A declaração de Trump: Novo incêndio no Oriente Médio?



Por: Waldo Mermelstein, de São Paulo, SP

Em 6 de dezembro, Trump fez uma curta declaração reconhecendo Jerusalém como capital de Israel e anunciando a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém. Os EUA apoiam totalmente Israel há décadas em termos econômicos, militares e diplomáticos, mas nunca antes um governo americano tinha anunciado essa posição.

Um estranho jogo de aparências cerca o status de Jerusalém. Em novembro de 1947, a ONU votou a injusta Partilha da Palestina, destinando 51% de seu território para a minoria judaica. Imediatamente, os dirigentes do novo estado judaico expulsaram 80% da população palestina de Israel. Jerusalém havia sido declarada zona internacional, a ser administrada pela ONU e não pertenceria a nenhum dos dois estados criados. Mas Israel anexou a parte ocidental da cidade, enquanto a Jordânia fazia o mesmo com a parte oriental. Em 1967, Israel conquistou toda a região da Palestina histórica, inclusive Jerusalém Oriental, que foi anexada oficialmente ao estado em 1980.

Mesmo sendo a capital de Israel, nenhum país do mundo reconhece formalmente isso, ainda que todas as relações internacionais com Israel sejam realizadas na cidade, sede do governo e do Parlamento.

A administração da Esplanada das Mesquitas em que se encontra a Mesquita de Al Aqsa, o terceiro lugar mais importante para o 1,5 bilhão de muçulmanos do mundo, está nas mãos do governo da Jordânia.

Por uma coincidência da História, essa Declaração de Trump ocorreu poucos dias após se recordar os cem anos da chamada Declaração Balfour, pela qual os britânicos prometiam a conformação de um “lar nacional judaico” aos 10% da população da região da Palestina.

Uma cidade sob assédio constante
Há 50 anos, Israel pratica uma política de limpeza étnica e colonização da parte oriental da cidade[1]. Foram construídos bairros para 200 mil judeus israelenses, rodeando a parte árabe. Os moradores palestinos, cerca de 360 mil, possuem status de residentes permanentes, não de cidadãos, e podem perder a qualquer momento sua residência por decisão do estado sionista. Cerca de 14 mil já tiveram esse destino desde então. Pelas restrições orçamentárias e econômicas, 75% dos habitantes de Jerusalém Oriental vivem abaixo do limiar de pobreza do país, níveis similares aos da Faixa de Gaza, muito piores do que a já difícil situação na Cisjordânia. O estado não aprova a ampliação dos bairros palestinos, o que faz com que muitas construções sejam consideradas ilegais e sofram a constante ameaça de demolição.

Em julho deste ano, grandes mobilizações populares conseguiram uma rara vitória: conseguiram revogar uma medida de Israel que obrigava a que todos os muçulmanos que iam rezar em Al Aqsa diariamente fossem submetidos a detectores de metal.

Por que Trump adotou essa medida?
O grande objetivo da política externa de Trump no Oriente Médio é a diminuição da influência do Irã na região. Esta cresceu no Iraque com o predomínio das forças políticas e as milícias xiitas que sustentam o governo e estão ligadas ao Irã, inclusive na retomada de Mosul do autodenominado Estado Islâmico. Na guerra civil da Síria, o papel do Irã e seu aliado, o Hezbolah, para sustentar Assad e vencer a guerra civil foi decisivo. Esta vitória do regime sírio só foi possível porque a Rússia entrou com tudo na região, fornecendo armas, logística e inteligência e sua força aérea garantiu a supremacia do regime de Assad.

Para conter e reverter essa mudança, Trump se apoia nas duas principais potências regionais, a Arábia Saudita – e seus aliados – e Israel, que possuem seus próprios interesses para se contrapor ao Irã.

Quanto à Arábia Saudita, este foi o tema central da grande reunião realizada por Trump com dirigentes árabes em Riad, em junho. E explica a total solidariedade do governo americano ao golpe palaciano desfechado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e com a agressiva política externa do regime saudita, inclusive a genocida guerra no Iêmen. Apoiou inclusive iniciativas tão desastradas como o bloqueio ao emirado do Qatar, ele próprio sede da maior base americana no Oriente Médio.

