O futuro do Brasil em disputa: levante contra a barbárie
Publicado em: 13 de outubro de 2026
© Bruno Peres/ Agência Brasil
Um setor amplo da população brasileira despertou. Já na segunda-feira, dia 05 de outubro de 2026, uma auto-organização espontânea para virar voto começou. Grupos de whatsapp e mensagens chamando reuniões para organizar a campanha começaram a aparecer de forma espontânea e, ao longo da semana, foram crescendo e se multiplicando, enquanto as reuniões lotavam. Guias, vídeos e mensagens com análises sobre como ganhar votos, qual público disputar e uma infinidade de outras informações atreladas ao vira-voto também começaram a ser divulgadas e se espalharam como rastilho de pólvora. Finalmente, ainda na segunda, estudantes da Universidade Federal Fluminense saíram às ruas num ato de grandes proporções, servindo como uma fagulha que incendiou o movimento estudantil em todo o país.
Desde então, se desenrola diante de nossos olhos um verdadeiro levante em defesa da reeleição de Lula para impedir a vitória bolsonarista, maior que o Ele Não em 2018. Vemos uma enxurrada estonteante de materiais para a disputa nas redes sociais, campanhas de vira-voto nas ruas e atos protagonizados pela esquerda com proporções que há muito tempo não se viam em diversas cidades país afora, inclusive fora das capitais, em cidades em que há anos não aconteciam manifestações. Porém o processo de crescimento da mobilização não se limita ao levante estudantil. O ânimo contaminou um setor amplo da classe trabalhadora e setores populares de esquerda. Esse movimento chacoalhou e mudou completamente o terreno em que se dá a disputa das eleições de segundo turno.
É verdade que a derrota eleitoral para a câmara federal, o senado e muitos governadores foi grande. Há uma parte do estrago que já foi feita. Contudo, por hora, ela é apenas parcial, pois houve a entrada em cena deste ascenso inesperado e espontâneo. Portanto, assim como o resultado final das eleições, o desfecho final da luta política deste processo eleitoral ainda está em aberto. Sua conclusão política fundamental será definida apenas com o resultado das urnas no dia 25 de outubro. Se Flávio ganha, a conclusão é uma; se Lula ganha, a conclusão é outra – ambas fundamentalmente diferentes. Não só em seus aspectos objetivos imediatos, mas também no aspecto de para onde vai a consciência da classe trabalhadora, em especial da consciência da vanguarda que protagoniza este atual ascenso.
O que está em jogo, como muito já se tem dito, pode ser sintetizado em duas alternativas. A primeira é se teremos uma consolidação de uma correlação de forças entre as classes sociais em que a classe trabalhadora estará completamente vendida ao inimigo e a condução do país será lançada desenfreadamente na rota de fechamento do regime, de entrega do Brasil aos EUA, de destruição de todos os direitos conquistados com muito sangue, suor e lágrimas da classe trabalhadora e do povo brasileiros. Já a segunda, consiste em se teremos um novo fôlego de resistência e maior organização para seguir travando, com liberdades democráticas, as lutas pelos interesses da classe trabalhadora, enfrentando a extrema-direita frontalmente, construindo a máxima unidade de explorados e oprimidos para a luta, enquanto disputamos um projeto socialista de país.
Em suma, está colocado, na ordem do dia, o perigo de uma derrota que produzirá a inação política da classe trabalhadora brasileira por todo um novo período histórico, como se deu com a concretização do golpe militar em 1968 com o AI-5. E as centenas de milhares de pessoas que se mobilizam neste exato momento, entendem isso perfeitamente. Como consciência coletiva de classe. Esse setor da população brasileira sabe que o divisor de águas entre os dois possíveis desfechos é a vitória eleitoral de Lula.
