100 anos de fidel, o que podemos aprender com ele?


Publicado em: 13 de agosto de 2026

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

Coluna Gabriel Santos

Gabriel Santos

Gabriel Santos é nascido no nordeste brasileiro. Alagoano, mora em Porto Alegre. Militante do movimento negro e popular. Vascaíno e filho de Oxóssi

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Olha, você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro em maio e quase tão bonita quanto a Revolução Cubana
Ferreira Gullar

A história humana é atravessada por lendas e mitos. As mais distintas civilizações, nos mais longínquas latitudes, em todos os continentes, marcados por séculos de distâncias. Em todas elas, existem lendas e contos buscando explicar o que consideravam inexplicável, ou, passar adiante ensinamentos.

Não raras vezes, essas lendas se misturam com fatos e histórias reais, criando um universo à parte, novos mitos e novas lendas. Uma das mais conhecidas é a Odisseia. Poema épico que sobrevive aos milênios, narra o fim da Guerra de Tróia e o retorno de Ulisses à ilha de Ítaca. Misturando fatos reais, como a guerra entre gregos e troianos, com a interferência de deuses no mundo dos humanos, cantos de sereias e gigantes, esta história se tornou pop após ser novamente adaptada para o cinema, desta vez com uma super produção de Christopher Nolan.

Em outra ilha, bem longe de Ítaca, no meio do mar do Caribe, alguns muitos séculos depois do retorno de Ulisses, um outro herói buscava voltar à sua terra natal. Fidel Alejandro Castro Ruz, nasceu em 13 de agosto de 1926, em Havana. A história de Cuba e de toda América Latina se divide em antes e depois de seu retorno ao país.

A epopeia cubana

O ano era 1953. Em 26 de Julho, um grupo de até então desconhecidos guerrilheiros tentou assaltar o Quartel Moncada, um dos principais redutos militares do país, para tomar armas, distribuí-las entre a população e dá início a uma revolta contra a ditadura  de Fulgêncio Batista. A ação foi protagonizada por um pequeno contingente formado por 131 jovens militantes. Fidel Castro, Abel Santamaria e Raúl Castro lideraram a empreitada que acabou falhando e teve como salto seis mortes, e outros 55 presos, que acabaram executados durante sessões de tortura, entre eles Abel Santamaria.

Os irmãos Castro acabaram condenados a 15 anos de prisão. Fidel, que era advogado, decidiu fazer a própria defesa diante do tribunal. Sua declaração ficaria conhecida como “A História me Absolverá”, deu base para o programa político do grupo e circularia em forma de livro pelo mundo afora.

Dois anos depois, os Castros foram anistiados e se exilaram no México. Foi durante o exílio que conheceram Ernesto Guevara, o Che. Foi também no México que o grupo responsável por colocar fim ao governo de Batista ganhou um nome: Movimento 26 de Julho.

Em dezembro de 1956, 82 guerrilheiros, retornam a Cuba utilizando uma embarcação carinhosamente chamada de Granma (vovó, em inglês). Três dias após o desembarque um ataque violento das tropas de Batista é feito contra o grupo, deixando apenas vinte sobreviventes. Eles se instalaram na selva, em Sierra Maestra, dando continuidade a luta armada iniciada em 26 de Julho alguns poucos anos atrás.

Rapidamente o movimento se organiza, ganha apoio popular, vence combates, se massifica com o apoio de camponeses, recebe outros partidos políticos oposicionistas à ditadura, e vê greves nas cidades surgirem. Em 1º de janeiro de 1959, os guerrilheiros liderados por Fidel entram em Havana nos braços da população e se tornam, desde então, um governo revolucionário.

O governo revolucionário passou a executar o programa do Movimento 26 de Julho, com aumento de salários e redução das tarifas de energia elétrica e telefone. Realizou a reforma agrária, expropriou os latifúndios e inúmeras propriedades de empresas estadunidenses para beneficiar os trabalhadores rurais sem-terra.

Cuba enfrentou a analfabetização com inúmeras campanhas, ensinando em menos de dois anos cerca de 90% do país a ler e a escrever. O governo passou a investir em Saúde, com acesso universal a mesma, e tratando ela fora da lógica do capital.

No terceiro mundo, Cuba com Fidel foi uma das vozes mais fortes contra a política imperialista de endividamento dos países pobres. Ele se colocou na defesa e ao apoio à emancipação do povo palestino contra a ocupação sionista. Enviou soldados para lutar contra contra as tropas do apartheid sul-africano, na luta pela independencia de Angola, e de outros países do continente africano. A solidariedade cubana se tornou uma referência mundial, com o envio de dezenas de milhares de médicos e professores para mais de uma centena de países, atuando em regiões de catástrofes e miséria.

A lenda de Fidel, Camilo, Che, Camilo e do grupo de jovens, homens e mulheres, que resolveram pegar em armas, organizar camponeses, e enfrentar a ditadura, é um dos capítulos mais bonitos de todo continente e da história da humanidade.

Fidel, ensinou a transformar o impossível em uma possibilidade infinita. Com a audácia, coragem, rebeldia e a heresia, características que inspiram e devem moldar todos nós.

Fidel hoje

Fidel certa vez apresentou suas ideias como um “marxismo martiniano”. Uma interessante atualização do marxismo latino de Mariátegui, e da necessidade de análises concretas de situações concretas, como diria Lênin. O líder cubano ao afirmar um marxismo que se misturasse com o pensamento nacionalista e internacionalista de José Martí, coloca a necessidade de termos o universal no particular, o particular no universal, ambos como parte do mesmo todo.