O problema é que uma aliança mais formal entre o eixo saudita e Israel esbarra na falta de solução para o tema da Palestina. E a questão da soberania sobre Jerusalém é central, pois é considerada lugar sagrado para os muçulmanos de todo o mundo (assim como para cristãos e judeus). A aceitação da dominação israelense sobre Jerusalém somente pode ocorrer com a rendição total dos dirigentes da Autoridade Palestina.
No caso de Gaza, o aumento do bloqueio – inclusive a diminuição drástica do já racionado fornecimento de eletricidade ao território – e as provocações militares de Israel servem ao objetivo de submeter totalmente o Hamas à Autoridade Palestina e diminuir seu grau relativo de resistência aos ditados de Israel, processo ainda longe de ser concluído.

Mas os sauditas cumprem um papel fundamental, em sua condição de principal financiador da Autoridade Palestina e seu suposto apoio à causa palestina.  Com o apoio deles, Trump procura impor um “acordo de paz” totalmente favorável a Israel e que acabe com o isolamento do estado sionista dentro do mundo árabe. Há 25 anos, os americanos vêm patrocinando um enganador “processo de paz”, que teoricamente teria como objetivo a conformação de um microestado palestino nos territórios hoje ocupados por Israel. Enquanto os EUA fingem patrocinar alguma negociação, os israelenses se aproveitam para aumentar os assentamentos judaicos na Cisjordânia, para o cerco cada vez mais implacável contra Gaza (incluindo as guerras genocidas periodicamente desfechadas pelo exército sionista naquele território minúsculo com quase dois milhões de habitantes) e o endurecimento de todas as condições do cidadãos palestinos de Israel. Para tudo isso, é inestimável a colaboração da denominada “Autoridade Palestina”, dirigida ferreamente por Mahmoud Abbas. Com os avanços na colonização israelense, os sucessivos “planos de paz” vão se tornando cada vez mais favoráveis a Israel. E é isso que Trump está preparando. A Declaração de 6 de dezembro vai nesse sentido

O novo Plano seria apresentado pelos sauditas e proporia um estado palestino com menos de 20% da Palestina original, preservaria os assentamentos judaicos na Cisjordânia (que seriam “trocados” por pequenas regiões de Israel em que há maioria palestina), seria desmilitarizado, asseguraria a presença militar israelense em seu território e privaria os palestinos de seu centro urbano mais importante e simbólico. O direito de retorno dos refugiados seria ignorado. Em vez de Jerusalém Oriental, esse “estado” teria como capital o vilarejo de Abu Dis, com 12 mil habitantes, que fica no extremo-leste da Grande Jerusalém, sem nenhuma comparação com o restante da cidade. Essa manobra escandalosa já tinha sido tentada em 2000, nas negociações de Taba, sob o patrocínio de Bill Clinton, mas que Arafat não aceitou, pois era uma rendição total. A Jordânia, dependente do capital e da ajuda saudita, também está sendo pressionada para aceitar tal acordo, mas demonstra alguma resistência pelo receio da reação da população de origem palestina em seu território, que chega a cerca de 50%.

A Declaração de Trump coloca a pressão americana para a aceitação das condições expressas nesse plano. Com isso, abriria o caminho para uma aliança entre os governos árabes reacionários, com os sauditas e egípcios à frente, e Israel para dessa forma lançar uma ofensiva contra o Irã e seus aliados no Oriente Médio.

Muita dificuldade terá Trump para implementar esse plano, entre elas o novo papel da Rússia na região, em particular após sua atuação na vitória de Assad na Síria. Mas a principal dificuldade será a natural resistência em todos os países da região e entre os países muçulmanos do mundo, contra a mudança do status de Jerusalém.

Qual o efeito dessa Declaração em Israel?
Como movimento de colonialismo de povoamento, o sionismo e seu produto, o estado de Israel, sempre se preocupou em obter cada vez mais controle sobre o conjunto da Palestina, com o menor número possível de palestinos. Em todos os períodos “normais”, isso tem sido feito com métodos brutais, mas paulatinos. Algumas situações especiais foram aproveitadas para saltos qualitativos, a mais importante quando da criação do estado, permitindo a implementação da limpeza étnica de ¾ da população nativa.
Em 1967, a conquista de toda a Palestina na Guerra dos Seis Dias, propiciou a expulsão de mais 400 mil palestinos e o início de 20 anos ininterruptos de colonização dos territórios conquistados. A Primeira Intifada, que começou há exatos 30 anos, acabou com a chamada “ocupação tranquila” e obrigou os sionistas a aceitar negociar com a OLP.

