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CULTURA

Violeta Parra, referência da música e da arte chilena

A sua irreverência, a sua liberdade, a sua defesa apaixonada dos direitos dos setores mais negligenciados tornaram-na uma referência no Chile e no Mundo. Artigo de Ana Cansado. Publicado no Dossiê Violeta Parra da Esquerda.Net em homenagem aos 100 anos de seu nascimento.

Filha de um professor e de uma camponesa

Entre 18 de abril e 11 de maio de 1964, esteve no Museu do Louvre uma exposição das suas pinturas, óleos, serapilheiras e esculturas em arame, tendo sido a primeira artista latino-americana a ter uma exposição individual nesse espaço

Violeta del Carmen Parra Sandoval, filha de Nicanor Parra, professor de música, e de Clarisa Sandoval, camponesa, nasceu a 4 de outubro de 1917, na localidade de San Fabián de Alico, província de Ñuble, no sul do Chile. Violeta teve dois irmãos, filhos de um relacionamento anterior de sua mãe, e mais oito irmãos nascidos da relação de seus pais.

A infância de Violeta Parra foi difícil e ainda muito pequena teve de ir viver para casa do seu avô paterno, José Calixto, durante algum tempo. De Chillán a família foi viver, em 1919, para a cidade de Santiago, mas passados dois anos o pai de Violeta foi contratado como professor para trabalhar noutra cidade e a família acompanhou-o. Durante a viagem, Violeta teve varíola uma doença que deixou o seu rosto marcado para sempre.

Desde 1921, e durante grande parte da sua infância, Violeta viveu em Lautaro, onde onde teve as suas primeiras experiências artísticas. Em 1927, o seu pai fica sem trabalho e a família vê-se obrigada a mudar-se novamente desta vez para a povoação de Villa Alegre. Foi neste local que Violeta conheceu o circo e experimentou a cultura popular. A sua mãe fazia trabalhos de costura para sustentar a família numerosa e ensinava canções populares aos filhos e filhas.

As crianças da família Parra revelavam uma inclinação natural para as artes e espetáculos. Faziam fatos de papel, cantavam e montavam apresentações para as quais cobravam bilhetes às outras crianças. Violeta começou a tocar guitarra aos 9 anos, e em 1929 escreveu as suas primeiras músicas. Neste período viajou frequentemente para Malloa para visitar a família Aguilera, seus parentes, que lhe deram a conhecer os costumes e festas camponesas da região.

Cantora e tocadora de violão desde os nove anos

Apesar de ter tido apoio de uma professora para as suas inclinações artísticas, Violeta foi uma autodidata, cantora e tocadora de violão desde os nove anos de idade. Violeta frequentou a escola, completou os estudos primários e frequentou um ano da escola normal, que deixou para trabalhar e ajudar a sua família quando o seu pai ficou gravemente doente. Violeta e os irmãos cantaram em restaurantes, pousadas, circos, bordéis e até nas ruas.

Após a morte do pai, deixou a casa da mãe, no interior do Chile, e foi morar em Santiago com o irmão Nicanor, que estudava na capital e que a inscreve na Escola Normal. Rapidamente, a sua mãe e irmãos juntam-se e a família passou a residir na Rua Edison, no sítio da Quinta Normal. Em 1933, abraçou definitivamente a carreira musical e formou com a irmã Hilda a dupla “Las Hermanas Parra”, que cantava músicas folclóricas na noite. Violeta e seus irmãos, cantaram boleros, rancheras, corridos mexicanos e outros estilos, nos bares do bairro Mapocho como “El Tordo Azul” e “El Popular”. Aqui conheceu Luis Cereceda, ferroviário, que trabalhava na Estación Yungay, e com quem casou em 1938.

Um ano depois nasceu a sua filha Isabel. À data Violeta cantava no restaurante “No me olvides” e recebeu um menção honrosa num concurso de poesia. Em 1943, nasceu o seu filho Ángel em Valparaíso onde a família vivia. Após cantar canções e acompanhar uma companhia de teatro por todo o país com o nome artístico de “Violeta de Mayo”, Violeta regressou a Santiago com Luis Cereceda, que era militante comunista, para trabalhar na campanha presidencial de Gabriel González Videla que foi o candidato da Aliança Democrática, formada por radicais, comunistas e democráticos e foi presidente do Chile entre 1946 e 1952.

