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  • Carnaval também é luta, Carnaval também é conscientização

    Recebi pelo whatsapp a notícia de que uma escola de Samba do Rio de Janeiro lançou um samba-enredo para o carnaval deste ano falando da conscientização sobre o autismo. A mensagem não é verdadeira, mas mesmo assim, gostaria de discutir o samba, de autoria de Ito Melodia e Dudu das Candongas:

    Sou um artista de um mundo solitário

    “Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
    Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus
    Tenho direito de ser diferente
    Eu quero que você entenda
    Nessa inclusão de amor
    Me aceite do jeito que eu sou
    Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
    Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus
    Uma estrela de um mundo tão distante
    Onde ninguém consegue alcançar
    Eu tenho brilho fascinante
    Que vai muito além do seu olhar
    Eu vim lá do mundo de meu Deus
    Onde eu sou você, você sou eu
    Tenho segredos a revelar
    Mas com palavras eu, não sei explicar
    Nessa interação de amor eu vou
    Quero conquistar o meu lugar
    O meu coração chorou, chorou
    Quando você veio me abraçar
    Tenho direito de ser diferente
    Eu quero que você entenda
    Nessa inclusão de amor
    Me aceite do jeito que eu sou
    Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
    Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus”

    No final da música, junto da letra original, é dito “Quando perdemos o direito de sermos diferentes, perdemos o privilégio de sermos livres”.

    Importante sempre reler meu texto sobre o quão a luta contra o capacitismo (a discriminação contra as pessoas com deficiências) tem de ser mister para a Esquerda. Infelizmente, ainda vejo pessoas que são da opinião de que estamos “glamourizando” transtornos mentais.

    Primeiro, se salientar que nós também somos pessoas de direito é glamourizar, então sim. Segundo, pessoas com “transtornos” mentais tem espaço nessa sociedade, tem que ter pleno direito a aceitação, amor, saúde e a cura (se necessário).

    Um outro ponto e, que é o que eu quero focar, é de que o Carnaval seria um período de distração, portanto deveria ser livre de qualquer tipo de discussão ou debate. Com o ganho de direitos, parcelas oprimidas da sociedade estão se sentindo na liberdade de denunciar o que as magoa e oprime, e logicamente isso está incomodando aos setores que não querem abrir mãos de seus privilégios.

    Desde que eu me entendo por gente, o Carnaval é visto como uma necessária válvula de escape para o povo. É o período em que todos deveriam se desligar de suas preocupações e se divertir em comunhão. Seria o período do sem-limites e sem regras. Do pode-tudo.

    Não. Não é assim. Eu, e espero que os que me leem também, luto contra toda forma de se oprimir e machucar outrem. Se for opressivo, ruim, fascista, deve sim ser combatido.

    “Ah, mas se for assim tem que abolir as marchinhas que falam mal de preto, de índio, de gay”. Sim, se forem opressivas, sim. “Ah, mas é tradição do nosso país”. Isso sim. Nosso país tem uma longínqua tradição (desde antes de o Brasil ser um estado independente em 1822) de oprimir e subjugar os povos e raças que são considerados inferiores.

    A Escravidão foi muito comum e (legalmente) aceita por séculos, e seus resquícios ainda persistem. Portanto devemos ceder a ela, dado que seria uma tradição? E o machismo e LGBTfobia centenários que fazem parte de nossa cultura? Devemos também aceitá-los como sendo nossa tradição? Isso sem falar da sempre persistente relação do poder secular com o poder religioso.

    Só por que é uma tradição não a torna mais aceitável ou melhor. E só por ser um momento de festividades e celebração, não temos o direito de perpetuar círculos longínquos de opressão e preconceito. O Carnaval pode e deve ser problematizado, assim como qualquer coisa está passível de ser problematizada e contestada.

    Fico muito contente que em mais um lugar alguém está se lembrando de nós autistas. O nosso principal problema ainda é a falta de conhecimento acerca de nossas características e necessidades. O Carnaval é sim um momento de conscientização.

    Um dizer carnavalesco que eu sempre desgostei foi: “Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é. Ou é ‘ruim da cabeça’, ou doente do pé”. Esse dizer é bem ofensivo para quem tem alguma deficiência mental ou física. Além disso, cada pessoa tem o direito de gostar de seu próprio estilo de música e é muito ruim associar isso a alguma deficiência mental ou física. Ser “ruim da cabeça” não torna ninguém automaticamente “mal sujeito”. Afinal, doentes são os genocidas que jogaram 6 milhões para morrer em câmaras de gás em Auschwitz.

    E eu não tenho que não saber dançar para desgostar de uma música. Eu não sei dançar Valsa, por exemplo, nem Samba, ou o que seja, e isso não me faz gostar mais ou menos que esses dois, por exemplo.

    E a propósito da terceira afirmação, ser “doente do pé”. Bom, uma pessoa ter dificuldade ou ainda impossibilidade de locomoção não fará dela necessariamente uma desgostosa de Samba. E creio que existe uma leve diferença entre andar e dançar o estilo que seja.

    Meus sinceros parabéns aos autores pela importante iniciativa, por usarem esse importante evento da cultura brasileira para lançar mão da conscientização da inclusão. Por mais pessoas com deficiência no carnaval, se divertindo, e por que não, com pessoas as ajudando a dançar o samba, se assim quiserem. O Samba, Frevo, ou até então uma boa e velha Valsa Vienense. Que cada um tenha direito para dançar o quer e o que pode, numa festa divertida, sem opressões e com liberdade.

  • Cinco mentiras que te contaram sobre Jean Wyllys

    Em janeiro, o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) se refugiou na Espanha para não ser assassinado, após incontáveis ameaças. Ainda após a eleição, Jean já alertava para a grande quantidade de mentiras inventadas contra ele. “Eu resisti a um ataque sem precedentes a um candidato. Só o candidato à presidência Fernando Haddad foi quase difamado como eu fui. Ninguém foi tão difamado como eu”, disse o parlamentar. As fake news contribuíram também para o aumento das ameaças e do ódio contra ele. Mas não pararam com a sua renúncia. Imediatamente começaram a circular nas redes sociais novas fake news contra Jean, além das antigas. Abaixo listamos as cinco mentiras sobre ele que tentam fazer você acreditar.

    1 – Jean Wyllys não tinha reais motivos para sair do país

    Mentira. Jean andava com escolta policial desde março de 2018 e as pessoas que o ameaçavam sabiam endereços e placas de carro dele e de seus familiares. As ameaças se estenderam a seus familiares. Um membro da quadrilha que queria matá-lo chegou a visitar a Câmara dos Deputados para testar o sistema de segurança do local. Depois da morte da vereadora Marielle Franco a coisa piorou. As ameaças não são apenas bravatas de internet. Foram cinco inquéritos abertos pela Polícia Federal nos dois últimos anos. Jean corre risco de morte e por isso vivia como se estivesse “em cárcere”, isolado dos demais. Não tendo garantias de vida por parte do Estado e vendo o aumento da intolerância e das relações das milícias com o estado, resolveu se proteger, deixando o país.

    2 – Jean teria ligações com o homem que tentou matar Bolsonaro

    Mentira. Esta fake news começou logo após a decisão de Jean Wyllys de deixar o país. Tenta apontar Jean como o mandante do atentado e que estaria deixando o país com medo de ser preso por isso. Mas não há sequer inquérito policial que ligue Jean Wyllys a Adélio Bispo, homem que esfaqueou Bolsonaro no ano passado. Adélio chegou a ser filiado ao PSOL, mas pediu desfiliação em 2014. Ele chegou a visitar a Câmara dos Deputados em 2013, mas não se sabe se visitou algum gabinete. O boato surgiu depois de uma série de notícias falsas. Nenhuma delas cita uma fonte confiável, a maioria é cheia de erros (sequer conseguem escrever o nome do deputado direito) e nenhuma acertou o país em que Jean está.
    A acusação caluniosa, feita também por Lobão, logo se transformou na hashtag #InvestigarJeanWillis.
    Outra mentira diz que Jean estaria fugindo para não ser preso por “desvio de dinheiro”. A acusação não diz que desvio seria esse nem qual é a denúncia. Apenas tenta esconder a gravidade que é um deputado ter que deixar o país para seguir vivo.

    3 – Jean Wyllys defenderia a pedofilia

    Mentira. Os absurdos criados por pessoas mal intencionadas não têm limites. Uma notícia falsa relata uma suposta entrevista na rádio CBN na qual o deputado teria elogiado a pedofilia. O deputado nega a entrevista. O áudio dessa suposta declaração não existe. A própria rádio CBN desmentiu o boato.

    Trata-se de mais uma tentativa absurda de associar a homossexualidade e a esquerda com a pedofilia. Como na montagem grosseira que chegou a circular associando ele e a deputada Maria do Rosário como autores de um projeto que “descriminalizaria a pedofilia”.

    Jean também foi acusado de dizer que o “casamento infantil islâmico” é algo normal. Nesse caso, os mentirosos chegaram a falsificar uma postagem no perfil de Jean no Twitter de Jean. A montagem foi tão tosca que o suposto “tweet” tinha mais de 140 caracteres, acima do que a rede social aceitava na época.

    4 – O deputado teria declarado guerra ao cristianismo

    Mentira. Essa é bem conhecida. Há boatos de que ele chamou os cristãos de “palhaços”, propôs “emenda à Bíblia”, entre outros absurdos. Jean é um defensor da livre manifestação de todas as religiões e gravou um vídeo sobre isto. Não há nenhuma gravação, registro oficial ou postagem em rede social em que Jean Wyllys ofenda a religião cristã ou qualquer outra.

    5 – Jean Wyllys nunca teria trabalhado na vida

    Mentira. Filho de uma lavadeira, o ex-deputado trabalha desde a infância, quando tinha que vender algodão doce na rua para ajudar no sustento da família. Foi selecionado para estudar na Fundação José Carvalho, dedicada ao ensino de crianças com inteligência acima da média. Ele se formou em jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, fez pós-graduação e foi professor universitário.
    A mesma fake news afirma que Jean teria se aproveitado da fama de “Big Brother” para entrar na política. Antes de participar do “Big Brother Brasil” ele havia sido ativista nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica e depois no movimento LGBT.