Contudo, não podemos nos enebriar. Os atos têm sido enormes, mas ainda não alcançaram a proporção de milhões país afora. A sociedade brasileira segue dividida – as pesquisas seguem demonstrado isso. A batalha será difícil, muito difícil. Contra nós temos inimigos poderosos: o imperialismo, com Trump dirigindo uma ofensiva pela retomada do controle total sobre o continente americano pelos EUA, e a grande burguesia brasileira, cuja maior parcela, ao menos desde o começo do ano, usa dos métodos mais vis e descarados, como já fizeram em outros momentos de nossa história, para impedir a qualquer custo que Lula seja reeleito.
Diferente de 2022, a pressão para a mudança do regime de acumulação de capital no Brasil (e no mundo, diga-se de passagem) está falando mais alto. Naquele ano, o setor da grande burguesia, ancorado em um contexto internacional com menor força da extrema-direita, principalmente nos EUA, temia mais a instabilidade que uma aventura golpista e um governo autoritário poderiam provocar no país e acabou por se deslocar a favor de Lula.
Desta vez, todavia, este setor está disposto a correr risco de instabilidade, interferência em seus negócios e perda de negócios com outros países, em especial a China, para que internamente se aumente brutalmente a extração de lucro e o saque aos cofres públicos e riquezas naturais de nosso país. Seguindo a tendência internacional principal, a burguesia precisa do fascismo para implementar seu programa econômico dos sonhos e, por este motivo, tende cada vez mais a apoiar esta corrente política. Assim, forma-se uma maioria contundente da burguesia contra a vitória de Lula (cuja chapa contém setores minoritários da grande burguesia nacional). O controle que a grande burguesia possui, em conluio com o imperialismo, está sendo usado a todo vapor. Interferências da META na distribuição de conteúdos nas redes sociais, campanha midiática mentirosa contra Lula e descredibilização de manifestantes, ataques vindo por parte do judiciário etc., têm se tornado cada vez mais frequentes. A censura já começou.
Além disso, os bandos fascistas já começam a despertar em resposta. A dinâmica de revolução e contrarrevolução novamente se apresenta na história. Quanto maior for a mobilização atual, maior for a capacidade de converter esse movimento atual em votos, em mobilização e em auto-organização, mais raivosa será a resposta dos fascistas. Se sentirão ameaçados e atacarão, com o objetivo de intimidar. As milícias já saíram do subterrâneo. Reconhecer e alertar sobre isso não deve estar a serviço de implantar medo e abafar o processo. Mas sim para que o ativismo que protagoniza este processo esteja atento e para que a auto-organização avance. A resposta deve ser o que já vem acontecendo: atos cada vez maiores, cada vez mais pessoas na rua e nas redes virando votos. A tarefa é aprofundar o processo em curso. A batalha será duríssima.
Do nosso lado, temos centenas de milhares de pessoas Brasil afora que resolveram tomar o destino do resultado destas eleições e, consequentemente, do futuro político do país, em suas mãos. Isso não quer dizer que esse setor que começou a se movimentar nesse processo seja necessariamente lulista, petista, que concorde totalmente com o plano de governo de Lula, as conciliações e acordos, que não tenha inúmeras críticas ao projeto do PT e do lulismo e que não esteja insatisfeito com o governo. O crescimento da bancada do PSOL é um dos vários elementos que apontam para isso. Há claro, aqueles que se movimentam que são de fato lulistas e petistas, mas há também um setor que entende a necessidade de um projeto independente da classe trabalhadora para solucionar os problemas do país. Todavia, novamente, todas as pessoas que estão se movimentando compreenderam que qualquer possibilidade de construção de um futuro com melhores condições de vida nos próximos anos depende da derrota de Flávio, ou seja, da vitória de Lula.
