Os desafios da resistência

Editorial 7 de julho

No dia 30 de junho, ocorreram mobilizações em aproximadamente 106 cidades. Em algumas capitais, como Fortaleza e Brasília, a paralisação aproximou-se de uma greve geral local. Entretanto, o fato é que não houve uma greve geral nacional. Tal fato significa uma inflexão negativa na conjuntura, uma vez que desde o dia 8 de março a resistência dos trabalhadores vinha crescendo e se fortalecendo.

Muitos se perguntam: por que isso ocorreu? Há um aparente paradoxo. Desde o dia 17 de maio, o governo Temer atravessa uma crise brutal. Se o inimigo está mais fraco, por que esta crise não potencializou a unidade entre as centrais sindicais e o ânimo popular para as mobilizações? Por que as bandeiras do Fora Temer e das Diretas Já, apesar de serem apoiadas pela ampla maioria da população, não mobilizaram as amplas massas trabalhadoras?

Neste texto, buscaremos fazer reflexões sobre estas questões. A análise marxista busca sempre encarar a realidade de frente: não trabalhamos com o desejável, mas com os dados da realidade. Ampliar, ou distorcer as nossas forças só ajuda os nossos inimigos de classe. Explicações unilaterais não servirão para compreender a realidade atual.

O papel das centrais sindicais
A direção das centrais sindicais políticas majoritárias entre os trabalhadores foram um fator negativo muito importante. Em primeiro lugar, demoraram em marcar a data da próxima greve geral.

O tempo na política não é um fator secundário, passaram-se mais de dois meses. O ânimo da classe com o êxito do dia 28 de abril não foi aproveitado. A marcha a Brasília, ainda que tenha sido importante, pela própria natureza do ato, foi uma ação de vanguarda, isto é, não envolveu as grandes massas trabalhadoras, como ocorreu na greve geral de abril.

Além do atraso, o próprio dia 30 de junho não foi preparado como o 28 de abril. Já nas últimas reuniões de preparação, tanto a Força Sindical, como a UGT se posicionaram contra a greve geral. Exigiram que o mote do dia 30 fosse: “Vamos parar o Brasil”.  Este foi o mesmo mote do dia 28 de abril, mas teve um conteúdo totalmente diferente, desta vez foi uma saída para manter formalmente a unidade, mas na prática não fazer a greve.

Embora a Força Sindical e a UGT sejam as principais responsáveis pelo recuo da greve, é preciso não esquecer que a CUT e a CTB tiveram, também, uma grande parcela de responsabilidade. A CUT é a maior central sindical do país, pelo seu tamanho e força. Se tivesse tido uma postura firme e decidida desde o início, poderia ter mudado o desfecho deste processo. Além de não ter denunciado as manobras da Força e da UGT, também não mobilizou com força total a sua própria base social. Até mesmo no ABC paulista, coração da CUT e do PT, não houve paralisação nas fábricas e montadoras, houve apenas um ato local. 

A verdade é que a CSP-Conlutas e a Intersindical foram as únicas vozes dissonantes na reunião das centrais. A classe deu seus primeiros e importantes passos na resistência. Era decisivo, portanto, que as direções dos sindicatos e das centrais tivessem mantido um calendário unificado coerente e firme, que inspirasse a confiança. Isso não ocorreu. Quem ganhou com isso foi o governo e a classe dominante.

O limites da reorganização, o desemprego e o medo da repressão
O papel negativo das direções foi importante e decisivo, mas não foi o único fator que contou para desmobilizar. É preciso tentar entender melhor o que se passa nos locais de trabalho, até para explicar porque foi tão fácil desmontar a greve.

A classe trabalhadora mede a correlação de forças o tempo todo, é assim em cada categoria, em cada campanha salarial, e também numa greve nacional. A vida está mais difícil com a crise, são milhões de desempregados, o medo pesa. Também pesa o assédio e a repressão no local de trabalho, que aumentaram muitíssimo de Norte a Sul do país entre os trabalhadores do setor público e privado.

No metrô de São Paulo, por exemplo, entre o dia 28 de abril e o dia 30 de junho, houve a negociação de campanha salarial. O mundo sindical mudou, depois de anos negociando pequenos aumentos, ganhos parciais, a proposta da patronal agora era negociar os cortes e as perdas. O governo de São Paulo chegou a propor um corte radical no plano de saúde. O acordo foi fechado no marco defensivo e não da conquista.

Ainda não surgiu uma vanguarda nos locais de trabalho com força para passar por cima dos aparelhos burocráticos. A velha burocracia não se sente ameaçada de perder o controle do processo, até aqui. Poucos sindicatos mudaram a sua direção ao longo das últimas décadas. O peso do conservadorismo e da burocracia pesam.