     

    DENUNCIE – O PSOL acionou o seu departamento jurídico e recebe denúncias contra Fake News e ameaças a Jean Wyllys. O primeiro e-mail divulgado não suportou a quantidade de denúncias recebidas. Um novo endereço foi criado. Anote:  [email protected]

    Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

  • Entidades do Rio de Janeiro lançam manifesto sobre o rompimento da barragem da Vale

    Texto, que já foi assinado por mais de cem organizações, sindicatos, mandatos e partidos, foi lido em ato público no dia 01 de fevereiro, no Rio de Janeiro.

     

    MANIFESTO EM SOLIDARIEDADE AOS ATINGIDOS PELO ROMPIMENTO DA BARRAGEM DA VALE EM BRUMADINHO/MG

    Vale mais o lucro do que a vida? Um manifesto pelo direito à vida!

    Rio de Janeiro, 1 de fevereiro de 2019

    Três anos se passaram desde o crime da Samarco (Vale/BHP) com o rompimento da barragem de Fundão em Mariana/MG. Nada mudou! Um rio marrom levou lama da serra ao mar por mais de 600 Km. 19 pessoas morreram e uma mãe perdeu seu bebê ainda no ventre. E o rio Doce? Também morreu.

    Agora a história se repete como tragédia. Mais uma vez a Vale mata o rio Paraopeba e ameaça matar o São Francisco. Brumadinho chora desde o dia 25 de janeiro, nós também. Dezenas de corpos já foram encontrados sem vida. Centenas ainda estão desaparecidos e o rompimento da barragem da Vale é o maior acidente trabalhista da história deste país. Até quando o lucro valerá mais do que vidas humanas? Até quando continuarão saqueando nossos minérios e os levando para o exterior, enquanto aqui nos resta a lama e a morte? Até quando o assombro do rompimento de barragens vai nos perseguir?

    Em Brumadinho, o poder público não escutou as comunidades e atuou em favor do poder corporativo para liberar as licenças de ampliação do complexo de barragens em dezembro de 2018. Essa liberação vem acompanhada pela defesa feita durante toda a campanha eleitoral por Jair Bolsonaro da necessidade da flexibilização do licenciamento ambiental. E três dias após o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, voltou a falar da necessidade da revisão dos licenciamentos. O ministro foi denunciado pelo MP-SP e, em 2018, condenado por improbidade administrativa na 3ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo por favorecer empresas mineradoras. Se o atual sistema de licenciamento fragiliza o controle e a fiscalização sobre a segurança de barragens e favorece as grandes empresas, como ficará depois de flexibilizado?

    Uma empresa privada funciona a partir dos interesses de seus acionistas majoritários. A Vale S.A. regula seus investimentos a partir do valor estipulado para o minério de ferro no mercado internacional. Em 2011 o preço da tonelada de minério de ferro era US$179 dólares, em janeiro de 2015 era de US$68. Quando cai o preço do minério, ela corta seus custos justamente na áreas de segurança do trabalho e de monitoramento. Chega de uma empresa que funciona para garantir o lucro de seus acionistas!

    E por fim, um alerta: o que aconteceu em Brumadinho e no vale do rio Doce está mais perto do que imaginamos. Existem no Rio de Janeiro 29 barragens, das quais 6 apresentam alto risco de rompimento (Dano Potencial Associado), segundo estudo elaborado pela Secretaria Estadual de Ambiente e pelo Inea. São elas: Juturnaíba, Saracuruna, Rio Imbuí, Triunfo, Lago Javary e Gericinó.

    Não queremos que crimes como o de Mariana e Brumadinho ocorram aqui. Não queremos barragens rompendo sobre nossas terras, casas e corpos. Convocamos o povo brasileiro, pelo espírito de solidariedade e justiça social que nos move, a apoiar as famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Brumadinho, entendemos que se trata de um crime continuado pela Vale contra o povo brasileiro, e exigimos justiça e que a morte de pessoas, de animais, dos rios e do meio ambiente não fiquem mais uma vez impunes.

    #ValeAssassina #PrivatizaçãoMata #SosBrumadinho #NãoFoiAcidente #MassacredaVale #SomosTodosAtingidos

     

    Assinam este manifesto:
    Frente Brasil Popular
    Frente Povo Sem Medo
    Associação Dos Empregados Da Eletrobrás
    Associação Dos Empregados De Furnas
    Associação Dos Servidores Federais Da Área Ambiental No Estado Do Rio
    De Janeiro
    AMACON – Maricá
    Articulação Popular
    Articulação Internacional dos Atingidos e Atingidas pela Vale
    Associação Municipal Dos Estudantes Secundaristas – AMES Rio
    Braços Dados – Trabalhadores Anticapitalistas
    Brigadas Populares
    Coletivo De Mulheres Elza Monerat
    Coletivo De Negros E Negras Osvaldão
    CTB RJ
    CUT RJ
    Centro Rui Mauro Marini
    Consulta Popular
    Coletivo Jovem de Meio Ambiente de Minas Gerais
    DCE UERJ
    DCE Universidade Estadual da Zona Oeste
    Diretório Acadêmico de Biologia da Universidade Estadual da Zona Oeste
    CAPF UERJ – Centro Acadêmico Paulo Freire – Pedagogia
    Estiva – Rio
    Escola De Teatro Popular
    Enegrecer
    Fase – Federação De Órgão Para Assistência Social E Educacional
    Favelas Pela Democracia
    Fisenge: Federação Interestadual De Sindicatos De Engenheiros
    Fetag
    Fetagri
    Frente Antifascista De Cultura
    Federação Nacional Dos Urbanitários
    Federação Única Dos Petroleiros
    Frente De Evangélicos Pelo Estado De Direito
    Fórum De Mudanças Climáticas E Justiça Social – RJ
    Grupo de Pesquisador em Educação Ambiental, Comunicação e Arte,
    GPEA – UFMT
    Grupo de Estudos em Educação Ambiental Desde El SUR
    Grupo Rebelião
    Instituto Caracol – ICA
    Justiça Global
    Justiça nos trilhos
    Levante Popular Da Juventude
    Movimento Dos Atingidos Por Barragens
    Movimento Dos Pequenos Agricultores
    Movimento Dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
    Movimento Humanos Direitos
    Movimento Baia Viva
    Movimento Kizomba
    Movimento Popular De Favelas
    Movimento Negro Unificado
    Movimento RUA Juventude Anticapitalista
    Movimento Nacional De Luta Pela Moradia Caxias
    Movimento Nacional De Catadores De Resíduos Recicláveis
    Movimento Marxista 5 De Maio
    Marcha Mundial De Mulheres
    Núcleo Piratininga De Comunicação
    Observatório da Educação Ambiental
    Partido Comunista Do Brasil
    Partido Comunista Brasileiro
    Instituto Pacs – Políticas Alternativas Para O Cone Sul
    PSOL Rio De Janeiro
    Rede De Médicos E Médicas Populares
    Rede Internacional de Pesquisadores em Educação Ambiental e Justiça
    climática, REAJA
    Rede Mato-grossense de Educação Ambiental, REMTEA
    Rede Emancipa – Movimento Social de Educação Popular
    Setorial Ecossocialista Do PSOL
    Sindicato Dos Trabalhadores Da Fiocruz
    Sindomestica Nova Iguaçu E Região
    Sindipetro Caxias
    Sindipetro Norte Fluminense
    Sindicato Dos Administradores
    Sindicato Dos Correios Do Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Engenheiros Do Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Economistas Do Estado Do Rio De Janeiro
    Sindicato Nacional Dos Oficiais Da Marinha Mercante
    Sindicato Dos Pescadores Dos Estados Do Rio De Janeiro E Do Espírito
    Santo
    Sindicato Dos Servidores Da Justiça Federal
    Sindicato Estadual Dos Profissionais De Educação Do Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Metalúrgicos Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Trabalhadores Nas Indústrias De Alimentação De Niterói
    Sindicato Nacional Dos Marinheiros Mocos Em Transporte Marítimo
    Sinfa
    SINTUF – RJ
    Sindicato Dos Servidores Públicos Municipais De Bom Jardim
    Sindicato Dos Trabalhadores Rurais Assalariados De Campos
    Sindicato Dos Profissionais Servidores Públicos Municipais Da Região
    Dos Lagos
    Sintsama
    Sindicato Nacional Dos Enfermeiros Da Marinha Mercante
    Sindicato Dos Trabalhadores Offshore Do Brasil
    Sinpro – Baixada
    Sinpro Rio
    Sindicato Dos Empregados No Comercio Do Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Metalúrgicos De Queimados
    Sindicato Dos Servidores Públicos De Nova Iguaçu E Mesquita
    Sindicato Dos Servidores Públicos Do Município De Magé
    Sindicato Dos Funcionários Públicos Municipais De Volta Redonda
    Sindicato Dos Auxiliares E Técnicos De Enfermagem Do Rio De Janeiro
    Sindicatos Dos Funcionários Públicos Do Município De Resende
    Sindicato Dos Músicos Profissionais Do Estado Do Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Servidores Públicos Municipais De Três Rios
    Sindicato Dos Servidores Públicos Civis Municipais De Macaé
    Sindicato Dos Trabalhadores Na Indústria De Produtos Farmacêuticos E
    Químicos
    Sindicato Dos Metalúrgicos De Angra Dos Reis
    Sindicato Dos Servidores Públicos Do Município De Maricá
    Sindicato Dos Servidores Públicos Municipais De Angra Dos Reis
    Siprosep
    Sindicatos Dos Trabalhadores Rurais De Itaboraí
    Sindicato Dos Servidores Municipais De Natividade
    Sindicato Dos Guardas Municipais E Vigias Da Guarda Municipal De
    Macaé
    Sindicato Dos Trabalhadores Da Indústria De Construção Pesada De Angra
    Dos Reis E Paraty
    Sindicato Dos Trabalhadores Nas Empresas De Energia Do Rio E Região
    Sindicato Dos Trabalhadores Na Indústria De Energia Elétrica De Niterói
    SINTTEL RIO
    Sindicato Dos Trabalhadores No Combate Às Endemias E Saúde
    Preventiva No Estado Do Rio De Janeiro
    SINTRAMICO – Sindicato Dos Trabalhadores No Comercio De Minérios
    E Derivados De Petróleo Do Estado Do Rio De Janeiro
    Sindicato Dos Ferroviários Do Maranhão, Pará E Tocantins
    Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil,
    Mobiliário, Montagens Industriais e Construção Pesada de Volta Redonda,
    Barra Mansa, Resende, Itatiaia, Quatis, Porto Real e Rio Claro/RJ
    SEEB Baixada Fluminense
    Sindicato dos Bancários de Nova Friburgo e Região
    Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro
    União Cabofriense Dos Estudantes
    União Da Juventude Socialista Rio De Janeiro
    União Da Juventude Socialista Carioca
    União Brasileira De Mulheres
    União Brasileira De Estudantes Secundaristas
    União Nacional De Estudantes
    União Da Juventude Comunista
    União Estadual Dos Estudantes
    União Estadual Dos Estudantes Secundaristas
    União De Negros Pela Igualdade – UNEGRO
    Unidade Popular Pelo Socialismo
    Unidade Classista
    Deputada Federal Jandira Feghali (PCdoB)
    Deputado Federal Marcelo Freixo (PSOL)
    Deputado Federal Glauber Braga (PSOL)
    Deputada Federal Benedita Da Silva (PT)
    Deputado Estadual Waldeck Carneiro (PT)
    Deputada Estadual Rosangela Zeidan (PT)
    Deputado Estadual Eliomar Coelho (PSOL)
    Deputada Estadual Dani Monteiro (PSOL)
    Deputada Estadual Renata Souza (PSOL)
    Deputada Estadual Enfermeira Rejane (PCdoB)
    Mandato Deputada Federal Talíria Perrone (PSOL)
    Mandato Coletivo Deputado Estadual Flávio Serafini (PSOL)
    Mandato Deputada Estadual Mônica Francisco (PSOL)
    Mandato Vereador Babá (PSOL-RJ)
    Mandato Vereador Leonel Brizola Neto (PSOL-RJ)
    Mandato Vereador Paulo Pinheiro (PSOL-RJ)
    Mandato Vereador Tarcísio Motta (PSOL-RJ)
    Vereador Renato Cinco (PSOL-RJ)
    Vereador Reimond (PT-RJ)
    Vereador Leonardo Giordano (PCdoB-Niterói)
    ….
    SEU MOVIMENTO, GRUPO OU COLETIVO DESEJA ASSINAR O MANIFESTO?
    ENVIE MENSAGEM PARA: [email protected]

