Disputar o Futuro e a Centralidade da Campanha para Eleger “Lula Presidente”: para não dizer que não falei das flores
Publicado em: 19 de outubro de 2026
Ricardo Stuckert
Resta menos de uma semna para o segundo turno das eleições de 2026. O Brasil está em disputa. O cenário eleitoral, contudo, está longe de ser uma disputa política ordinária. Em nível nacional, está em jogo muito mais do que a escolha de quem ocupará o Palácio do Planalto e comandará o Executivo federal pelos próximos quatro anos. O que se disputa é a possibilidade de cada projeto político imprimir sua direção ao país, condicionando os rumos da democracia, dos direitos sociais, das liberdades políticas e das condições de vida da população nos próximos anos.
Dada a abrangência continental destas eleições, o resultado eleitoral de 2026 poderá alterar significativamente a correlação de forças na América Latina. Afinal, o imperialismo norteamericano, chefiado pelo governo de governo Donald Trump, representa uma crescente ofensiva sobre a América Latina, ampliando sua pressão política, econômica e militar. Nesse contexto, as eleições brasileiras transcendem as fronteiras nacionais e assumem importância estratégica para o conjunto da região. Não por acaso, o mundo acompanha atentamente a disputa eleitoral no Brasil.
Quem é Flávio Bolsonaro?
Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, no âmbito da trama golpista investigada após as eleições de 2022, desde 2003 exerceu quatro mandatos consecutivos como deputado estadual no Rio de Janeiro (ALERJ) e assumiu uma cadeira no Senado em 2019. Envolvido no escândalo das “rachadinhas” de Fabrício Queiroz, ocasião em que foi denunciado pelo Ministério Público por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Sobre o mesmo tema, houveram suspeitas de que Flávio Bolsonaro utilizou uma franquia da Kopenhagen, localizada em um shopping na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, como fachada para lavar dinheiro do esquema de “rachadinhas” operado em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), uma vez que haveria suspeita de incompatibilidade de faturamento do negócio – registros de dinheiro vivo, padrão de depósitos em espécie (com picos em datas de pagamento e no 13º salário) e contrastante com o fluxo natural do varejo de chocolates.
Há também o caso de Aquisição e Quitação de Mansão em Brasília, aquisição milionária e incompatível com o salário formal de parlamentar. Esteve, ainda, envolvido com relações pessoais e homenagens a milicianos, como no caso de sua relação direta com o ex-capitão do Bope apontado como chefe do “Escritório do Crime”, um grupo de matadores de aluguel no Rio de Janeiro, além de ter condecorado o major Ronald Paulo Alves Pereira (condenado por envolvimento no caso Marielle Franco) e o coronel Cláudio Luiz de Oliveira (condenado pelo assassinato da juíza Patrícia Acioli).
Outro fato embaraçoso em sua trajetória refere-se à compra de imóveis em dinheiro vivo e questionamentos sobre a origem dos recursos utilizados nas transações. Investigações jornalísticas e desdobramentos de auditorias apontaram que a família Bolsonaro realizou a compra de 107 imóveis entre 1990 e 2020, sendo que 51 dessas transações foram feitas, total ou parcialmente, com dinheiro vivo. O “Zero Um” dos Bolsonaro esteve diretamente associado a essas negociações. Ele adquiriu 17 apartamentos e duas kitnets na Zona Sul do Rio de Janeiro pagando parcelas expressivas em espécie. As suspeitas envolvem lavagem de dinheiro e subfaturamento de valores venais.
Em 2025, o candidato bolsonarista incitou o desrespeito a decisões judiciais e atuou de forma incompatível com o decoro exigido pelo cargo público, conforme notificou o stf em ocasião das ordens de prisão expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) contra seu pai, Jair Bolsonaro.