Violeta mantém a produção artística e ganha o concurso de canto espanhol no Teatro Baquedano. Em 1945, com os seus filhos Isabel e Ángel, apresenta o espetáculo a “Confitería Casanova” em Santiago. Durante o casamento viveu em Llay-Llay, Valparaiso regressando à Quinta Normal. Desde cedo o espírito inquieto e as atividades de Violeta , que cantou em bares na zona portuária, trabalhou em rádio e participou num grupo de teatro, não se adequavam ao ideal convencional de uma esposa. Em 1948, separou-se e a desilusão desse relacionamento deixou marcas na sua vida e obra.

Gravou, em parceria com sua irmã Hilda, o seu primeiro disco em 1949. Um ano depois nasceu a sua filha Carmen Luisa Arce Parra e nesse mesmo ano casa com o pai da menina, Luis Arce. Deste casamento nasceu também, em 1952, Rosita Clara, que morreu com apenas dois anos de idade, vítima de pneumonia.

Pesquisadoras de ritmos, danças e canções populares chilenas

Em 1952, começou a pesquisar as raízes folclóricas chilenas e compôs os primeiros temas musicais que a fariam famosa. Neste período edita os primeiros discos, com a sua irmã Hilda, para a editora RCA Víctor. Eram gravações em formato single de canções populares chilenas, como “El Caleuche”, “La cueca del payaso” e “La viudita”. Este duo com a irmã manteve-se até 1953, enquanto a música tradicional chilena viveu um período de resgate e valorização.

Aprendeu, com Don Isaías Angulo, um camponês e guitarrista, a tocar o guitarrón, um instrumento chileno original de 25 cordas que era pouco conhecido no meio urbano. E, incentivada pelo seu irmão Nicanor, começou a investigar, a compilar e a ensinar a autêntica música folclórica em todo o Chile. Abandonou o seu antigo repertório e deu recitais, e promoveu cursos de folclore nas Universidades de Iquique e Concepción, em escolas de verão e no Instituto Chileno-Francês de Valparaíso.

Neste período Violeta foi uma das importantes pesquisadoras de ritmos, danças e canções populares chilenas, chegando a catalogar cerca de 3 mil canções tradicionais. Algumas dessas canções foram publicadas no livro: “Cantos folclóricos chilenos” e no disco “Cantos campesinos”, editado originalmente em Paris. Trabalhou com cantores camponeses de Barrancas e outras zonas em torno de Santiago, atravessando a costa, a serra e a Ilha de Páscoa.

Também em 1953, foi contratada pela Rádio Chilena para produzir programas radiofónicos de música folclórica que impulsionaram um rigoroso estudo das manifestações artísticas populares. Gravou pela editora Odeón, duas das suas canções mais conhecidas: “Qué pena siente el alma” e “Casamiento de negros”.

Durante o ano de 1955 recebeu o Prémio Caupolicán, para a “Melhor Folclórista do Ano” da Associação de Cronistas de Espetáculos, pelas gravações de “Qué pena siente el alma” e “Casamiento de negros” e pelo seu trabalho como locutora e difusira do folclore nacional.

Foi convidada e participou no V Festival Mundial da juventude e dos Estudantes em Varsóvia na Polónia. Visitou a União Soviética, Londres e Paris, cidade onde residiu por dois anos. Em Paris apresentou o seu trabalho na “L´Escale, boite de nuit” do Bairro Latino. Realizou gravações para a BBC e para a Odeón e gravou 16 temas para a editora francesa “Chant du Monde”. Gravou também na Fototeca Nacional do Museu do Homem em Paris, onde deixou como legado um guitarrón e fitas com compilações do folclore chileno.

