Carnaval 2018

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  • Liga das Escolas de Samba faz virada de mesa no Carnaval do Rio

    Bernardo Pilotto, do Rio de Janeiro (RJ)

    A decisão da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba) e da maioria das escolas filiadas de não haver nenhum rebaixamento em 2018 deve ser repudiada por todos e todas, ainda que não seja surpreendente. Desde que a apuração dos desfiles, na Quarta-Feira de Cinzas, apontou o rebaixamento da poderosa Acadêmicos do Grande Rio, cogitava-se uma virada de mesa.

    E essa não é, infelizmente, a primeira virada de mesa da história. Isso também ocorreu no ano passado e ao longo dos anos 1990 (como em 1993, 1994 e 1995) e nos anos 1980 (como em 1981 e 1988). Muito antes disso, também tivemos outros momentos de crise: entre o final da década de 1940 e início da década de 1950 aconteceram dois desfiles considerados principais, visto que haviam duas ligas/associações organizadoras.

    LIESA: com você não dá mais
    A decisão desta quarta-feira mostrou a completa incapacidade da LIESA em gerir o desfile das escolas de samba. Nas redes sociais, desde os primeiros rumores de que o regulamento não seria cumprido, muitos se posicionaram pedindo que a Prefeitura cortasse por completo o repasse de dinheiro público a essas escolas, visto que elas não estariam cumprindo com o contrato estabelecido. Mas a solução passa por uma proposta totalmente oposta a essa.

    Acredito que o maior desfile de escolas de samba do mundo não pode ser organizado por uma liga que não tem democracia nem qualquer tipo de transparência nas suas ações. Está mais do que na hora do poder público retomar a organização dos desfiles das escolas de samba.

    Ainda que hoje a Prefeitura de Crivella seja inimiga do carnaval, a organização dos desfiles da Sapucaí (e também dos desfiles da Intendente Magalhães e do carnaval de rua) por uma Subsecretaria de Carnaval (conforme consta no relatório da Comissão Especial de Carnaval da Câmara de Vereadores) possibilitaria maior controle público sobre os rumos da festa.

    A LIESA se mostrou, desde a sua fundação, em 1984, uma entidade que visa apenas o atendimento do interesse dos presidentes das escolas, deixando de lado sambistas, foliões e o público. É uma entidade que gere o carnaval a partir de interesses particulares.

    E, incrivelmente, a virada de mesa de 2018 é só um dos problemas dessa entidade. Com a LIESA no comando do carnaval, não temos critérios públicos para a escolha dos jurados, não há licitação para a ocupação dos espaços do Sambódromo (que é um equipamento público) e os ingressos são vendidos de modo a dificultar ao máximo a vida do folião (o que favorece o trabalho de agências de viagem que aplicam uma taxa alta no preço do ingresso).

    A virada de mesa não ajuda na consolidação do público

    E essa visão apenas imediatista e comercial dos desfiles é um tiro no pé. Ao longo dos anos, ela tem servido para afastar o público, especialmente o mais jovem, da Sapucaí. Se, nos anos 1980, era comum que todo carioca tivesse uma escola do coração, hoje isso é cada vez mais raro entre aqueles que tem até 30 anos.

    Os desfiles desse ano mostraram um grande potencial para que essa lógica fosse invertida. As escolas de samba viraram assunto em todo o país, os desfiles foram comentados nas redes sociais por muita gente que nunca havia se interessado pelo tema.

    Certamente a decisão de rasgar o regulamento e não rebaixar nenhuma escola não ajuda para consolidar o público que foi atraído em 2018. Parece que a LIESA trabalha com a lógica do quanto pior melhor.

    Felizmente, sabemos que o complexo cultural que envolve as escolas de samba é muito maior do que uma liga comandada por meia dúzia de dirigentes com ficha policial extensa. Por sua vez, um eventual abandono daqueles que amam verdadeiramente as escolas só iria fortalecer essa camarilha.

    Por isso, nosso desafio segue o sendo o de defender as escolas dos ataques conservadores e de continuar a luta pela democratização da gestão do carnaval.

    Visite o especial Carnaval e(é) Resistência, sobre o carnaval 2018
    Vídeo: Entrevista com Luiz Antonio Simas, sobre carnaval, diáspora e o Rio de Janeiro

  • Na disputa da PM baiana com Igor Kannário, quem sofre são os jovens negros

    Por: *Henrique Oliveira

    O Carnaval de Salvador vem registrando desde 2012 uma redução dos números de crimes. Segundo a Secretaria de Comunicação do Estado (Secom), o Carnaval de 2012 teve uma queda de 16% no número dos delitos. Em 2012, no circuito Dodô (Barra/Ondina) foram registrados 73 casos de roubo, 14 a menos que em 2011 onde foram registradas 87 ocorrências. Os casos de furtos também diminuíram sendo 611 furtos contra 731, o mesmo para lesões corporais onde foram registradas 91 situações de agressão, enquanto em 2011 foram registrados 138 casos.

    Em 2014, a Secretaria de Segurança Pública divulgou que houve uma redução de 29% dos casos de lesões corporais, furtos reduziram em 40% e o roubo 28%. E, no ano passado (2017), as lesões corporais reduziram em 44% quando comparado com o ano de 2016.

    E quais são os motivos que têm levado à redução da violência no Carnaval de Salvador? Numa entrevista concedida à rádio Metrópole, logo após o carnaval de 2016, o Coronel Anselmo Brandão disse que os blocos sem cordas ‘reduziram bastante a violência, porque o que causa violência no bloco com corda é a conquista do espaço, ou seja, sem espaço o folião se sente oprimido’. O prefeito de Salvador, ACM Neto, também disse que a redução da violência no circuito da festa está relacionada com os blocos sem cordas.

