Iminência de agressão imperialista ao Irã


Publicado em: 22 de fevereiro de 2026

Valério Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Valério Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

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Não acendas um fogo que não podes apagar
Provérbio popular português

 

  1. A ofensiva mundial de Trump parece imparável. A aposta nacional-imperialista dos EUA, indivisível de uma orientação neofascista interna, avança, ininterruptamente. Depois do ataque à Venezuela, do ultimato de anexação da Groenlândia, do cerco naval criminoso contra Cuba, o alvo agora é Teerã. Aproxima-se do Irã uma poderosa força naval norte-americana, reforçada pelo maior porta-aviões do mundo que estava no Caribe ameaçando a Venezuela, que apoia um esquadrão de muitas dezenas de jatos e bombardeiros, que deve ser a maior frota concentrada dos EUA desde as invasões do Afeganistão e Iraque. O ultimato é claro e não há qualquer improviso. Desde março de 2006, durante o governo Bush, ou seja, nos últimos vinte anos, o Irã tem sido denunciado como “o maior perigo mundial” pelos EUA. Parece loucura, mas obedece a um método, porque repousa em cálculo que nunca mudou, fosse o presidente Obama ou Biden do partido Democrata, ou Bush e Trump dos Republicanos. Num sentido amplo, o uso da força militar é uma expressão de barbárie, ou seja, de brutalidade, bestialidade e estupidez. O uso da guerra é uma maneira primitiva, ou seja, incivilizada, rudimentar e obtusa de resolver conflitos. Mas não é verdade que todas as guerras são iguais. Há guerras injustas e guerras justas. Depois da guerra dos 11 dias em junho de 2025, um novo ataque dos EUA contra o Irã, que terá o apoio incondicional de Israel, será uma guerra injusta. Trata-se de uma guerra imperialista, organizada, minuciosamente, por Trump em incessantes reuniões com Netanyahu. A questão de agora é: por quê? A resposta mais simples é a mais verdadeira: porque podem, como ficou demonstrado por tudo que aconteceu depois da agressão militar impune contra a Venezuela. Nem a ONU, nem os países latino-americanos, nem os Brics, portanto, nem Moscou, nem Pequim fizeram nada senão uma nota de protesto. A relação de forças no sistema de Estado mudou, e os EUA conquistaram uma posição mais forte. Mas um ataque ao Irã pode ser um grave erro de cálculo.

 

2. A possibilidade de um ataque, admitido por Trump nos próximos dez ou quinze dias, deve ser considerado como um perigo real e iminente. Não é possível prever a forma que assumirá, mas o mais provável é que seja uma operação de bombardeio aéreo a instalações militares, associado a um ataque cibernético semelhante ao que foi feito em Caracas, mirando a liquidação de lideranças políticas do regime, como o assassinato do general Soleimani no Iraque em 2020, para impor o terror sobre a população, e explorar divisões internas ao regime. O pretexto argumentado pelos EUA, nos últimos vinte anos, é que o Irã não pode ter armas nucleares. Segundo a Agência Internacional de energia atômica, o Irã possui cerca de 400 a 440 kg de urânio enriquecido a 60%. Esta quantidade poderia garantir a construção de algumas bombas nucleares, mas somente se for enriquecida até 90%. A capacidade de enriquecimento de urânio a 60% é ainda insuficiente e, depois da destruição da maior parte das centrífugas em 2025, consumiria pelo menos alguns anos, se Teerã decidisse fazê-lo. Desde 1991, foi anunciada incontáveis vezes que o Irã estaria muito perto de construir a bomba. Não se confirmou esta previsão nos últimos trinta e cinco anos. A operação ideológica dos EUA de justificar uma guerra contra o Irã para defender a paz é de uma desonestidade absurda, porque é falsa. Trata-se de uma mentira, como foi uma fraude a acusação de que o Iraque teria armas de destruição em massa para legitimar a invasão em 2003. O objetivo da guerra é demonstrar que Washington não vai tolerar a existência de Estados independentes, e sinalizar para o mundo, em especial para Moscou e Pequim, que os EUA são a única potência com capacidade de operação irrestrita em escala mundial, além de garantir a supremacia militar israelense sobre o Médio Oriente. Seu plano é indivisível da estratégia norte-americana de preservação da hegemonia mundial contra a China.

 