Em 1956, após o seu retorno ao Chile, começou a coordenar a produção de uma série de discos intitulada “El Folklore de Chile” e gravou o primeiro LP, intitulado Violeta Parra e a sua guitarra, no qual incluiu três composições da sua autoria. Na época mantinha no ar o programa radiofónico “Canta Violeta Parra”. No ano seguinte radicou-se em Concepción onde ajudou a impulsionar um museu de arte popular na Universidade daquela cidade, depois de fazer investigações folclóricas na região de La Araucanía.

Compositora inovadora

Gravou duas anticuecas que são composições instrumentais para guitarra, inovadoras e de caratér exprimental e compôs também El Gavilán, música que sería originalmente para ballet folclórico e que é umas das obras mais extraordinárias do seu repertório e que a consagrou como compositora de carácter contemporâneo, fruto e síntese das suas investigações, sensibilidade e talento criador. Continuou a gravar a série “El Folklore de Chile” para a EMI Odeón, os LPs La cueca e La tonada, com capas dos pintores chilenos Julio Escámez e Nemesio Antúnez, respetivamente. Violeta compôs “As toalhas de mesa de Nemesio”, em homenagem ao pintor. Ainda em Concepción produziu programas de rádio e animou palestras sobre as suas “décimas y centésimas”.

Artista plástica

De regresso a Santiago, no ano seguinte, onde começou a sua produção como artista plástica, começou a pintar, a bordar serapilheiras com lã e a trabalhar a cerâmica na sua “Casa de Palos” em La Reina. Ofereceu recitais nos mais importantes centros culturais de Santiago e continuou a viajar. Para o norte para investigar e gravar La Tirana, um festival pagão-religioso. Participou no Encontro de Escritores em Concepción e compôs música para o poema “Los Burgueses” do poeta Gonzalo Rojas. Escreveu as Décimas autobiográficas, onde narra em poesia popular, à sua vida desde a infância. A partir de 18 de Setembro de 1958 começa a celebrar a festa nacional do Chile com uma “ramada” onde canta e dança cueca com os seus filhos.

Percorreu todo o país, recompilando e difundindo informações sobre o folclore e acompanho as primeiras gravações da sua filha Isabel, que interpreta as suas canções originais. E é com Isabel que viaja a promover cursos de folclore no norte do Chile e na ilha de Chiloé onde dão recitais e promovem cursos de folclore, cerâmica e pintura. Escreveu então o livro Cantos Folklóricos Chilenos que reúne toda a sua investigação de folclore até ao momento, com fotografias de Sergio Larraín e notas de Gastón Soublette.

Violeta e o seu trabalho vão exercer uma influência notável em Héctor Pavéz, Gabriela Pizarro, no grupo Cuncumen, Chamal e Víctor Jara, entre outros, que se vieram a tornar grandes autores, intérpretes e/ou investigadores de folclore.

Do seu trabalho é de destacar também a música que compôs para os documentários Mimbre e La Trilla, e ainda a sua participação no filme Casamiento de negros, todos realizados por Sergio Bravo.

Em 1959, adoeceu e devido a um repouso obrigatório, começa a desenvolver o seu talento como artesã.

Em 1960, expôs pela primeira vez as suas pinturas a óleo na Feira de Artes Plásticas do Parque Florestal em Santiago e conheceu e começou a namorar com o musicólogo e antropólogo suíço Gilbert Favré. As dificuldades da sua relação com Gilbert, inspirariam canções como: “Corazón maldito”, “¿Qué he sacado con quererte?”, “Run Run se fue pa’l norte” e “Maldigo del alto cielo”. O seu irmão Nicanor Parra grava o poema “Defesa de Violeta Parra” e Violeta acompanha-o à guitarra com a composção musical “Três Palavras”.

Em 1961, viajou para a Argentina e viveu em General Pico, Provincia de La Pampa, em casa do governador Joaquín Blaya. E ensinou cursos de folclore, cerâmica, pintura e serapilheira. Em Buenos Aires expôs as suas pinturas, fez recitais na TV Argentina e no Teatro I.F.T. Gravou um LP de canções originais para a EMI Odeón, que foi proibido mas que fez grande sucesso nas suas apresentações.