Fidel deixou um caminho, o fato de que é preciso atualizar o marxismo para seu tempo, para seu local onde atua, para a realidade concreta. A partir de Fidel podemos perguntar e buscar elaborar, quais pensamentos e tradições políticas brasileiras são possíveis reivindicar para construção de uma maioria social em nosso país? Qual o peso e o papel da cultura nacional e das distintas culturas regionais na luta política que travamos? Como construir um marxismo brasileiro? Como atualizar o marxismo para o século XXI?

Um dos grandes legados de Fidel foi sua extraordinária competência de compreender o movimento da História nos momentos em que o seu rumo se define. Como o mesmo apontou: “cometemos inúmeros erros táticos, mas nenhum estratégico”. Essa capacidade de saber fazer as análises táticas da situação, dá um norte estratégico para a luta sem perder seu caminho, é uma lição para os tempos. Afinal, em tempos de crise estratégica da esquerda, quem muito rema mas não sabe onde quer chegar, pode se perder por trás das ondas.

Em Fidel, a ação política militar, se encontra com a rebeldia. A flexibilidade tática, se encontra com a moral e a ética. O sonho e a utopia, se materializam com a capacidade de organização popular. Sem esta, sem o binômio: organização e pessoas, não vamos a lugar nenhum. Nisto, configura uma outra lição de Fidel.

A partir de Fidel primeiro Moncada, depois a Sierra Maestra, em seguida toda ilha de Cuba, e por fim seu próprio nome sua imagem se tornam símbolos e sinônimos da luta contra as injustiças e pelo socialismo em todo o mundo.

Fidel e seus companheiros, ousaram lutar, acreditaram ser possível, tocaram na vitória com as mãos e a seguraram, antes mesmo de poder enxergá-la com os olhos. Sem recursos materiais, organizavam treinamentos militares, se tornaram um pequeno exército, carregavam nas mochilas as almas e sonhos de todo o povo cubano. Fidel e seus companheiros venceram.

Enfrentaram a derrota em Mocada. Conheceram o sabor amargo da adversidade. Mas aprenderam, a estratégia se mantinha a mesma. Fidel ensinou a transformar estas derrotas e contratempos em vitórias. Cinco anos depois, em 1959, no nascer de um novo ano, nascia também um novo mundo. Os guerrilheiros que fracassaram em tomar o Quartel, agora, sem um único tiro, o ocupam junto do povo.

Fidel fracassou, foi condenado, preso, exilado, retornou, sobreviveu a um massacre, organizou a luta, comandou a guerrilha, dirigiu a revolução, ergueu um país.

A Revolução Cubana tem muitos ensinamentos. Ela representa um marco para o povo cubano, mas também para a América Latina e para o mundo. Cuba Revolucionária ultrapassa os limites geográficos, as fronteiras, as diversas línguas, e se torna uma materialização da humanidade. Do espírito de solidariedade, do sentimento de camaradagem, da possibilidade de triunfar, da chance de construir uma outra forma de ser e estar no mundo.

Hoje, o povo cubano passa por um dos momentos mais graves desde a Revolução. O imperialismo, em sua junção com o neofascismo, representado pelo governo Trump, enxerga na existência de Cuba e da moral revolucionária inquebrável de seu povo uma grave afronta. O desumano bloqueio econômico e a asfixia financeira estão ficando cada vez mais graves. Cuba está na corda bamba. 

A solidariedade entre os povos é uma urgência. Retribuir a Cuba o que Cuba entregou materialmente a nós com sua solidariedade, e principalmente com seu exemplo é mais do que necessário. Lembrar Fidel, sua epopeia, suas lutas. Lembrar Che, Camilo, tantos outros combatentes, mas também mulheres e homens comuns que constroem este país, é preciso. A batalha de ideias acontece a todo vapor, e nesta também estamos sempre ao lado de Cuba.

A pequena ilha colocou o socialismo na história da América Latina, nós colocamos a imensa epopeia Cubana em nossos corações.

Gómez Garcia, guerrilheiro e poeta cubano que participou do ato primeiro da revolução cubana com o assalto ao quartel moncada, tinha como uma de suas tarefas políticas naquela noite de 26 de Julho ler o manifesto para os demais membros do grupo. Aquela noite em Havana seus lábios repetiram no fim da reunião e início do combate, “Camaradas, podemos vencer em algumas horas ou ser derrotados, mas de qualquer forma, me escutem, o nosso movimento triunfará.” Sua boca repetia isto inúmeras vezes. Ele estava certo.

Prólogo

Há no decorrer da história algumas coisas que por conta de sua proximidade conosco, são tão naturais e normalizadas que não enxergamos sua grandiosidade e como ela é excepcional. Cuba Revolucionária é um exemplo disto.

Minha geração herdou Cuba. A ilha já era a terra de Fidel, dos guerrilheiros, quando nasci. Já havia enfrentado a crise gerada após o fim da URSS. Cuba existia, e sua existência veio atrelada a uma outra palavra (que particularmente não gosto), resistência. Sempre foi assim para mim, e para as gerações que vieram após. Era natural.

O fato de termos uma ilha a alguns quilômetros da principal potência imperialista combatendo os ataques desta potência, sofrendo um bloqueio econômico nunca antes visto, e anunciando aos quatro ventos a superioridade do socialismo não é normal. Cuba Revolucionária é um patrimônio da humanidade, pelo menos da outra humanidade que queremos construir. Sua história é nossa história. Sua glória é nossa, e sua derrota também seria.

Lembre-se de Cuba. Defenda Cuba. 


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