A eleição de toda América Latina
Publicado em: 19 de agosto de 2026
Coluna Paulo Pasin
Paulo Pasin é metroviário aposentado do Metrô de São Paulo (SP) e ex-presidente da Fenametro (Federação Nacional dos Metroviários).
Coluna Paulo Pasin
Paulo Pasin
Paulo Pasin é metroviário aposentado do Metrô de São Paulo (SP) e ex-presidente da Fenametro (Federação Nacional dos Metroviários).
A brutal e multifacetada ofensiva dos Estados Unidos na América Latina, tendo o Brasil como um de seus principais alvos neste momento, fundamentada na Doutrina Monroe e acompanhada da afirmação de que o domínio norte-americano sobre a região “nunca mais será questionado”, recoloca para os revolucionários a essencialidade
da luta anti-imperialista.
Esse debate esteve particularmente presente no trotskismo internacional durante a Guerra das Malvinas, em 1982. Naquele momento, setores da esquerda recusaram-se a apoiar a Argentina porque o país era governado por uma ditadura sanguinária. O conflito, contudo, colocou uma questão de fundo: diante de uma agressão imperialista contra um país latino-americano, deve ser o caráter de seu regime político — ou a composição do governo de plantão — o fator decisivo para definir a posição das organizações revolucionárias?
A invasão e retomada das Malvinas pela Argentina, em 2 de abril de 1982, ocorreu em meio à profunda crise econômica, política e social da ditadura de Leopoldo Galtieri. O regime acreditava que a Grã-Bretanha não reagiria militarmente e que os Estados Unidos não se oporiam à Argentina, em razão da colaboração da ditadura com a política anticomunista norte-americana na América Latina. O cálculo, porém, mostrou-se equivocado. O governo de Margaret Thatcher enviou uma poderosa força militar, enquanto os Estados Unidos apoiaram a Grã-Bretanha.
A guerra desencadeou uma ampla mobilização popular na Argentina, que rapidamente escapou ao controle da própria ditadura. Com a derrota argentina, em 14 de junho, cresceram as manifestações contra o regime. Galtieri renunciou, a ditadura entrou em colapso e abriu-se o caminho para a redemocratização.
O Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), de orientação trotskista, retomou a posição de Leon Trotsky segundo a qual, em um conflito entre um país semicolonial e uma potência imperialista, os revolucionários deveriam apoiar o primeiro no campo militar, sem abandonar as criticas as vacilações de se próprio governo.
O Partido Socialista dos Trabalhadores (PST), de orientação trotskista, retomou a posição de Leon Trotsky segundo a qual, em um conflito entre um país semicolonial e uma potência imperialista, os revolucionários deveriam apoiar o primeiro no campo militar, sem abandonar as criticas as vacilações de se próprio governo.
Em 23 de setembro de 1938, Leon Trotsky concedeu uma entrevista ao militante argentino Mateo Fossa, na qual abordou a situação internacional, a ameaça de uma nova guerra mundial e, particularmente, os problemas da luta anti-imperialista na América Latina: ” Existe atualmente no Brasil um regime semi-fascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto que, amanhã, a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil “fascista” contra a Inglaterra “democrática”. Por que? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse ela colocaria um outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura deVargas.
A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês”.
A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês”.
Quando uma intervenção imperialista está em curso, é preciso “nao ter nada na cabeça” para reduzir os antagonismos mundiais à disputa no interior da esquerda nacional. No Brasil contemporâneo, essa questão se torna ainda mais evidente quando comparada ao período a que Trotsky se referia, marcado pela ditadura de Getúlio Vargas. Hoje, não vivemos sob uma ditadura, e o governo Lula defende liberdades democráticas que, apesar de suas limitações, garantem direitos fundamentais.
O cerco dos Estados Unidos à região manifesta-se por meio de intervenções, do bloqueio que asfixia Cuba, do sequestro do presidente Nicolas Maduro para roubar o petróleo e riqueza dos venezuelanos , de ameaças militares apresentadas sob o pretexto do combate ao narcotráfico, do treinamento ostensivo da máquina de guerra norte-americana em países vizinhos ao Brasil e de mecanismos de coerção econômica, tecnológica e financeira.
Trata-se de uma estratégia de dominação que combina pressão militar, coerção econômica, influência política, interferência eleitoral e guerra comercial. Não são, portanto, episódios isolados, mas partes de uma guerra de posições voltada à transformação da América Latina em “quintal” dos Estados Unidos.
O Brasil, ao lado do México, ocupa uma posição estratégica na América Latina. O resultado da disputa eleitoral terá, portanto, consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais e incidirão sobre os rumos políticos da região .
Nesse contexto, a eleição brasileira não pode ser tratada como um episódio corriqueiro do calendário eleitoral. O Brasil, ao lado do México, ocupa uma posição estratégica na América Latina. O resultado da disputa eleitoral terá, portanto, consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais e incidirão sobre os rumos políticos da região.
Uma eventual derrota do neofascismo imperialista de Trump daria um forte impulso à luta dos movimentos populares em toda a América Latina e, talvez, também no interior dos próprios Estados Unidos.

É sob essa ótica que deve ser examinada a postura das organizações que se autodenominam “esquerda radical” que lançaram candidaturas próprias à Presidência ou fazem oposição sistemática ao governo Lula. Embora partam de tradições marxistas diferentes e até opostas, concentram esforços na própria construção e na preservação da memória de seu passado, por meio da propaganda de um programa máximo incompreensível para a maioria da classe e da manutenção de uma estrutura organizativa, em vez de disputar políticas de maioria.
Ao recusarem-se a contribuir para a derrota eleitoral das forças identificadas com o trumpismo, acabam, objetivamente, prejudicando a luta contra um inimigo que deveria ser comum.
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