A esquerda sabe falar com o povo?
Publicado em: 14 de outubro de 2026
Tomaz Silva/Agência Brasil
O resultado do primeiro turno das eleições de 2026 gerou um debate nas redes sociais e nos meios da esquerda: afinal, a esquerda não sabe mais falar com o povo? Antes de responder, precisamos olhar para os números. E, principalmente, perguntar: de qual povo estamos falando?
Na cidade de São Paulo, Lula venceu em algumas das regiões mais periféricas da capital. No Grajaú, recebeu 57,7% dos votos; em Cidade Tiradentes, 57,4%; no Capão Redondo, 54%; em Guaianases, 52%. Esses resultados contrastam com a preferência por Flávio Bolsonaro em bairros de maior renda, como Santana. Na capital paulista, Lula terminou o primeiro turno à frente do candidato do PL. No Rio de Janeiro, na Rocinha, o petista teve aproximadamente 58%. No Nordeste, tratado como periferia econômica do Brasil, Lula venceu nos nove estados, conquistando 63,77% dos votos válidos da região.
Esses dados não permitem dizer que a esquerda perdeu sua capacidade de dialogar com as camadas populares. Pelo contrário, mostram que ela conserva vínculos importantes com populações historicamente marginalizadas.
Há ainda uma transformação importante na própria composição política da esquerda brasileira. Se, na década de 1980, o movimento sindical e os trabalhadores industriais ocupavam um lugar central em sua organização, nas décadas seguintes outros sujeitos políticos ganharam protagonismo. Movimentos negros, feministas, LGBTQIAPN+, movimentos por moradia, povos indígenas, trabalhadores informais e organizações das periferias passaram a ampliar nossas pautas e formas de atuação.
O PSOL representa parte essencial dessa transformação. Nas eleições de 2026, o partido ampliou sua bancada na Assembleia Legislativa de São Paulo de cinco para nove cadeiras. Erika Hilton foi reeleita deputada federal com quase 1,6 milhão de votos, enquanto Sofia Favero, mulher trans e militante pelos direitos humanos, conquistou mais de 407 mil votos para deputada estadual. A representação parlamentar do PSOL passou de 34 para 40 cadeiras, um crescimento de 17,6%.
Analisando somente números de votos (não cadeiras eleitas), observamos ainda que entre 2022 e 2026, o partido aumentou em 37,5% sua votação para deputado federal, passando de 3,85 milhões para 5,29 milhões de votos, enquanto a votação para deputado estadual cresceu 33,2%. Mas um dos dados mais significativo é a diversidade dessa representação: o número de mulheres eleitas subiu de 18 para 25, o de pessoas negras passou de 16 para 22 e o de parlamentares LGBTQIAPN+ cresceu de 7 para pelo menos 10. É verdade que a Federação PSOL-Rede não conseguiu superar a cláusula de barreira, apesar de alcançar votação nacional suficiente, porque não atingiu o percentual mínimo exigido em nove unidades da Federação. Faltaram apenas 185 votos no Espírito Santo pra cumprir esse requisito. Entretanto, essa dificuldade de distribuição territorial dos votos não apaga o crescimento eleitoral do partido nem a ampliação da representatividade de grupos historicamente marginalizados nos espaços de poder.
Portanto, afirmar simplesmente que a esquerda não sabe falar com o povo é desconsiderar uma parcela imensa da população que se reconhece em suas propostas.
O problema é que o povo é muita gente. E essa gente não é homogênea, não compartilha necessariamente as mesmas experiências, necessidades, referências culturais ou expectativas de futuro.
Claro que podemos analisar o resultado eleitoral por muitos fatores, analisando erros na campanha, erros logísticos, atuação nas redes sociais. Mas tudo isso depende de algo muito concreto, que é para quem falamos e como é a vida real dessas pessoas.
Indo para esse concreto, entre as transformações sociais das últimas décadas, duas merecem atenção especial para compreendermos a expansão da extrema direita no Brasil: 1) o crescimento do empreendedorismo popular e 2) o aumento da população evangélica.
O sonho de ser patrão de si mesmo
O Brasil tem hoje aproximadamente 17,56 milhões de microempreendedores individuais ativos, segundo dados do governo federal em setembro de 2026, um número que vem crescendo gradativamente a cada ano, desde a criação do MEI em 2009, quando o país registrou 44 mil pessoas nessa categoria.
