Carnaval 2018

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  • Especial Esquerda Online: Carnaval e (é) resistência!

    “Você deve notar que não tem mais tutu
    e dizer que não está preocupado
    Você deve lutar pela xepa da feira
    e dizer que está recompensado

    Você deve estampar sempre um ar de alegria
    e dizer: tudo tem melhorado
    Você deve rezar pelo bem do patrão
    e esquecer que está desempregado

    Você merece, você merece
    Tudo vai bem, tudo legal
    Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
    Se acabarem com o teu Carnaval?”

    (Gonzaguinha)

    Para uma sociedade como a brasileira, na qual o Carnaval marca até o “início real” do ano, trazer discussões políticas para dentro da folia é mais que importante, é algo natural, que faz parte da essência da festa. É impossível esvaziar o Carnaval de um dos seus maiores significados. Carnaval é movimento, é debate, é resistência! Fatos políticos transformam-se em versos, alegorias e adereços. Ao longo dos dias de Momo, a população desfila as contradições da nossa sociedade, ocupa espaços públicos, reinventa e transgride a relação com poderes e instituições satirizando seus algozes.

    Fato que existe oposição à alegria, com representação no Estado. Há quem se enfureça com a felicidade do povo! Muito embora o Carnaval seja uma manifestação popular que não deve ser institucionalizada pelo governo, cabe à administração pública a responsabilidade de garantir o evento na cidade. O Carnaval em si, é do povo e para o povo, e como tal, deve ser preservado, e mais do que nunca é preciso reafirmar seu caráter de resistência.

    Em São Paulo, o prefeito João Doria pretende limitar o público e a duração dos blocos, além de inviabilizar trajetos; em Salvador, houve ameaças de retaliação à banda Baiana System porque, no ano passado, o grupo entoou um coro de “Fora, Temer” e “Machistas, fascistas, não passarão”; entre outros exemplos. Contudo, o prefeito carioca Marcelo Crivella protagoniza os mais contundentes ataques, como a criação do “Blocódromo” que representa um aprofundamento do processo de privatização da cultura, do Carnaval e da cidade, pois caminha no sentido de esvaziar os blocos de rua.

    Do lado de cá, a resposta é carnavalizada. A crítica à reforma trabalhista do governo Michel Temer vai desfilar na Sapucaí através de fantasias como “Guerreiro CLT” que transforma a carteira de trabalho em escudo e a alegoria “Manifestoches” que traz um pato inflável na cintura do folião, referência ao pato amarelo instalado em frente à FIESP (Federação da Indústria do Estado de São Paulo), que virou símbolo das manifestações pró-impeachment.

    Imagem: Escola Paraíso do Tuiuti

    O próprio presidente Michel Temer será representado por um vampiro, enquanto que o prefeito Marcelo Crivella será “homenageado” através de um carro alegórico com um bar representando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem foi chutada num programa de televisão por um pastor da mesma igreja que Crivella é bispo licenciado. Outros políticos também serão representados contracenando com celas, grades e tornozeleiras eletrônicas.

    Imagem: Detalhe de carro alegórico da Mangueira que, segundo carnavalesco, traz críticas ao prefeito do Rio – Ricardo Borges/Folhapress

    O Carnaval de rua, tão tradicional em Recife e Olinda, ganha cada vez mais forças nas cidades brasileiras, respeitando a diversidade cultural e com o tempero das particularidades de cada região, comprovando que a tão propalada alienação não é exatamente o que parece. Entre confetes, purpurina e paródias, não faltarão denúncias sobre a falta de educação, saúde, segurança, moradia e tantos outros problemas sociais.

    Uma das pautas mais destacadas dos carnavais nos últimos anos é o combate às opressões. Crescem os blocos que apresentam temáticas LGBT, que combatem o machismo e o racismo e expõem as lutas das periferias. Iniciativas como a tatuagem provisória “Não é Não!” denunciam e fortalecem a campanha contra o assédio.

    Imagem: Reprodução/ Instagram

    Existem setores, até dentro dos segmentos progressistas e de esquerda, que apontam o carnaval como uma festa alienada ou como “ópio do povo”, que nada existe que deva ser celebrado diante da crise que atravessamos. Ou ainda, argumentam que o Carnaval tem sofrido um forte processo de mercantilização, que as classes dominantes investem pesado em comprar e incorporar toda e qualquer manifestação da cultura popular.

