‘Ela é o amor da minha vida’: o pedido de casamento e as LGBTs nas Olimpíadas

Reuters/Alessandro Bianchi/Direitos Reservados

Por: Jéssica Milaré

Isadora Cerullo, a Izzy, jogadora da seleção brasileira de rúgbi, não sabia do que já estava combinado. Depois que a Austrália recebeu as medalhas de ouro, Majorie Enya, uma voluntária que trabalhava no estádio, pegou o microfone e entrou no campo. A seleção brasileira aguardava.

“Eu fui completamente surpreendida. Achei que fosse fazer uma entrevista, não sei como cai nessa. Aceitei sem pensar duas vezes”, contou Izzy.

A maior salva de palmas no Estádio de Deodoro foi para a primeira proposta de casamento pública das Olimpíadas do Rio. “Assim que soube que ela seria parte da seleção, pensei que tinha de fazer isso de forma especial. Ela é o amor da minha vida”, declarou Enya.

Nessas Olimpíadas, muitas LGBTs estão assumindo suas identidades e mostrando que não aceitam serem empurradas de volta para o armário. O primeiro ouro do Brasil é da judoca Rafaela Silva, uma mulher negra que namora Thamara há quase três anos.

Há muito que comemorar, mas muito mais pelo que lutar. Contando com Izzy e Rafaela, existem apenas 46 LGBTs publicamente conhecidos entre os mais de 11,5 mil atletas. Enquanto no rúgbi o noivado de Izzy arrancou aplausos, nos estádios de futebol masculino, os gritos de “viado” para os adversários ainda são frequentes.

Muitos atletas têm que esconder sua orientação sexual, caso contrário podem perder o patrocínio ou o treinador. Os que se assumem ficam expostos à violência, como a nadadora francesa Melanie Hénique que foi agredida em 2015 junto com duas amigas por quatro homens. Melanie teve seu nariz quebrado e precisou fazer uma cirurgia.

Enquanto isso, pessoas intersexuais e transgêneras têm que derrubar vários obstáculos para poderem competir devido ao conhecido ‘teste de gênero’. O direito de Dute Chand, da Índia, e Caster Semenya, da África do Sul, competirem nos esportes foi questionado porque o teste sanguíneo determinou que elas têm um nível de testosterona acima do que é considerado normal para as mulheres cis. Caster foi diagnosticada como intersexual. Em uma entrevista, Caster Semenya, em 2009, comentou que estavam dizendo que ela não é uma mulher de verdade. “Eu vejo isso tudo como uma piada, não me aborrece. Eu sou quem eu sou e tenho orgulho de mim mesma”, comentou. Semenya enfrentou o preconceito e vai competir nessas Olimpíadas.

Em 2015, o Comitê Olímpico Internacional recomendou que fossem diminuídas as restrições às pessoas transgêneras. Após consulta com a Comissão Médica, a cirurgia de transgenitalização deixou de ser obrigatória e o tempo mínimo de terapia hormonal foi reduzido de dois anos para um. Essas recomendações, entretanto, podem ou não serem seguidas pelas federações esportivas.

Algumas pessoas se mostraram aborrecidas com essa decisão devido às supostas vantagens biológicas que as mulheres trans e as travestis teriam sobre as mulheres. Entretanto, se mesmo com a terapia hormonal, as mulheres trans ou travestis tivessem realmente uma grande vantagem biológica, onde estão elas nessas Olimpíadas? Não temos notícia nem sequer de uma pessoa trans que tenha se classificado entre os 11,5 mil atletas.

A realidade é dura. As pessoas trans são excluídas das Olimpíadas não por causa de qualquer condição biológica, mas sim porque vivemos numa sociedade muito transfóbica, que nos exclui das escolas, das famílias e do mercado de trabalho formal. A violência expulsa a maioria das travestis desses espaços e as empurra para a prostituição, do lado de fora dos estádios, onde elas poderão, quem sabe, aproveitar o turismo para ganhar um dinheiro extra. Mas, terão que tomar cuidado, pois a polícia está fazendo rondas extensivas devido à política de higienização dos governos. Sem dúvida, as jovens em situação de prostituição, em especial as negras e as travestis, estarão, como sempre, sujeitas à violência policial.

Temos que virar esse jogo
Nem o Comitê Olímpico, nem as federações nacionais, nem os governos ao redor do mundo terão uma política consciente e consequente de inclusão das LGBTs, em especial pessoas trans e intersexuais nas Olimpíadas, se não for pela nossa própria luta. LGBTs estudantes e trabalhadoras precisamos ainda lutar muito para garantir nossos direitos. Por políticas de permanência e acesso à educação, ao emprego e também nos esportes. Por uma Olimpíada que seja do povo e para o povo trabalhador.

Fontes:

http://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/bbc/2016/08/09/ela-e-o-amor-da-minha-vida-a-proposta-de-casamento-olimpica-que-comoveu-o-mundo.htm

http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2016/08/08/brasileira-do-rugbi-e-pedida-em-casamento-por-companheira-na-rio-2016.htm

http://extra.globo.com/famosos/retratos-da-bola/ex-judoca-namorada-de-rafaela-silva-assistiu-de-longe-vitoria-da-atleta-agora-eu-me-realizo-nela-19890835.html

Quem são os 44 atletas LGBT assumidos da Olimpíada Rio 2016?

http://www.lemonde.fr/societe/article/2015/07/05/natation-melanie-henique-victime-d-une-agression-homophobe_4671119_3224.html

http://www.dailytelegraph.com.au/sport/semenya-has-no-womb-or-ovaries/story-e6frexni-1225771672245?nk=c2484e454d38477d0ebe2056445707b9-1470931483

Foto: Reuters/Alessandro Bianchi/Direitos Reservados