A esse universo se somam trabalhadores de aplicativos, vendedores digitais, produtores de cursos online e influenciadores, que talvez nem sejam registrados como MEI. Em 2024, o IBGE identificou 1,7 milhão de trabalhadores por plataformas digitais, crescimento de 25,4% em relação a 2022. Muitos jovens já iniciam sonhando com esse empreendedorismo, mas há também quem tenha encontrado na informalidade e no trabalho por conta própria a única alternativa diante do desemprego ou da precarização.
O que interessa aqui é a transformação da maneira como parcelas crescentes da população passaram a ver o trabalho e, sobretudo, o sucesso. O emprego com carteira assinada, que durante décadas foi símbolo de estabilidade e ascensão social, deixou de representar o objetivo de uma parcela desses trabalhadores. Para muitos, o sonho agora é deixar de ter patrão, fazer os próprios horários, abrir um negócio, multiplicar os rendimentos e conquistar independência financeira. É nesse terreno que prospera um mercado gigantesco de cursos, mentorias, palestras, livros e conteúdos de desenvolvimento pessoal.
Expressões como “mentalidade de crescimento”, “alta performance”, “autorresponsabilidade”, “liberdade financeira” e “desbloqueio da prosperidade” passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano de milhões de brasileiros.
Expressões como “mentalidade de crescimento”, “alta performance”, “autorresponsabilidade”, “liberdade financeira” e “desbloqueio da prosperidade” passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano de milhões de brasileiros.
Basta observar as listas de livros mais vendidos, nas quais títulos como “Hábitos Atômicos”, “Pai Rico, Pai Pobre” e obras de Napoleon Hill ocupam posições de destaque. É um universo que não vende apenas conhecimentos ou técnicas, mas uma promessa: a de que qualquer pessoa pode transformar radicalmente sua vida se modificar sua maneira de pensar e agir.
A Febracis, empresa de formação de coaches, é um exemplo particularmente interessante porque reúne em sua própria apresentação institucional conceitos como autorresponsabilidade, princípios judaico-cristãos e lucro extraordinário. Não se trata, portanto, de uma linguagem voltada exclusivamente à administração de empresas. É uma visão de mundo na qual prosperidade material, conduta religiosa/moral e transformação individual aparecem intimamente relacionadas.
Esse discurso oferece algo que frequentemente escapa às análises políticas tradicionais: uma narrativa sobre o futuro. Muitas pessoas microempreendedoras não se percebem como pobres, mesmo quando enfrentam dificuldades financeiras. São pessoas que, em geral, não são atendidas pelos programas assistenciais do governo, nem pelas mudanças na CLT (como fim da jornada 6×1), e para muitos a universidade também ainda é algo distante. Identificam-se como empreendedoras, como pessoas que estão construindo um negócio e que, em algum momento, poderão alcançar a prosperidade. Sua identificação política pode estar menos ligada à condição econômica que possuem hoje e mais à posição social que esperam conquistar amanhã.
A valorização do esforço individual, a desconfiança em relação ao Estado e a ideia de que cada pessoa é integralmente responsável por seu sucesso ou fracasso dialogam diretamente com essa mentalidade.
É aí que os discursos meritocráticos da direita encontram terreno fértil. A valorização do esforço individual, a desconfiança em relação ao Estado e a ideia de que cada pessoa é integralmente responsável por seu sucesso ou fracasso dialogam diretamente com essa mentalidade.
O crescimento das apostas online também pode ser compreendido, em parte, dentro dessa cultura de busca pela ascensão financeira rápida. Embora apostar não seja empreender, ambos os universos podem mobilizar o desejo de escapar das limitações materiais do presente e alcançar uma vida radicalmente diferente. As bets acrescentam a promessa de que a sorte poderá realizar, em poucos minutos, aquilo que o trabalho levaria anos para conquistar.
Naturalmente, seria incorreto afirmar que todos os microempreendedores compartilham essas ideias. Mas a questão aqui é compreender como certas narrativas econômicas e culturais passaram a influenciar a identidade política de parte dessa população.
A fé como esperança e pertencimento
O segundo fenômeno é o crescimento evangélico. Segundo o Censo de 2022, a população evangélica passou de 21,7% em 2010 para 26,9% em 2022, considerando pessoas com dez anos ou mais. No mesmo período, os católicos passaram de 65% para 56,7%. É uma transformação grande no perfil religioso brasileiro, acompanhada por mudanças nas redes de sociabilidade, nas referências culturais e nas formas de organização comunitária.