    Mas, se a violência em geral está reduzindo no Carnaval de Salvador, por que a violência Policial também não segue o mesmo caminho, já que o discurso Policial é que as suas intervenções com uso da força física são para conter as brigas?

    Na segunda-feira de Carnaval (12), o cantor de pagode e vereador Igor Kannário arrastou uma verdadeira multidão no seu trio sem cordas no circuito Osmar (Campo Grande), e uma das marcas da passagem do trio foi a brutal violência Policial contra os foliões que acompanhavam o cantor. A ação da PM repercutiu negativamente e foi alvo de comentários e relatos no dia seguinte nas redes sociais e na imprensa. Vocês podem ver aqui e aqui que no momento das agressões proferidas pela PM não havia nenhuma motivação que justificasse, pelo menos, uma atitude de contenção policial.

    De cima do trio, o cantor Igor Kannário se posicionou contra a violência Policial dizendo que o governador precisava ver como os policiais estavam tratando as pessoas, afirmando que os PMs não podiam chegar agredindo o povo e que essas pessoas são as responsáveis pelo pagamento dos salários dos policiais.

    Em resposta aos fatos ocorridos, a Polícia Militar enviou uma nota ao jornal Bahia Meio Dia da Rede Bahia, dizendo que a violência Policial no dia anterior foi de responsabilidade de Igor Kannário, que segundo a PM, ‘incita o público a desrespeitar’ a Polícia. Ora, se a PM está incomodada com a postura de Igor Kannário, que entre na justiça com processo por danos morais, calúnia e difamação. No entanto, a PM prefere descontar seu desagravo com o cantor em cima dos corpos negros. O coronel Anselmo Brandão ainda disse que Igor Kannário é um ‘marginal’, porque ele já foi preso duas vezes por porte de drogas.

    A violência policial no carnaval se tornou objeto de denúncia nas redes sociais também pelo ator global Bruno Gagliasso, que estava em cima do trio de Bell Marques, no domingo (11), um dia antes do trio de Igor Kannário. O ator divulgou cinco vídeos em sua conta no aplicativo Instagram, sendo que em um deles é possível ouvir Bruno Gagliasso dizer: ‘Absurdo. Ele não fez nada’. Enquanto um homem era covardemente agredido por policiais. Em uma das imagens Bruno Gagliasso colocou uma legenda: “Essa é a polícia que você quer? Vergonha”. Diante desse fato, o Porta Voz da Polícia Militar, Capitão Bruno Ramos, rebateu as postagens de Bruno Gagliasso dizendo que era uma “crítica Nutella”, de quem estava na ‘mordomia de cima de um trio’. Esse é o nível de seriedade que um Porta Voz da PM lida com uma denúncia grave de agressão policial no carnaval.

    No entanto, o embate entre a PM baiana e o cantor Igor Kannário já vem “de outros carnavais”. O início desse processo de perseguição e indisposição da PM em relação ao cantor começou quando o mesmo foi detido duas vezes por porte de Maconha em 2015. A primeira prisão aconteceu no dia 7 janeiro de 2015, no bairro da Caixa D’água, acompanhado de mais dois homens, com uma quantidade de Maconha que indicava ser para consumo pessoal. A segunda prisão foi no dia 22 de Janeiro do mesmo ano, praticamente quinze dias depois da primeira prisão, dessa vez apenas com um cigarro de Maconha, na cidade de Candeias, localizada na Região Metropolitana de Salvador. Com a grande repercussão criada logo após essas prisões, o cantor esteve no programa televisivo Universo Axé onde assumiu ser usuário recreativo de Maconha.

    A partir dessas duas prisões a PM baiana passou então a fazer uma marcação cerrada sobre Igor Kannário, tanto que no carnaval de 2015 o cantor quase não colocou o seu bloco na rua e só participou da festa após uma intervenção política do prefeito ACM Neto. O efeito dessa ação do Prefeito pôde ser sentido no ano seguinte quando o cantor se tornou seu aliado político nas eleições, inclusive sendo eleito vereador pelo PHS, partido da base aliada do prefeito. Uma grande jogada de marketing político de ACM Neto.

    Na Micareta de Feira de Santana no ano passado, o cantor Igor Kannário discutiu com uma Policial Feminina que estaria agredindo as pessoas que seguiam o seu trio elétrico. Em meio a discussão Kannário disse que ‘a mulher era apenas uma PFem’ e que ele era muito mais autoridade do que ela, por ser um vereador. Momentos depois o cantor pediu para a banda parar o som, dizendo que a Policial Militar estava o mandando tomar no c…

    A soldada da Polícia Militar Tainá Gomes disse que se sentiu humilhada com as palavras de Igor Kannário, negou a agressão verbal alegando ainda ter usado a força para conter uma desordem no meio da festa. O coronel Aldemário Xavier, do Comando de Policiamento Regional Leste (CRPL), chegou a dizer na época que se fosse com ele a situação da discussão iria fazer Igor Kannário ‘engolir o microfone’ para aprender a respeitar a Polícia Militar. Este é o bom exemplo do nível de truculência que atua em todas as esferas da hierarquia policial. Por esse acontecido a Policial Militar chegou a processar o cantor por calúnia.

    Nessa disputa entre a PM baiana e o cantor Igor Kannário, o cantor não é o único alvo da ação dos policiais, juntamente com ele o seu público é criminalizado. Não é coincidência esse público ser formado por jovens negros e periféricos, vistos como perigosos e causadores de tumulto. As ações violentas do cotidiano da Polícia Militar atingem as pessoas que se encaixam justamente nesse mesmo perfil. Reflexo disso é que no ano de 2015 o estado da Bahia foi considerado o segundo mais violento para os jovens, sobretudo para a juventude negra.

