Roots: 30 anos de um grito em defesa de nossas sangrentas raízes


Publicado em: 26 de fevereiro de 2026

Bruno Rodrigues, da redação

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Se você ama tudo de bom que nosso país tem em termos musicais, mas nunca ouviu esse clássico do Sepultura porque não gosta de “rock pesado”, estas modestas linhas são um convite para você repensar. Claro, você tem todo o direito de não gostar de “rock pesado” e suas vertentes. O objetivo do texto não é convencer ninguém a mudar seu gosto ou, menos ainda, criticar as preferências musicais alheias.

chegará o dia em que esse álbum terá reconhecimento nacional, (…), e logrará um lugar na mesmíssima prateleira de importância e prestígio em que estão guardadas outras grandes obras da nossa música, como Alucinação, Da Lama ao Caos, Clube da Esquina, Falso Brilhante, Acabou Chorare, Tropicalia ou Panis et Circencis, Construção, Chega de Saudade, A Tábua de Esmeralda, Sobrevivendo no Inferno, Transa, etc.

Veja bem. Creio não ser nenhum devaneio ou exagero afirmar que chegará o dia em que esse álbum terá reconhecimento nacional, mesmo entre quem não é fã do gênero, e logrará um lugar na mesmíssima prateleira de importância e prestígio em que estão guardadas outras grandes obras da nossa música, como Alucinação, Da Lama ao Caos, Clube da Esquina, Falso Brilhante, Acabou Chorare, Tropicalia ou Panis et Circencis, Construção, Chega de Saudade, A Tábua de Esmeralda, Sobrevivendo no Inferno, Transa, etc.


Porque Roots é a mais pura brasilidade e é justamente esse fato que o torna revolucionário, genial, autêntico, incontornável e, portanto, digno desse lugar. Ouvir Max Cavalera e Andreas Kisser rasgando riffs de guitarra ao longo desse disco é como ver Bebeto e Romário brilhando na Copa do Mundo de 94, assistir a Portela desfilando na Sapucaí ou ler um romance de Jorge Amado. Estão para o metal, tanto quanto Milton e Gil estão para a MPB ou Cartola e Elza para o samba.

A bem da verdade, os aspectos “nacionais” na obra do Sepultura aparecem de forma embrionária no álbum anterior, o Chaos AD (que, diga-se de passagem, em suas linhas denuncia o massacre de 111 detentos no extinto presídio do Carandiru, em São Paulo), de 1993. É o caso de músicas como Refuse/Resist, cheia de groove e percussões marcantes; Kaiowas, composição acústica baseada em uma viola caipira (12 cordas) tocada por Kisser com som de aves do pantanal ao fundo, em homenagem aos indígenas Guarani-Kaiowá; Nomad, cuja letra evoca a resistência indígena contra a colonização branca ao longo dos últimos cinco séculos; Polícia, dos Titãs, que saiu na prensagem nacional do disco de 93.

Formação que forjou Roots: Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo), Max cavalera (guitarra e vocal) e Iggor Cavalera (bateria)

Mas em Roots, Max, Iggor, Andreas e Paulo Jr. foram além. Em novembro de 1995 reuniram todo o staff da banda e embarcaram em uma jornada imersiva de três dias em um aldeia Xavante no interior do Mato Grosso, submetendo-se de fato ao modo de vida local, para buscar inspiração: banho de rio, realização de danças ritualísticas, sessões musicais conjuntas, refeições baseadas na dieta local, etc. Um verdadeiro encontro dos quatro jovens urbanos com o Brasil profundo, com a história viva do país e com suas… sangrentas raízes. Assim, o resultado dessa vivência, somado ao processo de metamorfose musical já iniciado em Chaos AD, foram as 16 músicas que figuram no álbum de 1996.

