Era possível a queda de Temer em maio de 2017?

Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

“Lenin não confiava no Comitê Central – sem Lenin.”, comenta Trotski, e “Lênin não estava muito errado nessa desconfiança” . Em cada crise, po­rém, acabou convencendo o partido a adotar sua estratégia e lan­çou-o na batalha  Sua ousadia, realismo e vontade  concentrada surgem da narrativa como os elementos decisivos do processo his­tórico, pelo menos da mesma importância que a luta espontânea de milhões de trabalhadores e soldados. Se a energia destes foi o “vapor” e o partido bolchevique o “êmbolo” da revolução, Lênin foi o condutor [1].

                                                                                                        Isaac Deutscher

Era possível a queda de Temer depois da delação premiada dos irmãos Batista ter revelado a participação da JBS na compra do silêncio de Eduardo Cunha? A história contrafactual tem despertado um crescente interesse, porque, dentro de certos limites, ajuda a refletir sobre o que poderia ter acontecido, e tem sido um dos caminhos para iluminar em uma nova perspectiva o curso dos acontecimentos. Os contrafactuais são um exercício teórico perturbador porque podem ser construídos com alguma seriedade quando calibrados pelo cálculo de probabilidades, uma teoria matemática fascinante.

Era possível que uma segunda greve geral em maio tivesse alcançado uma dimensão superior à de 28 abril? A combinação da ação da LavaJato, via denúncia de Rodrigo Janot, e a pressão popular, via ação das Centrais sindicais, poderia ter precipitado a renúncia de Temer? E se a direção do PT e Lula tivessem se engajado, seriamente, em uma campanha pela antecipação de eleições? Sob o impacto de um chamado corajoso à luta para derrubar Temer teria sido possível inspirar a saída às ruas de grandes massas populares?

Em curiosa entrevista, Carlos Marun, o deputado dançarino e cantor que já tinha sido porta-voz da tropa de choque de Eduardo Cunha, admitiu ter visto uma carta de renúncia à presidência de Temer. A possibilidade, portanto, parece ter existido. Difícil dizer qual teria sido o desenlace. Parece certo que teria sido necessária uma mobilização em uma escala imensa, gigantesca. Só uma mobilização assim seria capaz de inverter a relação social de forças desfavorável que nasceu das ações reacionárias de milhões que resultaram na derrubada de Dilma em 2016. Parece, também, razoável, que para compreender a hesitação popular naquelas duas semanas, deve ter pesado a dificuldade de responder à pergunta angustiante: se Temer cair, quem deve governar?

Não obstante, a permanência do mal estar diante da crise econômica, a divisão burguesa diante do destino de Temer, com frações da classe dominante defendendo sua renúncia, assim como a potência da greve geral sugerem que a possibilidade esteve presente e existiu. Claro que, talvez, não fosse possível. Nunca saberemos, porque a direção do PT não esteve sequer disposta a tentar [2]. O Psol do Rio de Janeiro tentou e fez um grande ato na praia de Copacabana, mas era uma tarefa muito além da sua influência. No mínimo, os que ainda confiam na direção lulista deveriam constatar de forma honesta que uma oportunidade se perdeu.

Não há, em política e na vida, imunidade ao erro. Logo, uma menor margem de erros políticos a favor de uma classe ou de outra pode decidir o sentido da luta. Uma chance histórica pode se perder: serão, então, necessários meses, ou anos, enfim, uma nova etapa política para que uma nova oportunidade se abra outra vez. O que significa que a crise se manifesta nesta angústia de urgência de futuro, o que pode abrir o caminho para a desmoralização[3].

Em resumo, o erro consiste em uma cegueira diante de uma correlação de forças que se altera: ou porque se exige o que não é possível ou, como aconteceu em maio deste ano, porque a principal organização vacila, hesita, treme, duvida e foge do bom combate. E o conflito se adia. Mas, sejamos rigorosos e justos, não são nunca as classes populares que erram: são as suas lideranças. Os mais jovens desconhecem, mas a ironia da história é que a direção do PT tinha sido contra a campanha pelo Fora Collor em 1992, com o argumento que seria golpista. Argumentaram que a tentativa de derrubar Collor em 1992 daria o pretexto para que a classe dominante se precipitasse em uma manobra golpista pelo impeachment de Lula que venceria, previa-se, com muita soberba, a eleição presidencial de 1994. Sua vocação para a conciliação e até capitulação vem de longe.

O marxismo de inspiração trotskista denomina este processo como crise de direção, ou seja, identifica que a direção não esteve à altura do desafio político histórico. Nesse sentido traiu os interesses da classe que se propôs representar.

Na verdade, uma “correspondência” perfeita entre os interesses e o estado de ânimo das classes populares, e as iniciativas de suas direções foi, historicamente, excepcional. Esse é um dos movimentos “oscilantes” da política, das organizações e partidos que procuram expressar e traduzir a defesa desses interesses.