    O que as agressões da PM no carnaval desse ano demonstram que o problema na verdade nunca foram à reatividade policial as brigas e confusões que aconteciam na festa, pois os casos de lesões físicas vêm decaindo enquanto a violência policial em nada mudou. O ponto central nesse debate na realidade é o abuso da autoridade por parte dos homens fardados.

    E para quem ainda acha que se trata de ‘casos isolados’ ou que são maus PM’s, eu digo que esse argumento de maus policiais e bons policiais não é capaz de explicar a violência sistemática da instituição. Vejam alguns casos recentes de agressão de PM’s em situações que não representavam nenhuma ameaça a vida dos policiais e a de terceiros: Policiais Militares são filmados agredindo e apontando armas para pessoas na praia de Cabuçu; nessa outra situação em frente a maternidade Tsylla Balbino no bairro do Pau Miúdo em Salvador, uma mulher depois de ouvir um ‘cala a boca’ recebe um tapa no rosto e é jogada no fundo de uma viatura, na UPA de Itapuã uma outra mulher foi agredida após reclamar do atraso no atendimento ao seu filho doente; já no bairro do Nordeste de Amaralina moradores são xingados e agredidos por PM’s.

    A violência policial no carnaval e na sociedade não é de forma alguma novidade, mas a questão é que não estamos mais reféns das câmeras da televisão, hoje em dia com um celular os casos de agressões da PM são divulgados com mais amplitude.

    Estamos lidando com uma polícia que é acostumada a forjar situações para legitimar o uso da força, até mesmo o seu uso letal. Nós estamos falando de uma Polícia que em 2015 matou 12 pessoas na conhecida ‘Chacina do Cabula’, alegando uma suposta troca de tiro, porém os laudos da perícia apontaram a existência de fortes indícios de execução, como tiros nas mãos e antebraços a curta distância. Algumas vítimas ainda foram atingidas de cima para baixo e só 4 dos 12 jovens tinham pólvoras nas mãos.

    Estamos falando de uma Polícia que atua na perspectiva de suspeição generalizada, onde jovens negros são suspeitos até que se prove ao contrário. Agindo com um olhar racializado, atenta aos gestos, não suportando ver uma concentração de pessoas negras sem pensar duas vezes que elas representam uma ameaça em potencial. São corpos negros livres, dançando, aproveitando um momento único com um artista que fala a mesma ‘língua’ produzindo assim uma identidade em comum. Esse debate também inclui o direito à cidade, pois ali se encontrava uma parcela expressiva da sociedade de Salvador que sofre a cada dia com a subtração dos espaços públicos de sociabilidade, tendo negado acesso a lazer e a cultura. A pipoca de Igor Kannário se torna então a oportunidade de furar o bloqueio social provocado pelo Racismo e a desigualdade.

    O que a Polícia Militar diz sobre Igor Kannário incitar o seu público a desrespeitar a PM não é nada além do que um discurso que preza pelo respeito às pessoas. A Polícia não pode agredir gratuitamente, porque o uso da força é garantido a PM, mas sob algumas condições, sendo necessária usá-la para se alcançar alguma finalidade. Pois bem, a violência que a Polícia Militar promove no carnaval não tem outro objetivo a não ser apenas agredir pessoas de forma generalizada. Os possíveis brigões não são contidos e a integridade física da maioria das pessoas não é garantida, pelo contrário, a ação da PM causa mais dano a integridade física do que as brigas. A PM continua sendo um instrumento antidemocrático, que não tolera o ambiente de pluralidade e liberdade, considerando que as pessoas que conhecem seus direitos e os reivindicam estão desacatando a sua autoridade.

    Henrique Oliveira é mestrando em História Social pela UFBA e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia

  • OPINIÃO | Obrigado, Tuiuti, pela lembrança

    Por: Fabiano Godinho Faria, coordenador Geral do SINASEFE

    Há exatamente meio século, um jovem cantor tentava se explicar para uma plateia apaixonada do porquê sua canção não ficou em primeiro lugar. Dizia ele: “a nossa função é fazer canções, a função de julgar, nesse instante, é do júri que ali está”.

    Seu nome era Geraldo Vandré, estava discursando na Grande Final do Festival Internacional da Canção de 1968”. Logo após dizer: “ A vida não se resume a festivais”, entoou sua canção e foi acompanhado palavra a palavra por uma juventude que denunciava abertamente a repressão. A música “Pra não dizer que não falei das flores” não foi campeã, isso é fato, mas quem se lembra da primeira colocada? E quem não conhece o famoso refrão que abalou as estruturas do Ginásio do Maracanãzinho?

    Nada mais parecido com isso que o desfile da Paraíso do Tuiuti. Inesperadamente, como uma revolta na senzala, o samba enredo, ecoando pelas arquibancadas, resgata ao centro da cena política o negro escravizado que não suporta mais o cinismo do poder.

    Que fique a Beija Flor com seu troféu de campeã! Quem vai se lembrar dele e de seu samba enredo à lá lava-jato e Rede Globo?! Precisamos lembrar, parodiando Vandré, que o samba não se resume ao sambódromo.

    Mas, o silêncio idiota dos comentaristas do pensamento hegemônico durante a passagem da Escola de São Cristóvão, a repercussão internacional, o aplauso entusiasmado de toda a população descontente será vosso legado. Quem não se lembrará da ala dos “manifestoches”, da crítica contundente à Reforma Trabalhista e do “vampiro temeroso”? Paraíso do Tuiti conquistou mais do que um título, conquistou a posição de escola do coração de todos os resistentes e lutadores.

