Entre denúncias e anúncios: Tecendo a manhã em meio ao avanço da barbárie capitalista


Publicado em: 4 de março de 2026

Insurgência e Resistência ANDES-SN

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Insurgência e Resistência ANDES-SN

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Foto: Reunião de apresentação Insurgência e Resistência no 44º Congresso do ANDES

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“[…] tomando-se a utopia como a unidade inquebrantável entre a denúncia e o anúncio. Denúncia de uma realidade desumanizante e anúncio de uma realidade em que os [seres humanos] possam ser mais”
Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido

Inspirados pela utopia freireana como síntese dialética de denúncia e anúncio, e, fundados numa leitura da realidade em sua concretude, nossa análise de conjuntura sintetiza diagnóstico e prognóstico, considerando as particularidades do momento e contexto histórico-sociais e do tempo presente. Sabemos que a denúncia precede o anúncio. Logo, vimos primeiramente denunciar.

Vivemos uma conjuntura extremamente difícil, que, quanto mais complexa, mais nos compele a hierarquizar aquilo que a constitui. Por um lado, a crise do capital se alastra e se recrudesce por múltiplas facetas igualmente críticas. Quanto a elas, mencionamos cinco exemplos, a saber, na forma das crises: ambiental; econômica e social; geopolítica; intraburguesa; e subjetiva da classe trabalhadora e das organizações revolucionárias. Nestes marcos a própria reprodução capitalista resta ameaçada, ao passo que a busca por supostas saídas passa contraditoriamente pela manutenção do próprio sistema em crise, resultando num desenvolvimento cada vez mais barbárico, numa crise climática sem precedentes, no colapso ambiental e cujo produto político principal tem sido o neofascismo.

É nesse interregno que destacamos a centralidade de denunciar, nos marcos globais, a ascensão acelerada da extrema-direita e do neofascismo, junto à escalada imperialista e (neo)colonial, sobretudo por meio da guerra, bem como a crise climática e o colapso ambiental. Essa dinâmica coloca em xeque, de maneira mais imediata, a vida de determinados povos, grupos e indivíduos, e, no médio e longo prazo, a própria humanidade e o planeta.

Em diferentes países e continentes do mundo, observamos a instrumentalização de crises econômicas e políticas, a mobilização do medo, do ressentimento, dentre outros afetos, para o ganho de força de projetos autoritários, racistas e profundamente excludentes e que, ao fim e ao cabo, atentam contra a própria classe trabalhadora em toda a sua diversidade. Esse avanço ocorre junto à intensificação das guerras, do complexo industrial-militar, expressando a reconfiguração do imperialismo contemporâneo e a sofisticação e renovação de políticas e práticas coloniais, que seguem estruturando hierarquias globais, controle territorial e espoliação de povos inteiros.

Nesse contexto, o genocídio em curso na Palestina torna-se símbolo brutal do avanço da extrema direita e da lógica imperialista e (neo) colonial, que transforma populações inteiras em alvos militares, normalizando massacres, deslocamentos forçados e a destruição sistemática de territórios e de suas gentes. Cabe apenas ressaltar que a escala genocida israelense, em conluio às potências imperialistas e colonialistas globais, se dá nos marcos de quase 80 anos de invasão, que tem a Nakba de 1948 como marco, assentando uma colonização de povoamento, um regime de apartheid e cenário de limpeza étnica. Da mesma forma, a luta por libertação nacional palestina, durante todos estes anos, nos serve como bússola moral, com a solidariedade ativa e altiva ao povo palestino, à sua resistência e suas lutas por libertação nacional e autodeterminação, sendo imperativos éticos. Por isso mesmo, é mais que urgente para o governo brasileiro cortar laços diplomáticos e comerciais com o Estado genocida de Israel e instituições que se beneficiam dessa lógica histórica, fortalecendo iniciativas como o BDS Boycott, Divestment and Sanctions. Lula está correto quanto à caracterização do que ocorre com a Palestina como genocídio. Contudo, erra ao não cortar relações com Israel. Não há possibilidade alguma de diálogo, de relativização ou de chancelamento da barbárie.

Escrevemos e submetemos este texto na primeira semana de janeiro, meio ao ataque estadunidense à Venezuela, com bombardeios e sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, numa evidente agressão imperialista e um desrespeito à soberania nacional, à autodeterminação do povo venezuelano e mesmo ao direito internacional. Na retórica, Trump utiliza uma vez mais a chamada “guerra às drogas” ou ao narcotráfico como subterfúgio, reatualizando a Doutrina Monroe por meio da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA. Concretamente, o que se tem é uma ofensiva militar, que busca amplificar os braços do império estadunidense na América Latina, almejando a derrubada do governo Maduro, bem como o acesso irrestrito e espoliativo às reservas mundiais de petróleo e gás venezuelanos. Ao mesmo tempo, a agressão também soa como alerta ao restante da América Latina, em especial a Colômbia e ao Brasil, cujos governos resistem à extrema direita que avança no continente. Ambos os países, para além dos recursos naturais volumosos, terão eleições presidenciais em 2026. Soma-se a isto as ameaças diretas feitas por Trump a Cuba e o recrudescimento do embargo, que ganha contornos ainda mais intensos com o bloqueio da distribuição do petróleo venezuelano pelos EUA. Mais do que nunca, a solidariedade ao povo venezuelano é premente, com a denúncia e o rechaço públicos de mais uma agressão infame do imperialismo estadunidense. Junto a isso, é também urgente a organização de uma aliança entre os países e forças populares que repudiam tal ataque, servindo como defesa tática a outras agressões possíveis na região. Trump: tire as mãos da Venezuela! Em defesa da soberania do povo venezuelano! Libertação imediata de Nicolás Maduro e Cilia Flores! Fora Trump da América Latina!