Violeta regressa à Europa com os seus filhos e a sua neta Tita, participam no Festival Mundial da Juventude em Helsínquia, na Finlândia, representando a cultura popular chilena. Visitam a União Soviética, a Polónia, a Alemanha, Itália e França, realizando numerosos concertos, louvados pela crítica europeia. Radicou-se em Paris e Genebra com Gilbert Fabre, os filhos e a neta. Cantou em “La Candelaria” e em “L´Escale”, no Bairro Latino de París, e manteve a sua casa-atleier em Genebra. Expôs a sua obra plástica em galerias e criou novas canções, pinturas e serapilheiras. Utilizou instrumentos musicais latino-americanos como o bombo ligeiro, o charango, o kultrun, a quena, a guitarra e percussões. Neste período compôs algumas das suas músicas combativas, como: “¿Qué dirá el Santo Padre?”, “Arauco tiene una pena” e “Miren cómo sonríen”, que podem ser consideradas como o início da Nueva Canción Chilena e escreveu o livro: “Poesía popular de Los Andes” na editorial François Maspero de París, edição bilingue.

Violeta e Los Parra atuam na festa de l´Humanité do Partido Comunista francês e ela grava “La cueca larga”, com música de Violeta e letra de Nicanor Parra, acompanhada por sua neta Tita en percussão e acompanha os seus filhos e neta no LP Los Parra de Chillán, editora Barclay. Gravou também o documentário “Violeta Parra, Bordadora Chilena” para a TV Suíça.

Exposição no Louvre

Entre 18 de abril e 11 de maio de 1964, esteve no Museu do Louvre uma exposição das suas pinturas, óleos, serapilheiras e esculturas em arame, tendo sido a primeira artista latino-americana a ter uma exposição individual nesse espaço. Durante a exposição Violeta cantou e conversou com o público.

Em 1965, após o término de seu terceiro casamento, voltou ao Chile, onde se apresentou na “La Peña de los Parra”, um local onde o público podia escutar boa música e beber vinho e onde teve início a carreira musical dos seus dois filhos: Ángel e Isabel. Depois instalou uma grande tenda com capacidade para cerca de mil pessoas na comuna de La Reina, com o objetivo de convertê-la num centro de cultura folclórica. Neste local apresentaram-se artistas como Patrício Manns, Rolando Alarcón, Víctor Jara, entre outros.

“Ultimas composiciones”

Em 1966, viajou para a Bolívia, onde realizou apresentações em conjunto com Gilbert Favré e gravou o seu último disco: “Ultimas composiciones”, considerado como o seu melhor disco, que contém canções como: “Maldigo del alto cielo”, “Gracias a la vida”, “El albertío”, “Run Run se fue pa’l norte” e “Volver a los 17”.

Toda a sensibilidade que refletia em seu trabalho, a sua intensidade, mesmo nas coisas mais simples, as desilusões amorosas e uma vida de dificuldades económicas, levaram-na ao suicídio no dia 5 de fevereiro de 1967, com apenas 49 anos de idade.

O seu desaparecimento prematuro, no entanto, deu vida a uma mulher icónica, cujas composições continuam a ser recriadas por músicos populares. Proibida nos repertórios musicais durante a ditadura de Augusto Pinochet, muito por causa de musicas como “Gracias a la vida” e “Volver a los 17”, viria ser cantada em todo o mundo. A sua irreverência, a sua liberdade, a sua defesa apaixonada dos direitos dos setores mais negligenciados tornaram-na uma referência no Chile e no Mundo.

Nota de fim: esta biografia resulta do confronto e tradução das cronologias e dados recolhidos, no dia 4 de outubro de 2017, no sítio da Fundação Violeta Parra, na Wikipédia e no sítio da Biblioteca Nacional do Chile.

Artigo de Ana Cansado para esquerda.net

Dossier:

Dossier 276: Violeta Parra

Proibida durante a ditadura chilena “Gracias a la vida” tornou-se um hino, uma canção entoada em marchas e lutas de diversos movimentos, no mundo inteiro.