A minha comunidade toma partido



Por Raquel Varela, Colunista do Esquerda Online.

O que aprendi na academia brasileira contrasta de forma dramática com o que assisti na academia portuguesa. Um concurso público em Portugal e no Brasil tem métodos que nos separam 400 anos, da modernidade (Brasil) ao medieval (Portugal). Já explicarei afirmação tão peremptória.

O Brasil está a assistir a um fenómeno de perseguição nas universidades que devia escandalizar o mundo: grupos para-fascistas invadem conferências, perseguem professores e exigem uma «escola sem partido» contra o marxismo, a esquerda, o PT, as flores, o Tolstói, a filosofia e o sabonete, sei lá, tudo o que não seja idiota e mercantil. A direita no Brasil é de uma ignorância confrangedora. Devo muito à academia brasileira. Tem muitos defeitos, como todos os ambientes académicos, o pior deles a inveja que se junta à competição descontrolada – tende portanto ao trabalho individual e não colectivo e a atitudes morais chocantes – comum a todos os lugares de trabalho competitivos e afunilados.

O pior defeito dos intelectuais brasileiros, creio, e que naturalmente contrasta com todos os pobres com quem falo no país (arrasadores na crítica à sua condição), é que não se pode dizer mal do Brasil se se é estrangeiro, e mesmo não sendo não é fácil. Muito menos com sinceridade (sinceridade no Brasil é interpretada como agressão) – a força do multi-culturalismo pós-moderno é notória, de todos os países que conheço o Brasil é de longe o mais nacionalista, e a sua esquerda, mesmo quando abraça o internacionalismo, é resistente à crítica. Por exemplo, grande parte dos intelectuais e activistas chamam “comunidade” ao que os pobres continuam a chamar favela. Levei 2 anos a perceber o que era isso da comunidade. Pelo que me diziam “há uma associação da comunidade tal” e eu – juro – não percebia do que se tratava. Na minha humilde cabeça não se chama comunidade a um lugar com esgoto a céu aberto e onde as crianças podem morrer com uma bala perdida… Creio que se deve à força do relativismo pós-moderno norte-americano que aqui se combina com o papel do país no mundo, de dependência, baixa auto-estima, em suma.

O que está na contra-mão de uma realidade que salta aos olhos de qualquer um, o Brasil tem uma academia mais crítica, mais profunda, mais livre em média do que qualquer outro país – exceptuando, do que conheço, os EUA, que contínua a ser imbatível em matéria de criação critica. No Brasil, pela escala, porque há efectivo crescimento demográfico e ampliação da Universidade mas porque há uma tradição de esquerda crítica organizada em partidos e sindicatos existe contraditório real, diálogo crítico efectivo. Uma mesa de conferencistas debate divergências, alternativas claras, com uma fraternidade que nunca assisti em Portugal ou na Holanda. Em Portugal passa-se o contrário – pequeno, um sistema com poucos alunos, crise da esquerda desde a década de 70, direcção dos melhores para medicina e engenharias. Todos os relatórios sobre a academia portuguesa falam, cito, de endogamia, isto é, reprodução em vez de inovação. Isso faz com que um concurso público em Portugal não seja público, mas por análise de cv e projecto e voto à porta fechada!? – enviam-nos posteriormente uma acta, não tivemos acesso ao CV dos outros candidatos, e as suas provas não são públicas. Nenhum brasileiro acredita quando conto. Porque no Brasil um concurso público é realizado com provas públicas (sublinho, de portas abertas). Nunca em Portugal assisti a concursos com a transparência que existe no Brasil. Se os brasileiros acham o seu sistema ainda assim algo viciado é porque não viram nada – em Portugal concursos públicos de projectos já tiveram avaliadores anónimos (depois de forte contestação renunciaram a este modelo, mas não totalmente), concursos de lugares são com portas fechadas, não obrigam a uma aula pública, nem a justificação pública presencial da nota da prova escrita ou do cv como no Brasil. Acabam todos nos tribunais. Onde ficam eternamente. É tão indecoroso que já perdi à conta dos colegas cientistas que conheço que desistiram de fazer concursos em Portugal e saíram daqui, infelizmente muitos dos que tomaram esta decisão, por brio, são alguns dos melhores. No Brasil esta transparência, junto à escala, tem permitido uma renovação geracional de um corpo docente crítico que é um alento – na minha opinião uma lição para quase todo o mundo académico fora do Brasil. Juntam-se outros factores, não os conheço todos, como o facto de os melhores alunos irem para as universidades públicas e ainda escolherem ciências sociais entre a opções. Como pode um país progredir sem fortes cientistas sociais? E por último, mas não em último, um sindicato nacional de ensino superior, de funcionamento democrático, e combativo, chamado ANDES (Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior), que não tem paralelo em Portugal, que eu saiba em lugar nenhum do mundo há um sindicato como o ANDES. Tudo isto permite à academia brasileira vivenciar um espírito de liberdade – o único onde se pode fazer ciência – que querem matar.

Às vezes é preciso alguém de fora para nos dizer o que temos de mau e não queremos ouvir, e o que temos de bom e não sabemos. Estou convencida, com trabalho feito em 3 sistemas académicos distintos e dado aulas e palestras em dezenas de países que estou mesmo certa – a Universidade brasileira ainda dá lições a grande parte do mundo sobre produção científica em liberdade. Só por isso merece toda a solidariedade. Da minha parte, obrigada a todos os que a construiriam como ela é, livre, crítica, socialmente empenhada. Que toma partido. Porque uma favela é mesmo um lugar horroroso e há que substitui-la por um um lugar com direito ao trabalho, com estradas e electricidade, saneamento, sem poluição do ar e sonora, escolas e centros de saúde, parques para as crianças brincarem em segurança, e onde a violência – chegará esse dia – seja tabu. Aí sim, teremos uma comunidade.

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