Nelson Xavier e a arte política no Brasil

Por: Mariana Mayor*, atriz, pesquisadora e professora de História do Teatro Brasileiro

Nesta quarta-feira (10), recebemos a triste notícia da morte do ator, diretor e dramaturgo Nelson Xavier, de 75 anos, em decorrência de um câncer no pulmão. Morre poucos dias depois de Belchior, e de outros tantos dessa geração de importantes artistas da década de 60 e 70.

Nelson Xavier, nos últimos anos, ficou conhecido pela sua atuação no filme espírita sobre a vida de Chico Xavier, e de suas participações em novelas da Rede Globo. Mas não por acaso, pouco se fala de seu passado de intensa participação no Teatro de Arena e no Cinema Novo. Para nós, essa é uma memória que interessa ser resgatada e preservada.

Nelson Xavier (na frente), Flavio Migliaccio e Milton Goncalves na peca 'Chapetuba Futebol Clube', do Teatro de Arena. foto: Hejo/Cedoc-Funarte

Nelson Xavier (na frente), Flavio Migliaccio e Milton Goncalves na peca ‘Chapetuba Futebol Clube’, do Teatro de Arena. foto: Hejo/Cedoc-Funarte

Natural de São Paulo, ainda bem jovem entrou na Escola de Artes Dramáticas (EAD) e, logo depois de formado, ingressou no Teatro de Arena, participando de um dos movimentos mais importantes da dramaturgia nacional: o Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena, espaço profícuo de experimentações formais e temáticas sobre a realidade brasileira. Nelson como ator, integrou o elenco das peças “Eles não usam-black-tie”, “Chapetuba Futebol Clube”, “Revolução na América do Sul” e “O Testamento do Cangaceiro”, entre outras peças do Arena.

Edição da Expressão Popular Foto: Reprodução

Edição da Expressão Popular
Foto: Reprodução

Em 1961, escreve, com coautoria de Augusto Boal e colaboração de Modesto Carone, Hamilton Trevisan e Benedito Araújo a peça “Mutirão em Novo Sol”, sobre a rebelião do Arranca Capim, liderada por Jôfre Corrêa Netto. A rebelião de camponeses, que havia ocorrido no município de Santa Fé do Sul, em São Paulo, em 1959, contra os desmandos e explorações de fazendeiros locais, ganhou repercussão nacional e criou em torno de Jôfre a imagem de agitador político, comparado pela imprensa local à Fidel Castro. Jôfre foi preso, e assim que conseguiu um habeas corpus, Nelson, juntamente com Boal, Carone, Trevisan, Araújo, Chico de Assis e Vianninha esperaram sua saída da prisão, no dia 1º de janeiro daquele ano, para recrutá-lo e entrevistá-lo.

Da conversa com Jofre foi criada a dramaturgia da peça, totalmente experimental, na forma de julgamento, com elementos épicos, canções e em defesa aberta de Jôfre e da luta camponesa. A peça foi apresentada no I Conferência de Lavradores do Estado de São Paulo, pelo CPC Paulista. Em 1962, Nelson dirigiu a montagem de “Mutirão” em Recife junto ao núcleo de teatro no Movimento de Cultura Popular do Recife. O MCP, como ficou conhecido, foi criado no governo de Miguel Arraes, em 1959, e colocou em prática um programa de alfabetização em massa coordenado por Paulo Freire. O MCP se tornou referência também na articulação entre arte e política da época, influenciando a criação e desenvolvimento do o Centro Popular de Cultura da UNE, uma organização cultural formada por jovens artistas e estudantes revolucionários, muitos deles saídos do Teatro de Arena.

osfuzis04Nelson nesse mesmo período participa como ator do filme “Os fuzis”, de Ruy Guerra, lançado em 1964, filme importantíssimo na história do cinema brasileiro, de temática também camponesa, como muitas obras que foram criadas nesse momento histórico. É ator também dos filmes “Os deuses e os mortos”, e “A queda”, de 1976, ambos de Ruy Guerra e este último também dirigido em parceria com Nelson Xavier, uma espécie de continuação urbana de “Os fuzis”.

Em 1964, participou como diretor de todo o processo de criação da peça “Os Azeredo mais os Benevides”, de Vianninha, que estrearia pelo Centro Popular de Cultura da UNE, mas que foi brutalmente interrompida pelo Golpe Militar. O prédio da UNE na virada do dia 31 de março para o dia 01 de abril foi incendiado, e em seguida começou a repressão a todo tipo de arte que se ligava a movimentos sociais.

Esse projeto de repressão não se deu somente com a perseguição de artistas e militantes, mas também pelo extermínio da memória desse período. É simbólico o depoimento do cineasta Orlando Senna que no pós- 64 foi torturado pelos militares e durante sua tortura, os militares picotaram a única cópia do filme documentário dirigido por ele e por Geraldo Sarno para a montagem de “Mutirão em Novo Sol” na Bahia.

No lançamento do livro “Mutirão em Novo Sol”, em São Paulo, no estúdio da Companhia do Latão , no final de 2015, Nelson Xavier estava presente e, emocionado, disse que depois do golpe “ficou desbaratinado”: todos os seus planos e expectativas artísticas e políticas estavam suspensas.

Os sonhos dessa geração foram destruídos em 1964. A memória de sua intensa produção artística também. Cabe a nós refazer as pontes e conexões com esse momento histórico. Compartilhamos do mesmo sonho e sabemos da importância de seu legado. Nelson Xavier, presente!

Foto: Divulgação

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