    Acreditamos, no entanto, que é exatamente pela dureza do cotidiano que o nosso povo encontra força e criatividade. É ainda mais certo que perante as dificuldades, a folia se reinventa e até faz graça das tentativas de transformar a festa em produto para poucos privilegiados. E, nesta direção, que o Esquerda Online lança um Especial, que contará com matérias de opinião, reportagens, fotorreportagens sobre a festa nas diferentes cidades, de norte a sul do Brasil. Façamos Carnaval!

    Ilustração Topo: Obra”Carnaval”/Carybé/1986

  • Crivella: não coloque cordas no nosso cordão!

    Por Bernardo Pilotto* e Rafael Nunes**

    “Não põe corda no meu bloco

    Nem vem com teu carro-chefe

    Não dá ordem ao pessoal

    Não traz lema nem divisa

    Que a gente não precisa

    Que organizem nosso carnaval”

    (João Bosco)

    Após vários adiamentos e especulações, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou, através da Riotur, nesta quarta-feira (10), o que pretende com sua proposta de blocódromo (chamada oficialmente de Arena Carnaval). E, como já se esperava, a proposta é mais um ataque de Crivella ao carnaval.

    Segundo a prefeitura, haverá uma verba de R$3,3 milhões para organizar desfiles no local que sediou o Parque dos Atletas nas Olimpíadas de 2016. E não basta tentar confinar os blocos num local fechado: dentro do blocódromo haverá uma área VIP (e o edital da prefeitura prevê até dinheiro para canapés para este setor).

    A proposta de blocódromo é um aprofundamento do processo de privatização da cultura, do carnaval e da cidade, pois caminha no sentido de esvaziar os blocos de rua. Ao permitir comercialização de áreas VIPs, a prefeitura permite que também no carnaval se reproduza a desigualdade cotidiana de nossa sociedade. É, por exemplo, o processo que aconteceu no carnaval oficial de Salvador.

    Segundo Felipe Ferreira, professor do Instituto de Artes da UERJ, “em lugar de uma rua carnavalescamente ressignificada, propõe um território higienizado, organizado e delimitado como para um evento de rock ou jogo de futebol, transformando o que era folia em um espetáculo espacialmente controlável”.

    Com muita propaganda na rádio e na TV e com a presença de cantores famosos, certamente o blocódromo atrairá muitas pessoas em seus shows. Mas o grosso da população que para lá se deslocar encontrará um espaço segregado, dividido nas classes e na cor.

    Além de ser um ataque aos princípios momescos, a medida de Crivella é também ilegal. Isso porque, em 2013, o então prefeito Eduardo Paes editou decreto proibindo esse tipo de prática. Foram anos e anos de lutas e pressão dos blocos e movimentos culturais para tal medida fosse oficializada.

    Como afirmou o presidente da Riotur, Marcelo Alves, um dos motivos para a criação do espaço é por essa ser a região da cidade “com menor ocupação hoteleira para o carnaval”. Esse é mais um dos legados olímpicos às avessas. Segundo a compositora Manu da Cuíca, esse “é o legado dos grandes eventos em sua essência: a cidade moldada para satisfazer os grandes empresários”.

    Ao invés de uma arena, o que os blocos precisam é de apoio, com mais e melhores banheiros químicos, com a limpeza das ruas, estrutura de som, transporte público 24h (e não só o metro) e divulgação.

    Lutar contra mais esse ataque ao carnaval é também lutar por uma cidade democrática, inclusiva e igualitária.

    *Bernardo Pilotto é sociólogo

    **Rafael Nunes é carioca e folião

    Imagem: O Globo

  • Rio de Janeiro: vem aí um carnaval dos carnavais

    “Rei Momo abre as portas do meu Rio

    Que sempre faz um carnaval dos carnavais”

    (Billy Boy, César Reis e Élio Sabino, samba-enredo da Unidos do Porto da Pedra de 1996)

    Por Bernardo Pilotto, do Rio de Janeiro

    Em 1893, o então presidente Marechal Floriano quis transferir o carnaval para junho, argumentando que o carnaval no mês de fevereiro favorecia a transmissão de epidemias. Em 1912, novamente houve uma tentativa de proibição, desta vez por conta do luto pela morte do Barão do Rio Branco, que havia ocorrido dias antes.

