Febre Amarela, surtos e saúde pública



Por Mariana Pércia, do Rio de Janeiro, RJ

Tenho lido e visto várias opiniões sobre o atual anúncio de alerta de vacinação imediata em áreas endêmicas da doença.

Opiniões que passam pela tragédia da Samarco, por falta de confiança na vacina – movimento que tem crescido independente desse atual surto de febre amarela – muito desinformação, somado com a moda nociva das fakenews, mas tenho visto poucas opiniões que reflitam sobre saúde pública em si e pra mim isso é o mais importante, inclusive porque engloba os demais temas e porque não é apenas sobre Febre Amarela. Ai vou dar minha humilde opinião porque muitas pessoas têm vindo me perguntar informações e em especial pessoas assustadas com as diversas noticias.

Antes algumas informações : a febre amarela é um tipo de virose, assim como a dengue, a chikungunya e a zika, sendo inclusive o mesmo tipo de vírus, um arbovírus, e que pode ter desde manifestações brandas, até manifestações graves. O que preocupa mais é que a letalidade dela, quando manifestada nos casos graves, é maior, de 20 a 50% DOS CASOS GRAVES. No caso da febre amarela o mais comum dela é em geral menos grave e tem sido a manifestação no meio rural e silvestre, esses lugares já eram considerados áreas de risco há muitos anos. O ciclo da febre amarela se inicia com a contaminação do macaco – hospedeiro natural da doença – este macaco no meio silvestre é picado pelo mosquito haemagogus ou sabethes, o qual por sua vez pode picar o ser humano – hospedeiro acidental – que passa a retransmitir e continuar o ciclo através do mosquito. O ciclo passa a ser urbano a medida que há migração desses animais por algum motivo para as cidades, e os contaminados passam a ser picados pelos Aedes Aegypti que passam a transmitir a doença para humanos. Esses casos urbanos NÃO acontecem no Brasil desde 1942. Então, calma. O estado de São Paulo foi colocado todo na area endêmica pela OMS porque foram encontrados macacos mortos próximo a um parque na cidade, e por isso está sendo feito o bloqueio vacinal da população. Chama-se bloqueio porque a medida que você vacina o ser humano que poderia ser picado pelo Aedes, o ciclo para ali.

Existiram alguns casos letais no ciclo rural num surto em 2009 no Rio Grande do Sul e agora nesse novo surto nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas e DF. Grande parte dessa população dos meios que já eram de risco já são vacinadas há anos.

É importante entender que a ação no meio urbano é uma ação preventiva e que ela deve ser acompanhada do combata ao mosquito pelos órgãos responsáveis e pela população.

Acontece que isso já era algo que deveria estar em curso cotidianamente em nosso país. Veja bem, o mesmo mosquito que transmite Febre Amarela no meio urbano, trasmite 3 doenças que assim como a Febre Amarela podem ser graves, ou estamos esquecidos dos verões passados? A dengue, a zika e a chikungunya provocaram cerca de 800 mortes em 2016, sendo 629 por dengue – a de sempre -, 159 por chikungunya e 6 por zika. E vocês lembram sob qual doença era o maior alarde? Era a zika a da vez né.

O caos instalado não tem a ver com macacos mortos, tem a ver com saúde pública. Tem a ver com há decadas não ter uma política eficiente de controle da dengue por exemplo. E sabe porque? Porque a vacina é só uma parte, uma parte que também não consegue ser suficiente porque há exatamente o mesmo contigente de funcionários que atende TUDO nas UBS e que tem que dar conta de mais 300 doses diárias, não consegue ser suficiente porque é preciso vir acompanhada de uma política de educação em saúde para informar a população em vez de criar um clima de terror e de ameaça de funcionários, mas a outra parte é muito mais profunda e ninguém mexe. A outra parte tem a ver com enfrentar o desmatamento em nosso país, com enfrentar os desastres NADA naturais, como Samarcos da vida, que obviamente contribui para o desequilibrio ambiental que faz com que animais percam seu habitat, tenham sua imunidade destruída, e levem a doença para outros locais, tem a ver com enfrentar o planejamento urbano das cidades.

O buraco é mais embaixo e não é nenhuma grande novidade sabe. A novidade é que se já havia caos na saúde pública antes, com os atuais cortes de verbas, planos de contigenciamento, verdadeira caça aos servidores públicas, isso tende a piorar. Se o governo não vai fazer isso, façamos nós. Saúde não é só vacina, saúde é equilibrio ambiental, é moradia, é acesso a educação! É o SUS no papel, que segue cada dia mais ameaçado. Se vacinem, aqueles que tiverem em areas de risco, mas mais do que isso, lutem!

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