    50 anos depois do Festival Internacional da Canção. Dois anos depois de um golpe judiciário-parlamentar-midiático, que por sua vez ocorreu pouco mais de 50 anos depois do golpe empresarial-militar que deu início à ditadura militar e contra o qual protestava Vandré. Pouquinho depois dos 50 anos da própria Rede Globo que apoiou e atuou nos dois golpes e que nunca aceitou a vitória moral de Geraldo Vandré.

    Obrigado, Paraíso do Tuiti, por nos fazer lembrar de maneira tão alegre e criativa que “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

  • Paraíso do Tuiuti faz história na Sapucaí: da escravidão às reformas de Temer

    Por Pedro Augusto Nascimento, de Santo André/ SP

    A maior festa popular do país já tem a campeã no quesito protesto e ousadia, em 2018. A escola Paraíso do Tuiuti, que no ano passado teve um carro alegórico envolvido em um grave acidente, que custou uma vida, volta em 2018 com um desfile-denúncia que foi por algum tempo o assunto mais comentado no Twitter no Brasil, e o segundo no mundo na última Segunda-feira (12).

    A sucinta fala do carnavalesco Jack Vasconcelos exibida no início do desfile pela Rede Globo não deixa margem para dúvidas: “[Em] 2018 se completam 130 anos da assinatura da Lei Áurea. E o desfile desse ano da Paraíso do Tuiuti vem fazendo uma reflexão, em cima da exploração do trabalho humano. O nosso enredo pergunta: Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão? Ao final do desfile, a gente espera responder a essa pergunta.”.

    O enredo não passa pano pra ninguém. Questiona o resultado da Lei Áurea, que legou aos negros recém-libertos da escravidão oficial a violência, a miséria, o abandono e as encostas dos morros, mas chega até os dias atuais. Sim, pois quando Jack Vasconcelos diz que responderia à pergunta-tema do enredo ao final do desfile, estava sendo literal.

    Primeiro, com uma ala denominada “Cativeiro Social”, que através de foliões fantasiados de barracos representava as condições em que vivem os negros nas periferias das cidades. Depois, com a ala “Trabalho Escravo Rural” evidenciava as condições análogas à escravidão a que milhões de brasileiros ainda são submetidos todos os anos. Na sequência, o segundo casal de Mestre-sala e a Porta-bandeira representando, respectivamente, o magnata da confecção e a costureira sob regime semi-escravo, nada mais atual. Também teve as alas “Trabalho Informal” e “Guerreiros da CLT”, onde a primeira representava o trabalho precarizado que cresce com o desemprego e a Reforma Trabalhista, em especial para os negros e negras, enquanto os guerreiros, com múltiplos braços sobrecarregados, defendiam as suas carteira de trabalho.

    Por fim, a ala “Manifestoches” debocha das manifestações verde-amarelo que apoiaram o impeachment, com foliões fantasiados como um pato amarelo, à lá FIESP, e manipulados por cordas, antecipando o carro alegórico “Neo-tumbeiro”. Tumbeiro é como os navios negreiros eram conhecidos, pois significaram a morte de milhões de africanos sequestrados da África até o Brasil, mortos pelo caminho. No alto desse carro alegórico, no comando do “Neo-tumbeiro”, o “Vampiro Neoliberalista”, numa evidente alusão a Michel Temer.

    Já o samba-enredo conseguiu a proeza de focar na escravidão e nas suas sequelas, vividas pelos negros ao longo de quase 4 séculos no Brasil, e ao mesmo tempo animar as arquibancadas a cantarem a plenos pulmões. A letra começa questionando a desumanidade do senhor de escravo, os açoites dos capatazes sobre a pele de reis e rainhas africanos sequestrados, segue reivindicando o papel da ancestralidade africana para a resistência do povo negro e, ao final, levantava a Sapucaí apresentando o Quilombo como um convite à liberdade: “Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu paraíso é o meu bastião/ Meu Tuiuti o Quilombo da Favela/ É sentinela da libertação”.

    Denúncia e representatividade do início ao fim

    Tudo já indicava um desfile arrebatador, desde a Comissão de Frente. Lá, os negros escravizados foram representados sob açoites, mas que com a força da ancestralidade representada pelo Preto Velho, tiveram forças para libertarem-se dos grilhões da escravidão, contando ainda com o arrependimento do capitão do mato, também negro. Não houve espaço para a Princesa Isabel, demonstrando que o fim da escravidão oficial foi obra da resistência negra.

    O enredo também mostrou os diversos momentos na história em que a instituição da escravidão foi usada. Desde o Egito antigo, passando pela Grécia, os árabes e os eslavos escravizados, até a escravidão moderna nas Américas, de mão-de-obra negra africana. Essa última, porém, além de ter sido a base fundamental para a expansão e consolidação da economia capitalista em todo o mundo, é parte inseparável da construção do Estado brasileiro.

    O desfile surpreendeu a plateia e deixou a Rede Globo, apoiadora do golpe parlamentar e das reformas de Temer, em uma situação constrangedora. No momento da transmissão ao vivo do desfile, era impossível para os comentaristas da emissora minimizarem o impacto, pois tudo estava escancarado nas alegorias e no entusiasmo da escola na Avenida e nas arquibancadas. Ainda assim, mesmo com o Vampiro Neolieralista em destaque, Temer não teve o seu nome citado na transmissão e tampouco o enorme carro alegórico com a Carteira de Trabalho foi relacionado à Reforma Trabalhista. Na entrevista dos membros da escola ao vivo após o desfile, tampouco houve interesse em se aprofundar no tema do enredo. Mas nem precisou: a mensagem já havia sido entregue.

    O troco, no entanto, veio nas edições feitas para os compactos dos programas matinais da Rede Globo, que além de mostrarem a Paraíso do Tuiuti por menos tempo do que as demais escolas, fugia das imagens da parte final do desfile, com os patos amarelos e o Vampiro Temer. Há muita expectativa para que a escola não seja punida na apuração, o que seria uma injustiça inaceitável, dado a qualidade do desfile, do samba-enredo à evolução e harmonia.