Para entender esse crescimento, precisamos ir além da análise do comportamento eleitoral. Em territórios marcados pela desigualdade, pela violência, pelo desemprego e pela insuficiência de serviços públicos, muitas igrejas oferecem algo que vai muito além da experiência religiosa. São espaços de acolhimento, pertencimento e reconstrução de vínculos sociais. Pessoas enfrentando problemas familiares, depressão, dependência de álcool e outras drogas, dificuldades financeiras ou situações de violência encontram nessas comunidades redes de solidariedade e uma perspectiva de transformação de vida. Ou seja, da mesma maneira que o empreendedorismo, a religião oferece esperança.
Isso não significa que todas as igrejas atuem da mesma maneira, nem que todos os evangélicos compartilhem determinadas posições políticas. Há enorme diversidade entre denominações, lideranças e fiéis. Também existem movimentos evangélicos progressistas. Entretanto, setores da extrema direita enxergaram a importância política desse universo e passaram a investir intensamente em sua mobilização, especialmente por meio das chamadas pautas morais.
A defesa da família, o combate à suposta “ideologia de gênero” e a oposição aos direitos LGBTQIAPN+ tornaram-se elementos recorrentes dessa atuação. A estratégia consiste em transformar grupos socialmente vulneráveis em ameaças imaginárias. Pessoas trans, por exemplo, passam a ser apresentadas como riscos à infância, à família ou à própria ordem social.
Em São Paulo, os resultados eleitorais ajudam a dimensionar a força dessas narrativas. Lucas Pavanato, do PL, eleito deputado federal com mais de três milhões de votos, cresceu basicamente defendendo a oposição ao uso de banheiros conforme a identidade de gênero. Eduarda Campopiano, também do PL, tornou-se a deputada estadual mais votada do estado com pautas antifeministas e, logo após a eleição, protagonizou ataques à identidade de gênero de Erika Hilton. São exemplos de como as pautas morais podem ser transformadas em capital político, principalmente em ambientes digitais que recompensam conteúdos polêmicos. E a exploração dessas pautas não se limita ao eleitorado evangélico, encontra ressonância também entre parcelas dos católicos.
Quando a prosperidade encontra a salvação
O mais interessante é que esses dois universos (o empreendedorismo popular e o crescimento evangélico) não se desenvolvem isoladamente, são dois grupos que possuem uma intersecção. Eles frequentemente se encontram nas mesmas famílias, bairros, empresas, igrejas e plataformas digitais.
Quem nunca pegou um Uber que está ouvindo louvor? O pequeno empresário que frequenta uma igreja neopentecostal pode ouvir, no domingo, uma mensagem sobre fé e prosperidade e, durante a semana, participar de um treinamento empresarial que lhe ensina a transformar sua mentalidade para conquistar riqueza.
Embora os ambientes sejam diferentes, algumas mensagens são bastante semelhantes: é preciso acreditar, perseverar, desenvolver disciplina, afastar pensamentos negativos e assumir o controle do próprio destino.
E essa intersecção entre a religião e o enriquecimento individual é histórica. A Reforma Protestante, iniciada no século XVI, ocorreu em uma Europa marcada pela expansão das atividades comerciais, pelo fortalecimento de grupos burgueses e por disputas com o poder político e religioso da Igreja Católica.
Na época, correntes protestantes desenvolveram concepções sobre o trabalho, a disciplina e a vida material que se mostraram compatíveis com a sociedade capitalista em formação. A burguesia que se formava queria o direito ao enriquecimento e ao poder político. A Igreja Católica, muito mais ligada à monarquia e à nobreza, condenava o discurso do enriquecimento.
Foi essa relação que o sociólogo Max Weber investigou em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, obra publicada originalmente entre 1904 e 1905. Weber identificou afinidades entre determinadas tradições protestantes, especialmente as de orientação calvinista e puritana, e uma ética baseada na dedicação disciplinada ao trabalho, na valorização da vocação profissional, na contenção do consumo e na acumulação racional de recursos.
Séculos depois, com a expansão de movimentos neopentecostais, ganha força outra formulação: a chamada Teologia da Prosperidade. Nessa perspectiva, a conquista de bens materiais, a vitória sobre dificuldades e o crescimento financeiro passam a aparecer como manifestações possíveis da bênção divina. No Brasil, essa teologia se expandiu especialmente a partir das últimas décadas do século XX.
Essa transformação ajuda a compreender a proximidade contemporânea entre parte do discurso religioso e a linguagem empresarial. Em ambos os casos, o indivíduo pode ser apresentado como protagonista quase absoluto de seu destino. A pobreza tende a ser explicada menos pelas estruturas sociais e mais pela necessidade de transformação pessoal, espiritual ou comportamental.