No entanto, os Acordos de Oslo de 1993 foram uma grande vitória para Israel. Em troca do reconhecimento da OLP como representante dos palestinos, esta aceitou as fronteiras de Israel de 1948 e abdicou na prática do direito de retorno dos refugiados expulsos em 1948, sem nenhuma definição do status final das negociações. Mesmo assim, Israel continuou a todo vapor a colonização da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental.

A Declaração de Trump pode ser um ponto de partida para uma posição ainda mais agressiva e brutal de Israel. Por exemplo, como reação às manifestações ocorridas dentro de Israel, o ministro da Defesa, Liberman, ameaçou represálias terríveis aos cidadãos palestinos de Israel e acusou parlamentares palestinos israelenses de “criminosos de guerra”.

Conhecendo o histórico das ações do estado sionista e sua natureza racista, essas ameaças podem se materializar, entre outras coisas, em um avanço qualitativo na expulsão dos palestinos de áreas densamente povoadas, como a própria Jerusalém Oriental e Hebron, em ataques aos cidadãos palestinos de Israel, além das crescentes ameaças de intervenção militar contra Gaza e o Hezbolah.

E qual será o efeito sobre os palestinos?
A grande incógnita é a reação dos palestinos nos diferentes lugares em que foram confinados pelo regime sionista ou na diáspora.

Quase que de imediato começaram protestos na Cisjordânia, em Gaza, em Jerusalém Oriental e inclusive em cidades dentro das fronteiras de 1948 de Israel. Ao mesmo tempo, houve importantes manifestações em países árabes e muçulmanos e na Europa. Nesta semana, a Organização de Cooperação Islâmica, que 57 países, declarou-se contra a posição de Trump.

Como a Declaração de Trump não foi ainda acompanhada de nenhuma consequência na vida real não houve a deflagração de uma revolta generalizada. Pesa contra isso também a superioridade incontestável de Israel em termos de poder e de força militar, a divisão dos palestinos em territórios isolados entre si e a cumplicidade evidente dos governos árabes vizinhos (que fizeram somente protestos retóricos contra a medida de Trump). Além disso, no plano regional, atua negativamente a derrota da chamada Primavera Árabe e o fortalecimento dos governos e forças ultrarreacionárias na região.

Do ponto de vista das perspectivas da luta palestina, o reconhecimento de fato da anexação de Jerusalém pode ser a gota d’água que estimule o abandono da estratégia de luta de dois estados, judeu e palestino, lado a lado, dominante entre os palestinos desde 1988. Se era equivocada desde sempre, pois abandonava os direitos dos palestinos de Israel e dos 6 milhões de refugiados, agora tornou-se uma miragem para o mais desavisado e otimista entre os palestinos. Mas uma nova estratégia precisará de uma nova direção que substitua a atual, que levou a luta a um beco sem saída, e opte por retomar em novos patamares a luta por um único estado democrático, com direitos iguais para ambas as nacionalidades, com a restituição dos direitos retirados dos palestinos.

[1] Uma das medidas mais importantes para reduzir o peso da população palestina na cidade foi o estabelecimento do Muro do Apartheid, que separa uma extensa área de habitantes palestinos, com cerca de 100 mil habitantes. Tramita no Congresso israelense um projeto que propõe alocar esses palestinos a uma jurisdição fora de Jerusalém, o que facilitará a perda de sua residência. Outro projeto propõe a anexação do bloco de colônias de Maale Adumim, vizinho de Jerusalém, já na Cisjordânia, que conta com 150 mil colonos. Por fim, para facilitar esse processo, Israel acaba de destruir o povoado beduíno de Jabal Al-Baba, com 300 famílias, que fica entre Jerusalém e Maale Adumim. Um detalhe na Declaração de Trump deixa o campo aberto para as definições de Israel: ele disse que “ não estamos adotando uma posição nas fronteiras específicas da soberania israelense em Jerusalém”, o que permite uma expansão ainda maior incorporando partes da Cisjordânia e excluindo os palestinos que estão além do Muro do Apartheid.

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