    Desfiles da Mangueira e Beija-flor também trazem protestos para a Avenida
    A primeira noite do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro também contou com um grande desfile da Mangueira, “Com dinheiro ou sem dinheiro em brinco”, que fez um desfile reivindicando a origem do carnaval carioca, os blocos populares. E também não mediu esforços em denunciar o corte de verbas destinadas ao Carnaval feito por Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal e atual prefeito carioca. O prefeito teve a sua foto pregada a um boneco, representado como Judas.

    No segundo dia do carnaval da Sapucaí, foi apresentado o samba-enredo da Beija-Flor “Monstro é quem não sabe amar”, que misturou Frankenstein com críticas políticas ao longo da Avenida. Teve do ex-governador Sérgio Cabral e Adriana Ancelmo representados num jantar em Paris, a tornozeleiras eletrônicas, e o Maracanã sendo relacionado à Frankenstein, em alusão às obras bilionárias que descaracterizaram o estádio original.

    Inspiração para um ano que vai exigir muita luta
    Essa não é a primeira vez que uma escola de samba apresenta temas políticos da conjuntura no Carnaval. Para não falarmos dos primórdios do carnaval carioca, em 1985, por exemplo, a Caprichosos de Pilares denunciou a penúria vivida pelos brasileiros e reivindicou a campanha das “Diretas Já” no samba-enredo “E por falar em saudade”. Há trinta anos atrás, no centenário da Lei Áurea, a Mangueira apresentou o samba-enredo “Cem anos de liberdade, realidade e ilusão”. Ali, era denunciado que a Lei Áurea não trouxe a liberdade aos negros, ao mesmo tempo em que a volta do Zumbi dos Palmares era apresentada como o sonho da redenção negra.

    O que há de novo e alentador no desfile da Paraíso do Tuiuti é trazer de volta ao grupo especial, daquele que é chamado de “o maior espetáculo da terra”, a denúncia e o retrato da vida do povo pobre e oprimido, dos negros e negras, essa que também é uma tradição do Carnaval e de todas as manifestações populares. É a arte refletindo, mas também influenciando a vida. O momento não poderia ser mais oportuno.

    Poucos anos devem ser tão marcados pela política como 2018, ao menos no Brasil. Logo em Janeiro, tivemos a condenação sem provas em segunda instância de Lula, que deve impedi-lo de concorrer nas eleições 2018 e pode, inclusive, leva-lo à prisão em poucas semanas. Esse fato, que é a segunda fase do golpe jurídico-parlamentar que a Paraíso do Tuiuti ajudou a denunciar, precede a mais uma tentativa de Temer, Rodrigo Maia e seus aliados corruptos do Congresso de votarem a Reforma da Previdência, ainda esse mês. Se não bastasse a exploração do trabalho humano, denunciado por Jack Vasconcelos, os grandes empresários, Temer, assim como a Rede Globo, querem a Reforma da Previdência para que esse martírio não tenha fim.

    Por isso, o samba-enredo da Tuiuti pode ser o canto a inspirar mais uma vez cada um de nós a se unir, a se aquilombar, e a resistir. Vale a pena repetir: “Não sou escravo de nenhum senhor/ Meu paraíso é o meu bastião/ Meu Tuiuti o Quilombo da Favela/ É sentinela da libertação”.

  • Bloco filhos de Tcha Tcha é reprimido pela polícia em Belo Horizonte

    PMMG É TIRO, PORRADA E BOMBA NO CARNAVAL DE BH!

    A Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) segue, como sempre, reprimindo o carnaval e os pobres de Belo Horizonte.

    Hoje, segunda-feira de carnaval, o bloco Filhos de Tcha Tcha realizou um cortejo emocionante pelo Vale das Ocupações do Barreiro (Ocupações Eliana Silva, Irmã Dorothy, Camilo Torres e Paulo Freire), e recebeu, na dispersão, um show do pessoal do “Lá da Favelinha”, lindo projeto de inclusão social de jovens através da arte, em especial o funk.

    Tudo transcorreu bem, mais de 10 horas de carnaval sem assaltos, sem violência, nenhuma confusão e, para isso, sem necessidade da PMMG.

    Aparentemente, essa situação desesperou o comando da PMMG, que resolveu, já no final da festa, barbarizar e massacrar os foliões, sem nenhuma justificativa ou tentativa prévia de diálogo.

    A força desproporcional incluiu, contra pessoas indefesas que apenas celebravam, tiros de balas de borracha, pancadas de cassetetes, jatos de spray de pimenta, muitas bombas de efeito moral e até na prisão de pessoas inocentes. Na reta da tropa enraivecida, crianças, mulheres, pessoas de todas as idades cujo sua única transgressão era celebrar um Carnaval junto às ocupações urbanas que são símbolo de luta por uma sociedade mais justa.

    Neste momento, diversos feridos estão se dirigindo ao hospital para serem atendidos. Além disso, a companheira Indianara, moradora da Ocupação Eliana Silva, militante do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e funcionaria da Gabinetona (vereadoras Cida Falabela e Aurea Carolina) está presa na Central de Flagrantes do Barreiro sob acusação de desacato. Ela é mantida algemada pelo Sargento Wagner, mesmo com os protestos do advogado presente. Esse é o cotidiano da periferia que não muda no carnaval.

    Denunciamos esta repressão absurda e desproporcional, exigimos a soltura imediata de Indianara e punição para o comando da PMMG que autorizou essa barbaridade.

    O governador Fernando Pimentel (PT), comandante da PMMG, deve se posicionar contra esse absurdo e punir os PMs envolvidos em todos essas graves violações.