    Em ambas as ocasiões, as medidas não funcionaram. O que se viu, pelo contrário, foram carnavais ainda mais fortes, com mais gente brincando na rua. De lá pra cá, os registros de jornal mostram também uma série de blocos que, quanto mais proibidos, mais cheios ficavam. Foi assim com o Chave de Ouro, que desfilou por muitos anos na Quarta-Feira de Cinzas, o que era proibido pela Cúria Metropolitana.

    Por isso que, para 2018, em plena gestão Crivella, podemos ter novamente um “carnaval dos carnavais” no Rio de Janeiro. E já temos alguns indícios para essa afirmação.

    Em relação a 2017, já há mais blocos inscritos para fazer desfiles de rua em 2018. Mesmo com diminuição da verba que a Prefeitura fornecia para o carnaval de rua e com tentativas de enquadrá-lo apenas em determinados espaços da cidade, os blocos têm mostrado sua força, contando com o trabalho voluntário e militante dos seus membros e também com o apoio dos foliões através dos financiamentos coletivos na internet.

    Para o desfile das escolas de samba, que continua atraindo a atenção de milhões de pessoas ao redor do mundo, teremos diversas agremiações com enredos bastante politizados, com destaque para a Estação Primeira de Mangueira, que vai para a avenida trazendo um enredo (“Com Dinheiro Ou Sem Dinheiro Eu Brinco”) que questiona os próprios rumos do desfile e que bate de frente com o Bispo Crivella.

    Um embate entre dois modelos de cidade

    No segundo turno das eleições para as prefeituras brasileiras em 2016, o embate mais antagônico se deu no Rio de Janeiro. Isso porque a disputa se deu entre Marcelo Freixo, do PSOL, e o Bispo Marcelo Crivella, do PRB. Apesar da forte mobilização popular em torno da campanha de Freixo, a candidatura de Crivella foi vencedora, fazendo com que um projeto liberal nas questões econômicas e ultra conservador em relação às liberdades individuais fosse vitorioso.

    Nesse primeiro ano à frente da prefeitura, Crivella tem procurado aplicar seu projeto a todo custo. Assim como faz Michel Temer e o governador Pezão, mantém um forte ajuste fiscal em relação aos gastos com políticas públicas, deixando inclusive trabalhadores da saúde sem salários. Mas, seu projeto conservador não vem só a partir de questões econômicas: a prefeitura de Crivella tem se caracterizado por um enfrentamento, como há muito não se via, com a área cultural, com o carnaval, as escolas de samba, os blocos de rua.

    Ao longo de 2017, por diversas vezes, a prefeitura tentou acabar com eventos de rua, como as rodas de samba que acontecem em diversas praças do centro da cidade. Quando não tentou acabar na forma de repressão direta, buscou causar confusão, como quando autorizou dois eventos absolutamente diferentes (uma feira de livros e uma corrida) no começo de dezembro na Praça Mauá. E isso tudo numa cidade que tem uma tradição muito grande de realizar eventos na rua.

    Além de atacar os eventos de rua cotidianos, a prefeitura partiu para o ataque em cima do carnaval, utilizando-se de um argumento perverso, que opôs carnaval às creches. Sob o argumento de que gastava com “apenas 4 dias do ano”, Crivella anunciou que utilizaria o dinheiro que era destinado às escolas de samba para melhoria das creches. Acontece que, na prática, o dinheiro foi tirado do carnaval e não foi investido em creches, na educação ou na compra dos remédios que faltam nas unidades de saúde.

    A argumentação de Crivella é perversa visto que faz uma tosca separação entre cultura e educação e desconsidera os blocos e escolas de samba como espaços que funcionam o ano inteiro (e que inclusive geram uma grande gama de empregos). Traz, também, uma visão moralista, como se fosse algo errado haver diversão durante os momentos de crise econômica.

    É verdade como muita coisa no carnaval poderia ser mudada. Já passou da hora de democratizarmos diversos aspectos da festa, especialmente nos pontos relativos à gestão dos desfiles de escolas de samba pela LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro). Apontamos como esse foram feitos pelo relatório da Comissão do Carnaval da Câmara Municipal. Mas as críticas de Crivella nada tem a ver com melhorar a festa. Sua intenção é apenas o aniquilamento do carnaval e ponto final. Continue reading