No contexto africano, o imperialismo e o (neo) colonialismo também avançam e se renovam, com conflitos armados alimentados por disputas geopolíticas, orientados à espoliação e exploração de recursos naturais, tudo isso via intervenções das potências estrangeiras, que resultam em mortes em massa, fome, instabilidade permanente e apagamento de formas de vida, aprofundando desigualdades históricas. Hoje, genocídios e massacres seguem devastando populações inteiras, como, por exemplo: no Sudão, e a limpeza étnica em Darfur; na República Democrática do Congo, onde grupos armados e interesses internacionais disputam o controle do coltan; na Etiópia, onde a repressão em Tigré deixou centenas de milhares de mortos; em Moçambique, com o neocolonialismo energético. Todos esses processos revelam que o colonialismo não acabou. Pelo contrário, ele se imiscui ao imperialismo, dizendo de ambos como pilares constitutivos imanentes ao próprio desenvolvimento do modo de produção capitalista. Ainda nesta amálgama desumanizante e destrutiva, não é possível desconsiderar ou minimizar o racismo na subjugação e desumanização de tais povos, determinados grupos, etnias e indivíduos, reiterando que não há capitalismo sem racismo. Em contraste, a resistência e o combate ao imperialismo francês, como tem sido construído na região do Sahel (Mali, Níger e Burkina Faso em especial), chamam a nossa atenção e solidariedade às lutas anticoloniais do presente.

Na América Latina, os governos de Javier Milei na Argentina, de Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa do Equador, dentre outros, são pedagógicos não só quanto ao poderio da extrema direita, como ao que ela é capaz e qual é o seu nível de destrutividade econômica, política e do tecido social como um todo, quando alçada à presidência

Na América Latina, os governos de Javier Milei na Argentina, de Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa do Equador, dentre outros, são pedagógicos não só quanto ao poderio da extrema direita, como ao que ela é capaz e qual é o seu nível de destrutividade econômica, política e do tecido social como um todo, quando alçada à presidência. O caso mais recente do Chile, com a eleição de José Antonio Kast, de linhagem familiar nazista e defensor da ditadura pinochetista, tende a fortalecer a aliança da extrema direita na região, seguindo a mesma linha. No Brasil, o próprio exemplo de Jair Bolsonaro, e dos 700 mil corpos sobre os quais seu governo se debruçou, deveria ser bastante didático quanto aos perigos da chegada ao executivo da extrema direita, e sobre como devemos envidar todos os nossos esforços para evitar que isso aconteça novamente em nosso país. Tudo isso se torna ainda mais preocupante quando consideramos o ataque imperialista estadunidense à Venezuela, que fortalece ainda mais a extrema direita na região.

O colapso ambiental, por sua vez, aprofunda todas essas dinâmicas, ao passo que é retroalimentado por elas. O aquecimento global, o aumento de eventos climáticos extremos, a degradação dos ecossistemas e a corrida por minerais estratégicos reforçam mecanismos de dominação, como as guerras, invasões e ataques imperialistas e neocoloniais, ampliam desigualdades e justificam novas formas de militarização das fronteiras. A crise ecológica não é apenas ambiental, mas uma das facetas críticas da própria crise do capital em seu atual estágio de desenvolvimento, como mencionado. Assim sendo, ela revela a incapacidade de o capitalismo garantir a reprodução da vida e evidencia que a disputa pelo futuro passa pela resistência aos projetos de destruição e pela afirmação radical de alternativas emancipatórias ecossocialistas.

Vivemos uma quadra histórica que, a despeito de importantes lutas, se dá numa toada de profundas derrotas para a classe trabalhadora. Em suma, a decadência capitalista contemporânea não vem sendo acompanhada, até aqui, pela conscientização e organização da classe trabalhadora, ao menos nos termos, conteúdo e forma necessários, assim como pelo fortalecimento de alternativas anticapitalistas com condições concretas de efetivação de seus projetos societários alternativos.

Dialeticamente, esse avanço destrutivo produz e é retroalimentado por uma crise subjetiva daqueles e daquelas que são seus principais alvos, encarnando-o e sofrendo com ele. Essa crise subjetiva se expressa, por um lado, pela própria dificuldade de mobilização da classe trabalhadora e dos seus instrumentos de luta, em face da intensidade, do volume e da velocidade da destrutividade da presente ofensiva do capital e dos retrocessos que afetam diretamente a classe trabalhadora. Vivemos uma quadra histórica que, a despeito de importantes lutas, se dá numa toada de profundas derrotas para a classe trabalhadora. Em suma, a decadência capitalista contemporânea não vem sendo acompanhada, até aqui, pela conscientização e organização da classe trabalhadora, ao menos nos termos, conteúdo e forma necessários, assim como pelo fortalecimento de alternativas anticapitalistas com condições concretas de efetivação de seus projetos societários alternativos.