O risco dessa visão é evidente: se o sucesso resulta fundamentalmente da atitude individual, o fracasso também passa a ser responsabilidade de quem fracassou. Desigualdades históricas, concentração de riqueza, racismo, precarização do trabalho e ausência de oportunidades podem desaparecer da explicação sobre a realidade. Tudo isso evidencia uma circulação de valores, discursos e expectativas que cria afinidades culturais e facilita certas aproximações políticas que vemos hoje, no Brasil e no mundo.
Nesse ambiente, figuras como Pablo Marçal demonstram como a linguagem do empreendedorismo motivacional pode ser convertida em comunicação política, enquanto a presença de Augusto Cury na disputa presidencial de 2026 revela como a linguagem da autoajuda também atravessa o campo eleitoral.
Nesse ambiente, figuras como Pablo Marçal demonstram como a linguagem do empreendedorismo motivacional pode ser convertida em comunicação política, enquanto a presença de Augusto Cury na disputa presidencial de 2026 revela como a linguagem da autoajuda também atravessa o campo eleitoral.
Essas figuras não representam necessariamente o mesmo projeto partidário, mas podem ser vistas como parte de um fenômeno, suas trajetórias ilustram o espaço conquistado por discursos sobre transformação individual, prosperidade e sucesso no imaginário brasileiro. Muitas vezes conectados à religiosidade.
As redes sociais
A essas transformações econômicas, religiosas e culturais somou-se uma revolução tecnológica. As redes sociais permitiram que discursos antes restritos a igrejas, palestras, livros e eventos empresariais alcançassem milhões de pessoas diariamente.
O funcionamento das plataformas, baseado na disputa pela atenção e frequentemente favorecendo conteúdos polêmicos, tornou-se útil para estratégias políticas construídas em torno do confronto. A extrema direita investiu em influenciadores, vídeos curtos, memes, transmissões ao vivo e comunidades digitais. Aprendeu a transformar indignação em engajamento e engajamento em identidade política. Em vez de apresentar programas de governo, ofereceu narrativas simples: existe um inimigo, seus valores estão ameaçados e a solução depende de uma mudança radical.
Nesse cenário, as grandes plataformas de tecnologia possuem responsabilidade central, e elas têm lado. O alinhamento público explícito de donos das Big Techs com projetos da extrema direita amplia as preocupações. Seus modelos de negócio, critérios de moderação e sistemas de recomendação influenciam a circulação de informações e a visibilidade dos diferentes lados políticos.
Nesse sentido, militar nas redes sociais é também atuar em um campo minado inimigo. Mas historicamente a esquerda sempre fez isso, escavando as brechas dos sistemas. O desafio, pra ontem, é aprender a atuar nesse novo campo.
Ampliar o diálogo
Se esses fenômenos ajudam a explicar parte do avanço da extrema direita, o que podem ensinar à esquerda? A solução para conquistar novos apoios seria abandonar a defesa dos direitos LGBTQIAPN+? Certamente não. Seria defender a continuidade das bets apenas porque milhões de brasileiros apostam? Também não.
A medida provisória assinada por Lula em 25 de setembro de 2026, proibindo a exploração e a publicidade de apostas de quota fixa, responde a problemas reais de endividamento e saúde pública. Mas é preciso reconhecer que ela também confronta expectativas e interesses presentes em parte da sociedade.
Da mesma forma, a defesa das pessoas LGBTQIAPN+ não deveria ser tratada como uma pauta que impede o diálogo com pessoas religiosas. Proteger direitos fundamentais não é algo negociável. O desafio está em não permitir que a extrema direita defina sozinha os termos dessa discussão, apresentando a existência de determinados grupos sociais como uma ameaça à vida dos demais.
Lula já possui políticas que dialogam com as necessidades dos pequenos empreendedores, mas em geral não divulga isso muito bem. O governo Lula criou o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. Instituiu o Programa Acredita, ampliou instrumentos de financiamento como o ProCred 360, desenvolveu o Contrata+Brasil para facilitar o acesso de pequenos negócios às compras públicas e implementou mecanismos de renegociação de dívidas, como o Desenrola MEI. Em setembro de 2026, o próprio governo informou que mais de três milhões de microempreendedores tinham dívidas, enquanto o Desenrola MEI já havia registrado mais de 411 mil acordos. São medidas que reconhecem dificuldades concretas desse universo: falta de capital, endividamento, burocracia e dificuldades para manter um negócio funcionando.
uma política pública não se transforma automaticamente em reconhecimento político. Entre a existência de um programa e a percepção de que ele melhora a vida de alguém, há uma distância.
