Coronavírus, isolamento das pessoas e seguridade social
Publicado em: 16 de março de 2020
Congresso Nacional tem movimento reduzido em razão da pandemia do novo coronavírus.
Na última semana não se debate em outro assunto na mídia, rodas de conversa, ambiente de trabalho, que não seja a pandemia do COVID-19. Enquanto observávamos tudo de longe era uma coisa, mas, quando os casos chegam ao nosso lado, a forma de encarar muda completamente. Muda porque há mudanças objetivas que vão necessitar serem colocadas em nossa rotina e muda também pela psicologia do pânico.
Por outro lado, o mais interessante nisso tudo é o urgente debate sobre saúde pública e seguridade social que necessariamente uma pandemia causa. Vivemos num mundo de incentivo ao individualismo, empreendedorismo, onde gerações foram convencidas que o serviço público não presta e é composto por trabalhadores “parasitas e privilegiados”. Não quero aqui fazer o discurso simplesmente do “eu avisei”, porquê não é isso que resolve nada, a não ser inflar egos. Mas sim o discurso do “precisamos refletir sobre”.
Hoje, a pandemia chega ao país.
Um Brasil que passou por uma reforma trabalhista e da previdência que aumentou significativamente o número de empregos informais e ameaçou o direito à aposentadoria dos idosos. Um Brasil que aprovou a PEC 95 que estipula um teto de gastos para saúde, educação e segurança públicas por 20 anos, congelando esses gastos, acabando com os concursos públicos e portanto com a reposição da força de trabalho com garantias sociais.
Ainda por cima, temos um Brasil que colocou em dúvida os conhecimentos científicos e a credibilidade científica mundial, fazendo piadas com isso e realmente criando uma geração de terraplanistas e sexistas, que acreditam que a ciência é uma piada, cospem nas evidências científicas, caçoam da mídia, tratam servidores públicos como parasitas e aprenderam a chamar direitos sociais conquistas de privilégios.
Esse é o Brasil do coronavírus.
E te digo, que é só graças a essa massa de servidores públicos da saúde, exaustos em suas rotinas e ao sistema público de saúde brasileiro que vamos sobreviver a essa crise. Não tenham dúvidas, os profissionais de saúde serão e já estão sendo na linha de frente desse combate.
São eles os que estarão nas trincheiras das triagem, do atendimento, prevenção e cura dessa pandemia. São os mais expostos e são também aqueles que estão sob um governo que caçoa das ações necessárias e que só vai usá-las quando enxergar nessas ações a oportunidade pra repressão e coerção.
O SUS, felizmente, tem muitas reservas, reservas de excelentes profissionais, reservas de excelentes programas de prevenção, de protocolos de serviços que quando disparados funcionam de maneira ágil e eficaz. Mas o SUS também sente os cortes, a pressão social, o desespero da população sem orientação. Também sente a falta de política pública unificada, sente falta de recursos. Sente o desmonte da atenção básica e lotação dos prontos socorros (lugares errados para essa triagem inclusive).
Falar sobre isolamento do pessoas, de trabalhadores, é necessariamente falar sobre seguridade social. Pois enquanto a Itália está reembolsando quem é obrigado a se isolar, o Brasil destrói sua previdência social e aumenta a informalidade no emprego. Não adianta a histeria da classe média, sem uma política pública que dê condições das pessoas terem responsabilidade social. Ou vocês acham que só vai pegar covid-19 quem tem direito trabalhista? Não. E isso expõe a maior ferida dos trabalhadores nesse momento. O sistema de seguridade social é essencialmente um sistema de solidariedade coletiva, e que num momento como esse se mostrará essencial, ou teremos um crescimento ainda mais rápido da propagação.
É verdade por outro lado, que não ter pânico é essencial, saber que a letalidade do vírus é baixa ..apesar de ser importante. Mas a real é que precisaríamos pensar num sistema que fosse capaz de proteger os vulneráveis: idosos, pessoas com comorbidades, imunodeprimidos, gestantes. Para isso é preciso sim ter responsabilidade social, mas é preciso também ter políticas públicas, em vez de individualizar a responsabilidade apenas.
O SUS e a previdência social são patrimônios da classe trabalhadora desse país e são eles, ou o que resta deles, que vai controlar tudo isso. E ficará de lição… será que o SUS , o serviço público, a previdência social, os “mais médicos cubanos”, deveriam ser descartados e colocados em nosso discurso como algo a ser substituído pela ação individual empreendedora das pessoas? Acredito que não. Não somos jovens para sempre, responsabilidade social com outra geração é a essência da previdência social destruída por esse governo.
* Mariana Pércia é médica e residente em ginecologia e obstetrícia.
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