As décadas de reestruturação produtiva, que enfraquecem objetiva e subjetivamente a classe trabalhadora e seus meios organizativos, que espolia reiteradamente seus direitos, bem como a hegemonia ideológica neoliberal arrefecem a própria capacidade de se projetar e pensar alternativas e outros mundos não só possíveis, como necessários. A barbárie capitalista se dá objetiva e subjetivamente. A precarização da vida da classe trabalhadora é objetiva e subjetiva. Não por acaso, vivemos um cenário de generalização e aprofundamento do sofrimento psíquico, do adoecimento da classe trabalhadora, até mesmo como formas de controle, avançando também sobre ela via mecanismos de psicopatologização e medicalização da vida. Aliado a isso, quanto mais avança a destrutividade do capital, mais ela precisa de meios que a ocultem e a mistifiquem, ao passo que se normaliza e naturaliza sua destrutividade. Mencionamos como exemplo, dentre vários possíveis, a ideologia do empreendedorismo, um fetiche da mercadoria especial, a força de trabalho, em que a perda do controle e a incorporação das práticas burguesas se expressam num movimento global prático e teórico mistificador, arrefecendo a consciência de classe e, por conseguinte, a organização de tais trabalhadores. Mesmo no bojo da tradição da esquerda revolucionária, o cenário também se mostra bastante intricado, marcado pela marginalidade, pela fragmentação e por dispersões.

Contrastante a essa realidade, é fundamental também reconhecer os avanços oriundos das lutas e movimentos negros e antirracistas, feministas, LGBT+, dos povos originários, de pessoas com deficiência e anticapacitistas, que nos indicam caminhos importantes para se pensar a própria concretude da classe trabalhadora, em sua diversidade, sobretudo em nosso país. Além disso, iniciativas e mobilização unitárias têm demonstrado capacidade de enfrentar a extrema direita, configurando algumas das mais importantes lutas da classe nos últimos tempos, possibilitando conquistas políticas e indo na contramão da fragmentação.

A conjuntura brasileira não passa ilesa dessa realidade, até porque a compõe e a conforma, não sendo apenas um reflexo dela. Segue-se nela marcha expansiva do neofascismo, que se reorganiza nas brechas das múltiplas facetas críticas da crise do capitalismo, nas particularidades de um país gestado na e pela colonização e escravismo, na periferia capitalista e com caráter dependente. Tudo isso se move em conjunto, como foi possível ver no final de 2025 na derrubada pelo congresso dos vetos presidenciais ao projeto sobre licenciamento ambiental (PL 2.159/21), na aprovação também no Senado da PEC do Marco Temporal, dentre outras iniciativas que resultam em um cenário de ainda maior destruição ao nosso país e meio ambiente, atacando diretamente os povos originários e tradicionais.
Ganham corpo as narrativas e condutas autoritárias, de caráter racista, misógino, LGBTfóbico, capacitistas, dentre outros conteúdos e fundamentos que reproduzem e retroalimentam nossas estruturas exploratórias e opressivas. Denunciamos, por exemplo, com toda a indignação, o avanço da violência contra as mulheres, inclusive dos casos de feminicídio que nos estarrecem e indignam diariamente. O genocídio dos povos originários, da população negra e periférica, as inúmeras violências contra a população LGBT+, sobretudo as pessoas transsexuais e travestis, os massacres no campo, a violência manicomial e prisional, tudo isso parece ter sua marcha inalterada.

Busca-se assim naturalizar a violência, atacar direitos e até mesmo corroer as instituições da democracia burguesa, bem como o próprio regime, como foi expresso publicamente no dia 08 de janeiro de 2023. Portanto, o enfrentamento ao neofascismo deve ser o cerne da tática política de esquerda no presente, exigindo mediações que vão na direção de fomentar a unidade de ação nas pautas e lutas em que ela se mostra possível e necessária, fortalecer a mobilização e organização popular, defender serviços e as políticas públicas (SUAS, SUAS, educação etc.), ampliar a participação política e disputar as consciências no cotidiano. O combate ao neofascismo torna-se, assim, tarefa central para a reconstrução do país, a defesa da nossa soberania, impulsionando um projeto popular capaz de responder às demandas da classe trabalhadora.

A extrema direita e suas franjas neofascistas no país demonstram a permanência de sua força, o que deve fazer soar o alerta para que não seja desconsiderada nem minimizada. Mesmo após algumas derrotas eleitorais, como foi o caso da fundamental vitória de Lula em 2022, a partir de uma concertação de frente ampla (ou amplíssima), esses grupos continuam com forte capacidade de mobilização, produzem desinformação massificada e seguem influenciando políticas públicas que atacam a classe trabalhadora brasileira.

