Nem uma a menos: nos queremos vivas e livres da violência

Neste Dia Internacional de Luta das Mulheres, o movimento feminista brasileiro se organiza para ocupar as ruas em defesa de nosso direito de viver


Publicado em: 1 de março de 2026

Editorial Esquerda Online

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José Cruz/Agência Brasil

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O dia 8 de março tem origem na organização política das mulheres trabalhadoras, que lutavam por melhores condições de vida e trabalho. Esse significado foi esvaziado pela ação do neoliberalismo, mas nunca deixa de ser resgatado mundo afora pelas mobilizações feministas que tomam as ruas para denunciar desigualdades. O pano de fundo desta vez é um mundo de múltiplas crises sociais e políticas, marcado por uma literal luta de “vida ou morte” contra a extrema direita.

No coração do império estadunidense, a expressão mais acabada dessa força: o governo Trump 2.0, que não por acaso é figura em destaque na sintomática crise do Caso Epstein — que liga, além do próprio presidente Donald Trump, outros bilionários como Steve Bannon e Bill Gates, a um macabro esquema de violência sexual, pedofilia e tráfico internacional de pessoas.

No México, um dos piores países da América Latina em índices de violência contra as mulheres, nem mesmo a presidente ficou de fora das estatísticas. Em novembro do último ano Claudia Sheinbaum foi vítima de assédio sexual enquanto caminhava pelas ruas e conversava com a população na capital, a poucos metros do Palácio Nacional, sede do governo.

Diante deste cenário adverso, o movimento de mulheres têm resistido. São elas a linha de frente das mobilizações contra o ICE e o desmonte de direitos reprodutivos nos EUA, pela revogação da reforma trabalhista e das medidas restritivas em relação ao aborto legal na Argentina; no México e aqui no Brasil na luta contra a violência e os feminicídios.

A emergência do combate ao feminicídio no Brasil

O Brasil vive uma escalada de violências misóginas. O final do último ano, marcado por uma sequência de casos brutais de feminicídio, é um triste retrato desse cenário. Não se trata de casos isolados ou da ação individualizada de “monstros” que agridem e matam parceiras, mas de um problema estrutural.

A edição de 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registrou o recorde de 1.492 feminicídios (dos quais 63,6% foram de mulheres negras), 3.870 tentativas de feminicídios e 257.659 casos de violência doméstica envolvendo lesão corporal. Em média, portanto, quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil apenas pelo fato de serem mulheres, em um cenário de ainda bastante subnotificação.

a violência de gênero vai na contramão dos índices de violência geral: enquanto as mortes violentas intencionais tiveram uma redução de 5,4% em relação ao ano anterior, os feminicídios aumentaram em 0,7% e as tentativas de feminicídios tiveram um aumento de 19%

Assim, a violência de gênero vai na contramão dos índices de violência geral: enquanto as mortes violentas intencionais tiveram uma redução de 5,4% em relação ao ano anterior, os feminicídios aumentaram em 0,7% e as tentativas de feminicídios tiveram um aumento de 19%. Além disso, o mesmo anuário registrou o maior número de estupros da história: foram 87.545 vítimas, das quais 87,7% eram mulheres.

Todas essas mortes e violências, frequentemente acompanhadas de requintes de crueldade, como facadas, queimaduras, asfixia e enforcamento, revelam o caráter estrutural da violência, possibilitado por um pacto masculinista que fragiliza denúncias, desrespeita medidas de proteção e desumaniza mulheres, pessoas trans, negras e indígenas. Afinal, como se sabe, o feminicídio é apenas a ponta do iceberg de situações extenuantes de violência.

O aumento da cultura da violência e o crescimento do índice de feminicídios ano após ano está amplamente relacionado com o crescimento da extrema-direita no Brasil e no mundo. Ao passo que os valores e os consensos estabelecidos pela ordem liberal no pós-guerra são colocados em xeque, a violência passa a se tornar linguagem banal e cotidiana. É o que permite que soldados israelenses atirem em crianças palestinas sem nenhum pudor e depois se vangloriem de terem assassinado “pequenos terroristas”; é o que possibilita que milhares de pessoas se alistem ao ICE nos Estados Unidos com o objetivo de prender e matar imigrantes; e é o que permite o crescimento inescrupuloso de conteúdo de ódio e misosignia na internet, em especial a partir da cultura dos incell, red pills e demais influenciadores que propagam violência.

