Fernando Holiday: representatividade a serviço de quem?

Por: Luiz Tombini e Rafael Bedoia, militantes do movimento negro e LGBT de São Paulo

“Negros que escravizam/ E vendem negros na África/Não são meus irmãos
Negros senhores na América/A serviço do capital/Não são meus irmãos
Negros opressores/Em qualquer parte do mundo/Não são meus irmãos
Só os negros oprimidos/Escravizados/Em luta por liberdade/São meus irmãos
Para estes tenho um poema/Grande como o Nilo” – Solano Trindade

As eleições municipais da cidade de São Paulo demonstraram que existe muitas diferenças na conformação política da cidade. Por um lado, temos a mudança de prefeito depois de quatro anos de governo petista para uma Prefeitura do PSDB de João Doria, abertamente um defensor da elite paulistana, com um programa de privatizações e contra os movimentos sociais. Por outro lado, para surpresa de muitos daqueles que lutam cotidianamente pelos direitos de negras e negros e LGBTs e para que exista na política cada vez mais representatividade desses setores, uma figura emblemática é eleita. Precisamos falar sobre Fernando Holiday.

Fernando ficou famoso depois de começar a publicar vídeos em seu canal do Youtube contra as práticas e pautas do movimento negro e LGBT. Com a repercussão de seus vídeos, ele se tornou membro do Movimento Brasil Livre (MBL) e, no domingo (02), ascendeu ao cargo de vereador da cidade de São Paulo com mais de 48 mil votos, pelo Democratas (DEM), ressuscitando um dos partidos mais conservadores do espectro político brasileiro. Sua filiação ao DEM não é por acaso, afinal ambos apoiaram o golpe parlamentar que colocou ilegitimamente Michel Temer no governo, visando acelerar o processo de ajuste fiscal que retira alguns dos mais elementares direitos da população.

Pelo fato de ele ser o primeiro gay assumido na Câmara de Vereadores e um dos poucos negros a atingir tal cargo, devemos analisar seu discurso para avaliarmos se de fato ele representa os anseios do povo trabalhador negro e das LGBTs. Dentre as diversas afirmações de Holiday em seus vídeos, ele chegou ao absurdo de afirmar que as cotas raciais, pauta histórica reivindicada pelo movimento negro, são racistas por, em sua visão, considerarem “que negros não são inteligentes o suficiente para conseguir uma vaga”. Também atacou a travesti que teve o rosto desfigurado pela PM, Veronica Bolina, descartando o sofrimento que as travestis e pessoas trans passam com sua marginalização, fazendo uma apologia de ódio ao movimento LGBT.

No entanto, Holiday não leva em consideração o fato de que nós, negros, vivemos uma situação calamitosa no Brasil, fruto de um verdadeiro crime cometido contra a população africana escravizada, o que acarreta uma inegável dívida histórica que o estado brasileiro tem com o nosso povo. Aqueles que vivem a realidade dos morros e favelas sabem bem do que estamos falando. Com toda a dificuldade de transporte nas cidades para quem mora na periferia, o absurdo que tem sido o acesso a uma boa qualidade de saúde e educação, o medo que sentimos cotidianamente quando nos deparamos com uma viatura policial que pode nos abordar de maneira violenta, ou mesmo levar nossas vidas como levaram a de muitos outros antes de nós, não é possível que Holiday não considere que temos muito mais barreiras que superar do que a população branca para ‘subir na vida’ e ter acesso à universidade.

Num país onde os negros recebem apenas 59% do que recebe um branco para um mesmo trabalho, em que a taxa de homicídios contra os jovens negros segue estratosférica, 2,4 negros são assinados para cada não negro, e uma longa lista de outros exemplos das estatísticas que a negritude tem que encarar todos os dias, Fernando Holiday é mais um que tenta infundir entre a juventude uma das maiores mentiras que a elite branca inventou, a de que no Brasil não existe racismo.

No caso do movimento LGBT, Holiday nutre um profundo desprezo e ódio. Consideramos sua declaração contra Bolina uma afronta, afinal nosso país é campeão em assassinato de LGBTs. Só em 2015, 318 LGBTs foram assassinadas por crimes de ódio, totalizando uma morte a cada 28 horas, de acordo com dados divulgados pelo Grupo Gay da Bahia. As mortes são a pior face da LGBTfobia, mas há que se considerar uma vida inteira de marginalização, LGBTs expulsas de casa pela não aceitação da família, que coloca as pessoas trans em sua maioria em situação de prostituição, também o direito a escola nos é negado quando não há política de combate à opressão LGBT na educação, e outros tantos caos. A violência que vivemos é regada pelos insultos cotidianos, pela desvalorização de nossa identidade, pela falta de espaços seguros de lazer, pela burocracia para se conseguir o nome social para pessoas trans, pela saúde que não é voltada para nós e pelo menosprezo de nossa luta. E para piorar, ainda não temos uma lei que criminalize os crimes motivados por ódio as LGBTs. Nos é negado literalmente o direito à vida.

Qual o limite da representatividade?
A população poderia se questionar se o fato de Fernando ser um jovem negro e gay não o qualificaria para debater na Câmara as pautas desses setores oprimidos, afinal, se nos é negado todos os dias a possibilidade de participar da política, não seria bom ter ‘um dos nossos’ nesses espaços de poder? Em nossa opinião, Holiday não é, nem nunca será ‘um dos nossos’. Já demonstrou a que veio. É mais um dos integrantes do exército reacionário dirigido por Michel Temer, que quer dilacerar os direitos dos trabalhadores e do povo pobre.

Não existe representatividade sem propostas de defesa dos oprimidos. Um verdadeiro representante dos jovens negros e das LGBTs deveria lutar para ampliar os espaços que nos são negados. Contraditoriamente, sua primeira ação na Câmara, segundo ele mesmo, visa extinguir a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e a Coordenação de Políticas LGBT, setor da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania. Que defensor dos oprimidos é esse que quer acabar com alguns dos poucos espaços que debatem as opressões, ainda que insuficientes, por pouco investimento que a Prefeitura anterior destinava?

Desde 2013, vemos um ascenso do movimento de opressões, que tem colocado a pauta dos oprimidos na prioridade das discussões políticas. A eleição de Fernando Holiday não representa mais que um investimento da elite desse país. A mesma elite que tentou enterrar nossa revolta com a sua repressão, como a que aconteceu com a Parada LGBT de Campinas desse ano, em 26 de junho. O resultado foi uma segunda Parada, mesmo sem o alvará da PM, uma clara demonstração de resistência. A última alternativa dessa elite foi trazer um oprimido para lutar contra nós, para se blindarem com o fato de ele também ser oprimido. Ao não poder barrar com suas formas tradicionais, através dos velhos políticos brancos, não-LGBTs e engravatados, as revoltas dos oprimidos, a elite precisa desenvolver em Fernando Holiday uma figura que sirva de bode expiatório das críticas aos seus ataques.

Holiday é parte do exército de João Dória, um milionário dono da décima maior mansão de São Paulo, o exército das privatizações e ataque aos oprimidos. Além disso, é aliado de Temer, que é conhecido por não ter nenhum oprimido em seu governo. Esse tipo de representação contradiz os nossos anseios. A representação que queremos é aquela que nos fortaleça para lutar por nossos espaços e por nossos direitos. E isso nos afirma uma vez mais: a tarefa de combater a opressão é uma tarefa de toda esquerda, oprimidos e não-oprimidos. Enquanto Fernando Holiday jorra seu discurso de ódio, nós oprimidos continuaremos nas lutas.

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