A composição parlamentar, seja na Câmara dos Deputados ou no Senado, bem como as eleições municipais de 2024, dizem da capilaridade e perenidade da extrema direita, em conluio ao chamado “centrão” (direita institucional), se manifestando também nos estados e Distrito Federal. São exemplos disso a aprovação da famigerada PEC da Blindagem (ou da Bandidagem) e o PL da Dosimetria (uma Anistia disfarçada) na Câmara, dentre outros. O orçamento secreto, com as emendas de composição e emendas PIX, reforçam o domínio de determinados políticos sobre o eleitorado e seus contextos de atuação, chegando a ultrapassar dotações orçamentárias de importantes políticas sociais, e possibilitando certa sensação de tranquilidade e preservação eleitoral de figuras que já possuem grande poder e capilaridade. A crise aberta entre o congresso inimigo do povo e o governo, com ofensiva capitaneada pelos presidentes das duas casas, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, tende a se intensificar em um ano eleitoral.

Inclusive, com a proximidade das eleições para o executivo e legislativo em 2026, podemos esperar da extrema direita o recrudescimento de sua atuação bélica e de sua violência. Uma amostra disso foi a chacina nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, como uma espécie de balão de ensaio, operada pelas forças de segurança e pelo braço repressivo do estado do Rio de Janeiro, e capitaneada pelo governador Cláudio Castro (PL), correligionário de Bolsonaro

Inclusive, com a proximidade das eleições para o executivo e legislativo em 2026, podemos esperar da extrema direita o recrudescimento de sua atuação bélica e de sua violência. Uma amostra disso foi a chacina nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, como uma espécie de balão de ensaio, operada pelas forças de segurança e pelo braço repressivo do estado do Rio de Janeiro, e capitaneada pelo governador Cláudio Castro (PL), correligionário de Bolsonaro. A política de segurança pública hegemônica em nosso país, nos marcos do proibicionismo e pautada pela chamada “guerra às drogas”, tem (re)produzido um verdadeiro genocídio da população negra e pobre, resultado esse que rasga a sua aparência e denuncia qual o seu real objetivo – que tem sido bastante exitoso. A naturalização dessa violência, apoiada majoritariamente por setores conservadores, mas também por alguns que se proclamam progressistas ou de esquerda, revela o caráter estrutural do racismo em nossa sociedade, no qual se alicerça a figura do negro e pobre como inimigo interno a ser criminalizado, preso e morto.

Não é ingênuo avaliar que até o período eleitoral em 2026, governantes e políticos da extrema direita instrumentalizarão ainda mais a pauta, com outras iniciativas na mesma lógica da do Rio de Janeiro para se capitalizar e incidir no tabuleiro eleitoral brasileiro. Considerando novamente a agressão imperialista estadunidense na Venezuela e no restante da América Latina, que é justificada retoricamente pela suposta “guerra às drogas” e ao narcotráfico, transmutado em narcoterrorismo, deve ser de grande preocupação as iniciativas de extrema direita brasileira associar, internamente, o tráfico de drogas ao terrorismo, unindo “guerra às drogas” e “guerra ao terror” e dando subsídios para invasões e agressões imperialistas dos EUA. De qualquer forma, a aposta na violência institucionalizada, ainda mais recrudescida, é mais um elemento para nos alertar quanto ao avanço e à força da extrema direita, nacional e internacional, inclusive, num horizonte mais imediato, como é o das eleições de 2026.

A prisão de Jair Bolsonaro, por um lado, tira momentaneamente a maior figura da extrema direita da raia eleitoral, devendo ser compreendida como uma conquista em termos da responsabilização institucional de uma figura que atentou contra milhares de vidas e tem toda uma trajetória de normalização da violência. Isso se torna ainda mais relevante quando consideramos também as prisões de membros do alto escalão das forças militares, como as do almirante Almir Garnier Santos, dos generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto – candidato à vice-presidência em 2022 junto a Bolsonaro -, algo até então inédito em nosso país. Não há anistia possível para os golpistas!

Por outro lado, a prisão intensifica a polarização existente da extrema direita sobretudo com setores da centro-esquerda e com o petismo, bem como com o Superior Tribunal Federal (STF), impondo mediações táticas para a defesa do que tais setores e órgãos têm feito e cumprido quanto a contenção do avanço da própria extrema direita, ao passo que não significa adesismo acrítico a eles. O exemplo do STF é bastante elucidativo, especialmente quando consideramos como ele próprio chancelou o golpe de 2016 contra Dilma Rousseff, a prisão ilegítima de Lula, dando ares de legalidade e institucionalidade e tais episódios lamentáveis, assim como vem reiteradamente ratificando ataques contra direitos da classe trabalhadora.

Além disso, a detenção de Bolsonaro tem sido mobilizada como narrativa de perseguição, buscando reorganizar a base bolsonarista. O governo tenta manter estabilidade em meio à tensão, enquanto o bolsonarismo testa sua capacidade de articulação nas ruas e no Congresso, revelando um país ainda atravessado por uma crise política profunda.

