Três notas sobre a conjuntura
Publicado em: 5 de agosto de 2026
Coluna Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Coluna Valerio Arcary
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
O segredo para se andar sobre as águas é saber onde estão as pedras.
Sabedoria popular chinesa
1. O discurso de Lula na Convenção que homologou a sua candidatura à reeleição foi bem sucedido por três razões principais: (a) a primeira é que Lula se posicionou, afirmativamente, na defesa das causas feministas, em especial da luta contra a violência que sofrem as mulheres, cunhando até uma palavra de ordem educativa exemplar -“quem bate em mulher não vote em mim”- assumindo a responsabilidade de liderança que não titubeia diante da tragédia social que é a epidemia de feminicídios; (b) a segunda é que Lula assumiu a causa da soberania nacional diante das pressões de Trump, e declarou que é necessário defender o país para que ninguém se atreva em agredir o país cunhando outra consigna – “ninguém vai invadir este país para levar o presidente como eles invadiram’ – em clara referência à Venezuela; (c) a terceira é que Lula anunciou que “não quer mais ser o presidente do Bolsa-família” e defendeu a necessidade de mais ousadia, o que é uma fórmula insuficiente, mas sugere disposição de apresentar um programa de reformas que vá além das políticas sociais focadas. Ainda que insista na linha de “defesa do legado” seria injusto não reconhecer que o discurso foi além ao destacar, também, o domínio brasileiro de terras raras e minerais críticos, garantindo que o país processe sua própria riqueza em vez de atuar apenas como exportador de matéria-prima. Em outra chave, aconteceu, de uma forma meio surpreendente, a admissão de preferência por Fernando Haddad, ainda que condicionada à vitória em São Paulo, como seu herdeiro político.
a novidade mais importante dos últimos dias foi a reconciliação, ainda incompleta, de Michelle com a campanha de Flávio, pela confirmação da candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. Seria um erro não observar a importância do gesto, porque a ameaça existiu. Michelle confirmou seu peso no movimento bolsonarista, e saiu reforçada na disputa contra Flávio
2. No campo da oposição a novidade mais importante dos últimos dias foi a reconciliação, ainda incompleta, de Michelle com a campanha de Flávio, pela confirmação da candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. Seria um erro não observar a importância do gesto, porque a ameaça existiu. Michelle confirmou seu peso no movimento bolsonarista, e saiu reforçada na disputa contra Flávio. Apesar das rivalidades pessoais, ficou demonstrado que existe um núcleo de direção que tem coesão em torno de um programa: (a) apostam no alinhamento com os EUA, ou seja, o plano de recolonização que passa até por privatizações como a Petrobrás e Banco do Brasil; (b) defendem um choque fiscal de emergência “a la Milei” que resultará em empobrecimento em escala nunca vista; (c) assumem o programa de repressão “a la Bukele” com prisões em massa.; (d) repudiam todas as políticas afirmativas de luta contra o racismo estrutural; (e) rejeitam todas as iniciativas de condenação do machismo. São não somente um movimento de extrema-direita, mas acolhem o impulso neofascista radicalizado que ajudaram a construir. Têm como tática disputar o governo pelas eleições, mas a estratégia é a conquista do poder que passa pela conquista de maioria no Senado para garantir o impeachment de ministros do STF e a anistia de Jair Bolsonaro.
Não se deve subestimar a estridência da campanha de pressão da mídia comercial, especialmente, contra Lula, por um novo ajuste fiscal, muito mais severo e rigoroso que o arcabouço fiscal em vigor. A fração burguesa liberal que, quatro anos atrás, desconfiava de Jair Bolsonaro e flertava com Simone Tebet fez um giro agora. Não estamos em 2022, quando o “Ele não” era muito forte. Ao contrário, prevalece uma indisfarçável atitude hostil contra Lula
3. Não se deve subestimar a estridência da campanha de pressão da mídia comercial, especialmente, contra Lula, por um novo ajuste fiscal, muito mais severo e rigoroso que o arcabouço fiscal em vigor. A fração burguesa liberal que, quatro anos atrás, desconfiava de Jair Bolsonaro e flertava com Simone Tebet fez um giro agora. Não estamos em 2022, quando o “Ele não” era muito forte. Ao contrário, prevalece uma indisfarçável atitude hostil contra Lula. Até “desbolsonarizaram” Flávio, apresentado somente pelo primeiro nome. São indicações de que, embora permaneça uma divisão na classe dominante entre uma “massa da burguesia” que apoia o bolsonarismo e frações que têm reservas, vai se impondo uma aceitação e normalização dos neofascistas como partido eleitoral. Ainda no campo de oposição a Convenção do Missão que consagrou Renan Santos como candidato foi um evento chocante. A posição nas pesquisas já era uma demonstração de força diante do bolsonarismo, em especial, entre a juventude. Mas o discurso de Renan, apresentando-se como porta-voz de uma extrema-direita mais qualificada confirmou que deixou de ser um movimento auxiliar do bolsonarismo, e vai rivalizar na luta pela direção da herança do “capitão”. A ofensiva jurídica sobre Fábio Luís, o filho de Lula é outra notícia de grande repercussão, porque já são três inquéritos autorizados no STF. Mas o sinal de alerta mais preocupante, inclusive para as nossas eleições, veio de Ceuta. A explosão social na fronteira do enclave espanhol com Marrocos de dezenas de milhares de homens jovens não tem explicação sem uma operação subversiva oculta. Dada a escala da tragédia não parece plausível que se tratou de uma ação de máfias de trafico imigrante. A estreita relação de Marrocos com Trump sugere que serviços de inteligência podem ter estado envolvidos na manipulação de redes sociais que incendiaram os ânimos de setores desesperados. Mas parece difícil que a investigação venha a trazer luz sobre quem é responsável pelas dezenas de mortes. O que fica é a demonstração de que a defesa de eleições limpas e livres, sem provocações, repousa, essencialmente, nas mãos da esquerda.










O futuro do Brasil, sob ataque do império