Existe na política, que é sempre uma urgência de resposta ao presente, um desencontro, uma não correspondência, uma dissonância, um conflito mesmo entre a forma partido e suas bases sociais. O desencontro pode ser de dupla natureza: ou porque os partidos estão aquém, ou além do desafio histórico. Porque o tempo histórico da política, que se define como estratégia, é aquele que faz a mediação entre o presente e o futuro. E esse tempo se articula como hipótese, e está sempre em aberto e sujeito a redefinições que são indispensáveis, já que no presente tudo está em movimento, em uma instabilidade que é pouco previsível. Esse é o desafio da tática.

Quando os partidos estão aquém, deixam o presente governar o futuro e sucumbem. Quando estão além, se iludem que o futuro possa governar o presente e são marginais. Os partidos podem, portanto, sucumbir à pressão dos humores das classes. O problema das organizações reformistas é que levam sempre em consideração, em primeiro lugar, os humores da classe dominante e das camadas médias acomodadas e ficam prisioneiros da inércia. Esse estado de espírito é sempre volúvel, e o seu horizonte é curto.

As classes se movem por impulsos que correspondem à apreensão mais imediata que possuem dos seus interesses e, nesse sentido, são prisioneiras de uma correlação de forças que imaginam muito mais estática do que é: pensar que o amanhã será como ontem é o mais perigoso dos erros, porque ignora os deslocamentos incessantes e ininterruptos do tempo. Esse tempo subjetivo da permanência é uma ilusão, ilusão que aprisiona em rotinas ou previsibilidade que são a raiz profunda dos erros políticos.

A História sugere que existe, invariavelmente, um lapso de tempo, sempre na forma de atraso entre a emergência de uma decisão, imposta pela pressão de uma realidade objetiva que amadurece, velozmente, e a capacidade das classes de responder à altura da defesa de seus interesses. Nesse sentido a política está tendencialmente atrás da história, enquanto a teoria está à sua frente. Porque se a solução política se atrasa, a teoria se antecipa: são dimensões muito diferentes, a atividade de pensar e a de agir sobre o mundo.

O erro político não pode deixar de ser considerado como uma categoria de investigação histórica, como defendeu Luckács em História e consciência de classe. Mas ele só pode ser apreendido na sua dimensão plena, se guardarmos as proporções que separam o tempo político do tempo histórico. Não são possíveis explicações históricas sem considerar os erros dos sujeitos políticos, em primeiro lugar, das classes dominantes que acreditaram ser possível a preservação de uma ordem sem mudanças, muito além do que se tornou tolerável para as amplas massas.

Todas as revoluções abriram as portas da transformação política e social explorando esses erros: e se os Bourbons tivessem aceitado uma passagem para monarquia constitucional mais cedo? E se o Czarismo tivesse ampliado as margens de reformas? E se a república de Weimar tivesse acelerado as reformas sociais, então… Ensimesmadas na ilusão da ahistoricidade de seu domínio, pela arrogância que o controle do Estado por um longo período alimenta, as classes proprietárias desprezam os repetidos sinais e alertas que revelam que o amanhã não poderá ser como o ontem. Existem, portanto, limites. Quando uma classe dominante exige sacrifícios das massas para além do que essas consideram razoável, ou seja, quando as massas não confiam mais que as suas vidas poderão melhorar, ou ainda, quando se convencem de que não deixarão de continuar piorando, as diferentes percepções do tempo do que seria possível se distanciam umas das outras.

A própria burguesia considera como seus grandes líderes, os chamados estadistas, aqueles que, retrospectivamente, marcharam contra a maré da pressão mais imediata das circunstâncias, não cederam às pressões e sendo inflexíveis, governaram para o futuro, e não para a próxima eleição. A luta política é, assim, uma expressão da conflitualidade dos partidos entre si e das classes entre si, mas também destas com as suas organizações. Nenhuma classe é tão homogênea neste século que possa prescindir da representação em diferentes partidos.

É preciso acrescentar, para termos a dimensão da gravidade do lugar dos erros políticos, que uma crise de direção pode não ser resolvida de forma satisfatória. Esse é um processo que historicamente tem os mais diferentes desenlaces. Mas a luta interna durante o conflito se manifesta, de forma exacerbada, na busca de um estado maior que seja capaz de oferecer a melhor saída para a luta. Há, contudo, uma diferença entre os dois campos em combate.

Toda classe proprietária tem uma qualidade, que poderíamos denominar como “instinto” de poder: luta, ferozmente, quando necessário, pela conservação dos privilégios que já usufrui, e é consciente que a defesa da ordem exige, como condição sine qua non, o domínio do Estado. Nas classes populares, a perspectiva do poder se revela, historicamente, um processo extraordinariamente mais difícil de construir. Em situações de estabilidade, ou seja de defensiva, as massas combatem sempre em um terreno de resistência. Só no momento da crise revolucionária, se colocam a questão do poder. Não o fazem com um plano pré-elaborado de um modelo que querem construir, mas a partir da necessidade de derrubar o governo que odeiam. Mas, também não o fazem sozinhas. Precisam de um ponto de apoio, para superar todas as diferenças que guardam no seu interior: porque chegam às conclusões políticas, da necessidade do poder, em ritmos distintos, e podem se lançar ao combate decisivo tanto cedo demais, como tarde demais.

