Quanto vale a vida das crianças negras no Maranhão?


Publicado em: 14 de janeiro de 2026

Por Cássia Clovié e Rielda Alves, de São Luís (MA)

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Cássia Clovié e Rielda Alves, de São Luís (MA)

Esquerda Online

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Reprodução/TV MIrante

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Estamos há 10 dias acompanhando com muita apreensão as incursões na mata no Quilombo de São Sebastião, em Bacabal, que visam encontrar Ágata Isabelle e Allan Michael (5 e 4 anos, respectivamente) que desapareceram ao sair para brincar com o primo de 8 anos Adrian (único resgatado dia 07/01/26).

As buscas se intensificaram no dia 06/01/26 após ampla divulgação nas redes sociais e pressão popular por resolução do caso com brevidade.

Embora um grande aparato tenha sido destacado para auxiliar nas buscas, vemos uma falta de cuidado no trato das autoridades com a comunidade e com as informações repassadas à sociedade.

Precisamos falar sobre racismo

Quem são essas crianças?

Isabelle e Michael são irmãos, e Anderson é primo dos dois. Trata-se de três crianças negras quilombolas, o que muitas vezes é omitido ou subnotificado. Todos pertencentes a uma comunidade cujo modo de vida favorece a interação com o território, numa relação com laços e pertencimento, forjadas especialmente por meio das brincadeiras coletivas ao ar livre.

O desaparecimento se dá num contexto de vulnerabilidade histórica das populações quilombolas e na forma como o Estado e a mídia respondem a casos envolvendo crianças negras, estas pertencentes ao grupo social que forma a ampla maioria da população do Maranhão (79% – entre pretos e pardos), sendo a mais afetada por violências e vulnerabilidades sociais, com grande impacto para as crianças.

A infância negra é atravessada por uma série de situações que a expõe a inúmeros fatores de riscos, resultando em violações dos seus direitos fundamentais estabelecidos na Constituição Federal de 1988 e no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA. O racismo é um dos fatores que agravam as condições socioeconômicas dessas crianças e as violações sofridas, expondo-as à circunstâncias de extremas violências, que tenta condicionar suas formas de viver e de estar no mundo e faz da cor da sua pele por um lado, alvo da violência institucional, policial, sexual entre outras e por outro, o segmento populacional menos atendido pelas políticas públicas que possam garantir a efetividade dos seus direitos fundamentais.

A tragédia envolvendo as crianças negras quilombolas expôs, mais um vez, o tratamento dispensado à população negra por parte das autoridades e da mídia: a demora do Estado nas buscas e investigações, as informações desencontradas e veiculadas na imprensa sem ser checadas previamente, o sensacionalismo por parte de blogueiros e “influencers” locais que visam engajamentos e monetizam em torno dessa situação, a abordagem insensível e questionadora sobre os cuidados com os filhos, dirigidas à mãe e etc.

O desaparecimento das crianças, a vulnerabilidade social, a falta de políticas públicas efetivas que assegure a vida da população negra e proteja a infância negra, seus territórios, a não demarcação das terras quilombolas, são parte integrante desse estado que escolheu invisibilizar os corpos negros.

Que as buscas não parem até que nossos pequenos quilombolas sejam encontrados! E que estejam bem! Pela proteção e demarcação das comunidades quilombolas!

As infâncias negras importam!


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