    Foto: PSOL Carioca

  • “Espero que vocês sejam sensíveis”

    *Bruna Piazzi é cientista social, fotógrafa e educadora popular. Participa da cobertura do Esquerda Online em Brumadinho (MG)

    “Espero que vocês sejam sensíveis”. Foi o que a nossa anfitriã Angélica nos disse antes que saíssemos de casa rumo à Brumadinho – MG ontem. “As pessoas estão sofrendo muito, completou”.

    Apesar do ecoar das suas palavras na minha cabeça e de ter acompanhado as notícias trágicas nos últimos dias, não acredito que estava preparada para o que iriamos encontrar. Aliás, quem estaria preparado para tanta dor?

    Ao chegar em Brumadinho, sete dias após o crime socioambiental mais perverso dos últimos tempos, pude sentir a atmosfera densa de uma tragédia que não se encerrava com o derramamento da lama, nem muito menos tinha início com ela.

    A Vale, empresa responsável pelo crime, atuava de maneira cirúrgica tentando mitigar o sofrimento alheio, apresentando-se, mais uma vez como uma solução para a vida do trabalhador. Ao contrário da escuta. O grito silenciado. A potência que a tristeza e a indignação continham precisava ser engolida, antes que fosse tarde. Antes que se tornasse perigosa.

    Assim como a lama, o sofrimento, angústia e dor da perda de familiares e amigos era novamente colocado em segundo plano. Soterrados. A prioridade no momento era de se achar os corpos, para depois pensar em uma solução para os que não foram. Até aí, justo. Afinal é direito nosso poder enterrar os nossos. Mas qual destino que nos seria reservado?

    Conforme caminhava pelo Córrego do Feijão, reparava nos olhares atônitos daqueles moradores que ainda tentavam situar-se no espaço e no tempo presente. Como tocar a vida em frente?

    As pessoas vagavam. Ativistas, militantes e missionários acompanhavam seus passos, tentando oferecer conforto de todos os tipos. Às vezes um abraço ou um gesto dava conta de suportar mais um segundo ali. Talvez porque tinha olho no olho. Talvez porque tinha afeto. Talvez porque era só o que tinha.

    Durante a tarde, visitamos a casa de um casal de pequenos agricultores, a Isamara e Pedro (foto). A lama havia tomado grande parte da casa deles e a Vale ainda não tinha tomado nenhuma providência. Estavam sem água, sem luz e com poucos mantimentos. Dois corpos foram encontrados no quintal do casal.

    Isamara, agricultora de Brumadinho

    “O sonho acabou”, me disse Isamara, enquanto recordava da vida tranquila que tinham optado por levar no último ano desde que haviam juntado todas as economias e mudado-se de Belo Horizonte para o Parque da Cachoeira. “O que aconteceu não foi acidente, foi um crime. Eles acabaram com nosso futuro, roubaram nossos sonhos”, completou Pedro.

    Pedro, agricultor de Brumadinho
    Em meio às fotografias que fazia, olhei para o chão que pisava. Havia muita lama. Muita lama mesmo. Por baixo dessa lama, haviam pessoas. Pessoas e suas histórias; suas coisas, casas, seus objetos de trabalho. Calçados. Vira e mexe enquanto andávamos eu via um ou outro chinelo. Daqueles que conseguiram correr para salvar-se. Ou não.

    Havia uma vida soterrada embaixo de mim. Não uma só, mas muitas vidas. Não também só aquelas ceifadas pelo tsunami da semana passada. Mas também aquelas vidas roubadas pelo trabalho, pelo sol à pino, pela necessidade de produzir para sabe-se lá quem e em troca receber pouco ou quase nada para si.

    Havia também a vida de um rio, ou talvez de dois, três. De um ecossistema inteirinho. Disseram que em vinte dias a lama chegaria ao São Francisco. Havia a vida de milhares de ribeirinhos. De indígenas. Havia a vida que fazia sentido só porque tinha rio e sem o rio, havia somente o vazio.


    O silêncio daquela fração de segundo fora interrompida pela passagem de um helicóptero que resgatava mais um corpo. Olhamos para o alto. Talvez para tentar resgatar também o pouco de esperança que ainda nos pertencia diante de todo o cenário.

    O Frei Agostinho – que nos acompanhava desde o início na caminhada pelo Parque da Cachoeira – nos chamou para voltar para a cidade. Abracei o Pedro, a Isamara, a família que estava lá. Me despedi. Tinha algo que queria dizer, mas não tinha palavras na hora. Não havia sentimento de pena, mas de indignação.

    Não havia também muito mais o que pudesse fazer.

    Ao voltarmos para a cidade de Brumadinho me peguei observando o assédio da grande mídia para com o sofrimento alheio. Cenas bizarras. O capital lucra até com a dor do outro. Precisava voltar para casa. À noite haveria um culto em homenagem aos mortos, mas não pude participar.


    Sob o céu que anunciava o final de tarde, conforme andávamos de carro rumo à Contagem, observava a paisagem urbana. Quantos tantos outros soterramentos haveriam ali?

    Empilhar corpos para contá-los depois. Talvez seja disso que estejamos falando há mais de 500 anos.

    Brumadinho, 02 de fevereiro de 2019.

  • Quatro absurdos do decreto de João Doria sobre as manifestações

    No dia 19/01, em meio a protestos contra o aumento da tarifa do transporte público, o governador de São Paulo, João Dória, assinou um decreto restringindo os direitos de livre manifestação no estado de São Paulo. O decreto regulamenta uma lei aprovada em 2014 por Geraldo Alckmin, que diz ter como função “restringir o uso de máscaras ou qualquer paramento que oculte o rosto em manifestações e reuniões”.

    O decreto não só proíbe de maneira bem ampla o uso de máscaras, mas como traz uma série de ataques à liberdade de manifestação e reunião. Seus artigos listam uma série de novas regras que manifestações terão que cumprir, dando mais um pretexto legal para a contínua repressão e criminalização de manifestações por parte do Estado brasileiro. Quatro que mais merecem destaque são:

    1 – O aviso prévio: a proibição do protesto espontâneo
    A partir de agora, qualquer reunião que tenha mais de 300 participantes terá que ser comunicada a Polícia Militar com cinco dias de antecedência. Isso sufoca a organização de qualquer tipo de manifestação espontânea em respostas a fatos políticos de grande relevância, como foi o caso dos atos chamados logo após o vazamento dos áudios do Temer, após o assassinato de Marielle ou mesmo após o crime da Vale em Brumadinho. É fundamental ressaltar que não são apenas manifestações de rua que sofrem com necessidade do “aviso prévio”, mas também qualquer tipo de “reunião”, ou seja, assembleias estudantis, sindicais ou mesmo de movimentos sociais convocadas sem o aviso prévio de cinco dias serão consideradas ilegais, o que criminaliza e restringe de maneira significativa a capacidade de articulação política desses setores.

    2 – A decisão de trajeto: A diferença entre informar e pedir autorização
    Outro ponto fundamental do decreto requer que, caso a reunião envolva o deslocamento dos participantes, o trajeto será decidido em conjunto com um comandante de batalhão da Polícia Militar, ou seja, subordinando a manifestação aos ditames da PM e facilitando a repressão policial. Esse elemento acaba por transfigurar o “aviso prévio”, que é constitucionalmente previsto, em uma espécie de autorização por parte do poder público, algo que é flagrantemente inconstitucional. Isso também sufoca qualquer tipo de ato que não siga os ditames tradicionais de deliberação.