Um aspecto muito favorável é que a campanha do Lula não só abraçou as mobilizações, como tem se apoiado e estimulado as mesmas, algo que era necessário desde o primeiro dia do governo. A mudança de orientação da campanha ocorrida na quarta, dia 07 de outubro, após a reunião com parlamentares jovens eleitos, foi muito acertada e significa que a direção da campanha compreendeu que a vitória só é possível se baseada na mobilização em curso. A própria pressão do movimento que já se instaurava e crescia, como já descrito, apontava para essa necessidade. As falas de Lula estimulando as pessoas a irem para rua nas manifestações e para virar votos, os desafios que Lula tem feito a Bolsonaro, como o referente à votação da 6×1 e a pergunta sobre de onde Flávio cortará os 250 bilhões prometidos, entre outras iniciativas de ofensiva, deram ainda mais energia para o processo em curso.
Agora, o PSOL, sindicatos e movimentos sociais devem pressionar a campanha de Lula, sem qualquer ilusão nos limites da conciliação de classe, para que a linha política da campanha assuma um compromisso de avançar ainda mais em pautas programáticas, como fez na reta final do primeiro turno com o fim das bets e vem fazendo agora com a escala 6×1. Pautas como o congelamento do preço dos aluguéis, aumento ainda maior do salário mínimo, tarifa zero no transporte público de todo o país, redução drástica e estabelecimento de teto para os juros de cartão de crédito e cheque-especial devem ser levantadas e defendidas. Contra o programa de destruição de direitos e entreguismo de Flávio, deve-se apresentar um programa ainda mais à esquerda, que dialogue e resolva os principais anseios imediatos da classe trabalhadora e aponte uma nova estruturação da vida coletiva no Brasil. Essa mudança, mais que necessária para as disputas colocadas pelo capitalismo a nível mundial hoje, potencializariam ainda mais a mobilização.
As enormes manifestações que aconteceram nestes últimos dias e seguirão acontecendo são essenciais e necessárias. As organizações da classe trabalhadora voltam a ocupar as ruas de forma massiva e em ampla unidade depois de anos. São fundamentais para mostrar força social, para animar a vanguarda e as massas à esquerda em geral. Além disso, cumprem o papel de contagiar toda a sociedade com a idea de barrar o grave retrocesso que se avizinha, o que é decisivo. Neste sentido, a ofensiva agora é nossa. A própria dinâmica das disputas nas redes, em que Lula tem mantido por dias um engajamento maior que Flávio, também corrobora isto.
Contudo, só fazer atos não basta. É preciso converter essa energia de mobilização em votos na urna. É necessário virar votos. Há dois públicos alvos centrais: garantir que quem já vota em Lula e não foi votar no primeiro turno vá votar; e disputar as abstenções, votos nulos e brancos e as pessoas que votaram em outros candidatos no primeiro turno. Há também relatos de pessoas comentando que viraram voto de quem votou em Flávio no primeiro turno, mas isto é um fenômeno secundário e mais difícil.
A tarefa que está colocada agora, portanto, é converter a preparação e organização da primeira semana, nas reuniões, atos e grupos de whatsapp em militância nas redes e nas ruas para virar voto. Isto está apenas começando a ocorrer.
Para além do engajamento nas redes gerais da campanha, publicações pessoais em redes sociais serão fundamentais para a disputa voto a voto. Neste sentido, a rede de relacionamentos cotidianos de cada pessoa importa muito. As pessoas tendem a escutar e confiar mais nas pessoas com quem elas convivem e têm círculos próximos de relação. A extrema-direita vem usando esta tática há anos. Além disso, é necessário ir para a rua conversar com as pessoas. Isso já foi testado em 2018 e, embora Bolsonaro tenha ganhado a eleição, sabemos que teve algum efeito. Seja em banquinhas com café e bolo, porta a porta, panfletagem em que se propõem conversas mais longas ou qualquer outra tática que abra um diálogo com o público alvo.