Entretanto, uma política pública não se transforma automaticamente em reconhecimento político. Entre a existência de um programa e a percepção de que ele melhora a vida de alguém, há uma distância.
Um MEI pode ser, ao mesmo tempo, um trabalhador precarizado e alguém que se reconhece como empresário. Ignorar uma dessas dimensões significa compreender apenas parcialmente sua realidade.
A esquerda não precisa aderir ao individualismo radical e ao discurso meritocrático pra reconhecer o valor da autonomia, da criatividade, da iniciativa pessoal e do desejo de melhorar de vida. Pode, inclusive, demonstrar que esses objetivos dependem de condições sociais e coletivas: crédito acessível, educação, infraestrutura, segurança econômica, proteção social e oportunidades reais de crescimento.
Existe uma diferença enorme entre prometer que qualquer pessoa pode enriquecer apenas mudando a mentalidade e construir condições materiais para que mais pessoas possam prosperar.
A fé não pertence a um partido
Há também uma dimensão religiosa que merece ser observada com mais atenção, principalmente entre os católicos. O catolicismo permanece como a maior identificação religiosa do Brasil, reunindo 56,7% das pessoas com dez anos ou mais, segundo o Censo de 2022.
Em 2026, a CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, divulgou uma mensagem sobre as eleições reafirmando o compromisso com a dignidade humana, a justiça social, a democracia e o combate à desinformação. O papa Leão XIV reafirmou a centralidade dos pobres na tradição cristã e a responsabilidade da Igreja diante da desigualdade e do sofrimento humano. São referências que demonstram um espaço a ser disputado.
A recente polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida também evidenciou tensões dentro do campo religioso. O pastor da igreja do Flávio Bolsonaro já escreveu um livro atacando a imagem da santa. E já houve projeto deste campo político para destronar Nossa Senhora do título de padroeira do país.
Mas o importante, para observarmos, é que a repercussão do episódio demonstrou que as identidades religiosas não formam um bloco político único e que existem divergências importantes. O cristianismo brasileiro abriga múltiplas interpretações sobre justiça, solidariedade, família, liberdade e responsabilidade social. Nenhuma força política possui o monopólio desses valores.
Mas afinal, sabemos falar com o povo?
Talvez o maior equívoco da pergunta inicial seja imaginar que existe uma coisa única e homogênea chamada povo.
A esquerda fala com o povo quando defende direitos trabalhistas, combate a fome, amplia o acesso à universidade, reconhece a diversidade e enfrenta desigualdades históricas. Também fala com o povo quando uma mulher trans conquista mais de um milhão de votos, quando movimentos por moradia elegem representantes ou quando as periferias reafirmam sua identificação com projetos de transformação social.
O problema não é a ausência de diálogo. É a existência de setores sociais cujas experiências e expectativas ainda não foram suficientemente compreendidas por parte das organizações de esquerda. E é precisamente nesses espaços que a direita desenvolveu, ao longo dos anos, uma linguagem capaz de conectar sonhos de ascensão social, valores religiosos, ressentimentos e expectativas de mudança.
Mas não há nada de imutável nessa identificação. Microempreendedores não são automaticamente de direita ou de extrema direita. Evangélicos e católicos não são necessariamente conservadores. Trabalhadores de aplicativos não deixam de ser trabalhadores porque desejam empreender e crescer. Precisamos entender as complexidades das novas camadas do proletariado, que são uberizadas, pejotizadas. O que as conecta é o sonho e a esperança.
A luta por melhores condições de trabalho não deve ignorar o microempreendedorismo. A defesa do Estado laico não pode desprezar a religiosidade. E a luta por igualdade não precisa desconsiderar os sonhos individuais. Isso nos exige mais do que aperfeiçoar consignas ou dominar algoritmos. É necessário conhecer as transformações da sociedade, ouvir suas experiências e construir respostas concretas para seus problemas.
A esquerda não precisa abandonar o povo com quem já fala para dialogar com outras parcelas que o constituem. Precisa ampliar sua compreensão sobre quem faz parte desse povo, que apesar de não ser homogêneo, tem algo em comum, que perpassa todas as suas camadas: sonha viver melhor.









