ao memorando e a saída da zona euro preferia a última. O problema é que a lógica de raciocínio que Varoufakis e o Governo levaram a Bruxelas era equivocada, porque partia da premissa de fazer “tudo por tudo” para entrar em acordo com os credores, ou seja, com a burguesia. A perspetiva nunca foi apoiar-se no lado de cá da barricada, ou seja, na força e luta dos trabalhadores gregos e europeus. A perspetiva sempre foi que as instituições da classe dominante (UE, BCE e FMI) cedessem em algum ponto e que se continuasse a pagar uma dividia impagável aos credores. Ao invés a estratégia da burguesia foi clara desde o início, esmagar o povo grego. Não fazer qualquer concessão, ou seja, não negociar. Os credores sabiam bem qual a sua estratégia e apoiaram-se no seu campo, ou seja, nas diferentes burguesias para destruir a ousadia do povo grego. Ao Syriza faltou adotar a estratégia de confiar apenas e só na força e luta dos trabalhadores e apontar uma saída a favor dos interesses dos trabalhadores que passaria pela saída da zona euro e pela suspensão do pagamento da dívida. Não é possível adotar uma política que defenda os interesses de classes diferentes (trabalhadores e burguesia). O Syriza aptou pelos interesses da burguesia.

E é assim que chegamos ao ponto de um partido de tradição operaria e trabalhadora aprovar uma medida anti greve. A aparente contradição é na verdade a consequência das iniciais opções contranaturas do Syriza de se aliar a um partido de direita (Anel) e à UE e FMI na aplicação do programa destes, abandonado o seu.

O resultado é a adaptação do Syriza a mero gestor do capitalismo, não existindo atualmente grande diferença entre o Syriza e por exemplo o PASOK. Assim fica colocada a possibilidade de a direita (Nova Democracia) voltar ao poder nas eleições 2019, pelo menos é o que indicam as sondagens. Em resumo, a estratégia de conciliação de classes adotada pelo Syriza nada mais fez do que desmoralizar a esquerda em todo o mundo e sobretudo na Europa e fortalecer a direita.

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