Em ambos os casos, a maneira como a conversa é apresentada e conduzida importa muito. Materiais, sejam vídeos, panfletos ou qualquer outra coisa, que identifiquem que falaremos do Lula geram mais afastamento do que aproximação, o que dificulta o diálogo. Materiais que foquem na rejeição de Flávio são a melhor alternativa. Obviamente, com o foco central em ganhar o voto no Lula. Ademais, qualquer postura violenta de xingamento, soberba, menosprezo, falta de escuta etc., afasta a pessoa com quem se quer conversar. É necessário ouvir muito, se possível mais do que falar; perguntar mais do que afirmar na hora de se rebater argumentos, fazendo com que a própria pessoa desenvolva seus pensamentos e caia em contradição por si só; combater mentiras com fatos que estejam de fácil acesso na palma da mão e uma longa lista. Em suma, tratar a outra pessoa com respeito. Afinal, ninguém é melhor do que ninguém e toda opinião política, com exceção de violências, como nos casos de opressão, são válidas. A tarefa é disputar a consciência e tentar convencer a pessoa de nossas opiniões com respeito.
Temos pouco tempo e cada dia importa. É urgente converter a mobilização em votos. É isso que decidirá. Disputar a forma e conteúdo sobre como falar com as pessoas e quais os melhores tipos de ações será definitivo. Temos que ir às ruas e às redes com o máximo de unidade, usando todas as ferramentas à nossa disposição, testando e aprendendo enquanto fazemos, este é o caminho. Mas não tem porquê insistir em métodos que sabemos que não dão resultado. Nossa energia deve ser gasta para que o máximo de pessoas vote 13 no dia 25 de outubro.
O Brasil, pelo que se tem apresentado desde os resultados do primeiro turno, pode ser protagonista mundialmente em dois sentidos distintos. A primeira possibilidade é ser o primeiro país da América do Sul e uma das maiores economias do mundo a se lançar na mudança de regime que o projeto fascista tenta implementar no mundo todo desde seu crescimento como resposta às derrotas das lutas que da classe trabalhadora que eclodiram após a crise de 2008. A segunda é ser o primeiro país que, por conta de uma poderosa mobilização social, derrota o retorno da extrema-direita de forma inequívoca ao poder num processo eleitoral, ganhando mais tempo e acumulando mais força para a classe trabalhadora perante à batalha central da momento histórico que vivemos e que se avizinha cada vez mais.
O Brasil é um país decisivo para a solução da crise atual do capitalismo. Por seu tamanho territorial, populacional, econômico e seu papel na divisão internacional do trabalho. O desfecho da batalha que estamos travando terá impacto no mundo todo. E o imperialismo sabe disso. Por isso eles estão interferindo de forma explícita
A tarefa dos revolucionários socialistas e comunistas é, portanto, buscar ampliar a mobilização em curso, ajudar no aprendizado de auto-organização, estar na linha de frente da disputa de voto e nos atos, aprendendo e construindo junto com as pessoas que têm se mobilizado, mas mostrando um caminho. I Ou seja, sem sectarismo, mas disputando a linha política, os revolucionários devem propor qual o melhor panfleto, qual a melhor abordagem, melhor tipo de atividade, a melhor forma de auto-organização, qual a melhor tática e estratégia da campanha, quais as tarefas centrais e as melhores palavras de ordem, qual o melhor programa e por aí afora, contribuindo para o saldo organizativo e de consciência desse processo em curso, buscando a vitória de Lula neste segundo turno.
Ao Flávio Bolsonaro ter terminado na frente no primeiro turno, o medo, a tristeza, a decepção e, principalmente, o desespero logo se converteram em senso de urgência, em vontade de se mobilizar, em compreensão, mais que lúcida, de que o que separa o Brasil de uma tragédia imediata e avassaladora é reeleger Lula presidente, votando 13 no dia 25 de outubro, e de que quem pode garantir essa vitória é justamente as pessoas mobilizadas. Os socialistas e comunistas têm que ser úteis para a classe ser vitoriosa na luta pela reeleição de Lula, na luta contra a barbárie, para que seja possível a existência de um futuro a ser disputado nos próximos anos e para que as pessoas que têm se mobilizado possam seguir se movendo.
O resultado será apertado, mas a vitória é possível. À luta!
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