A constatação mais óbvia sobre Roots é que, de cara, ele é um baita soco no estômago da cena metal gringa, que olhava com desdém xenofóbico (e, convenhamos, uma ponta de inveja) para os quatro jovens de Minas Gerais (Andreas, a bem da verdade, é filho do ABC Paulista, o maior cinturão industrial do país). Não por acaso ele foi decisivo e influenciou profundamente outras bandas que começavam a despontar naquele momento: Korn, Slipknot, etc. Contudo, apesar de colocar definitivamente o Brasil no circuito mundial do metal, ameaçado mesmo destronar o chamado Big Four do Metal (Anthrax, Megadeth, Metallica e Slayer), esse não foi o principal feito desse disco. Melhor. Na verdade, eles o fizeram imprimindo uma marca muito própria em sua música, indo muito além dos tradicionais clichês do gênero, incorporando um toque tupiniquim por excelência, ou seja, negro e indígena, que o colocam em uma dimensão musical que está para além do simples conceito de “disco de metal”.

Está tudo lá.

A capa do disco (foto) com o rosto de um indígena A’uwe/Xavante.

A faixa de abertura marcada pelo groove das percussões baianas tocadas pelo pessoal da Timbalada ao lado das guitarras pesadas de Kisser e Cavalera.

Ratamahatta, música em que Carlinhos Brown e Max Cavalera evocam o cineasta e mestre do terror nacional, Zé do Caixão, o líder do Quilombo dos Palmares, Zumbi, e o cangaceiro pernambucano, Virgulino Lampião, além de parte do vocabulário nacional, moldado pela presença negra no marco da colonização portuguesa: biboca, fubanga, favela…

Carlinhos Brown e Iggor Cavalera tocando djembe, pandeiro, reco-reco, xequerê, lata d’água e tudo o mais que desse para tirar um som, fazendo a cama para os vocais inconfundíveis de Max.

Max recebe pinturas tribais das mãos de um indígena Xavante, cuja aldeia a banda foi visitar em busca de inspiração para Roots

Violões acústicos, chocalhos e tambores ao lado de cânticos xavantes na místico-ritualística Itsari, uma tradução para raízes (roots) no idioma Xavante;

Max tocando Berimbau, um instrumento típico da cultura afrobrasileira, mesclando-se com pesadíssima cozinha de Paulo Jr e Igor, na introdução de Attitude (música cujo clipe homenageia a lendária família Gracie, fundadora do Brazilian Jiu Jitsu, arte-marcial praticada por Iggor que, ao lado da capoeira, é brasileira por excelência), mas também em Itásri e Breed Apart;

Ambush foi escrita em homenagem ao heróico Chico Mendes, cujo assassinato em 1988, em uma emboscada (ambush), impactou os quatro jovens

Ambush e Endangered Species, músicas cujas letras traduzem-se como sincera convocação à luta em defesa da Amazônia, de seus povos e dos seres que a habitam: Can you hear them? Vale lembrar que Ambush foi escrita em homenagem ao heróico Chico Mendes, cujo assassinato em 1988, em uma emboscada (ambush), impactou os quatro jovens, que sempre denunciaram nos palcos a impunidade que gozam os autores desse crime: ”os filhos da puta que mataram Chico Mendes estão soltos até hoje. Queimem no inferno, filhos da puta”.

Dictatorshit, furioso tributo às centenas de revolucionários que levantaram-se contra a ditadura civil-militar, que campeou pelo nosso país por mais de duas décadas, e que morreram lutando contra ela: “We still hear the cry, From the ones that survived. Ditadura nunca mais!”

Ou seja, a presença indígena e negra no disco, longe de constituir apropriação, peça decorativa ou mero efeito de sampler, é o resultado de um trabalho feito, de fato, de forma participativa, portanto conjunta. Roots foi feito, sobretudo, buscando vincular-se honestamente à realidade que pulsava sob os pés dos quatro jovens, absorvendo 500 anos de história. Fatores que fazem de Roots um grito genuíno e brutal em defesa das raízes negras e indígenas que forjaram nosso país e nosso povo e um disco indiscutivelmente digno de um lugar ao lado das demais grandes obras da música brasileira.


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