A extrema direita movimenta suas peças para 2026, buscando reorganizar seu campo após crises internas e disputas por liderança. Ela tenta capitalizar o descontentamento social, instrumentalizar pautas morais e explorar o antipetismo ainda bastante presente em nosso tecido social. Grupos conservadores disputam espaço com setores mais radicalizados, enquanto líderes regionais tentam se projetar nacionalmente. Com forte presença digital, se aproveitando da anuência e blindagem das grandes corporações midiáticas nas redes, tentam reconstruir uma narrativa de “ordem” e “liberdade”, apostando na polarização com o petismo para manter relevância eleitoral.

Quem avalia que se trata de uma eleição fácil, com a reeleição de Lula estando garantida, não entendeu a complexidade conjuntural. Como alertas, mencionamos a permanência alarmante do conservadorismo e do próprio bolsonarismo em nosso tecido social. Além disso, a desaprovação do governo tem sido maior do que a aprovação; e, em grande parte, ela não decorre dos equívocos e conciliação do governo, mas remonta a uma parcela significativa da população aderida ao antipetismo e que, na essência, se volta à esquerda como um todo

A despeito das indefinições nos possíveis nomes da extrema direita, não podemos minimizar o perigo das eleições de 2026. Quem avalia que se trata de uma eleição fácil, com a reeleição de Lula estando garantida, não entendeu a complexidade conjuntural. Como alertas, mencionamos a permanência alarmante do conservadorismo e do próprio bolsonarismo em nosso tecido social. Além disso, a desaprovação do governo tem sido maior do que a aprovação; e, em grande parte, ela não decorre dos equívocos e conciliação do governo, mas remonta a uma parcela significativa da população aderida ao antipetismo e que, na essência, se volta à esquerda como um todo. Infelizmente, o bolsonarismo ainda capitaneia o maior contingente de pessoas que reprovam o governo Lula.

A possibilidade de a extrema direita ganhar é real e não se pode vacilar quanto a isso e quanto à necessidade de envidarmos nossos esforços para impedir que isto aconteça. As recentes movimentações da candidatura “balão de ensaio” de Flávio Bolsonaro, que serviram para negociações nos bastidores pressionado à concertação da direita já construída em nome de Tarcísio de Freitas, logrando êxito no andamento do PL da Dosimetria, demonstram que esse campo caminha para a coesão e disputará voto a voto com a reeleição de Lula. Nesse sentido, embora seja legítimo que organizações do campo da esquerda radical lancem candidaturas à presidência com o intuito de propaganda de seus programas e construções de suas organizações, consideramos essa posição equivocada por não considerar a extrema direita como o principal inimigo nesse momento.

O avanço da extrema direita também atravessa as Instituições de Ensino Superior, perseguições de docentes, pressões contrárias à autonomia universitária, atacando a produção científica e pautas democráticas têm sido infelizmente habituais. Para piorar, a conjuntura nas Instituições de Ensino Superior públicas é marcada por forte tensão entre a expansão do acesso, mas também por uma crescente precarização das condições de trabalho, de ensino-aprendizagem e de permanência estudantil. No cotidiano das instituições federais, estaduais, distrital e municipais, os/as docentes enfrentam condições precárias de trabalho: salas superlotadas, infraestrutura insuficiente, acúmulo de encargos administrativos, intensificação do trabalho, pressão por produtividade e falta de pessoal são algumas das características que constituem nossas condições de trabalho. A falta de orçamento compromete pesquisa, ensino e extensão.

Esses fatores, somados ao acirramento de todas as formas de opressão, por sua vez, intensificam o adoecimento docente (e discente), resultando também em altos índices de sofrimento psíquico e afastamentos, como constatou a própria Enquete sobre Condições de Trabalho e Saúde do próprio ANDES-SN. Inclusive, a precarização e o desmonte das políticas, que resulta na precarização da saúde dos trabalhadores, expressa e dialoga com a lógica gerencialista neoliberal, pautada no produtivismo e que transforma direitos em custos e pessoas em números.

Como âncora desse cenário de cortes e precarização, temos o arcabouço fiscal, que aprofunda a lógica de austeridade ao limitar o investimento público mesmo em áreas essenciais, como saúde, educação e assistência. Vendido pelo governo federal como solução supostamente responsável, a partir de uma lógica gerencialista neoliberal, ele subordina as necessidades sociais às metas de resultado primário, mantendo privilégios do sistema financeiro e restringindo a capacidade do Estado de enfrentar desigualdades. Neste ponto, o governo tem andado de mãos dadas com o dito “centrão” e com a extrema direita, largando a mão da classe trabalhadora brasileira. Na prática, o arcabouço não só engessa, mas desidrata e desmantela as políticas sociais, impedindo a recomposição de serviços sucateados e pressionando trabalhadores e instituições. Em vez de garantir a estabilidade, o arcabouço reforça um modelo que freia o desenvolvimento e sacrifica direitos sociais em nome do ajuste permanente. Para os próximos anos, especificamente, a partir de 2027, o recado do governo é nítido sobre a orientação ao Estado Nacional, ao prever gatilho de bloqueio sobre a possibilidade de aumento real de servidoras e servidores acima de 0,6% da inflação. O pacote fiscal endossado por Haddad no final de 2024 institucionaliza as perdas salariais históricas da maioria do funcionalismo federal com suas remunerações defasadas. Caso essa regra valesse anteriormente, os valores de 9% em 2023 e 9% em 2025 estariam vedados a priori. Logo, é uma política estrutural de arrocho salarial.