Assim, em momentos de crise como o que vivemos, os valores masculinistas e supremacistas brancos de frações da burguesia são reforçados, com o objetivo de recuperar ou reforçar seu poder. Nesse cenário emerge a extrema-direita com projetos nacionalistas e supremacistas, que têm na desumanização do “outro” – mulheres, pessoas LGBTs, negras e negros, povos indigenas, etc. – sua força e sua justificativa para mais violência.

o combate à violência de gênero e ao aumento desproporcional dos casos de feminicídio no país passam, necessariamente, pelo enfrentamento à extrema-direita e pela disputa ideológica na sociedade a partir de valores feministas antirracistas. É fundamental, em primeiro lugar, considerar que se trata de um problema estrutural da sociedade e que não deve recair apenas na responsabilização das mulheres sobre quais roupas devem ou não vestir e por quais lugares podem ou não andar.

Deste modo, o combate à violência de gênero e ao aumento desproporcional dos casos de feminicídio no país passam, necessariamente, pelo enfrentamento à extrema-direita e pela disputa ideológica na sociedade a partir de valores feministas antirracistas. É fundamental, em primeiro lugar, considerar que se trata de um problema estrutural da sociedade e que não deve recair apenas na responsabilização das mulheres sobre quais roupas devem ou não vestir e por quais lugares podem ou não andar.

Nesse sentido, como medida de caráter urgente, é necessário avançar sobre a regulamentação da internet e responsabilizar as plataformas pela veiculação de discursos de ódio. Ademais, a promoção de medidas educativas com perspectiva de gênero e raça é essencial para que crianças sejam ensinadas a respeitar mulheres e toda a diversidade de gênero e sexualidade, bem como pessoas negras e indígenas, a partir de um viés de humanidade, respeito à diversidade e valores democráticos. Crianças – em especial os meninos – devem ser ensinadas desde cedo que mulheres são seres humanos com subjetividades e racionalidades, isto é, que são seres humanos íntegros e não objetos sexuais, prontos para servirem aos homens. Por fim, a qualificação da atuação do Judiciário também se mostra urgente para que mulheres vítimas de violência de gênero não cheguem ao feminicídio, após inúmeras denúncias e medidas protetivas negligenciadas.

Um pacto nacional contra o feminicídio é urgente

Como resposta à emergência dos feminicídios e da violência, por iniciativa do governo federal, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário assinaram o “Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio”. O anúncio conta com diretrizes iniciais, como um grupo de trabalho entre os Três Poderes e Ministérios Públicos Estaduais para o fortalecimento de mecanismos já existentes (como as redes de acolhimento), ampliação de ações educativas e medidas que garantam celeridade no cumprimento de medidas protetivas e na responsabilização de agressores. Além disso, está previsto um calendário de efemérides ligadas à conscientização, ao luto e à memória das vítimas de feminicídio. É preciso combinar medidas de prevenção e proteção das mulheres em situação de violência com políticas de reparação às vítimas de feminicídios e violência doméstica. As consequências são crianças órfãs,  mulheres mutiladas, uma série de sequelas profundas sobre a saúde mental das vítimas e seus familiares. É preciso que haja a construção de uma memória viva de cada uma que perdemos para a misoginia mais bárbara, resgatando não apenas a crueldade em que foram assassinadas, mas também os seus nomes, quem eram, o que as fazia feliz, o que produziram em vida, quais eram seus sonhos. Tudo que lhes foi arrancado por homens machistas e uma sociedade incapaz de nos proteger.

As principais debilidades da medida, no entanto, são a falta de apresentação até aqui de detalhes práticos sobre a execução dessas políticas, bem como de um debate mais nítido sobre as formas de investimento da União para que sejam de fato aplicadas. Pesa, ainda, a falta de nitidez sobre a possibilidade ou não de que as reivindicações feitas pelos movimentos de mulheres sejam levadas em conta na elaboração das próximas medidas concretas.

Impedir a volta da extrema-direita ao poder no Brasil é, sem dúvida, nossa principal e maior tarefa deste ano. Disputar contra a extrema-direita uma alternativa de futuro exige unidade máxima de todos os setores comprometidos com a democracia e com uma vida digna para a classe trabalhadora.

Em 2026, temos desafios gigantes pela frente. Impedir a volta da extrema-direita ao poder no Brasil é, sem dúvida, nossa principal e maior tarefa deste ano. Disputar contra a extrema-direita uma alternativa de futuro exige unidade máxima de todos os setores comprometidos com a democracia e com uma vida digna para a classe trabalhadora. Assim, neste 8 de março, que abre o calendário de lutas de 2026, recuperamos a força e a unidade do movimento feminista que nos levou para as ruas nos últimos anos, com as mobilizações “Criança não é mãe” e o Levante Mulheres Vivas. É com essa força das novas gerações feministas no Brasil e no mundo e com o legado de todas as que vieram antes de nós que tomaremos as ruas por um país livre de violências, contra o projeto de morte da extrema-direita e em defesa de uma vida que valha a pena ser vivida. Nem uma a menos!


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