    3 – Identificação: Até máscaras anti-gás serão proibidas. Policiais podem continuar com máscaras
    O decreto também proíbe o uso de máscaras ou de “qualquer paramento que possa ocultar o rosto da pessoa, ou que dificulte ou impeça a sua identificação”, ou seja, até máscaras de gás, que tem como uso a proteção contra as bombas jogadas pela polícia, serão considerados objetos ilícitos em uma manifestação. Ainda por cima disso, caso o manifestante se recuse a retirar a máscara, a polícia terá o direito de levar o manifestante à delegacia e o enquadrar o crime de desobediência (com detenção de até seis meses). Caso ele esteja sem documento de identificação, será facultado ao policial entrar em contato até com seu empregador afim de identificar o manifestante, com claro intuito de desincentivar a participação da classe trabalhadora em mobilizações. E ao mesmo tempo que o decreto exige a identificação de manifestantes, ele nem menciona a identificação dos policiais, que podem continuar mascarados e usando seus códigos alfanuméricos indecifráveis, dificultando de maneira significativa a denúncia de abusos policiais.

    4 – As “armas”: Bandeiras poderão ser consideradas como armamento
    A Constituição Federal veda o porte de armas em manifestações, mas o decreto de João Doria vai muito além do que a constituição quer dizer. Ele equipara armas de fogo e bombas a pedras e objetos pontiagudos, criando uma categoria de armas extremamente abrangente que não existe na legislação brasileira. O decreto deixa cria uma categoria tão extensa que facilmente guarda-chuvas e bandeiras de PVC poderiam ser classificadas como um tipo de armamento, dando mais uma justificativa para a intervenção policial em atos.

    O decreto veio agora e não foi à toa

    O decreto assinado por João Doria tem suas origens em uma lei aprovada em 2014, no contexto pós junho de 2013 e em meio aos protestos contra a realização da Copa no Brasil. A lei tinha a intenção de trazer regras que iriam dificultar a vida de manifestantes e dar maior amparo legal para a repressão policial, porém ela só foi regulamentada agora, e isso não foi em vão. O decreto foi lançado em meio a protestos contra o aumento das tarifas de transporte público e em um cenário político nacional de instabilidade.

    Nesse ano o governo Bolsonaro irá tentar passar uma série de reformas que visam retirar direitos e conquistas históricas da classe trabalhadora, tal como o desmantelamento da previdência social e uma possível nova reforma trabalhista. Esses ataques vão encontrar resistência nas ruas, e disposições autoritárias como esse decreto visam restringir ao máximo o direito de protesto e resistência da classe trabalhadora. Não é de hoje que existem movimentações por parte dos legislativos estaduais e federal com o intuito de reduzir a capacidade de mobilização popular, tendo como exemplo mais infame a Lei Antiterrorismo, aprovada em 2016 ainda no Governo Dilma, em reação aos protestos de larga escala que ocorreram nos anos anteriores.

    Nesse cenário onde os direitos a liberdade de manifestação e reunião estão sob ataque, é fundamental que todos os setores democráticos denunciem de maneira enfática esse decreto, sendo necessária uma articulação, tanto nos tribunais quanto nas ruas, em prol da impugnação dessa medida que visa criminalizar nossa luta contra os retrocessos.

    FOTO: Policial em São Paulo, em janeiro, durante os protestos contra o reajuste de passagem | Cobertura Esquerda Online

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    Decreto de Dória ataca direito de manifestação e reunião

     

    *Theo Távora é militante do coletivo de juventude Afronte

     

  • Educação domiciliar: Quatro motivos contra a proposta da ministra Damares

    O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou que preparou uma primeira versão da medida provisória que irá regulamentar o ensino domiciliar no país, a ser enviada ao Congresso Nacional em 01 de fevereiro. O tema faz parte de 35 medidas prioritárias que o governo Bolsonaro pretende aprovar nos primeiros cem dias. Confira abaixo quatro ideias sobre os objetivos da ministra.

    1. O convívio escolar é parte da formação: É na escola que se aprende a lidar com a diversidade

    A ministra Damares Alves (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) disse em entrevista que a educação domiciliar não prejudicaria a socialização da criança, porque existem outros espaços em que ela conhece pessoas (cursos, vizinhos, igreja etc). No entanto, está desconsiderando que o convívio escolar não se trata apenas de garantir que a criança tenho amigos (o que por si só já é importante).

    O convívio escolar é o momento de aprender a viver em sociedade, de descobrir que construímos coisas coletivamente e que precisamos respeitar o convívio. É na escola que se aprende que cada um tem a sua vez de falar, a ouvir a opinião do colega, e mesmo discordando, que é necessário respeitar.

    É no convívio com pessoas diferentes que aprendemos a lidar com a diversidade. Alguns pais desejam a educação domiciliar para afastar os filhos de ambientes escolares onde ocorre o bullying (formas de preconceito), no entanto, essa não é a solução para este problema. Em casos de bullying, a família deve atuar em conjunto com a escola para combater a prática e não só proteger as vítimas, como educar os agressores. Isolar a criança vítima de bullying do ambiente escolar não irá prepará-la para enfrentar o preconceito ao longo da vida, bem como não irá diminuir o preconceito dos agressores. A escola deve ser o espaço de combate a todas as formas de bullying.

    2. Novo governo estimula a desconfiança e perseguição aos professores

    Um discurso cuidadosamente preparado pelos atuais ocupantes do governo, por meio de projetos como o Escola sem partido, criou nos últimos anos uma grande desconfiança dos pais em relação à capacidade dos professores. Baseando-se em um discurso conservador e muito pautado por visões religiosas de alguns grupos, a ideia que se gerou foi que os professores ensinariam nas escolas coisas contrárias aos valores das famílias.

    Assim, debates sobre gênero, sexualidade e política, deveriam ser banidos do espaço da sala de aula, pois ensinar os alunos a refletir e questionar não deveriam ser funções da escola. Esse é o discurso da intolerância a qualquer ideia diferente da sua.

    A escola, como instituição coletiva, deve ser plural, democrática, aberta, e por isso incluir temas relacionados ao cotidiano dos alunos. Ela deve ser um espaço em que qualquer estudante se sinta à vontade para expressar suas opiniões e onde possa aprender a expressá-las sem agressividade, baseando-se no diálogo. Retirar o aluno desse ambiente para isolá-lo em casa significa estar fechado à possibilidade do diálogo com ideias diferentes das da família.

    Isso significa que a família está errada e a escola certa? Não. Significa que aprender a ouvir ideias diferentes das nossas é parte do aprendizado do convívio em sociedade e do exercício da cidadania e da democracia. Se a família não aceita expor seus filhos a ideias diferentes, então quem está doutrinando é a própria família, ao negar aos jovens a liberdade de se desenvolver.

    Quanto às questões de gênero e sexualidade, debates hiper-valorizados pelos setores conservadores, ocorre uma grande confusão porque os pais têm receio que seus filhos tenham um gênero diferente do designado ao nascer, ou uma orientação sexual diferente da heterossexual. O pensamento conservador diz que quem nasce com o sexo feminino deve ser mulher e quem nasce com o sexo masculino deve ser homem, e é aqui onde ocorre uma incompreensão de que o gênero é uma construção social (ou seja, os conceitos do que é feminino e masculino mudam de uma sociedade para outra, bem como de época). A realidade é que independente do quanto se eduque uma pessoa que nasceu com certo sexo biológico para seguir os comportamentos de certo gênero, o verdadeiro gênero da pessoa se revela ao longo da vida; hoje há inclusive pessoas que não se identificam com essa definição de dois gêneros e buscam novas formas de se expressar. A escola pode debater esse assunto, mas ela não vai alterar o gênero de nenhum aluno, bem como o indivíduo ser educado somente em casa não vai ser capaz de modificar o que ele sente com relação a isso.

    A família pode sim ensinar seu valores e sua religião, mas a escola é o espaço em que o aluno terá contato com a diversidade da sociedade e poderá aprender que não existem somente os valores e a religião de sua família. E mais do que isso, poderá aprender a respeitar.

    3. Ser alfabetizado não é o suficiente para alfabetizar

    Um exemplo pessoal: sou professora de História e em 2014 estava dando aulas na rede pública estadual de São Paulo. Tive uma turma de 7º série e descobri uma aluna que não sabia ler, mesmo já estando nessa série avançada. Como professora, fiquei preocupada com a situação e tentei auxiliar a aluna, separando um tempo nas aulas para sentar com ela e tentar ajudá-la com a alfabetização. Foi quando descobri que alfabetizar uma criança é um processo delicado, que exige muita dedicação e principalmente formação específica. O fato de eu ser alfabetizada e ser professora de outra disciplina não era o suficiente para me dar ferramentas adequadas para alfabetizar uma aluna, eu precisava ter uma formação própria para isso. Foi a partir daí que passei a realmente valorizar as professoras da educação infantil e das séries iniciais que fazem esse complexo processo de dar as bases necessárias ao aprendizado de toda criança.

    Eu percebi que não basta ser alfabetizado para ter a capacidade de alfabetizar uma criança. No entanto, a proposta da educação domiciliar coloca os pais, independente de sua formação, como capacitados para fornecer a educação de conteúdos escolares. Sou habilitada como professora de História e não tenho a arrogância de me considerar capacitada para lecionar outras disciplinas, pois sei da formação necessária a cada uma. Como uma única pessoa, pai, mãe ou responsável pode se sentir totalmente habilitada a ensinar todos os conteúdos de um currículo escolar?

    Mas a pergunta que precede é: por quê os pais querem tirar essa responsabilidade das mãos de profissionais preparados para isso?

    4. Proposta oculta descaso com a educação pública

    Quem são os pais que estão movimentando esse debate? Existe uma associação chamada ANED – Associação Nacional de Educação Domiciliar, que possui cerca de 13 mil pessoas na página do Facebook (visualização em 31/01/2019).

    Segundo Censo Escolar de 2018 o Brasil possui 8,7 milhões de matriculados na educação infantil, 27,2 milhões de matriculados no ensino fundamental e 7,7 milhões de matriculados no ensino médio, sendo desses 1,2 milhão de alunos da educação especial.

    O governo Bolsonaro colocou como uma das suas prioridades dos primeiros cem dias uma medida que beneficia cerca de 13 mil pessoas e não propôs nenhuma medida que atenda à educação pública que responde a cerca de 43,6 milhões de crianças e adolescentes. A medida, conforme a própria Damares confirma, está sendo levada adiante não pelo Ministério da Educação, mas pelo ministério dela porque seria uma demanda das famílias.