    Amanhã, falaremos das alegrias desse dia que foram muitas. Apesar de tamanha violência, a felicidade prevalecerá!

    #LiberdadeParaIndianara
    #ChegaDeRepressaoPolicialContraOsPobres
    #EuQueroOFimDaPoliciaMilitar
    #carnavalDeBhÉDeLuta

    Nota da coordenação do bloco

  • Já é Carnaval, Salvador; e o Esquerda Online montou o rolê para você cair na folia

    Por: Jean Montezuma, de Salvador, BA

    Nada do que é humano me é estranho,
    disse certa vez o velho Karl Marx. Pois, então, o que seria o Carnaval, senão uma das mais ricas e belas marcas de nossa humanidade? O Carnaval é uma das mais significantes manifestações culturais do Brasil. De Norte a Sul, cada estado e cidade tem o seu jeito de fazer a folia, seus ritmos, suas tradições, seus artistas e personagens. Em Salvador, como diria o verso eternizado pelo cantor Gerônimo, “Já é carnaval cidade! Acorda pra ver”.

    E como já é Carnaval, o Esquerda Online resolveu dar uma forcinha para você que pretende curtir a folia soteropolitana. Preparamos uma lista com 10 atrações do Carnaval de Salvador em 2018 que você não pode perder. Se liga aí!

    Bloco Mascarados

    O bloco Mascarados já virou uma tradição na quinta-feira de Carnaval. Para participar do bloco, que desfila no circuito Dodô (Barra-Ondina), basta estar de fantasia. O bloco, que já foi comandado por Margareth Menezes e Preta Gil, esse ano terá o comando de Sandra de Sá e Liniker. A saída do bloco está marcada para as 23h.

    Noite do samba
    A quinta-feira de Carnaval no circuito Osmar (Campo Grande) tem como marca registrada o desfile dos blocos de samba, dentre eles os blocos Alerta Geral e  Amor e Paixão. Entre os artistas que se apresentarão, nomes consagrados como Xande de  Pilares e Nelson Rufino.

    Daniela Mercury
    Figura carimbada do Carnaval, a cantora desfilará dois dias com blocos sem cordas. Logo na quinta-feira estará no circuito Dodô (Barra-Ondina) e na terça-feira, último dia da folia, se apresentará no circuito Osmar (Campo Grande).

    Anitta
    Se liga, malandra, vai ter Anitta no Carnaval de Salvador sim! O Bloco das Poderosas vai desfilar na sexta-feira de Carnaval, sem cordas, no circuito Dodô (Barra-Ondina) com saída marcada para as 20h.

    Ilê aiyê
    Sábado de Carnaval é dia de ir ao curuzu, coração do bairro negro da Liberdade, para ver a saída do Ilê Aiê, o mais belos dos belos. Já são 44 anos de história do bloco Afro que esse ano trará como tema do seu Carnaval uma homenagem a Nelson Mandela: “Mandela- A Anzânia comemora o centenário do seu Madiba”. A cerimônia de abertura do Carnaval do Ilê será na Senzala do Barro Preto, no Curuzu, no sábado, às 21h.

    Armandinho, Dodô e Osmar
    Os irmãos Macedo vão fazer a festa com a sua guitarra  baiana e os já consagrados clássicos do Carnaval de Salvador, como a música “Chame gente”. Serão quatro apresentações, todas elas sem cordas, na quinta, domingo, segunda e terça-feira, sempre no circuito Dodô (Barra-Ondina).

    Filhos de Gandhy
    O Afoxé Filhos de Gandhy  foi criado em fevereiro de 1949 por estivadores do porto de Salvador. O tapete branco, apelido recebido por conta da cor da sua fantasia com lençóis e toalhas brancas tranformadas em turbantes, desfilará seu batuque contagiante e o toque do agogô no domingo, saindo do Pelourinho às 15h, em direção ao circuito Osmar (Campo Grande). Na segunda, o Afoxé desfilará no circuito Dodô (Barra-Ondina) e na terça-feira retorna ao circuito Osmar.

    Mudança do Garcia
    A tradicional Mudança do Garcia é uma das marcas da segunda-feira de Carnaval. São ínúmeras bandas de fanfarras e marchinhas que arrastam uma multidão, saindo no final da manhã das ruas do bairro da Garcia, e literalmente invadindo a passarela oficial no circuito Osmar (Campo Grande). Participam desse desfile também os sindicatos, partidos de esquerda e diversos movimentos sociais, contribuindo para fazer da Mudança do Garcia um espaço de resistência.

    Projeto Especial Respeita as Mina
    Vale tudo no Carnaval? Lógico que não! Na segunda-feira de Carnaval teremos mais uma edição do projeto Respeita as Mina, que bota o bloco na rua para fazer a festa e também para dizer que basta de violência contra as mulheres. Esse ano, o bloco, que desfila sem cordas, será comandado pelas cantoras Pitty, Karina Buhr, e Tássia Reis. O desfile será no circuito Osmar (Campo Grande) com saída marcada paraas 17h.

    Baiana System
    O navio pirata da banda Baiana System também marcará presença no Carnaval. A banda que já foi a principal atração do Furdunço, pré-carnaval que arrastou uma multidão para as ruas no domingo, dia 04 de fevereiro, se apresentará no Carnaval com trio sem cordas, para fazer a festa da galera. A Baiana System vai tocar no sábado, no circuito Dôdo (Barra-Ondina) e na terça-feira no circuito Osmar (Campo Grande).

    E tem muito mais! Vai ter Olodun, Cortejo Afro, Carlinhos Brown e o camarote andante; vai ter Psirico, Harmonia do Samba, Margareth Menezes, Preta Gil, Pablo Vittar. Se programe, prepare a fantasia, e venha curtir a folia, afinal, como também diz a letra da canção, “Atrás do trio elétrico, só não vai quem já morreu”.

