2025, o ano por Sem Anistia


Publicado em: 18 de dezembro de 2025

Coluna Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Coluna Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

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Sindpetro Caxias/RJ

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O mar calmo nunca fez bom marinheiro.
Provérbio popular português

1 A luta política central que atravessou o ano de 2025 foi a mobilização por Sem Anistia. Manter a perspectiva é essencial para retirarmos as lições, diante de uma avalanche de acontecimentos em vertigem. Nada foi mais importante do que a condenação de Bolsonaro e, pela primeira vez na história, de generais de quatro estrelas, à prisão no julgamento do STF. Mas seria uma ilusão de ótica explicar este desenlace somente pelo papel de Alexandre de Moraes e seus pares. Seu mérito não merece ser diminuído. Mas foi necessário que se consolidasse uma maioria social contra a impunidade dos golpistas neofascistas para legitimar o desfecho do processo, que enfrentou o apoio de governadores, de um pântano na Câmara de Deputados e milhares de prefeitos, além de uma força social de choque reacionária nas ruas. Até junho prevalecia um lento, porém ininterrupto desgaste do governo Lula, e fortalecimento da oposição com um alinhamento do centrão com a extrema-direita bolsonarista, que culminou em 16 de março com o Ato de Copacabana com pelo menos 30 mil seguidores. O governo Lula mantinha uma distância institucional dos desdobramentos do processo no STF, enquanto Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, e Claúdio Castro, entre outros, garantiam que tinham compromisso com o indulto de Bolsonaro e se engajavam de Atos de rua

2 A primeira grande resposta pelo Sem Anistia passou pelos atos “Ditadura nunca mais” de 30 de março que na Paulista conseguiu reunir uma vibrante vanguarda de 10 mil ativistas. O bolsonarismo, já em clara defensiva, ainda voltou às ruas no 7 de setembro com algo em torno de 45 mil na Avenida Paulista. Mas a resposta começou a ser construída debaixo de chuva no 10 de julho. Deu um salto de qualidade no 21 de setembro à escala nacional, quando pela primeira vez a esquerda superou a extrema-direita com 60 mil no Rio e, pelo menos 40 mil em São Paulo, na sequência das provocações da PEC da Blindagem e do PL da Anistia. E encerramos o ano com as mobilizações do domingo 14 de dezembro contra o PL da dosimetria, a anistia envergonhada, na escala de dezenas de milhares, uma semana depois de grandes concentrações do movimento de mulheres contra o feminicídio. O resultado deste processo não foi somente uma solução institucional conduzida pela Justiça. Não teria sido assim sem a luta por Sem Anistia, o que nos deixa uma lição histórica. A “frio” nada muda no Brasil. O papel da Frente Única de Esquerda precisa ser resgatado, porque o desfecho é expressão de uma luta que se construiu nas ruas.

3 O ano se aproxima do fim, e o contraste entre sua primeira e segunda metade é evidente. A conjuntura mudou no segundo semestre. Uma de suas expressões foi a redução de danos pela preservação do mandato de Glauber Braga. A confirmação veio pelas recentes pesquisas de opinião que sugerem uma reeleição de Lula em 2026. Sejamos conscientes que o país ainda estava e permanece dividido, social e ideologicamente, política e institucionalmente, e nada pode ser previsto, sem margens grandes de incerteza, por antecipação. Os cinco fatores chaves que produziram uma inversão favorável da relação política de forças foram: (a) a disposição dos setores mais lúcidos e combativos da esquerda de apostar nem contínuas mobilizações de rua, indo além do sonambulismo quietista, com a adesão de aliados corajosos no mundo da cultura e da arte; (b) a firmeza dos juízes do STF, à excepção de Luiz Fux; (c) um moderado porém consistente giro à esquerda do governo Lula diante da ofensiva de sanções de Trump contra o Brasil em defesa de Bolsonaro, em defesa da soberania nacional, mas também em defesa da reforma do Imposto de Renda e uma defesa mais politizada da redução do fim da jornada 6×1 através de luta ideológica nas redes sociais, produzindo um deslocamento interno de forças; (d) os erros absurdos do bolsonarismo liderados por Eduardo Bolsonaro nos EUA, a provocação da PEC da Blindagem e de sucessivos PL’s de anistia, o incrível episódio de tentativa de destruição da tornozeleira, e a defesa do mandato de Zambelli; (e) as divisões entre o centrão e os neofascistas sobre o papel de Tarcísio de Freitas, as tensões dentro do núcleo dirigente bolsonarista até o lançamento da pré-candidatura do filho Flávio como pré-candidato à presidência.

4 Um balanço sóbrio deve considerar que a esquerda teve acertos táticos, apesar das ambiguidades de estratégia. Os acertos táticos mais importantes foram três: (a) ter preservado a unidade da Frente Brasil Popular e sem Medo, unindo as organizações populares e mantido a luta por Sem anistia como centro da disputa política sem perder o rumo da mobilização popular; (b) ter assumido uma postura anti-imperialista diante da agressão de Trump compreendendo a importância de assumir a defesa da nação, um país dependente; (c) ter unido a luta democrática contra os golpistas com as reivindicações populares: a isenção do imposto de renda para os trabalhadores que ganham até cinco mil reais, a exigência de que os super-ricos paguem impostos, a defesa do fim da 6×1 e da redução da jornada de trabalho, entre outras. Mas, infelizmente, se mantém uma indefinição estratégica incontornável. A questão decisiva é que ainda não está consolidada uma Frente de Esquerda ou Frente Popular, no terreno da independência de classe, que seja um ponto de apoio para a defesa de um programa de reformas estruturais. O mandato de Lula caminha para seu último ano nos estreitos marcos estabelecidos pela Frente Ampla que incorpora frações importantes da burguesia ao governo e limita que se possa avançar. A expressão mais grave é a permanência de uma orientação no Banco Central que mantém intocável o tripé de superávit fiscal, metas de inflação e câmbio flutuante, o dogma neoliberal que justifica as taxas de juros reais mais elevadas do mundo. E não houve nenhuma disputa séria de rumos e estratégia. Ao contrário, prevaleceu a capitulação.

5 Os desafios de 2026 serão muitos, porque a nossa parte do mundo não evoluiu nada bem em 2025. Do sul da Patagônia, Chile e Argentina, passando pelos Andes, Peru, Bolívia, e Equador a extrema-direita se reforçou. As eleições do primeiro semestre na Colômbia serão palco de uma ofensiva reacionária avassaladora. A Venezuela está cercada por Trump e pode ser, militarmente, agredida a qualquer momento. A questão decisiva é que a luta pela reeleição de Lula deverá exigir uma aliança que vá além da Frente de Esquerda, mas a disputa do programa não pode ser dissimulada. O Brasil é um dos países mais injustos do mundo, senão o pior, uma anomalia histórica. Esta excepcionalidade impõe um programa de combate à desigualdade social que não pode se restringir a programas assistencialistas. A história deixa lições. Aprendamos com o drama do MAS de Evo Morales na Bolívia, do kirchnerismo na Argentina, de Boric no Chile. Sem um impulso anticapitalista não é possível evitar que o nosso destino seja o mesmo. Não tenhamos medo dos mares revoltos. Uma tempestade vem aí.


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