Na política educacional, prevalece o interesse de setores privados, com forte influência neoliberal. O Ministério da Educação não foi capaz de atender aos anseios do setor, que almejava a revogação de contrarreformas implantadas após o golpe de 2016 na Presidenta Dilma Rousseff. A BNCC permanece como epicentro da política educacional ditando os rumos curriculares em todas as redes públicas, dos livros didáticos, enquadra práticas pedagógicas e amplia a responsabilização sobre professoras e professores na busca de uma qualidade que ainda se mede por avaliações em larga escala que nada mensura sobre o que demandam escolas e sua comunidade. O Novo Ensino Médio ganhou nova roupagem mantendo a sua essência, discriminando e segregando estudantes de escolas públicas, filhos da classe trabalhadora. A formação de professoras e professores se camufla sem superar as dicotomias outrora impostas, permanece o praticismo, o tecnicismo e não integra formação, valorização e carreira. A oferta do ensino superior por meios híbridos ou à distância avança, até nas instituições públicas, coloca em risco as universidades como espaço de reflexão e de construção de conhecimento, especialmente nas licenciaturas. O projeto de educação está em disputa e nos cabe tensionar por um projeto popular. Por outro lado, o MEC avança em programas que fortalecem a individualização pela ideia do empreendedorismo, buscam remunerar pela permanência, esvaziados de propostas formativas consistentes e alimentam o sistema financeiro em ações como o Pé de Meia do Ensino Médio e da Licenciatura.

A “valorização” de professoras e professores veio por uma carteira nacional docente que garante descontos em hotéis e pela oferta de empréstimos para compra de equipamentos de informática, sem que apresente melhorias nas carreiras, apoio à processos de formação contínua, sem que se enfrente a precarização que cresce dia a dia em todas as redes, em que mais da metade de docentes da educação pública são contratados por vínculos temporários. Temos muito a enfrentar e a disputar num contexto de recém aprovação de um Plano Nacional de Educação (PNE) que mais atende aos interesses do neoliberalismo do que pode garantir a emancipação da nossa juventude, a formação e a valorização de docentes e que atenda as demandas da classe trabalhadora.

vivemos sob a ameaça da Reforma Administrativa, que segue sendo uma ameaça concreta – uma das mais perigosas, aliás. Trata-se, na verdade, de mais uma das contrarreformas neoliberais, a qual visa aprofundar a precarização do serviço público ao atacar a estabilidade, abrir ainda mais espaço para contratações precárias e ampliar a influência política sobre os servidores.

Não suficiente, vivemos sob a ameaça da Reforma Administrativa, que segue sendo uma ameaça concreta – uma das mais perigosas, aliás. Trata-se, na verdade, de mais uma das contrarreformas neoliberais, a qual visa aprofundar a precarização do serviço público ao atacar a estabilidade, abrir ainda mais espaço para contratações precárias e ampliar a influência política sobre os servidores. Vendida como modernização, ela reduz direitos, enfraquece carreiras e compromete a continuidade das políticas públicas. Ao privilegiar interesses privados e a lógica de mercado, desmonta a capacidade do Estado de garantir saúde, educação e assistência de qualidade, atacando ainda mais os direitos da classe trabalhadora.

Diante disso, a organização sindical precisa fortalecer sua autonomia e sua independência de classe, princípios históricos do ANDES-SN – os quais não abrimos mão. Isso implica manter postura crítica diante dos erros do governo federal (e dos governos estaduais, distrital e municipais) e de sua política de conciliação de classes, que cede às pressões do capital e dos setores conservadores. Não há o que tergiversar e aceitar, por exemplo, quanto ao arcabouço fiscal, quanto ao silêncio ou mesmo as concessões diante da chantagem da maioria reacionária no congresso inimigo do povo, quanto ao avanço da terceirização e privatização nas políticas sociais (saúde, assistência social, educação etc.), quanto ao endosso e financiamento público de instituições manicomiais, quanto à exploração de petróleo na Foz do Amazonas e aprovações recordes de agrotóxicos, dentre outras condutas do governo Lula III que devem ser criticadas e antagonizadas por nós.

Acrescentamos o absurdo acordo feito pelo líder do governo no Senado, Jaques Wagner, por trás dos panos, para aprovação do PL da Dosimetria no final de 2025. Tratou-se de uma afronta inclusive com as/os militantes que foram às ruas contra este projeto de anistia, com intensa mobilização nacional. Escrevemos este texto na passagem de 2025 para 2026, sendo possível que alguns dos pontos aqui elencados já tenham sido superados ou alterados antes deste Congresso do ANDES-SN, em março de 2026. Porém, adiantamos a premência não só de que o presidente Lula vete o PL da Dosimetria, mas que envide todos os esforços para que seu veto não seja derrubado pela Câmara. De nosso lado, também adiantamos nosso compromisso com a continuidade da unidade na mobilização contra tal PL e qualquer forma de anistia aos golpistas.