    Um dos argumentos da ministra é que em sala de aula o professor perde cerca de 40% do tempo em gerenciar a sala. O que ela desconsidera é que isso ocorre porque o descaso com a educação pública coloca um único professor em salas com 40 a 50 crianças, o que torna o ambiente inadequado para o andamento de uma boa aula, não à toa, muitas escolas da rede privada optam por turmas de no máximo 20 alunos, uma quantidade muito mais adequada. Assim, ao invés de propor uma redução de alunos por sala de aula, e aumentar a contratação de professores para suprir a demanda, a ministra considera que o aluno pode ter mais acompanhamento em casa.

    A medida provisória para a educação domiciliar pode inicialmente estar atendendo o interesse de uma parcela ínfima das famílias, mas se torna uma ferramenta perfeita para justificar um desinvestimento na educação pública. Cabe aos pais se unirem aos professores e lutarem para que o Estado garanta uma educação pública e gratuita de qualidade a seus filhos.

    Foto: Reprodução

    *Tonne de Andrade é Licenciada em História pela USP e Mestranda em História Social.

  • Em mais um ataque aos direitos, Justiça proíbe ida de Lula ao enterro do irmão

    A Justiça acaba de negar o pedido de Lula para assistir o sepultamento de seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, que será enterrado nesta quarta-feira, 30, às 13h em São Bernardo do Campo (SP). A juíza Carolina Lebbos, substituta de Sergio Moro, seguiu as manifestações da Polícia Federal (comandada por Moro), e do Ministério Público, que afirmavam que não havia tempo hábil para transportar o ex-presidente e para manter a segurança. O desembargador Leandro Paulsen manteve a decisão, negando o recurso da defesa.

    ATUALIZAÇÃO: A defesa de Lula recorreu ao STF e o ministro Dias Toffoli autorizou a ida de Lula a São Bernardo, para encontrar com parentes, podendo o corpo ser levado até o local, sem a permissão de acesso a imprensa. Mas a decisão de Toffoli foi anunciada após o enterro, que ocorreu pouco depois das 13h.

    A demora em decidir sobre o pedido da defesa de Lula e a negativa nada mais são do que manobras que atentam novamente contra os direitos democráticos do ex-presidente.

    Lula está preso há quase dez meses, numa condenação sem provas e em tempo recorde. Sua liberdade foi negada em dezembro, quando decisão garantia a libertação de presos em segunda instância, existem várias manobras jurídicas para não julgar seu novo pedido de Habeas Corpus no STF, a imprensa está impedida de entrevistá-lo, visitas são restritas e ele só pode receber a visita de um líder religioso por mês.

    Agora, o direito de acompanhar o enterro de um parente próximo é negado, mesmo sendo isso garantido por lei. O artigo 120 da Lei de Execução Penal fala que “os condenados que cumprem pena em regime fechado ou semi-aberto e os presos provisórios poderão obter permissão para sair do estabelecimento, mediante escolta, quando ocorrer falecimento ou doença grave do cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou irmão”.

    Não se trata de apoiar o projeto político de Lula e da direção do PT. Mas não é preciso sequer ser de esquerda para se revoltar diante de tanto desrespeitos aos direitos fundamentais de um ser humano. Até mesmo a ditadura militar permitiu que Lula deixasse a prisão para acompanhar o velório de sua mãe, Dona Lindu, em 1980.

    Na manifestação do MPF, os procuradores afirmaram que Lula “não é um preso comum”. Com isso, mais uma vez o Judiciário comprova que Lula é um preso político, encarcerado para permitir a vitória eleitoral de um governo que mantivesse a agenda do golpe e do governo Temer.

    A decisão é mais um motivo para seguirmos a campanha #lulalivre e em defesa das liberdades democráticas.

    Enquanto isso, o filho do presidente, Flavio Bolsonaro, tenta manobras para suspender a investigação de sua ligação com desvios de dinheiro público de seu gabinete, além do seu envolvimento com uma das milícias do RJ. Um escândalo.

     

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    Lula é um preso político. Lula Livre!

     

  • Venezuela: A crônica de um golpe parlamentar anunciado

    No último dia 10 de janeiro, Nicolás Maduro tomou posse para o seu segundo mandato como presidente da Venezuela, pelo qual governará o país por seis anos (2019-2025). No entanto, a posse de Maduro foi rechaçada pela Assembleia Nacional, eleita em 2015, cuja maioria parlamentar é composta pela oposição de direita encabeçada pela Mesa de Unidade Democrática (MUD) e pelo deputado Juan Guaidó.

    O pleito que deu origem ao segundo mandato de Maduro estava previsto para o final de 2018, mas foi antecipado pela Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 2017, para 20 de maio de 2018. Mesmo com a antecipação do processo eleitoral, a posse ficou mantida para janeiro de 2019.

    Na ocasião, a MUD, principal agrupamento da oposição de direita, não participou do pleito por considerar o processo eleitoral fraudulento, na medida em que o mesmo foi convocado pela Assembleia Nacional Constituinte, instituída em 2017, e contestado pela Assembleia Nacional, eleita em 2015.

    Portanto, para a MUD, a Assembleia Nacional de 2015 e Juan Guaidó a antecipação das eleições presidenciais representou uma “fraude” para perpetuar Maduro no poder, particularmente porque os dois maiores representantes da oposição de direita já estavam impedidos de concorrer: Leopoldo López está preso e Henrique Capriles foi impedido de se candidatar a qualquer cargo por um período de 15 anos.

    Aqui cabe um parêntese: o que vale para o Brasil, a prisão de Lula e o impedimento de sua candidatura, que facilitou sobremaneira a vitória de Jair Bolsonaro nas presidenciais de 2018, não vale para a Venezuela. A prisão de López e o impedimento político de Caprilles, dois grandes representantes da direita golpista e pró-imperialista, foram suficientes para que o imperialismo estadunidense, a OEA, o Grupo de Lima e a grande imprensa internacional fizessem um escândalo e não reconhecessem a eleição do segundo mandato de Maduro.

    Esses dois pesos e duas medidas seriam cômicos, se não fossem uma trágica desculpa para justificar desde um golpe parlamentar até uma possível intervenção militar. Qualquer semelhança com a “descoberta” de armas de destruição em massa no Iraque de Saddam Hussein, no final do século XX, não é mera coincidência.

    Dualidade do Poder Legislativo

    A rigor, vive-se hoje na Venezuela uma dualidade do Poder Legislativo. De um lado, a Assembleia Nacional, eleita em 2015, composta majoritariamente pela oposição de direita; de outro lado, a nova Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 2017, boicotada pela oposição de direita e composta quase que exclusivamente pelos apoiadores do governo Maduro. Uma análise séria sobre a situação da superestrutura política e institucional da Venezuela não pode abstrair alegremente a presente dualidade do Poder Legislativo.

    Esta dualidade de poderes, desgraçadamente, não se dá a partir de sovietes ou outro tipo de organização democrática-revolucionária das massas contra o governo Maduro e a direita golpista e pró-imperialista, que fosse capaz de disputar o poder político de maneira independente através de uma revolução socialista triunfante. Ao contrário, a atual dualidade de poderes é impulsionada pela direita golpista a partir de sua vitória nas eleições parlamentares de 2015.

    Quando da posse de Maduro para o seu segundo mandato, no dia 10 de janeiro, a grande discussão que se estabeleceu em nível internacional impulsionada pelo governo estadunidense de Donald Trump, pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pelo Grupo de Lima, que reúne atualmente os governos direitistas da América Latina alinhados com os Estados Unidos, foi: o segundo mandato de Maduro não é legítimo porque sua eleição não foi reconhecida pela Assembleia Nacional eleita em 2015.

    Ato seguido, na sexta-feira, 11 de janeiro, apenas um dia após a posse de Maduro, a oposição de direita venezuelana, com o apoio do imperialismo estadunidense, da OEA e do Grupo de Lima lança o nome de Juan Guaidó para assumir interinamente a Presidência da República, desconsiderando olimpicamente a eleição pelo voto universal, direto e secreto de Nicolás Maduro para o novo mandato. Ou seja, a oposição de direita e seus apoiadores imperialistas e lacaios dos Estados Unidos insuflaram como presidente interino a um deputado nacional que não concorreu sequer às últimas eleições presidenciais e não obteve, portanto, nenhum único voto para o cargo que postulava. Não há outra definição para esta manobra do que um golpe parlamentar.

    Esta política da direita venezuelana, guardadas as devidas proporções e particularidades, é muito semelhante ao golpe parlamentar ocorrido contra a presidente Dilma, em 2016, no Brasil. Portanto, a derrubada imediata do governo Maduro, sob as atuais condições objetivas e subjetivas da luta de classes, só teria como resultado concreto e imediato a ascensão de um governo da direita golpista e pró-imperialista, encabeçado pela Assembleia Nacional de 2015 e tendo como presidente interino o deputado Juan Guaidó.

    Golpe parlamentar em movimento

    No dia 23 de janeiro, Juan Guaidó se autoproclamou numa praça pública de Caracas presidente interino da Venezuela, sendo reconhecido imediatamente pelos governos de Donald Trump (EUA), Iván Duque (Colômbia) e Jair Bolsonaro (Brasil), bem como pelos governos de Paraguai, Peru, Canadá, Equador, Chile e Argentina.

    Quase que imediatamente, Luiz Almagro, presidente da OEA, cumprimentou Guaidó em uma mensagem no Twitter. “Nossas felicitações a Juan Guaidó como presidente interino de Venezuela. Tem todo nosso reconhecimento para impulsionar o retorno do país à democracia”, escreveu.

    Tão rápido quanto Luiz Almagro, o vice-presidente americano, Mike Pence, se manifestou por sua conta no Twitter: “A @JGuaido e o povo da Venezuela: os EUA estão com vocês e vão continuar com vocês até que a #Liberdade seja restaurada!”.

    No dia 24, em resposta ao apoio estadunidense à autoproclamação de Guaidó como presidente interino, Maduro declarou a ruptura de relações diplomáticas e políticas com o governo de Donald Trump e ordenou aos diplomatas venezuelanos nos Estados Unidos que deixassem o país, ao mesmo tempo em que reiterou que os diplomatas estadunidenses devem deixar o território venezuelano, ameaçando inclusive cortar água e luz dos prédios da embaixada e consulados.