3. A esquerda deve defender o Irã diante da ameaça devastadora. Defender o Irã diante dos EUA não equivale a solidariedade política com o regime do clero- partido-exército no poder. O Irã é um Estado na periferia do capitalismo, mas um raro país independente, como Cuba e era a Venezuela, em um mundo em que a disputa dos EUA à frente da Tríade contra a ameaça colocada pela ascensão da China é o conflito central no sistema de Estados. A rigor, nenhum país periférico pode ser, plenamente, independente em um mundo dominado por uma ordem imperialista. Mas há graus diferenciados, maiores ou menores de autonomia. O Brasil e o Mexico são dependentes, mas muito menos do que o Paraguai, Peru ou Bolívia. A Índia é, em comparação com Estados sul-americanos, como Argentina e Chile, muito mais independente, não só porque “tamanho faz diferença”, é um dos cinco maiores PIBs do mundo, mas porque tem armas nucleares. A inserção do Irã no mercado mundial é periférica em função da condição primária-exportadora, dependência de investimentos e tecnologias e industrialização precária, agravada por sanções devastadoras durante a pandemia. Mas, o Irã conquistou um lugar independente no sistema de Estados porque o seu governo tem plena soberania sobre suas decisões internas, e relativa autonomia nas externas. O Irã é consciente da inferioridade militar diante de Israel, e seu governo já sinalizou disposição de negociações com os EUA fazendo concessões. A compreensão do lugar do Irá deve considerar: (a) ser uma nação com milênios de história herdeira do império persa com uma cultura própria forte, como a língua farsi, a tradição nacional e uma identidade xiita do islamismo; (b) o atual regime surgiu de uma poderosa revolução popular anti-imperialista liderada pelo clero xiita contra a ditadura de forma monárquica do Xá Reza Pahlavi instalada no poder em 1953 por um golpe de Estado com apoio da CIA que derrubou o governo de Mosaddegh (1951–53); (c) o regime é uma teocracia, como o Estado do Vaticano, ou seja, não há separação entre a dimensão política e religiosa nas instituições de poder que exercem a administração civil e militar do Estado, impondo normas morais, espirituais, educacionais e culturais e, embora haja eleições, elas não são livres e as candidaturas obedecem à autoridade do clero xiita, mas embora seja evidente que os aiatolás têm base social grande, não é claro qual é o grau de coesão social interna; (d) embora o Irã tenha importantes reservas de petróleo – extrai 3,3 milhões de barris por dia, terceiro maior produtor da OPEP e sétimo em escala global – o regime é consciente que a soberania energética não pode depender de um recurso não renovável, e perseverou no desenvolvimento de um complexo de centrífugas de enriquecimento de urânio para fins civis que, apesar de da negação pública, não exclui a ambição de ter armas nucleares como Israel; (e) o Irã é consciente que nem Moscou, nem a Pequim tem interesse em precipitar confronto com Washington e tanto Rússia quanto China defendem uma imediata desescalada, que só é possível com concessões de Teerã a Washington. 

4. A ofensiva de Trump parece confirmar que a estratégia de preservação da liderança político-econômica dos EUA diante da ascensão chinesa exige um rearranjo global de posições de força no sistema de
Estados. A subversão da ordem mundial passa por três iniciativas táticas: (a) eliminar ou reduzir, brutalmente, os graus de autonomia dos Estados-Nação da periferia com alguma veleidade independentista, o que ameaça – depois da retomada do canal do Panamá e sequestro de Maduro – o Irã e Cuba, talvez até a Coreia do Norte, além de impor novos limites mais estreitos para a Índia e Brasil, indispensáveis para os Brics; (b) deslocar a prioridade da parceria com Londres, aliado histórico da Holanda e das nações escandinavas ao exigir a anexação da Groenlândia, e reafirmar a primazia americana diante do eixo Paris/Berlim na União Europeia, excluídos das negociações com Moscou sobre o destino da Ucrânia e do governo Zelensky; (c) preservar relações especiais com a Rússia explorando possibilidade de acesso direto, mesmo quando as tensões com a China se agudizam. A ordem negociada em Yalta e Potsdam ao final da Segunda Guerra Mundial estava sendo reorganizada desde 1989/91, quando se abriu uma nova etapa histórica no sistema mundial de Estados, em função da restauração capitalista na ex-URSS. Mas agora tudo mudou. A etapa da “globalização” se encerrou. Washington está deslocando o papel da ONU com o Conselho da Paz sobre a Palestina e, em breve, poderá questionar os acordos de Bretton Woods. O surgimento dos Brics é intolerável para os EUA. Não obstante, sem uma nova ordem mundial estável, que garanta a hegemonia dos EUA e a preservação do dólar como moeda mundial, não parecem estar reunidas condições de um novo período sustentado de crescimento econômico. 

 

5. A disputa é pelo poder mundial. A tentação de encontrar explicações, essencialmente, econômicas para a perenidade e agressividade do capitalismo no início do século XXI é compreensível, mas parece pouco produtiva para explicar porque o neofascismo é a corrente política mais dinâmica na imensa maioria dos países imperialistas, liderando uma fração impetuosa do grande capital. Nem os que teorizaram a terceira revolução industrial com o surgimento da internet nos anos noventa, nem os que previram a possibilidade da superação das crises cíclicas com o relaxamento monetário depois da crise de 2008 e, talvez, menos ainda aqueles que acreditam que as biotecnologias, nanotecnologias e inteligência artificial, nada é suficiente para explicar a ofensiva de Trump na Casa Branca. A disputa com a China tem uma dimensão econômica, mas é muito mais que rivalidade econômica. O que está em disputa é a necessidade de impor uma derrota histórica às classes trabalhadoras e os povos oprimidos necessária para garantir o domínio mundial dos EUA. Análises economicistas não oferecem um quadro de análise satisfatório para a necessidade de um domínio nacional-imperialista e neofascista, sustentado pelo Pentágono e pelo dólar, a potência que mantém a liderança do processo recolonizador no sistema mundial de Estados. A derrubada do regime no Irã não remete somente ao fluxo de petróleo para os EUA. A derrubada do regime em Cuba não obedece apenas à devolução da ilha para a burguesia de origem cubana na Florida. As necessidades políticas de preservação de supremacia de poder não podem ser subestimadas.


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