ESPECIAL

EDITORIAIS NEOFASCISMO

  • Repudiamos o atentado contra Jair Bolsonaro

    Na tarde desta quinta-feira (06/09), o candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) foi esfaqueado quando participava de atividade de campanha em Juiz de Fora (MG). Repudiamos o atentado e exigimos pronta e transparente investigação do ocorrido.

    Posicionamo-nos energicamente contra esse ato […]

ARTIGOS

VÍDEO "O que é o fascismo?"

No vídeo ao vivo do Esquerda Online o professor e historiador Demian Melo fala sobre qual o significado do fascismo.

  • O que podemos aprender com as experiências históricas?
  • O que Bolsonaro representa?
  • O que significa crescimento da extrema-direita e como combatê-la?
  • Fascismo e a luta contra as opressões, entre outros temas.

Assista e compartilhe!

O QUE LER PARA ENTENDER O FASCISMO

Por: Demian Melo

Não é qualquer partido ou movimento de direita que pode ser chamado de fascista. O fascismo é um fenômeno muito específico, uma direita muito específica, com caraterísticas que a diferenciam de outros movimentos de direita. Quando emergiu na Itália no imediato pós Primeira Guerra Mundial, o fascismo italiano se notabilizou pela mobilização de milícias armadas que atacaram violenta e mortalmente o movimento operário e a esquerda em geral.

Sendo um fenômeno característico do período do entreguerras, encontrado em diversas sociedades como movimentos de extrema-direita (como na Alemanha com nazismo, e no Brasil com o integralismo), e em alguns países como a Itália e a Alemanha, tais movimentos chegaram ao poder constituindo-se num regime político contrarrevolucionário. A recente emergência de movimentos fascistas em vários quadrantes do globo, incluindo no Brasil, produz uma enorme curiosidade militante sobre o assunto. Daí a necessidade de entender a natureza do fenômeno antes de chamar qualquer governo, instituição ou liderança política de fascista.

O propósito das linhas a seguir é de oferecer um guia de leituras fundamentais da tradição marxista e historiografia disponíveis em português para a compreensão do fascismo.

Como bem definiu Leon Trotski, o fascismo é uma contrarrevolução de baixo para cima, uma contrarrevolução que se vale dos métodos da guerra civil para liquidar com as organizações autônomas da classe trabalhadora. Os principais escritos que Trotski dedicou ao assunto foram compilados por Mário Pedrosa e publicados com o nome de Revolução e Contrarrevolução na Alemanha, ainda nos anos 1930. Um dos pontos, aliás, que merece destaque nesses escritos, é a crítica do revolucionário russo à orientação da Internacional Comunista que, baseando-se numa definição irresponsável, atribuía o epíteto de “fascista” à mais variada gama de governos e partidos, até o partido socialdemocrata alemão, tachado pela orientação stalinista de “social-fascismo”. Uma importante contribuição de Revolução e Contrarrevolução na Alemanha é a forma como Trotski discute as diferenças entre os regimes políticos assumidos pelo Estado capitalista, distinguindo, por exemplo, a estrutura das ditaduras fascistas das ditaduras militares e dos regimes bonapartistas.

O marxista italiano Antonio Gramsci vivenciou o drama de assistir em sua terra natal a emergência do fascismo, que lhe levou à prisão de 1926 até o fim de seus dias. Antes de ser preso, quando trabalhou como jornalista e liderança do movimento dos conselhos de fábrica em Turim, como depois quando se tornou dirigente do Partido Comunista Italiano, Gramsci escreveu uma série de análises seminais sobre o assunto, compiladas no segundo volume dos Escritos Políticos, recentemente editado no Brasil. Depois de preso, como é conhecido, Gramsci escreveu três dezenas de cadernos escolares com uma apurada reflexão sobre a teoria política, dentro das quais existe todo um manancial conceitual importante para entender o fenômeno do fascismo, como os conceitos de crise orgânica, cesarismo, guerra de posição, revolução passiva e transformismo. Os Cadernos do Cárcere são um texto árido, e uma das muitas razões deve-se ao fato de que seu autor teve que burlar a censura fascista desses escritos. Daí que seja recomendável o uso de comentadores como auxílio à leitura, como o livro O Laboratório de Gramsci, de Alvaro Bianchi e o Dicionário Gramsciano, recentemente editado no Brasil. Naqueles de número 13 e 22 é onde existe o maior número de notas dedicadas ao assunto.

Após a comprovação do desastre da linha seguida pelo Partido Comunista da Alemanha, com a ascensão do nazismo, liquidação da esquerda e instalação do regime fascista alemão, a Internacional Comunista se viu diante de um impasse: como rever a linha política e continuar parecendo coerente? Uma das contribuições interessantes nesse processo foi um curso dado pelo dirigente comunista italiano Palmiro Togliatti, que no verão de 1935 ofereceu um curso na Escola Quadros da Internacional em Moscou, material que só em 1970 seria publicado com o nome de Lições sobre o fascismo. Há no curso uma densa explicação das características do regime fascista italiano, particularmente das instituições criadas pelo fascismo para integrar as massas populares, sejam os sindicatos fascistas, sejam as instituições culturais dedicadas à organização do “tempo livre” (o tempo fora do trabalho).