  • No Quintal com Simas: Carnaval e História

    Da Redação

    A equipe do Esquerda Online foi recebida no quintal do historiador Luiz Antonio Simas, no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, para uma entrevista exclusiva para o nosso Especial de Carnaval. O sociólogo Bernardo Pilotto e a comunicadora do nosso portal Gisele Peres conduziram a conversa com o pesquisador, sobre temas como a história do Rio de Janeiro; as tensões e disputas que marcam a cidade e a data desde a diáspora africana; o papel das escolas de samba, enredo e mercado e a realidade do Carnaval diante da crise do País e do Rio. Os vídeos foram publicados em quatro partes, durante o carnaval. Assista a todos aqui:

    Parte 1 – O RIO DE JANEIRO E A DIÁSPORA
    Nesta parte, o pesquisador analisa a cidade do Rio de Janeiro, e as tensões e disputas que marcam a cidade desde a diáspora africana, e que estão presentes também no carnaval.

    Parte 2 – O CARNAVAL E ‘AS CLASSES PERIGOSAS’
    Neste bloco, Simas analisa como o Carnaval carioca, desde os primeiros anos, expõe as tensões e disputas na cidade, relacionadas à diáspora africana, como a perseguição dos governos à festa das `classes perigosas`. E para combater a ideia de que o Carnaval é sinônimo de alienação, apresenta exemplos de resistência e o protagonismo das camadas populares nos dias de festa, como exemplo de uma cidadania peculiar.

    Parte 3 – ESCOLAS DE SAMBA, ENREDO E MERCADO
    O historiador Luiz Alberto Simas analisa o sentido das escolas de samba, originalmente comunitário em função da diáspora negra, e suas relações com o Estado, vigilante e disciplinador.

    PARTE 4 – O CARNAVAL COMO FILHO DA CRISE
    No último bloco, o historiador critica o prefeito do Rio de Janeiro e analisa como a crise econômica e a falta de recursos podem ser benéficas para as escolas de samba, estimulando a criatividade e o espírito crítico e afastando a tensão da escola-empresa. Resultado que se confirmou no carnaval deste ano. O Esquerda Online dedica esta entrevista à Escola Paraíso do Tuiuti e todas as agremiações e blocos que protestaram.

  • ‘Ditadura nunca mais’ desfila contra o fascismo em São Paulo

    Por: Thales Migliari, do Afronte, São Paulo

    O Carnaval de São Paulo, em 2018, será o maior da sua história. Esse ano, 491 blocos foram inscritos, superando em quantidade os do Rio de Janeiro. Mas apesar da festa e da alegria nas ruas, que já contagiam a cidade inteira desde a semana passada, nem tudo é motivo para comemoração. As vozes da intolerância, da apologia à tortura, à Ditadura Militar e ao fascismo estão se esforçando para tentar estragar a maior e mais popular festa do País, que em nada tem a ver com essas ideias. Um evento no Facebook criado pelo grupo Direita São Paulo quer impulsionar o bloco “Porão do DOPS”, que tem o objetivo de reunir a escória da cidade para promover a opressão e a exaltação de figuras repugnantes, como os torturadores Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do DOI-CODI, e Sérgio Paranhos Fleury, delegado do DOPS.

    Quando a notícia veio a público, houve muita reação a essa provocação fascista. Parlamentares, figuras públicas e grupos ligados à defesa dos direitos humanos denunciaram publicamente a escrachada apologia à tortura. O Ministério Público de São Paulo instaurou uma ação contra os organizadores do bloco, mas de maneira surpreendente, a juíza Daniela Pazzeto Meneghine Conceição negou o pedido liminar do MP, com o argumento do direito à liberdade de expressão.

    No dia seguinte, um jovem do grupo Direita São Paulo foi atacado no metrô Ana Rosa, quando caminhava para uma palestra. A ação foi organizada por um grupo anti-fascista. Depois do acontecimento, a Direita São Paulo recuou e restringiu a divulgação do evento, que agora ocorrerá em lugar fechado, com lista de presença prévia e identificação de todos os participantes. A atitude evidencia o medo do grupo de um confronto ainda maior nas ruas da cidade.

    A reação a essas provocações de grupelhos da extrema-direita é inevitável por parte de qualquer defensor das liberdades democráticas. É inadmissível que essas pessoas tenham o direito de expressar seu ódio, ainda mais em uma época como o Carnaval.

    Foi isso que motivou a criação do bloco “Ditadura Nunca Mais”, que está sendo impulsionado por diversos grupos e ativistas anti-fascistas. O objetivo é ofuscar a intolerância e o fascismo, além de inviabilizar a realização do bloco “Porão do DOPS” (que ainda não tem o local confirmado). A concentração será no metrô Barra Funda, em frente ao Memorial da América Latina, no sábado (10), às 11h.

    É muito importante que ativistas, movimentos sociais, grupos de defesa dos direitos humanos, partidos, parlamentares, todos aqueles que defendem a democracia e não abaixam a cabeça para discursos de ódio, se somem a essa iniciativa e ajudem a divulgá-la o máximo possível.

    É preciso estar sempre alerta para seguir defendendo a memória, a verdade e a justiça, ainda mais no lamentável momento que estamos passando em nossa história, depois do processo de redemocratização. A Ditadura acabou há mais de 30 anos: vamos juntos comemorar e festejar. Ditadura nunca mais!

