Colômbia: Pacto Histórico interrompe sucessão de derrotas da esquerda latino americana


Publicado em: 10 de março de 2026

Por Gibran Jordão, da redação

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Gibran Jordão, da redação

Esquerda Online

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Crédito Divulgação/Senado colombiano

Iván Cepeda

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No último domingo, 8 de março, aconteceu o processo eleitoral na Colômbia para a renovação das vagas para câmara e senado, a apuração terminou nesta terça-feira, e os números revelaram que o Pacto Histórico foi o mais votado tanto na câmara como no senado. Essa vitória eleitoral nas eleições legislativas indica uma tendência para a eleição presidencial que acontecerá em maio deste ano. Caso Gustavo Petro consiga eleger o seu sucessor – Ivan Cepeda – a Colômbia poderá interromper uma onda de derrotas eleitorais da esquerda no continente latino americano.

Em 2022, o partido de Petro obteve 2.880.245 votos na para o senado, em 2026 sua votação foi de 4.413.636 votos, aumentando de 20 para 25 cadeiras. Na câmara de representantes, em 2022 recebeu 3.133.345 votos, em 2026 sua votação aumentou para 4.338.702 votos, chegando a 40 cadeiras. Embora não tenha maioria absoluta no congresso, o Pacto Histórico se tornou o partido mais votado nas duas casas, configurando uma imensa vitória política para as forças de esquerda no país de Gabriel Garcia Marques.

Uma onda de protestos dá a luz ao Pacto Histórico em 2022

A Colômbia passou por mobilizações sociais iniciadas em 2019 e que se intensificaram em 2021, com greve geral e protestos de descontentamento popular contra o governo de Ivan Duque – Centro Democrático – as agruras da pandemia e a aplicação de projetos contra direitos sociais e forte repressão policial aos protestos gerou uma situação de convulsão no país. Em fevereiro de 2021, é lançado o Pacto Histórico, uma coalizão que tinha o objetivo de unir partidos de esquerda e movimentos sociais para disputar as eleições legislativas e presidencial de 2022. Essa unidade de forças progressistas conseguiu eleger Gustavo Petro para a presidência e uma bancada expressiva tanto na câmara ( 28 cadeiras), como no senado ( 20 cadeiras).

>> Leia também: Colômbia: Partido de Gustavo Petro é o vencedor das eleições legislativas

Os partidos tradicionais da direita sofreram retrocessos eleitorais, mas suas bancadas ainda tinham uma forte presença no congresso como um todo, criando uma situação de difícil governabilidade para Petro. Em vários momentos de sua administração, a mobilização popular foi um recurso utilizado para aprovar projetos de interesse da classe trabalhadora colombiana. A pressão das ruas sobre o parlamento foi uma característica do modelo de governar do Pacto Histórico em todas as vezes que as forças ligadas à burguesia colombiana travavam projetos de interesse do governo ou quando organizavam iniciativas para desestabilizar o país.

A transformação do Pacto Histórico: de uma coligação para um partido frente

O plano de governo de Gustavo Petro, procurou avançar em reformas estruturais na saúde pública, sistema de pensões, aumento do salário mínimo, transição energética, segurança alimentar, a estabilidade do país com a consigna de Paz Total e episódios de embates públicos com o presidente dos EUA – Donald Trump. A forma de governar e as políticas públicas de Petro, encontraram forte oposição das forças reacionárias do país e a sociedade colombiana se polarizou.