    Ato seguido à declaração de Maduro, Guaidó pediu a todas as embaixadas que mantenham suas portas abertas, inclusive a dos Estados Unidos. Da sua parte, o governo de Donald Trump, numa clara violação da soberania nacional venezuelana, afirmou que, por não reconhecer Maduro como chefe de Estado, não lhe obedecerá e manterá sua missão diplomática na Venezuela. Como se não bastasse, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para discutir a crise na Venezuela.

    Os Estados Unidos buscam operar em meio a essa grave tempestade política e institucional na Venezuela, realizando manobras de todo o tipo que possam vir a justificar, num futuro próximo, o apoio a ações militares da oposição de direita no país ou mesmo incentivar governos lacaios, como os de Bolsonaro e Iván Duque, a protagonizarem uma ação militar “humanitária” com o aval do conselho de segurança da ONU.

    O apoio de Rússia e China ao governo Maduro

    A tentativa de golpe parlamentar na Venezuela tem seus desdobramentos também no tabuleiro das disputas geopolíticas atuais. Rússia e China não poderiam e não podem ficar fora dessa disputa, na medida em que são atualmente os principais protagonistas do questionamento da hegemonia estadunidense sobre o globo.

    Rússia e China, a rigor, são os principais aliados do regime chavista, não titubearam em dar seu apoio a Nicolás Maduro e advertiram os Estados unidos que se oporão a uma “intervenção militar” que tenha por objetivo apoiar Guaidó. Moscou demonstrou forte apoio público a Maduro, que definiu como “parceiro estratégico”. O primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, falou em “pseudogolpe apoiado por líderes de vários países”.

    Entre os anos de 2001 e 2011, a Venezuela se tornou um dos principais clientes mundiais da indústria russa de armamentos. Em dezembro, Moscou enviou dois bombardeiros TU-160 com capacidade nuclear ao país em uma demonstração de apoio. Embora o principal investidor no país seja a China, o governo russo aportou à Venezuela desde 2006 ao menos 17 bilhões de dólares (cerca de 64 bilhões de reais) na forma de empréstimos, linhas de crédito e investimentos.

    A China mostrou seu apoio ao presidente Maduro e censurou a “intrusão” dos EUA nos “assuntos internos” da Venezuela. “A China apoia os esforços do Governo da Venezuela para manter sua soberania, independência e estabilidade”, disse, no dia 24, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Hua Chunying.

    Diferentemente da tentativa golpista de 2002 contra o então presidente Hugo Chávez, quando os Estados Unidos nadaram de braçadas em seu apoio inconteste ao então presidente interino, o dirigente da Fedecamaras (Confederação Nacional da Indústria de lá), Pedro Carmona, agora, qualquer ameaça de intervenção militar contará imediatamente com a oposição frontal de Rússia e China.

    Contradições e vacilações do chavismo

    A Venezuela, apesar de ser um país semicolonial, é um dos principais produtores de petróleo do mundo e um dos maiores fornecedores do ouro negro para os EUA. Atualmente detém as maiores jazidas petrolíferas do planeta, superando inclusive a Arábia Saudita. Enquanto Arábia Saudita detém reservas com a cifra de 267 bilhões de barris de petróleo e uma participação mundial de 15,7%, a Venezuela já conta com 298,3 bilhões de barris, com uma participação mundial de 17,5%.

    A baixa significativa do preço do petróleo nos últimos dez anos, que tem permanecido em torno dos 50 dólares, trouxe inúmeros problemas para a balança de importação e exportação do país e, consequentemente, para o seu orçamento nacional. É importante frisar que o país não possui soberania alimentar ou de produção de medicamentos, importando quase toda a comida e remédios que consome.

    Além disso, sua indústria vem sendo sucateada pela burguesia local, que tem migrado seus investimentos em massa para a especulação com o câmbio e os petrodólares. Este é o grande pano de fundo do brutal retrocesso do Produto Interno Bruto no país de Bolívar.

    Some-se ao anterior uma política econômica desastrosa do chavismo mesclada com um verdadeiro boicote econômico, ao qual o governo Bolsonaro pretende aderir, e uma absurda escalada inflacionária que leva ao desabastecimento, bem como ao crescimento de um terrível mercado negro de alimentos e remédios.

    Nem Chávez era nem, muito menos, Maduro é socialista. O chavismo representa um movimento nacionalista burguês, baseado numa política econômica rentista que depende quase que exclusivamente de petrodólares. Em vinte anos à frente do Poder Executivo, o chavismo foi incapaz de desenvolver uma política de substituição de importações e criar um Estado de Bem-Estar Social, mesmo nos marcos do capitalismo. Além disso, apesar de seu discurso antiimperialista, o chavismo continua exportando praticamente metade do petróleo venezuelano para os EUA.

    Mas isso não é tudo. O governo Maduro segue pagando a dívida externa, mantém um sistema bancário privado, garante a presença em território venezuelano de megacorporações imperialistas, particularmente na área petrolífera e, manteve, apesar de todas as ameaças e chantagens, até a presente crise com a tentativa do golpe parlamentar, relações diplomáticas com os Estados Unidos.

    Enfim, depois de vinte anos de governo, Chávez e, agora, Maduro demonstraram-se incapazes de romper com o caráter semicolonial e extrativista do país, sequer tiveram uma política capaz de liquidar a dependência econômica com o imperialismo estadunidense e, sobretudo, evitaram dar passos significativos em direção ao socialismo.

    O ovo da serpente está na cúpula das Forças Armadas

    Apesar do ministro da Defesa, General Vladmir Padrino López, dar uma entrevista coletiva, no último dia 24, cercado por comandantes dos principais regimentos da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e da maioria dos comandantes regionais da FANB jurar lealdade ao presidente Maduro, pensamos que o ovo da serpente, que pode virar definitivamente a correlação de forças institucionais em favor da Assembleia Nacional de 2015 e de Juan Guaidó está plantado na alta oficialidade da FANB.

    Desde o ano passado, o governo de Donald Trump e seus principais secretários junto com a oposição golpista venezuelana vem realizando sucessivos apelos aos oficiais do alto comando da FANB. Não nos enganemos, onde há fumaça há fogo.

    Dito isto, por enquanto o plano “A” do imperialismo seria apostar na ruptura da cúpula da FANB, contando que a maioria dos oficiais do alto comando bandeiem-se para o lado da Assembleia Nacional de 2015 e de Juan Guaidó. Por quê? Respondemos.

    Na Venezuela, apesar do chavismo não compor um governo com parcelas da direita, como fez o PT no Brasil, sua política de incentivo à alta oficialidade para que esta se converta, além de gestora da administração direta, em proprietária privada de negócios em torno do aparato do Estado, pôde transformar esta mesma alta oficialidade no ovo da serpente do governo de Nicolás Maduro.

    Cabe destacar que a promoção da alta oficialidade em gestora de inúmeros órgãos estatais e dos serviços públicos, bem como a sua conversão em proprietária privada, têm aumentado significativamente os casos de corrupção governamental que atingem a cúpula da própria FANB.

    A grande questão é: o imperialismo estadunidense e a oposição golpista da Venezuela conseguirão, através da proposição de maiores vantagens econômicas à alta oficialidade da FANB, fazer com que essa rompa com Maduro e apoie Guaidó ou outro futuro autoproclamando presidente interino? Ainda que essa hipótese não seja hoje a mais provável, será preciso acompanhar passo a passo sua evolução, na medida em que ela se converte no nó górdio da permanência ou não de Maduro no poder.

    Tanto o imperialismo estadunidense quanto a direita venezuelana sabem que não basta a dualidade do Poder Legislativo para derrubar Maduro. Para superar essa limitação de forças será necessário dividir e ganhar uma parte significativa da oficialidade e, consequentemente, da tropa para apoiar a queda de Maduro e a transferência do Poder Executivo à Assembleia Nacional de 2015.

    Nas atuais condições político-institucionais da Venezuela, aonde o chavismo domina o Poder Executivo, o Judiciário e tem em suas mãos a Assembleia Nacional Constituinte de 2017, insistimos: a instituição chave que decidirá o futuro do governo Maduro não será nenhuma das duas Assembleias Nacionais, mas a cúpula das Forças Armadas.

    A fragilidade de uma saída independente dos trabalhadores

    Atualmente, a força social consciente e em movimento dos trabalhadores e do povo venezuelano não possui o vigor necessário para levar adiante um projeto de poder independente. O governo dos trabalhadores e do povo, que ascenda de uma possível queda de Maduro, deve ser reivindicado corretamente como a estratégia-programa da esquerda socialista para a Venezuela, mas, desgraçadamente, esta estratégia-programa não corresponde hoje ao plano da tática, da política imediata, da prática pensada em sua concretude.

    A grande pergunta é: como conquistar um governo dos trabalhadores e do povo, sem antes reconstruir a força social e política autônoma dos próprios trabalhadores e do povo? Ora, só se reconstrói o que foi destruído ou não existe mais ou, na melhor das hipóteses, o que está ainda muito frágil. Obviamente que esta realidade do movimento de massas venezuelano é de responsabilidade do próprio chavismo, depois de vinte anos de sucessivos governos de conciliação de classes.

    Parafraseando M. Casanova sobre o desfecho da guerra civil espanhola: a frente popular abriu as portas a Franco. No caso do Brasil, a frente popular abriu as portas a um golpe parlamentar contra Dilma, que foi coroado com a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro.

    A mesma fórmula, com suas variantes e particularidades locais está sendo gestada na Venezuela. Aí será decisiva, como explicamos anteriormente, a divisão ou não do alto-comando da FANB, se este se manterá fiel à Maduro, à Assembleia Nacional Constituinte de 2017 e ao Tribunal Superior de Justiça (TSJ) ou se bandeará para o lado de Juan Guaidó, da Assembleia Nacional de 2015, do Grupo de Lima, da OEA e do imperialismo estadunidense. Nisso está o xis da questão.

    É hora de exigir e denunciar e não de derrubar

    Insistimos que, diante dessas condições objetivas e subjetivas, seria um grave erro político defender a derrubada imediata do governo Maduro, abstraindo o cerco imperialista, a localização superestrutural da oposição de direita como hegemônica na Assembleia Nacional de 2015 e a fragilidade do movimento de massas diante do embate entre as forças do governo Maduro e da oposição de direita.