Em nosso contexto específico, a atuação dos Ministérios da Educação e da Gestão e da Inovação (MGI) também devem ser criticados, como o endosso ao empresariamento educacional, as medidas que restringem concursos, impõem limites fiscais, dificultam reconstruções de carreira e tratam as mesas de negociação como meras formalidades. Somado a isso, o governo não tem cumprido integralmente o acordo firmado após a greve histórica da categoria no setor das federais no ano de 2024 – o que acabou de levar o SINASEFE a aprovar em seu congresso o indicativo de greve para 2026. Para piorar, o Projeto de Lei n° 6170/2025, encaminhado ao Congresso Nacional pelo governo em 03 de dezembro de 2025, e que regulamenta o Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) para os Técnico-Administrativos em Educação (TAEs) das instituições federais, descumpre o Termo de Acordo nº 11/2024 firmado ao fim da greve de 2024, diferindo da proposta construída pelo Grupo de Trabalho da Comissão Nacional de Supervisão da Carreira (CNSC/MEC). Nada disso é irrelevante, pelo contrário, e o nosso sindicato, em unidade com a FASUBRA e o SINASEFE, deve continuar lutando, com combatividade e autonomia, contra tais retrocessos e condutas inaceitáveis do governo.

segue a luta pela recomposição orçamentária das Universidades públicas (federais, estaduais, distrital e municipais), Institutos Federais e CEFET; a luta por melhores condições de trabalho e de vida a docentes, discentes, TAEs, demais trabalhadores e comunidades abarcadas pelas referidas instituições de ensino.

Aliado a isso, segue a luta pela recomposição orçamentária das Universidades públicas (federais, estaduais, distrital e municipais), Institutos Federais e CEFET; a luta por melhores condições de trabalho e de vida a docentes, discentes, TAEs, demais trabalhadores e comunidades abarcadas pelas referidas instituições de ensino. É extremamente grave, por exemplo, os cortes do congresso inimigo do povo previstos para 2026, a partir do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA), que diminui a dotação para as universidades federais em R$488 milhões, segundo a ANDIFES, e corta R$262 milhões da CAPES e R$72 milhões do CNPq – com este montante sendo redirecionado para a ampliação de emendas parlamentares em ano eleitoral. Tudo isso reforça a necessidade do papel e da atuação do ANDES-SN, como sindicato classista, com independência, ao considerar as mudanças e brechas abertas na conjuntura, mas sem incorrer em isolacionismo e sectarismo, muito menos minimizar a força da extrema direita e o avanço neofascista.

Neste cenário, o sindicato deve ser um polo atrativo para a reorganização da classe trabalhadora: combativo, propositivo e enraizado na base. O ANDES-SN deve continuar cumprindo um papel de construção unitária com outros sindicatos, movimentos sociais e populares, movimento estudantil, ampliando as alianças populares, fortalecendo a solidariedade, e sustentando uma crítica radical aos projetos neoliberal e autoritário, que andam de mãos dadas se retroalimentando. Somente com independência, unidade e luta poderemos enfrentar o avanço da extrema direita, defender as universidades e reconstruir o país a partir das necessidades do povo trabalhador.

Alguns exemplos dessa atuação e do papel cumprido pelo ANDES-SN foram e são: a sua adesão e participação ativa no Plebiscito Popular pela redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1; sua participação na Cúpula dos Povos e demais iniciativas populares na COP 30; na Mobilização Mulheres Vivas e na Marcha de Mulheres Negras por reparação e bem-viver; nas variadas iniciativas contra a Reforma Administrativa; nos atos do Glauber fica!; na campanha Sou docente antirracista!; no fomento e articulação com movimentos sociais e populares, dentre outros casos que não cabem neste texto. Tais lutas, aliás, demonstram como a mobilização da classe trabalhadora e a retomada de pautas e das ruas, com manifestações em peso durante o ano de 2026, podem incidir na correlação de forças e provocar fissuras nela, abrindo janelas de oportunidade. Citamos novamente a luta contra a escala 6×1 encorpada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), os atos gigantescos contra a PEC da Blindagem (ou Bandidagem), contra a o PL da Dosimetria (Anistia disfarçada para golpistas e demais criminosos), a Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem-Viver em Brasília (em novembro), e as manifestações contra a própria Reforma Administrativa, que fez parte dos parlamentares recuar. Estes são demonstrativos da capacidade organizativa e mobilizadora da classe trabalhadora e da importância da luta unificada, a despeito de toda a crise subjetiva vivenciada e das dificuldades conjunturais.

Para 2026, o fim da escala 6×1, a diminuição da jornada de trabalho sem redução de salário e a luta pelo tempo para se humanizar, continuam como pautas urgentes da nossa classe e servirão não só para atenuar a desigualdade social no Brasil, mas também para o avanço de outras pautas e lutas que apontem não só para a gerência de um sistema em crise, mas para a sua superação. Não custa não apenas dizer; é necessário repetir o óbvio: o Brasil é um dos países mais desiguais do planeta. Ainda, devemos continuar a luta e a mobilização por uma política econômica que atenda às necessidades da classe trabalhadora, e não dos setores rentistas, com redução dos juros escorchantes mantidos pelo Banco Central e a revogação do arcabouço fiscal.