Em junho de 2025, os partidos da coalizão que formava o Pacto Histórico decidiram fundir-se numa legenda única sob a personalidade jurídica de partido. Essa movimentação se deu por dois fatores principais, a primeira motivação se deu para atender as exigências da legislação eleitoral que só permitia coligação entre forças políticas que não tinham ultrapassado 15% dos votos na eleição anterior, como o Pacto Histórico teve um desempenho muito superior a esses critérios, os partidos parceiros desse projeto, não podiam repetir a coligação que tinha sido feita em 2022. Então, havia somente dois caminhos, lançar listas separadas, ou se fundir numa federação de partidos com uma lista única de candidatos sob a mesma legenda. A segunda opção foi o caminho escolhido, e após longas e complexas negociações, e dificuldades com a justiça eleitoral, conseguiram transformar o Pacto Histórico numa sigla única, com correntes internas, e um sistema de prévias para escolher os candidatos tanto para disputar as legislativas como para a presidência da república. A Colombia Humana – Partido de Petro – o Polo Democrático Alternativo( PDA), o Partido Comunista Colombiano, o Movimento Alternativo Indígena e Social ( MAIS), o Partido do Trabalho da Colômbia ( PTC), grupos ambientalistas, movimentos indígenas, partidos de centro esquerda, entre outras forças políticas, passaram a fazer parte do Pacto Histórico, agora não mais como uma pragmática coligação, mas como uma frente de vários partidos sob uma mesma sigla e personalidade jurídica. A segunda motivação estratégica para essa transformação, visava eliminar a dispersão de votos inerente ao sistema de coalizões e fortalecer a marca “Pacto” perante o eleitorado, fortalecendo um sentimento de unidade da esquerda para dar continuidade a um projeto de interesse do povo colombiano contra o projeto das elites reacionárias sócias menores do imperialismo americano.

A vitória nas eleições legislativas indica o favoritismo de Ivan Cepeda?

Nas eleições para a renovação das cadeiras da câmara e do senado, o Pacto Histórico mostrou ser a maior força política do país, conseguindo o maior número de cadeiras nas duas casas. As prévias do partido mobilizaram milhares de eleitores que escolheram Ivan Cepeda como candidato à presidência da república. Ele foi fundador do Movimento Nacional de Vítimas de Crimes de Estado – MOVICE – sua participação na política se deu após a morte de seu pai, o senador Manuel Cepeda Vargas, líder do União Patriótica assassinado em 1994. Ele também é senador pela coalizão Pacto Histórico e um dos principais articuladores das negociações de paz do governo Petro com grupos armados.

As pesquisas em geral mostram que Cepeda é o grande favorito para vencer o primeiro turno das eleições, devido à grande fragmentação de forças das candidaturas da direita e extrema direita. Mas tudo indica que a eleição presidencial colombiana terá um segundo turno acirradíssimo, e não é possível dizer que será o adversário das forças reacionárias que irão para o segundo turno. O candidato de extrema direita – Abelardo de la Espriella (Salvacion Nacional) – é um dos favoritos a enfrentar Ivan Cepeda no segundo turno.

Embora o Pacto Histórico conseguiu as maiores bancadas do congresso nacional, as forças de direita e extrema direita como o Centro Democrático e o Salvacion Nacional também tiveram votações muito expressivas aumentando muito suas bancadas no congresso nacional, tanto na camara como no senado. O fato das forças de direita estarem fragmentadas em várias siglas, pode dar a impressão de estarem muito fragilizadas para a disputa presidencial, mas acontece que num possível segundo turno, a unidade de todas as forças da direita em torno de um candidato específico, sem dúvida nenhuma deixa a disputa em aberto e totalmente imprevisível, mesmo que Cepeda seja o favorito.

O Pacto Histórico mostra o caminho para a América Latina

A experiência política do Pacto Histórico tem demonstrado que a unidade das forças de esquerda é um caminho acertado para enfrentar a extrema direita latino americana que é sócia menor do imperialismo estadunidense. Especialmente pelo fato de conseguir aglutinar várias frações do espectro de esquerda e centro-esquerda do país numa frente única tanto para organizar lutas específicas, como para governar.

O governo de Petro em aliança com os movimentos sociais, em mobilização permanente para fazer avançar reformas estruturais que se chocam contra os interesses da elite colombiana, está sendo bem reconhecido e reivindicado por milhões de trabalhadoras e trabalhadores das mais variadas regiões da Colômbia. Mas precisamos observar que a polarização do país, indica que para superar os ciclos históricos de dependência e construir um projeto de desenvolvimento nacional soberano ainda será um longo caminho. As frações da direita e da extrema direita colombiana em aliança com o imperialismo ocidental ainda tem bastante força para desestabilizar o país e impedir o avanço das forças progressistas. Sem dúvida nenhuma a Colômbia hoje é um polo de resistência no continente, onde as forças reacionárias vêm avançando no último período e vencendo a maioria dos processos eleitorais. A vitória ou a derrota do Pacto Histórico no primeiro semestre deste ano na disputa da presidência da república, vai impactar para o bem ou para o mal o resultado das eleições no Brasil no segundo semestre de 2026.

Gibran Jordão é historiador, analista de geopolítica e TAE-UFRJ


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