    Cair na tentação de defender a “imediata derrubada do governo Maduro pelas massas”, mesmo que essas sejam majoritariamente oriundas das classes médias proprietárias e assalariadas, defendam um programa reacionário, sejam dirigidas pela direita e que o resultado disso seja a ascensão de um governo golpista e pró-imperialista, seria ter para a Venezuela uma política igual ou pior a que certas organizações da esquerda socialista tiveram para o Brasil, quando, de fato, apoiaram o impeachment de Dilma e a Operação Lava Jato.

    Ao contrário, não defender a derrubada imediata de Maduro, não significa estar a favor das medidas políticas e econômicas do seu governo, que são erráticas e vacilantes no enfrentamento ao imperialismo e aos monopólios privados, particularmente no que diz respeito às condições de vida, salário e trabalho do povo venezuelano, sobretudo no tocante à produção e comercialização de alimentos e remédios.

    Quer queiramos ou não, quer gostemos ou não, para reconstruir a força social e política autônoma dos trabalhadores e do povo venezuelano será ainda necessário passar pelo terreno movediço de uma política de exigências e denúncias ao governo Maduro.

    Um programa e uma política da esquerda socialista

    O programa e a política da esquerda socialista para a Venezuela devem partir da defesa incondicional da soberania do país contra o cerco imperialista. Como nos ensinou Trotsky: numa luta entre o imperialismo europeu e o rei do Congo, estaremos do lado do rei do Congo. Ou seja, independentemente do caráter do governo Maduro, defendemos a Venezuela do cerco imperialista e ou de qualquer ataque militar patrocinado pelos EUA.

    Por outro lado, devemos considerar a reeleição de Maduro legítima, no marco da democracia representativa, do voto universal, direto e secreto e exigir o reconhecimento de seu governo pela comunidade internacional, ressaltando a defesa da soberania do país, particularmente diante das ameaças do imperialismo estadunidense e dos governos de extrema-direita do Continente, como o de Bolsonaro, no Brasil, e Iván Duque, na Colômbia.

    Mas, o anterior não significa defender as medidas políticas e econômicas do governo Maduro. Muito pelo contrário.

    A profundidade e a gravidade da crise exigem medidas de transição socialista para a Venezuela. Não será apenas com medidas econômicas superficiais, limitadas a mudanças cambiais, financeiras ou de circulação de mercadorias, que o país conseguirá retomar o crescimento das suas forças produtivas.

    Portanto, a base para qualquer política econômica séria, que se disponha a combater os monopólios privados e o cerco imperialista deve partir da estatização do sistema financeiro, do monopólio estatal do comércio exterior e do planejamento da economia.

    Através da estatização do sistema financeiro, o pagamento das dívidas externa e interna aos bancos privados nacionais e estrangeiros seria suspenso, haveria um rigoroso controle de câmbio e o grosso dos recursos financeiros oriundos da venda do petróleo poderia ser canalizado para uma política de substituição de importações, com vistas a construir uma poderosa indústria nacional, inclusive uma agroindústria estatal, que garantisse a soberania alimentar e uma indústria farmacêutica, que quebrasse patentes e fabricasse remédios a baixo custo para a população.

    O monopólio estatal do comércio exterior acabaria com a farra do mercado negro de importados, particularmente de alimentos e remédios, priorizando a importação pelo Estado desses gêneros de primeira necessidade até que sua produção interna seja suficiente para atender as necessidades da população. Mas, em última instância, a prioridade máxima do Estado venezuelano seria a importação de máquinas, equipamentos e tecnologia com vistas a construção de uma grande indústria e agroindústria nacionais.

    O planejamento da Economia seria o coroamento desse tripé. A partir dos recursos de um sistema financeiro estatal e do monopólio do comércio exterior, o planejamento da economia deveria ser implementado de acordo com as necessidades dos trabalhadores e do povo em substituição à anarquia do mercado, que visa fundamentalmente o lucro às custas da fome e miséria da maioria da população.

    Somente com base nestas três medidas socialistas transitórias seria possível garantir uma política orçamentária que priorize a produção e distribuição de alimentos e remédios, uma política salarial digna, a universalização do direito à saúde e educação públicas e gratuitas, bem como a realização de um plano de obras públicas para gerar empregos e construir moradias populares, escolas, hospitais, etc. Também, a partir do tripé acima, estariam colocadas bases seguras para a expropriação dos monopólios privados e sua transformação em propriedade social.

    Reconstruir a força social e política autônoma dos trabalhadores

    Com base neste programa e numa política de exigências e denúncias ao governo Maduro poderiam ser dados os primeiros passos para reconstruir a força social e política autônoma dos trabalhadores e do povo venezuelano.

    Ao contrário, caso a direita golpista consiga dividir a cúpula da FANB e galgar seu apoio ou, no mínimo, sua neutralidade perante a Assembleia Nacional de 2015, não titubearemos em afirmar que a unidade da ação, inclusive militar, deve se dar com o chavismo e o governo Maduro contra qualquer tipo de golpe.

    A derrota de um possível golpe na Venezuela, através da mobilização das massas, fortaleceria sobremaneira a reconstrução da força social e política autônoma dos trabalhadores e do povo venezuelano. Ao contrário, o triunfo desse golpe não seria um golpe somente contra o governo Maduro e o chavismo, mas jogaria ainda mais para trás o já frágil movimento de massas venezuelano.

    Para concluir, a tática, a política imediata entendida como prática pensada em sua concretude, exige que primeiro sejam acertadas as contas com a direita golpista e pró-imperialista, no que diz respeito ao impedimento de sua ascensão ao poder por qualquer via, seja parlamentar ou a partir de uma intervenção militar. Enquanto isso, é preciso lutar também com unhas e dentes para reconstruir a força social e política autônoma dos trabalhadores e do povo venezuelano, com vistas a superar o chavismo e construir as condições de possibilidade para alcançar, o quanto antes, a estratégia-programa do governo socialista dos trabalhadores e do povo.

     

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  • Desafio dos 10 anos

    Nos últimos anos uma nova geração amadureceu. Os que nasceram nos anos noventa começaram a assumir novas responsabilidades cheias de sonhos e em cima de uma tranquilidade que nos prometera sonhar alto.

    Nascemos logo após a queda do Muro de Berlim, do começo “do fim do comunismo” [1] e [2] e de uma grande crise no sistema financeiro em 1987/88 [3]. O capitalismo venceu e assim foi a propaganda forte das superestruturas do vigente sistema econômico. Os conflitos bélicos diminuíram com o fim da guerra fria e houve um novo boom econômico. Foi-nos ensinado e vendido um novo sonho para a nossa geração. Acreditamos com veemência nisso.

    As benesses do capitalismo

    Os anos noventa foram marcados pelos compartilhamentos massivos da informação e dos jogos eletrônicos em casa. Houve também uma expansão nas escolas e faculdades, muito impactadas por essas novas tecnologias e principalmente a internet.

    Tínhamos um futuro brilhante pela frente e tudo indicava que essa prosperidade mundial na nossa frente era indestrutível. O 11 de Setembro foi um caso isolado, mas foi um primeiro sinal para a nossa geração de que há algo errado no nosso mundo e uma guerra se inicia. A defesa para manter essa paz mundial é defendida por muitos. Nada que atingisse as principais economias no mundo, como o caso do Brasil e um recém-governo populista eleito.

    Começa o processo de expansão das universidades públicas, financiamento estudantil e valorização do primeiro emprego. O salário mínimo é valorizado frente a um crescimento econômico muito forte e benefícios sociais diminuem uma grande e histórica desigualdade social no nosso país. [4]

    Com isso os filhos e filhas de trabalhadores pobres iriam assumir posições de pesquisa, cursos notáveis da classe média (medicina, direito, engenharias etc), iriam viajar a preço de custo nos intercâmbios e principalmente, não precisariam trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Mesmo aqueles que não entrariam nas universidades (públicas ou privadas) tinham garantias de emprego, com salários razoáveis melhores que outros tempos dos seus pais.

    Tudo isso refletia num grande sonho coletivo em nosso país. Não era diferente nos outros países. França, Inglaterra, Japão, EUA etc. Todos esses países recebiam essas benesses do sistema e a gente não sabia e nem viu o motivo. As grandes corporações, como empresas multinacionais, jornais, grandes centros de conhecimentos universitários nos faziam acreditar que o mundo alcançaria em fim o bem estar universal.

    Uma hora a conta chega

    A verdade vem à tona em 2008, o capitalismo não pode ficar sem seus lucros máximos e essa distribuição de renda não poderia ficar por muito tempo sendo sustentado pelos que “produzem a riqueza do mundo” [5]. A especulação imobiliária quebra um sistema de bolha dos financiamentos em cima do sonho de qualquer família do mundo: a casa própria. [6]

    Lula afirma que é só uma “marolinha” e incentiva ainda mais o crédito aproveitando a balança comercial positiva do país. O crescimento brasileiro continua forte, mas não tão firme [7]. Nossa geração começa os primeiros embates com os principais governos mundiais. Alemanha, França e Inglaterra explodem em protestos contra os pacotes de austeridades e os países imperialistas aplicam medidas ainda mais fortes em seus países dependentes economicamente.

    Países de economia periférica também são surpreendidos com protestos, principalmente na América do sul, Turquia e Grécia. Mas o mundo fica ainda mais surpreso em ver a “primavera árabe” [8] e [9] diante aos olhos dessa nova geração, graças à internet. Isso deu um fôlego e novas revoltas na Europa surgem.

    Nos EUA começam lutas mais fortes contra o racismo institucional, pelas minorias e questionamentos muito fortes de o porquê os EUA ainda estão em guerra (ocupando Iraque e Afeganistão até hoje, mais de 15 anos de ocupação). Grécia é um ponto fora da curva (dentro da Europa) e assustam os outros países europeus, Hong Kong assusta a tão poderosa China e reflete aos outros países do leste asiático.

    Mas talvez, onde mais influenciou essa nova geração foi Síria e Egito, explode novas revoltas e de repente a América do Sul, onde vários países que estavam geridos por partidos de esquerda são varridos em manifestações massivas.