    Acesse o Link do evento

  • RJ: Crivella é homenageado pelo Ocupa Carnaval nesta quinta


    Em junho de 2013, o Brasil foi sacudido por manifestações que levaram milhares de pessoas às ruas de todo o País. E foi no Rio de Janeiro que essas manifestações reuniram mais gente. Foi da necessidade de disputar o conteúdo desse movimento que nasceu o Ocupa Carnaval. A ideia inicial foi usar a arte como um método para essa disputa, trazendo elementos lúdicos, dialogando com o sentimento que vinha das ruas, de um esgotamento de algumas formas tradicionais das passeatas. O grupo entendeu que o carnaval era um bom momento para fazer a discussão sobre a mercantilização da cidade e da vida.

    Hoje o Ocupa Carnaval reúne grupos diferentes e procura fortalecer, não só no período de carnaval, todos os movimentos que lutam pelo direito à cidade. São mais de 35 blocos que participam de alguma forma do Ocupa Carnaval. Em 2016, por exemplo, a presença do Ocupa foi marcante nas manifestações contra o golpe que levou Michel Temer à Presidência.

    Todos os anos os membros do Ocupa Carnaval se reúnem e atualizam as paródias das marchinhas de carnaval, que contém críticas e demandas dos movimentos sociais do momento. A Abertura Não-oficial do Carnaval, cortejo que reafirma a rua como um espaço livre para se brincar o carnaval, organizada pela Desliga dos Blocos, também conta com a presença e apoio do Ocupa Carnaval.

    Neste ano, as paródias das tradicionais marchinhas terão críticas ao prefeito Crivella e também serão um grito contra a censura à arte. O cortejo do Ocupa Carnaval será nesta quinta-feira, 08 de fevereiro, a partir das 18h, com concentração na Cinelândia.

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    Crivella: Não coloque cordas no nosso cordão

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  • Nação Zambêracatu: o batuque negro potiguar

    Por: Felipe Nunes, de Natal, RN

    A Nação Zambêracatu se prepara para o seu sexto Carnaval na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. Neste ano, o grupo participará, pela primeira vez, da programação oficial do Carnaval da cidade.

    Foto: Pedro Feitoza

    Fundada em 2012, a primeira nação de maracatu do Rio Grande do Norte surgiu em meio à retomada do Carnaval na cidade de Natal, com o objetivo de difundir a cultura afro-brasileira no estado. Desde então, o grupo, que tem referência musical no Maracatu de Baque Virado, vem se firmando e crescendo na cena cultural e social potiguar. Além da sonoridade musical, o grupo possui uma ligação espiritual coma religiosidade afro-brasileira, fundamentada no candomblé de Nação Ketu, através do Ilè Asè Obá Ogodô do Babalorixá Melquezedeque de Xangô, localizado na região metropolitana, na cidade de Extremoz.

    Foto: Allyne Macedo

    Entrevistamos Marília Negra Flor, pedagoga, pesquisadora, dançarina e uma das fundadoras do grupo. Ela nos contou sobre a história e a trajetória da Nação Zambêracatu nestes seis anos de existência.

    Foto: Allyne Macedo

    EO: O Zambêracatu é a primeira nação de maracatu no Rio Grande do Norte. Como surgiu a ideia de fundar o grupo?

    Marília Negra Flor: Surgimos a partir de um desejo de movimentar a cena negra, cultural e afro-religiosa da cidade, procurando reafirmar a negritude e a religiosidade de matriz africana. Desejávamos fazer um Carnaval negro em Natal, pois observávamos que havia poucos grupos que levavam para as ruas o candomblé. A partir daí, Kleber Moreira (percussionista, pesquisador e uns dos fundadores da Nação) juntou vários batuqueiros interessados para fundar o Maracatu. Alguns já estavam envolvidos com candomblé e, aos poucos, fomos agregando mais gente no quintal de casa, sede dos primeiros encontros.

    EO: Já são seis anos de existência da Nação Zambêracatu. O que mudou desde a fundação do grupo?

    Marília Negra Flor: Diria que o grupo mudou no sentido de ter crescido e se fortalecido dentro dos seus princípios e conceitos. Nesses seis anos, muitas pessoas que não eram de religiosidade de matriz africana se aproximaram da religião. Temos inúmeras pessoas do grupo que foram iniciadas no candomblé a partir do envolvimento com o Maracatu. A cada ano, crescemos cada vez mais. No Carnaval desse ano, sairemos com mais de 60 pessoas nos cortejos.

    EO: Qual a importância da Nação em relação ao fortalecimento da identidade negra e da valorização das culturas e religiosidades de matriz africana?

    Marília Negra Flor: A própria existência da Nação Zambêracatu já é um movimento para o fortalecimento da identidade negra. Continuamos firmes e resistentes, apesar das dificuldades que enfrentamos. Desejamos aproximar mais pessoas negras do grupo, realizar projetos em periferias e comunidades. Infelizmente, não existe incentivo para fazerem as coisas acontecerem.

    Apesar disso, é importante perceber que, no decorrer dos anos, a cidade já reconhece que existe o maracatu em Natal. Viramos referência no batuque negro e religioso da cidade. Isso é muito importante, porque em Natal existia uma cultura dos povos de terreiros se esconderem por medo do preconceito. O maracatu ajudou a desmitificar a ideia preconceituosa que se tinha sobre o candomblé, mostrando na rua o que é a nossa fé de verdade.

    A Nação Zambêracatu foi muito importante para conscientização da luta contra o racismo, contra a intolerância religiosa e na nossa reafirmação enquanto negros potiguares, pois havia poucas manifestações que se colocavam dessa forma. Para dizer que existem negros nessa terra e que temos como referência o Zambê, ritmo negro que só existe aqui. Queremos mostrar o que o negro potiguar tem feito hoje ao longo da sua história. Mostrar o Zambê, o maracatu como referência de manifestação religiosa na rua. Dizer para a cidade que existimos, podemos resistir e fazer cultura.

    Foto destaque: Allyne Macedo