Mais recentemente, Flávio Bolsonaro esteve envolvido em escândalos por seu vínculo com suspeitos de fraude no INSS e lavagem de dinheiro, bem como pelo financiamento do Filme Dark Horse e seu esquema com Emendas Parlamentares – contexto em que Flávio tornou-se alvo de apurações da Polícia Federal sob as suspeitas de lavagem de dinheiro, organização criminosa, evasão de divisas e corrupção. No mesmo sentido, relatórios da PF em 2026 levantaram questionamentos sobre uma emenda parlamentar de R$ 199 mil enviada por Flávio Bolsonaro a uma ONG suspeita de desvios, que possuía ligações com os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, apontados como mandantes do assassinato de Marielle Franco.
O escândalo mais recente: Segundo investigações autorizadas pelo STF, Flávio atuou como interlocutor direto de Daniel Vorcaro (Banco Master) para viabilizar aportes milionários (cerca de US$ 14 milhões dos US$ 24 milhões solicitados) e obter empréstimos do BRB para favorecimentos pessoais. Mensagens e áudios obtidos pela PF mostram cobranças de parcelas e reuniões entre os dois em 2025, mesmo o candidato ter alegado desconhecimento do banqueiro até então. Divulgados recentemente, relatórios da PF apontaram o nome de Flávio Bolsonaro como “usuário master” em uma conta bancária de uma offshore ligada ao esquema do Banco Master.
Em oito anos de mandato como Senador, um único projeto associado ao nome de Flávio Bolsonaro se tornou Lei, de autoria coletiva e vetos presidenciais. Apesar de ser presidente do então presidente da República, nenhum de seus projetos avançou. Trata-se de um fracasso político.
Seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, o “bananinha” fujão, encontra-se foragido nos EUA é considerado oficialmente procurado pelas autoridades brasileiras, após o após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar o início imediato do cumprimento de sua pena – com ordem de prisão e passaportes cancelados. Seu pai, Jair Bolsonaro, cumpre pena após condenação por, dentre outros crimes, tentativa de golpe de Estado.
O perigo de subestimar as forças da extrema direita e do núcleo neofascista
Flávio Bolsonaro representa um projeto de poder miliciano-familiar, autoritário e antagônico aos princípios e às forças democráticas. Ele encampa um bloco político cujo núcleo duro constitui uma ameaça às liberdades democráticas, aos direitos sociais consagrados pela Constituição Federal de 1988 e ao conjunto das conquistas históricas da sociedade brasileira. Não nos enganemos quanto aos seus objetivos: está em jogo um projeto de subversão da ordem democrática construída ao longo da Nova República.
Após a tentativa fracassada de golpe de Estado, esse campo político busca avançar também por dentro das próprias instituições democráticas. Sua estratégia passa pela conquista de maiorias parlamentares, pelo fortalecimento de governos estaduais aliados e pelo controle de posições estratégicas no Estado, com o propósito de alterar a composição do Supremo Tribunal Federal e promover mudanças constitucionais profundas. Não se trata de uma disputa política ordinária, mas de um projeto que, se levado adiante nesses termos, poderá corroer os mecanismos de equilíbrio entre os Poderes, restringir direitos e comprometer as garantias que sustentam o regime democrático.
Estamos diante de um projeto regressivo, reacionário e autocrático, que pretende utilizar os instrumentos da democracia para modificar suas próprias regras e limitar as condições de sua continuidade. É precisamente por isso que a defesa da democracia exige atenção, mobilização e unidade de todas as forças comprometidas com as liberdades públicas, os direitos sociais e a Constituição de 1988.
Há um real perigo em se subestimar as forças da extrema-direita e o projeto neofascista de sua ala mais radical. O bolsonarismo representa uma ameaça profunda à democracia, aos direitos sociais, às liberdades políticas e às próprias condições de convivência democrática. É um projeto de poder autoritário, personalista e avesso ao pluralismo, que busca subordinar as instituições e a vida pública a uma lógica de confronto permanente, intolerância e concentração de poder. Seu caráter regressivo não se limita à esquerda ou aos movimentos populares: ameaça conquistas democráticas que deveriam ser inegociáveis para qualquer sociedade que se pretenda civilizada.
