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Colunas

Vamos falar de celulite

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Por: Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

O novo clipe da Anitta, do funk “Vai Malandra”, deu o que falar. O motivo é, aparentemente, trivial: no início do clipe, o vídeo dá um close na bunda da Anitta, que tem, como a maioria das mulheres, celulite. Não há filtro, maquiagem ou Photoshop, como geralmente acontece.

A produção contesta, em vários aspectos, as regras dos clipes de músicas, mostrando mulheres e homens reais, em sua diversidade de formas e cores. Grande parte dos figurantes não são modelos, são moradores e moradoras do Vidigal, bairro da Zona Sul do Rio. Não bastasse, duas drag queens também aparecem dançando no vídeo. A placa da moto que aparece no início do clipe faz referência ao PL 1256, que visa criminalizar o funk – uma afronta irônica.

Nesse texto, entretanto, quero falar da celulite, uma característica totalmente natural de muitas bundas. Aliás, não só a celulite é natural, como a própria bunda é natural. Peço licença para dizer o óbvio, porque, de fato, o que choca muita gente é justamente a naturalidade do que é mostrado no clipe.

A mídia, pelo contrário, não costuma mostrar mulheres naturais. As imagens das mulheres objetificadas, na maioria das vezes silenciadas, que aparecem na TV, nas revistas e propagandas de cerveja, são mulheres brancas, altas, magras, com pele lisa e brilhante. É uma imagem, portanto, artificial – não que não existam, em absoluto, mulheres dessa forma, mas a mulher real é muito mais diversa. Em média, as mulheres reais são mais baixas, mais gordas, têm celulite e ainda por cima são, em sua maioria, negras.

Essa contradição entre a mulher real e a imagem artificial criada pela mídia burguesa faz com que as mulheres reais não se reconheçam no padrão ideal de mulher. Elas se olham no espelho e aquele corpo, que é totalmente natural, normal, saudável torna-se, aos seus olhos, um corpo antinatural, anormal, doente. Muitas delas, na tentativa de se fazerem “normais”, na verdade, artificiais, acabam utilizando produtos e rotinas que não são naturais, muitas vezes inclusive são insalubres.

O natural aparece como artificial e o artificial, como natural. A mulher, que é um sujeito, aparece como um objeto que só pode realizar-se na compra de mercadorias e serviços que a tornem artificial. A mercadoria, objeto, aparece como sujeito, algo que a mulher precisa para ser sujeito.

As pessoas estão tão acostumadas com o artificial, que o natural lhes parece bizarro, vergonhoso. Como se a Anitta tivesse o dever de envergonhar-se da sua celulite e escondê-la para não passar vexame. O clipe, de fato, aponta para um problema muito maior, que é como a burguesia, para vender seus produtos, transforma as mulheres normais em anormais. O problema por trás de tudo isso, portanto, é o sistema capitalista.