O filósofo marxista brasileiro Leandro Konder dedicou um importante livro sobre o assunto na década de 1970. Introdução ao fascismo foi escrito, entre outras razões, para combater a tendência de diversas correntes da esquerda de caracterizar as ditaduras militares latino-americanas como fascistas. Assim, através de uma erudita retomada das principais teorias explicativas do fascismo, desde aquela produzida por contemporâneos, como pela historiografia produzida após a Segunda Guerra Mundial, Konder escreveu um dos melhores textos em língua portuguesa sobre o assunto.

Em 1970 o cientista político marxista Nicos Poulantzas produziu uma obra de grande envergadura: Ditadura e Fascismo: a III Internacional face ao fascismo. Como o próprio título diz, Poulantzas fez o resgate do grande debate entre os intelectuais marxistas no período de emergência do fascismo, destacando as contribuições e os limites de autores como Gramsci, Togliatti, Trotski, August Thalheimer, entre outros, Poulantzas também contribui na compreensão das diferenças entre as ditaduras que o Estado capitalista pode ser apresentar (particularmente: ditadura fascista, ditadura militar, bonapartismo).

Trabalhando na fronteira do diálogo entre o marxismo e a psicanálise freudiana, o revolucionário alemão Wilhelm Reich começou a escrever em 1932 o livro que no fim de 1933 seria publicado com o nome de A psicologia de massas do fascismo. Buscando investigar a adesão de setores de massa aos movimentos fascistas, o nazismo em particular, Reich buscou em aspectos culturais marcados pela repressão sexual (o que, podemos dizer, estrutura opressões odiosas como o machismo, a homofobia etc.) a predisposição de setores da pequena burguesia de aderirem a movimentos que prometem ordem, liderados por figuras carismáticas que representam uma espécie de “pai salvador”, um pai autoritário capaz de resolver todos os problemas. É claro, dialogando com o marxismo, Reich está atento ao contexto da crise do capitalismo, do fracasso/bloqueio da revolução alemã como base objetiva de tal processo.

Um pouco mais difícil de encontrar, mas não menos importante, é o livro do marxista belga Ernest Mandel sobre o assunto. Há apenas uma edição portuguesa, da editora Antídoto, onde consta o texto do dirigente trotskista seguido de alguns dos textos de Trotski presentes na já mencionada compilação Revolução e Contrarrevolução na Alemanha.

No livro do economista marxista americano Paulo Sweezy Teoria do Desenvolvimento Capitalista há um importante capítulo sobre o Fascismo. O autor basicamente apresenta e desenvolve a teoria do fascismo elaborada pelo marxista austríaco Otto Bauer na década de 1930, integrando-a à sua teoria sobre a dinâmica do capitalismo monopolista.

O marxista peruano José Carlos Mariátegui viveu na Itália quando da ascensão do fascismo. Uma série de artigos publicados naquele país foram reunidos pelo historiador Luis Bernardo Pericás no livro As origens do fascismo. A própria introdução ao volume escrita por Pericás apresenta elementos fundamentais para a compreensão do fascismo italiano.

O livro do historiador e cientista político americano Robert Paxton Anatomia do Fascismo é uma das melhores publicações disponíveis no Brasil. Além de uma erudita exposição dos principais processos que caracterizaram o fenômeno do fascismo na Itália e na Alemanha no período do entreguerras, há um apurado ensaio bibliográfico com a apresentação sumária da importante e vasta historiografia sobre o assunto.

O livro do historiador americano Donald Sasson é um dos melhores textos em português sobre a ascensão do fascismo na Itália. Traz uma contribuição teórica importante que é a de desmontar a hipótese de que o fascismo possa ser referido como um movimento supostamente “revolucionário”.

Autor de uma extensa produção sobre o assunto, o historiador britânico Ian Kershaw é autor de duas biografias de Adolf Hitler disponíveis em português. A primeira é o pequeno livro Hitler – um perfil do poder, onde entre outras coisas trata dos principais episódios da história política alemã que permitiram a emergência do movimento nazista e a ascensão de Hitler.

O primeiro grande estudo sobre o primeiro movimento fascista brasileiro, a tese de doutorado de Hélgio Trindade Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 1930 é um trabalho historiográfico obrigatório.

Nessa obra, o historiador marxista brasileiro Gilberto Calil investiga a reorganização do movimento integralista no Brasil após o fim do Estado Novo e sua atuação durante o regime de 1945-1965 através da legenda do Partido da Representação Popular (PRP). O trabalho aponta a importância política que a agremiação teve especialmente na região sul do país, como também a atuação de seus ativistas entre as forças políticas, militares e empresarias que articularam o golpe de 1964.

Há uma enorme carência de pesquisas e publicações sobre os movimentos fascistas mais contemporâneos, e uma contribuição importante nesse terreno é o livro da historiadora Tatiana Poggi, Faces do Extremo – o neofascismo nos EUA 1970-2010. Fruto de sua tese de doutorado, sua pesquisa abordou três organizações neofascistas americanas – National Alliance, White Aryan Resistance e Aryan Nations – atuantes até hoje, inserindo-as no processo mais geral de emergência da direita neoliberal naquele país.

DICAS CITADAS NO VÍDEO

Fascismo S.A. (Documentário) – 

O que é fascismo? (Leitura ObrigaHistória) –