As forças de direita moderada e tradicional, assim como os setores que se abrigam sob a denominação de Centrão, também precisam compreender os riscos dessa dinâmica. O bolsonarismo não é um aliado confiável da direita liberal ou conservadora tradicional: sua lógica de poder tende a subordinar adversários, reduzir o pluralismo e tratar as instituições como instrumentos de um projeto particularista. Uma direita comprometida com o Estado de Direito, as liberdades individuais e a alternância de poder têm razões consistentes para se opor a essa perspectiva. Justifica-se o chamado de convergência à campanha de segundo turno: “Esquerda e direita contra Flávio Bolsonaro”.
Disputar o futuro: eleger Lula presidente no dia 24 de outubro
O primeiro turno já evidenciou o avanço das forças de direita e extrema direita e a configuração de um Parlamento ainda mais conservador e reacionário. Esse cenário se insere em uma conjuntura latino-americana marcada pelo fortalecimento de forças políticas de direita nos últimos anos (a esquerda não venceu em nenhuma eleição regional em 2025 e 2026.
No Brasil, o desempenho eleitoral do PL e de seus aliados aponta para um cenário particularmente adverso a partir de 2027: a esquerda acumula derrotas políticas importantes, terá sua capacidade de atuação institucional ainda mais limitada e enfrentará uma correlação de forças desfavorável. Estamos, portanto, diante de uma situação defensiva, que exige reconhecer a dimensão das derrotas, compreender suas determinações e repensar as estratégias de organização, mobilização e disputa política. Mas não há tempo para críticas ao legado lulista ou balanço dos equívocos de campanha no primeiro turno. Isso deverá ser feito, mas não é agora. E como diz a canção, “quem sabe faz a hora e não espera acontecer”. É preciso nos engajarmos ativamente na campanha para elegermos Lula em segundo turno.
É verdade que a conjuntura é marcada pela ausência de uma alternativa política concreta, enraizada socialmente e capaz de responder aos problemas imediatos e às necessidades históricas da classe trabalhadora. Diante desse cenário, todos os setores democráticos e da esquerda — da esquerda institucionalizada às correntes mais radicais — precisam reconhecer a gravidade do momento e unir esforços na campanha pela eleição de Lula-Alckmin no segundo turno. Uma vitória eleitoral poderá representar uma conquista política de grande importância em meio a uma conjuntura profundamente adversa, contendo, ao menos temporariamente, o avanço das forças reacionárias. Será uma vitória significativa em um cenário de derrotas, um suspiro necessário em meio a um ambiente político sufocante.
Mas é preciso ter clareza: por mais importante que seja, essa vitória não resolverá os impasses estratégicos da esquerda, tampouco reconstruirá, por si só, a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora. Será um ponto de apoio para resistir, reorganizar forças e reconstruir alternativas políticas capazes de enfrentar os problemas concretos dos trabalhadores e recolocar no horizonte a possibilidade de transformações sociais profundas.
Conforme expusemos, o bolsonarismo é uma das expressões mais regressivas já produzidas pela política brasileira, pelo menos a mais poderosa. Trata-se de uma força política de caráter anticivilizatório, que ameaça as liberdades democráticas, ataca direitos sociais, dissemina a intolerância e procura corroer os próprios fundamentos da convivência democrática. São inimigos das mulheres, dos negros e das negras, das pessoas LGBTQUIA+, dos povos originários, de todos aqueles que lutam contra as opressões e as desigualdades. Sua agenda também ameaça a proteção ambiental, a liberdade artística, a autonomia sindical, o movimento estudantil, a liberdade de cátedra, a produção científica e o conjunto dos direitos sociais e trabalhistas. É um projeto autoritário que ataca não apenas direitos específicos, mas as condições de uma sociedade plural, democrática e socialmente justa.