    As Jornadas de Junho contra os gastos excessivos para as copas futebolísticas e olímpicas nos anos de 2013, 2014 e 2016, foram o estopim para os arrochos dos gastos sociais aplicados no país. Não era só por “vinte centavos” [10], mas sim por mais dinheiro para saúde e educação. Se tiver para estádio, deveria ter para hospitais, escolas e universidades. A geração “vem pra rua” percebeu que precisava conquistar seus sonhos e não se ganhava nada dos estados burgueses. Era a luta pelo sonho que nos venderam.

    Na América do Sul, a esquerda se dividiu e boa parte defendeu os governos de frente populares. Isso abriu uma crise em nossa região. Em escala mundial não havia organizações da classe trabalhadora e da juventude que pudesse dialogar entre si e avançar sobre o sistema capitalista. Aliás, quem ousou questionar o sistema vigente? O comunismo não deu certo, né? Era necessário “humanizar” o capitalismo e isso jogou crises dentro dos movimentos de massas que balançaram as grandes estruturas das grandes economias.

    Isso não quer dizer que houve avanços. Vários partidos de esquerda se reinventaram e outros foram criados. Porém foram poucas as organizações que puderam perceber o momento explosivo (e porque não revolucionário?) dessa nova geração. Assim, pouco se fez abrindo uma lacuna e uma nova direita surgiu ocupando esse espaço. Tentando “responder” os novos anseios de nossa geração e resolver os problemas do capitalismo [11]. “Não há nada mais fascista que um burguês assustado”, né? [12]

    Um novo 1968?

    Muitos compararam as jornadas de 2010 a 2014 no mundo como o ano de 1968 [13]. Há semelhanças, mas também muitas diferenças. E a principal semelhança é, invariavelmente, que a juventude é rebelde e questionadora. Algumas vezes, buscam a mudança abrupta de uma sociedade amorfa. Esse mundo foi incompatível com nossos sonhos. Disseram que o mundo era nosso, só esqueceu-se de dizer que existia uma barreira, chamada “meritocracia”. [14]

    Diferente de 1968, onde aquela geração estava sufocada no auge da guerra fria e sem liberdades tanto na “livre democracia burguesas”, como também dentro das ditaduras comunistas. A nossa estava sufocada dentro de uma crise mundial capitalista, sem precedentes. As semelhanças estavam nas guerras que começaram a eclodir em vários pontos do mundo. Nós não temos mais um horizonte e referencial no comunismo e não existiu uma organização que levasse até o fim algum projeto desta envergadura. As influências nas massas ainda estavam e estão sob domínio de organizações da classe trabalhadora reformistas. [15]

    Aquela geração deu voz para as minorias, que até hoje colhemos os frutos. Tentou por fim às guerras no mundo, buscaram-se melhorias educacionais e liberdades sexuais para todos e todas. Essa é a sina da juventude, rebelar-se contra um sistema opressor, qualquer que seja.

    Naquela altura, os partidos de esquerda se acomodaram com a URSS e nada poderia ser questionado em nome de uma guerra ideológica. Esqueceram-se do poder da juventude e assim renovar. Nossa geração, não é diferente. Porém, nos prometeram algo que o sistema não pôde cumprir. E infelizmente os partidos que outrora foram criados pós 1968, caducaram igual aqueles depois de 1918 frente a uma revolução Russa vitoriosa.

    Nossa geração dando continuidade de lutas de outrora, ainda luta pela emancipação familiar. Dados recentes mostram que somos a geração que mais demora sair da casa dos familiares, a renda é baixa e voltamos ao patamar de ter que estudar e trabalhar. [16] Principalmente aqueles oriundos das camadas mais baixas. Um esforço muito grande que resulta nos abandonos ou dívidas nos financiamentos estudantis. [17]

    Não foi isso que nos foi prometido e assim, o amadurecimento exigido pela idade, também se deu de forma política. As informações que se dão é que nossa geração está mais preocupada com os rumos políticos e assim mais participativos. [18] e [19] Como disse Criolo, “Geração que não só quer maconha pra fumar”. [20]

    A história é cíclica, essas revoltas sem direcionamentos e com estruturas organizativas pouco reflete à longo prazo. Nossa geração não falhou por completo e ainda pode acertar. Podemos tirar lição desses dois grandes acontecimentos mundiais, de forma “isolada”, mas como mesmo resultado de suas causas: antipatia de governos com os jovens e supressão das liberdades individuais. Sistemas opressores e exploratórios de nossas condições socioeconômicos foram questionados, só não existia uma ou algumas organizações à altura da situação histórica ousar derrubar os pilares desta sociedade vil como a Comuna de Paris de 1871 e os Bolcheviques em 1917 na Rússia Czarista (essas duas influenciaram todas as outras expropriações da burguesia, passando por China, Cuba, Coreia e Vietnã).

    Podemos olhar com mais carinho para as próximas gerações e enterrar de vez os velhos.

    “Minha dor é perceber
    Que apesar de termos
    Feito tudo, tudo, tudo
    Tudo o que fizemos
    Ainda somos os mesmos
    E vivemos
    Ainda somos os mesmos
    E vivemos
    Como os nossos pais.”
    Como nossos pais, Belchior.

    * Pedro é integrante do coletivo Afronte.
    Foto: Movimento Ocuppy Wall Street, nos Estados Unidos, após a crise econômica de 2008.

    NOTAS

    [1] https://blog.esquerdaonline.com/?p=2694
    [2] https://blog.esquerdaonline.com/?p=2699
    [3] https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/ha-20-ano-crise-chegou-russia-levando-sistema-bancario-ao-colapso-21961938
    [4] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru
    [5] https://www.marxists.org/portugues/bensaid/2009/08/marx.htm
    [6] https://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/2011/09/entenda-como-crise-de-2008-influenciou-vida-dos-brasileiros.html
    [7] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/09/090917_lulalemondeml
    [8] https://esquerdaonline.com.br/2016/12/21/seisanosprimaveraarabe/
    [9] https://esquerdaonline.com.br/2017/02/05/a-derrota-da-primavera-arabe-e-a-crise-dos-refugiados-na-europa/
    [10] https://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/129785-nao-sao-so-20-centavos-dizem-manifestantes-na-avenida-paulista.shtml
    [11] https://www.google.com/amp/s/noticias.r7.com/internacional/crescimento-da-extrema-direita-atende-interesses-economicos-30072018%3famp
    [12] Bertolt Brecht, citação célebre.
    [13] 1968: eles só queriam mudar o mundo / Regina Zappa e Ernesto Soto. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2008.
    [14] https://google.com/amp/s/revistagalileu.globo.com/amp/Sociedade/noticia/2016/06/como-meritocracia-contribui-para-desigualdade.html
    [15] https://revistaprincipios.com.br/artigos/33/cat/1794/socialismo-reformista-ou-revolucion&aacuterio-.html
    [16] https://www.google.com/amp/s/brasil.elpais.com/brasil/2017/06/05/politica/1496687911_980154.amp.html
    [17] https://www.google.com/amp/s//brasil.elpais.com/2018/06/06/internacional/1528282199_859406.amp.html
    [18] https://www.google.com/amp/s/noticias.r7.com/internacional/quem-sao-e-o-que-buscam-os-socialistas-democraticos-o-fenomeno-que-empurra-os-eua-para-a-esquerda-04112018%3famp
    [19] https://m.oglobo.globo.com/economia/millennials-entenda-geracao-que-mudou-forma-de-consumir-23073519
    [20] Música “Esquiva da Esgrima” – Criolo, 2014. Álbum: Convoque seu Buda.

  • Leia a nota do PSOL de Minas Gerais sobre o crime da Vale em Brumadinho

    ATENTADO AMBIENTAL DE BRUMADINHO. TODA SOLIDARIEDADE AOS ATINGIDOS PELA BARRAGEM

    A explosão da barragem de rejeitos de minério da empresa Vale em Brumadinho não se trata apenas de um crime anunciado, e sim um grande atentado ambiental, que resultou em centenas de atingidos e, até o momento, 200* pessoas desaparecidas conforme o Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.

    Os impactos socioambientais mensurados são muito grandes, a lama tóxica desce o Córrego do Feijão que tem suas águas direcionadas diretamente ao Rio Paraopeba, às margens do rio, ao longo do território mineiro, vivem comunidades ribeirinhas, além de acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) com produção de alimentos.

    Após a explosão das barragens de Fundão em Mariana três anos atrás, que culminou na destruição da comunidade de Bento Rodrigues e na morte do Rio Doce, foi constatado a precariedade das estruturas de barramento dos rejeitos minerais da Vale. Um crime anunciado, motivado pela busca pelo lucro sem que empresa assumisse de fato a responsabilidade relativa aos impactos sociais e ambientais.

    As mineradoras no território brasileiro utilizam os cursos d’agua para lavar todo minério que exploram e são beneficiadas com uma gama de isenção de imposto. Não existe nenhuma explicação que seja plausível por parte dessas empresas para tais crimes recorrentes no país.

    O cuidado com as pessoas e com a natureza é um compromisso do nosso partido, e lutaremos contra qualquer tentativa de flexibilização na legislação ambiental proposta pelos atuais governos, defendemos a maior rigidez nos licenciamentos ambientais e nas fiscalizações.

    O Partido Socialismo e Liberdade manifesta sua solidariedade às famílias atingidas e colocamos nossos mandatos e militância à disposição na luta por justiça e reparação!

    Exigimos que o Governo de Minas Gerais e o Governo Federal empreguem todos os esforços para minimizar os danos e responsabilize penal e civilmente a empresa Vale e seus diretores por esse crime.

    Somos uma organização política contrária a super exploração do minério pela indústria internacional e lutamos pela soberania nacional sobre os nossos bens comuns da natureza.

    REESTATIZAÇÃO DA MINERAÇÃO JÁ!
    NÃO FOI ACIDENTE, FOI CRIME!

    DIREÇÃO ESTADUAL DO PSOL MINAS GERAIS

    25 DE JANEIRO DE 2019

    * Nota divulgada no dia 25, quando os números oficiais apontavam 200 desaparecidos. Neste sábado, 26, as autoridades estimam em 350 o total de desaparecidos no local.