Em realidade, não estamos passando por um momento semelhante à década de 70 e 80 no movimento sindical brasileiro. Exemplos como os dos petroleiros do Rio de Janeiro, em que a oposição venceu as eleições, segue sendo a exceção. Os limites da reorganização, a repressão da patronal, o assédio no local de trabalho e o medo de perder o emprego são fatores que estão presentes e compõem o atual quadro nacional.

Além disso, o governo Temer fez uma manobra. Diante da brutal impopularidade da Reforma da Previdência, adiou a votação da PEC 287  e antecipou o projeto de Reforma Trabalhista.

Apesar de ser bastante impopular, esta reforma não tem a mesma rejeição que a Reforma da Previdência. Além disso, por não envolver mudanças constitucionais, a Reforma Trabalhista não precisa de maioria qualificada, o que facilita uma aprovação mais rápida.

A ausência de uma alternativa política
A classe ainda não vê uma nova alternativa política à esquerda perante a crise do país. Lula cresceu nas últimas pesquisas eleitorais, mas seu índice de rejeição é de 46%. Especialmente no Sudeste e no Sul houve uma ruptura expressiva com Lula. O quadro é distinto em várias outras regiões, sobretudo no Nordeste.

Lula e o PT seguem como a direção política da maioria da classe trabalhadora, mas já não tem a mesma força. Ao mesmo tempo, não há uma alternativa com peso de massas pela esquerda.

Por outro lado, cresce uma direita radical: Bolsonaro tem 16% nas pesquisas para presidente. São dois os efeitos negativos do fortalecimento da extrema direita, um é o reforço do peso de Lula pelo medo da direita. Por outro lado, a revelação de que saídas reacionárias estão crescendo e que as saídas individualistas e autoritárias são obstáculos para a mobilização independente dos trabalhadores.

Até agora, a Lava Jato e os escândalos de corrupção não potencializaram mobilizações progressivas
Os escândalos de corrupção são parte importante da crise política nacional. Muitos setores da esquerda apostaram que este pudesse de alguma forma ser útil na luta contra as reformas, o que seria legítimo, afinal é realmente o Congresso corrupto e vendido que está aprovando os ataques aos trabalhadores.

Mas, deve nos chamar atenção que até agora a única classe social que se mobilizou contra a corrupção foi a classe média em 2015 e o sentido de sua mobilização foi reacionário. Os escândalos do dia 17 de maio envolvendo diretamente o presidente Temer não foram impulsionadores de uma luta de massas pelo Fora Temer e as Diretas.

Ocorreram importantíssimos atos de vanguarda, mas esta causa, que é totalmente justa, não ganhou as ruas envolvendo milhões de trabalhadores. Alertamos diversas vezes que a confiança e o apoio da maioria da classe à operação Lava Jato não era um fator progressivo, mas ao contrário, é um fator negativo que atravessa a situação política brasileira.

Além de negativo, é potencialmente perigoso o peso popular que juízes, procuradores e até mesmo a polícia federal estão ganhando. Não serve para objetivos revolucionários que haja uma crise profunda com o presidente e com o Congresso, se no lugar dessas instituições se fortalece o poder judiciário. Este elemento é mais um obstáculo para a mobilização independente dos trabalhadores.

Os desafios do futuro
O grande desafio da esquerda é atuar para que a classe trabalhadora seja a protagonista na conjuntura nacional. Só assim vamos ter condições de resistir e vencer. Enquanto os atores principais da crise política forem o Congresso Nacional e Temer por um lado, e por outro o STF, os procuradores e a polícia federal, não teremos saída para o impasse atual.

Os dois blocos burgueses em disputa têm total acordo com as reformas e o ajuste fiscal, este ponto os unifica. Por isso, a equipe econômica de Temer é defendida pela grande mídia e os capitalistas. Henrique Meireles tem mostrado sua voz de comando, apoiado pelo mercado financeiro. Se Lula e o PT continuarem apostando nas negociações por cima, será um novo e gigantesco erro. É hora de jogar todas as fichas na classe trabalhadora. Ela não está derrotada, mostrou seu potencial nos últimos meses, está amplamente contra as reformas, mas precisa da mais ampla unidade para dar um passo seguro.

No próximo dia 10 haverá mobilizações contra a Reforma Trabalhista. Mas, para dar um passo firme, será preciso, em primeiro lugar, retomar a Frente Única de todas as organizações e movimentos. Vamos para as ruas. Será preciso recuperar as lutas para construir novamente a confiança e as condições para uma nova greve geral, que segue sendo uma necessidade urgente.

Com a classe trabalhadora mobilizada muitos desfechos positivos são possíveis. Entretanto, se a classe não for protagonista da situação política nacional, o cenário será sempre difícil e complexo.

Imagem: Iberê Camargo, 1914 – 1994, Restinga Seca, Rio Grande do Sul

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