A campanha dos próximos dias deverá polarizar: civilização ou barbárie
Neste mês de outubro, as ruas têm apontado um caminho! A vitalidade da juventude e do movimento estudantil tem se manifestado em assembleias cheias e grandes atos de massa em diversas cidades e estados brasileiros. Atos pela virada de Lula tem enchido as ruas do país. Há o registro de cerca de quatro dezenas de cidades (24 capitais) com atos massivos em favor da reeleição de Lula e contra Flávio Bolsonaro apenas nesta última semana.
Somados aos atos de massa, o ativismo digital e a intensa disputa nas redes sociais também assumiram papel central na campanha. Tem sido travada uma batalha permanente contra a desinformação e as fake news bolsonaristas, em meio a denúncias de assimetrias no alcance dos conteúdos, restrições à circulação de publicações favoráveis à candidatura de Lula e interferências judiciais que afetaram a dinâmica da disputa eleitoral. Nesse cenário, ganhou projeção o chamado “exército do Lula”, impulsionado, entre outros, pela atuação do deputado federal André Janones, que convocou militantes e apoiadores a romper a bolha da esquerda e disputar diretamente a opinião pública nas plataformas digitais. A dimensão alcançada por essa mobilização, com milhões de seguidores em seus canais, evidenciou a importância estratégica da comunicação digital na disputa política brasileira. O canal já ultrapassou a marca de 4 milhões de seguidores, apesar das intervenções da Justiça Eleitoral que atingiram a mobilização digital pró-Lula. Entre elas, decisões do ministro Kassio Nunes Marques (ministro do STF e atualmente presidente do TSE), acusado recentemente de envolvimento em escândalos de corrupção e suspeitas de relação com o Banco Master.
Outra modalidade de militância, em parte relegada a segundo plano por setores da esquerda brasileira nos últimos anos, voltou a ganhar força: o trabalho de base. O contato olho no olho, o diálogo direto com a população, a escuta atenta e a conversa franca com trabalhadores nas ruas, nas panfletagens e nas atividades de mobilização imprimiram um novo tom militante à campanha de Lula. Mais do que a disputa nas redes sociais e nos espaços institucionais, trata-se de recuperar a presença cotidiana junto à classe trabalhadora, compreender suas inquietações, dialogar com suas experiências concretas e reconstruir laços de confiança e solidariedade. Essa disposição de mobilização demonstra que há energia social para enfrentar a conjuntura adversa e disputar os rumos políticos do país.
Precisamos transformar essa energia em força política e eleitoral. Isso significa dialogar com quem não compareceu às urnas no primeiro turno — 21,08% do eleitorado, cerca de 33 milhões de pessoas, segundo os números mencionados — e com quem votou em branco ou nulo, aproximadamente 5% do eleitorado. Mais do que somar votos, trata-se de construir uma maioria político-social capaz de compreender a gravidade do que está em jogo e de barrar o avanço do projeto bolsonarista encarnado por Flávio Bolsonaro e seus aliados.
É por isso que a defesa da democracia não pode ser reduzida a uma disputa entre esquerda e direita. Neste segundo turno, é preciso construir uma convergência ampla, reunindo forças democráticas de diferentes tradições políticas em torno da candidatura Lula-Alckmin. A tarefa imediata é impedir o avanço de um projeto autoritário; a tarefa estratégica, que continuará depois das eleições, é reconstruir a organização popular, fortalecer a participação política e criar alternativas capazes de responder às necessidades concretas da classe trabalhadora.
É preciso virar, é possível vencer! Vamos frear o bolsonarismo nas ruas, nas redes e nas urnas!
Será difícil. Ninguém disse que seria fácil. Mas deverá haver flores no caminho da luta. Caminhando e cantando, nas ruas, nas redes e nas urnas: vamos virar e vencer!
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