OPINIÃO | O caminho do bem viver e uma esquerda que se faz pela ancestralidade

Por: Erahsto Felício, de Valença, BA

Porto Seguro, Bahia, Brasil, América, 517 anos do início da invasão portuguesa. A palavra era tecer a união dos povos através dos caminhos do bem viver. Povos originários (indígenas), trabalhadoras urbanos, sem terra, assentados, pequenas produtoras, quilombolas, estudantes, educadores populares, pesquisadores, trabalhadores da cultura, pescadoras, ribeirinhos e muitos povos que desde baixo se erguem contra o capitalismo se reuniram na V Jornada de Agroecologia da Bahia, ação da Teia dos Povos. Entre 19 e 23 de abril de 2017 a praia da Boca da Barra conviveu com um mosaico étnico-cultural e político, sempre abaixo e a esquerda.

Se nos últimos anos temos lido diversos editoriais de jornais de esquerda e artigos acadêmicos que apontam uma crise das esquerdas de modo geral e a necessidade de uma recriação de um populismo da esquerda, no caso eleitoral em específico, o fato claro é que nestes cinco dias de abril no Extremo-Sul da Bahia, não conseguimos ver crise alguma. Não estamos negando as dificuldades enfrentadas pelas esquerdas. O que estamos dizendo é que mesmo a tal crise das esquerdas, era combustível para a organização daquele povos tão diferentes culturalmente entre si, mas que congregavam o mesmo desejo: enfrentar o capitalismo e defender seus territórios.

O mote do encontro era “Terra e território: natureza, educação e Bem Viver”. Oficinas, rodas de conversa e mesas redondas trataram dos muitos fios desta trança com lideranças de movimentos sociais, intelectuais e educadores. Ficava claro que a Teia dos Povos não era um movimento, mas uma articulação entre muitos movimentos, comunidades e territórios em luta.

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Diferente das reuniões tradicionais dos movimentos de esquerda onde as falas mais importantes são de intelectuais ou de uma liderança renomadas, ali os momentos mais aguardados e acompanhados com esmero e atenção eram os rituais dos distintos povos que traziam à tona as tradições dos ancestrais para que os presentes continuassem a feitura da aliança entre os povos, a defesa dos territórios e a construção do bem viver.

Sim, é isto. Sempre pela manhã e em finais de tarde, maracas e atabaques tocavam, cantos das tradições populares se ouviam e a sabedoria ancestral aparecia. Ali se fazia uma esquerda que sabe o lugar da cultura do povo, que tem cheiro e som do chão, da floresta, das águas e da gente guerreira que habitou e lutou por liberdade. A descolonização ali não era discurso acadêmico, era feitura da cozinha à reza, do discurso à prática, da estética ao silêncio interior.

Não é uma metáfora sobre a importância dos que morreram lutando. É uma prática de valorização da ancestralidade através da espiritualidade. A força desta luta vem disto: “É o axé do nosso toré, é o axé do nosso terreiro, é o axé da nossa guia espiritual, porque nós somos fortes primeiro espiritual, depois a gente derruba todo mundo com a força física”, disse o mestre Jorge Rasta (Quilombo do Oiti – Itacaré-BA), um dos conselheiros da Teia, após um toré na jornada. Há aqui uma descolonização translúcida, feita sem o abrilhantar dos textos teóricos dos intelectuais, mas muito bem representada na primeira canção apresentada na noite do dia 21 de abril pelo Grupo Musical Viola de Bolso: “Escuta os velhos, fecha a tua boca. Ouça os sinais de quem cala. Sabedoria, palavra aliança. Os Encantados nos falam. Diversidade, reza e alegria. Nas cores vivas da sala. Mas quando é pra lutar: Caboclo guerreia”.

Um dos conselheiros da Teia dos Povos, Mestre Joelson (Assentamento Terra Vista, MST – Arataca-BA), salientou em suas falas a importante tarefa de construir a democracia. Não esta corrida eleitoral que nada diz sobre a liberdade de escolha. Dizia o mestre que para haver democracia há que acabar com a chantagem da fome, da falta de emprego e de condições de sobrevivência. Ninguém pode escolher seus representantes com liberdade quando não se pode plantar ao chão e colher o que se planta. Garantir a reforma agrária, a demarcação das terras indígenas e quilombolas, portanto, era um passo essencial para que houvesse um prelúdio democrático no país. Ou seja, o caminho da Teia dos Povos não é o apelo para uma urna eleitoral, mas, pelo contrário, o desafio de acabar com o latifúndio.

