Antonio Candido: pensamento brasileiro perde uma de suas vozes mais tenazes

Por: Ana Crelia, professora da Faculdade de Letras da UFRJ

O pensamento brasileiro perdeu uma de suas vozes mais tenazes, pronunciada por quase setenta anos de atuação pública. Antonio Candido, em seus noventa e oito anos de vida, atravessou um século e viveu, como sujeito atuante, momentos cruciais da história do nosso país. A sua trajetória como professor de Literatura nunca se dissociou de uma visão complexa da sociedade e do humano.

Seu posicionamento mostrou-se firme contra o regime ditatorial de Getúlio Vargas, quando dentre outras ações, enviou a amigos uma carta em que denunciou a ação violenta da polícia contra estudantes de Direito, em 1943, que resultou na morte de um estudante, além de haver muitos feridos: “Porque há para nós um problema sério… Este problema é o do medo”. A firmeza do professor de literatura e crítico militante se mostrou mais tarde com maior evidência quando assinou o Manifesto da União Democrática Socialista, dirigido “Ao povo brasileiro – aos trabalhadores das cidades e dos campos – à mocidade das fábricas e das escolas”.

A tentativa de reunir as duas paixões – a Sociologia e a Literatura – levam à pesquisa de campo para o que se tornaria a tese Os parceiros do Rio Bonito, que é um tratado poético sobre a vida do homem simples, o caipira do interior de São Paulo. Dono de pensamento sofisticado e dotado de capacidade de clareza na exposição das ideias, revolucionou um espaço ocupado pela vaidade acadêmica. Poucas vezes se leu tão bem um texto literário como o fez o Professor, como era conhecido.

Seu compromisso com esse lugar e com a educação pública são inegáveis e percorrem sua escrita, como se pode notar em “Discurso de paraninfo”: “Independente da pesquisa e da criação, (…) é como professores que nos apresentamos à sociedade do nosso país e é nesta qualidade que tanto se espera de nós”.

Foto: Wikipedia

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A defesa da democratização dos estudos literários nunca foi tão contundente quanto no texto “O direito à literatura”, escrito na década de 80, e resgatado com tanto vigor nesses tempos em que direitos subtraídos relativizam as garantias conquistadas por meio de lutas contundentes. Das últimas conversas com ele, eu me lembro de dois momentos inesquecíveis.

No contexto anterior ao impeachment, declarou que a luta do capital pelo capital já deveria ter sido considerada obsoleta, uma vez que as faces da desigualdade não faziam questão de esconder a crueza dessa relação arbitrária. E completou: “Se não fosse o constante contraponto do Socialismo, o capitalismo já teria feito de nós uma hecatombe. Com quase cem anos, ainda afirmo: sou um socialista convicto. ” O outro episódio foi sobre seu lugar nas Letras.

Disse que se entregou à crítica militante e viveu um dos melhores momentos de sua vida, mas teve que virar as costas ao pedantismo acadêmico. “A base para minha crítica literária sempre foi a leitura e releitura das obras e a insistência na escrita sobre elas. Quando li Grande sertão: veredas pela primeira vez, pensei: valeu a pena viver todo esse percurso para ler esse monumento agudo e sensível”.

Professor, crítico literário, militante político, “sujeito humano”, como definiu o taxista, Antonio Candido nos deixa hoje com aquela sensação de quando terminamos de ler um livro magnífico e nos rendemos à pergunta: por que acabou? O consolo é saber que recolocado na estante, poderá ser revisitado. Assim construiremos o percurso a partir daqui: sabemos aonde ir quando a ausência pulsar como falta.

Antonio Candido, presente!

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