A maior lição deste ano complicado que foi 2017 é que direção do PT demonstrou, mais uma vez, em um momento chave, que não está à altura da representação dos interesses dos trabalhadores. Na hora de avançar, recuaram e se esconderam. Não merecem ser perdoados.


[1] DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.250.

[2] Há irrefutáveis evidências históricas empíricas de que existe uma relação entre o movimento da economia e da política. Mas qualquer exagero nesse terreno, cheio de armadilhas, é muito perigoso. Esse fenômeno se expressa nas flutuações dos tempos do ciclo de renovação do capital fixo, do impacto destrutivo das crises e das recessões. O desemprego em grande escala se manteve muito alto ao longo de todo o ano de 2017, culminando quatro anos de regressão como não víamos desde os anos noventa. O tempo da política é, todavia, diferenciado. É sempre, em alguma medida, o tempo breve do presente, das decisões que são iminentes, que não podem ser adiadas. Quando uma classe dominante é infértil e, portanto, parasitária, ela renuncia à perspectiva de um projeto (a recolonização na América Latina, por exemplo, praticamente, não encontrou, pelo menos ainda, uma resistência burguesa expressiva) e, nesse sentido, é estéril de futuro. Governa para o amanhã, mas não pode confessá-lo. Ela perde a lucidez de que os projetos devem inspirar a política: fica prisioneira da inércia e é incapaz de iniciativa, embriaga-se com a velocidade das decisões, e, nesse sentido, governa para preservar o passado, e não para construir o futuro, o que é o mesmo que reduzir-se à estreiteza da defesa exclusiva de seus interesses. Semeiam ventos, colherão tempestades, ensina a sabedoria popular. O paradoxo é que a inércia, a política da conservação, é a paralisia do tempo, mas a crise é a sua aceleração. Uma classe que é historicamente improdutiva, mas que permanece no poder exige de seus partidos a ilusão de um projeto que não pode ser senão uma nostalgia de passado, ou seja, uma caricatura do que já foi, ou uma romantização do que deveria ter sido. Ela vive a urgência da crise, a vertigem acelerada da mudança, e levanta os olhos para o futuro, com uma ansiedade de passado, isto é, de estabilização e ordem.

[3] As relações da massa dos trabalhadores com sua vanguarda e vice-versa, desta com a massa não são simples. Nesta complexa relação reside um dos problemas da construção da subjetividade, da maior confiança dos sujeitos sociais em si mesmos, e da maior ou menor fé na vitória de suas lutas. A vanguarda das lutas, as lideranças enraizadas nas fábricas, escolas, empresas, bairros ou faculdades, só se formam nos processos de mobilização e podem ou não avançar até à organização sindical e política permanente. Freqüentemente, uma maioria desta vanguarda retrocede ao final da luta, em maior medida ainda, se esta for derrotada. A vanguarda é um fenômeno, no sentido de que é um aspecto subjetivo da realidade em movimento, e pode tanto se organizar em uma superestrutura da classe já existente, quanto pode voltar a se integrar na massa e abandonar a luta ativa ao final do combate. Na medida em que o impulso da luta for maior e mais consistente a vanguarda se sentirá estimulada a aprender as lições das lutas anteriores. Procurará, então, se educar politicamente, e fará mais relações entre os fins e os meios, isto é, entre estratégia e tática, escolhendo a adesão a um partido ou sindicato, como via para a sua própria construção como liderança permanente. Entretanto, nesse processo, a vanguarda vive um conflito que pode se resolver, esquematicamente, de três maneiras. O conflito é a luta, em certo sentido, contra si mesma, para elevar-se acima das angústias das massas que hesitam, vacilam e retrocedem, durante a luta, para depois voltar a avançar, e depois voltar a retroceder. Não é incomum que a vanguarda se exaspere diante destas limitações das massas, e desenvolva um sentimento de frustração e decepção em relação aos seus representados. Esse sentimento, potencialmente, conduz a três atitudes diferentes: uma parte da vanguarda fica tão desmoralizada com as limitações das massas em luta, que abandona o combate e desiste de tudo, guardando um ressentimento maior contra sua própria base social do que contra as classes socialmente hostis; outra parte da vanguarda, amargurada com o recuo e abandono das massas, se separa destas, e se inclina por ações isoladas e exemplares, para decidir sozinha a sorte do combate; uma terceira camada escolhe o caminho de avançar junto com a massa e recuar, também, junto com ela, para ajudá-la a aprender as lições da luta, e garantir melhores condições de organização nos combates que se colocarão no futuro. Se esta vanguarda encontra, durante a luta, um ponto de apoio para a sua formação como liderança de massas, uma boa parte dela pode se organizar permanentemente, se educar, e se construir como direção para, na luta seguinte, combater em melhores condições. Mas. senão, a maior parte das lideranças “naturais” se perderão, e será necessário um novo ciclo de lutas, para que se possa gestar uma nova geração de ativistas. Este processo de seleção “selvagem” de lideranças, em que uma incrível quantidade de energias se desperdiça, tem sido uma das maiores dificuldades da construção de uma subjetividade do proletariado.

Comentários no Facebook

Post A Comment