Não há apenas o latifúndio das terras. Há o das mídias, da formação, da tecnologia e este encontro fortaleceu ações em todas estas áreas. O mestre TC (Casa de Cultura Tainã e Rede Mocambos – Campinas-SP) discutia a urgência de não nos entregarmos às redes sociais capitalistas por não termos nenhum domínio sobre estas, seja no que tange o controle e circulação da informação nesta, seja a garantia da manutenção de arquivos que depositamos em seus servidores e todo o sistema de investigação sobre nossas vidas. O caminho da autonomia é também a construção de nossa própria rede de comunicação. A Babobáxia da Rede Mocambos é um exemplo de atuação nesta área. Por outro lado, enfrentar o latifúndio da formação e produção tecnológica só é possível com a construção, fortalecimento e manutenção de escolas autônomas. E as rodas de conversa para construção das quatro grandes escolas da Teia dos Povos na Bahia compreenderam que estas escolas já existem em nossos territórios e que o dever que se impõe agora é de consolidar uma educação popular para liberdade a partir dos saberes dos povos – é a descolonização da educação.

A Jornada de Agroecologia é apenas um dos grandes eventos da Teia dos Povos – há ainda, por exemplo, a Farinhada das Tupinambá da Serra do Padeiro (Buerarema-BA) e as Pedagogingas e Caruru dos Ibebejis (Itacaré-BA). Entre estas há mutirões, intercâmbios entre os territórios que fazem parte da Teia e outras formas de solidariedade entre os povos. Esta foi a primeira vez que a Jornada saiu do seu ninho, o Assentamento Terra Vista do MST (Arataca-BA), e o voo foi promissor. Espera-se que em 2019 possamos recriar esta atmosfera em outros ares, quiçás na Chapada Diamantina, centro da Bahia. Até lá o compromisso pela preservação das sementes criolas, na conexão com mais elos (territórios, povos) que compõem esta Teia, a luta contra o capitalismo e a defesa de nossas tradições está mantida, pois é certo que “o que nos une é maior do que o que nos separa”!

É um caminho que se faz na caminhada. A mestra Maria Muniz Pataxó Hã-Hã-Hãe (Pau-Brasil-BA) afirmava na jornada que neste caminho temos que continuar aprendendo, não importa a nossa idade nem o quanto o outro, a outra, que está falando possa saber. Sempre temos algo a aprender. Assim segue a Teia dos Povos, aprendendo a cada encontro, re-oxigenando-se com cada povo que se faz elo, e não aplicando modelos ocidentais de luta. Assim, todas as atividades eram realizadas por brigadas voluntárias: da infraestrutura, passando pela alimentação até a limpeza. O mais importante, muitos jovens dispostos a seguir um caminho heterodoxo dentro da militância, um caminho onde a sabedoria tradicional é o alimento da luta contra o capital.

Os companheiros e as companheiras da Teia dos Povos do Maranhão que vieram à jornada chegaram cantando: “Me dê licença dono da casa que eu já cheguei. Eu sou Mourão, sou Mourão que não brandeia. Eu vim aqui, foi meu pai quem me mandou. E abalou, abalou, abalou”. Não há dúvida que a aliança dos povos abala as estruturas de uma sociedade capitalista que apostou tudo na fragmentação de nossas bandeiras, pautas e territórios. Este é o medo do grande capitalista: quando a retomada do território quilombola estiver lotada de companheiros sem terra e trabalhadores urbanos em solidariedade. Quando a demarcação da terra indígena tiver aliançada com a luta de mulheres não-índias, mas que tem a certeza que nós só seremos livres juntos, que só haverá paz e justiça quando todos os povos de baixo estiverem conquistado sua autonomia!

Nestes cinco dias de abril muitas vezes gritamos e respondemos a uma palavra de ordem poderosíssima e com ela que fechamos este texto: “Diga ao povo que avance! Avançaremos”!

Fotos: Reprodução Facebook

*O texto reflete a opinião do autor e, não necessariamente, do Esquerda Online.

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