Em defesa da vida, nos colocamos também contra a violência racista, machista e LGBTfóbica, cabendo ao Estado a efetivação de um programa de segurança pública que confronte o real crime organizado, ao invés de se colocar a prender e a matar pessoas negras, pobres e periféricas. É urgente também medidas que contenham o avanço do feminicídio e não toleramos e toleraremos nenhuma violência LGBT+, alertando para a mobilização e instrumentalização cada vez maior do ódio contra a população de transexuais e travestis.

Em meio a tudo isso, necessitamos com urgência também de uma política real e efetiva de transição energética, planejando a superação da utilização de combustíveis fósseis e com orçamento suficiente para prevenção de catástrofes climáticas. Ainda, reside a premência do combate ao agro, com fim do desmatamento, respeito aos direitos de povos originários e tradicionais (com demarcação de territórios) e pautando-se numa Reforma Agrária agroecológica.

Mesmo com as contradições apontadas por nós aqui, não vacilamos e não vacilaremos em construir uma frente de lutas nas ruas, nas redes e eleitoralmente – desde o primeiro turno – como parte dos desafios da classe num momento marcado pelo avanço neofascista aqui e no mundo. É com mobilização nas redes sociais e, especialmente, nas ruas, que será possível avançar nos pontos aqui apresentados e, ao mesmo tempo, apresentar alternativas concretas à classe trabalhadora, conformando um cordão sanitário à extrema direita. Para isso, é fundamental a unidade da classe trabalhadora, nas suas particularidades e diferentes expressões partidárias e de formas organizativas. Para fazer frente a essa terrível realidade, torna-se necessário construir uma Frente Única de Esquerda, que tenha como tarefa a elaboração de um programa anticapitalista que vise impulsionar a luta por transformações estruturais.

Nisso, é importante ressaltar que há mudanças positivas na atuação do governo federal. Os acenos realizados e as movimentações à esquerda após a derrota na questão do IOF em junho, com proposição de medidas acertadas, como a isenção de Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$5 mil, e redução progressiva para quem ganha até R$7.350. A comunicação governamental também passou por inúmeras melhorias, se tornando mais acessível e dialogando melhor com setores da juventude.

Ressaltamos também a postura de Lula e do governo frente ao ataque de Trump à nossa soberania com o tarifaço. Por fim, as tarifas foram retiradas pelo presidente estadunidense, junto de outros ataques (p. ex. utilização da Lei Magnitsky) que foram orquestrados com figuras golpistas que, a despeito de serem brasileiras, atuaram e atuam declaradamente contra o país, como é o caso de Eduardo Bolsonaro. Diferentemente de outros países de líderes mundiais, que cederam às pressões e ataques de Trump, Lula venceu a queda de braço e deu uma importante lição de soberania ao resto do mundo. No entanto, a agressão trumpista à Venezuela neste início de 2026 e o interesse imperialista em nossas terras raras nos faz ficar permanentemente alerta.

Resgatando o sentido utópico freireano da epígrafe, finalizamos com a constatação de que as denúncias feitas ao longo do texto trouxeram dialeticamente, em seu próprio movimento, os anúncios. O diagnóstico feito tem contido em si um prognóstico, cujos anúncios foram sendo apresentados. Ora, já dizia Marx, no Prefácio da Contribuição à crítica da economia política, “[e]is porque a humanidade não se propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir”. A nós, resta consolidar ou encurtar tais vias.

A partir do exposto, findamos anunciando: fechamos o ano de 2025 com um acúmulo importante, terminando-o melhor do que o iniciamos. Se o ano de 2026, como ano eleitoral, se inicia com muitas dúvidas e incertezas, e já com algumas preocupações, a mensagem mais importante que fica da passagem de 2025 para 2026 é que as ruas, que até então estavam sendo ocupadas quase que exclusivamente pela extrema direita, foram retomadas por nós. Que esta retomada seja o “anúncio de uma realidade em que os [seres humanos] possam ser mais”, sendo ele intensificado e concretizado, não mais como mero anúncio, mas como realidade.

É nesse sentido que nós, militantes no ANDES-SN da Resistência e da Insurgência, duas correntes internas do PSOL em processo de fusão em uma nova organização ecossocialista, e demais companheiros/as que assinam este texto concordando com o seu teor, também nos anunciamos e apresentamos. Conforme expresso no Manifesto “Tecendo a manhã”, nosso propósito é ser um instrumento prático, capaz de cumprir um papel neste tempo em que nos coube viver e lutar.

>> Leia também: Tecendo a manhã Manifesto por uma nova organização ecossocialista 

Como o texto foi escrito em janeiro, não contemplou os recentes ataques dos EUA e de Israel. Mas queremos aqui demonstrar toda nossa solidariedade ao povo iraniano e repudiar mais este ato bárbaro que, inclusive, teve como um de seus alvos prioritários uma escola e meninas, resultando na morte de centenas delas.

 


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