PSOL, federação e o protagonismo político em disputa
Publicado em: 18 de fevereiro de 2026
Há momentos em que a política nos coloca diante de decisões que parecem novas, mas que carregam, em silêncio, velhas encruzilhadas. Não porque a história se repita mecanicamente (ela nunca se repete), mas porque certos dilemas estruturais retornam sob outras formas, exigindo novamente escolhas fundantes.
O debate sobre uma possível federação entre PSOL e PT é um desses momentos. Desde já, é importante estabelecer uma premissa política fundamental: a unidade eleitoral da esquerda em 2026 é necessária diante da ameaça permanente da extrema-direita e das tarefas históricas colocadas para o país. O PSOL tem o dever de estar ao lado de Lula e na linha de frente da disputa política nacional contra a volta da extrema-direita. Mas a unidade eleitoral não pode significar, para o partido, dissolução organizativa nem apagamento estratégico.
A questão em debate não é se devemos caminhar juntos contra a extrema-direita. Isso está dado, mas em que condições políticas e organizativas essa unidade se constrói sem eliminar a pluralidade que sempre foi força da esquerda brasileira.
Dito isso, é preciso começar pelo essencial: o PSOL não nasceu como um acidente político. Ele foi fruto de uma decisão tomada por uma minoria que compreendeu que determinadas posições programáticas e estratégicas já não encontravam espaço dentro do PT. A fundação do partido foi um gesto difícil, muitas vezes incompreendido, mas profundamente político: preservar a possibilidade de uma esquerda que pudesse existir com protagonismo crítico, horizonte transformador e identidade própria.
Essa história precisa ser resgatada porque o PSOL não nasceu contra a esquerda brasileira, mas para impedir que toda uma tradição política desaparecesse dentro dela. Durante duas décadas, o partido se construiu como uma experiência singular. Não como partido de negação, mas como projeto afirmativo, numa tentativa de forjar, com altivez e combatividade, uma alternativa programática para a classe trabalhadora e para o país. Por isso, o retorno do debate sobre federação com o PT internamente exige mais do que cálculos eleitorais, mas reflexão histórica.
A federação não é uma simples aliança. A legislação brasileira é clara ao defini-la como “um único partido para todos os efeitos”. A própria jurisprudência eleitoral reforça esse caráter. Conforme entendimento consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral, a opção pela formação de uma federação implica compromisso com atuação parlamentar conjunta nas Casas Legislativas, como se fosse uma única agremiação, sob liderança comum, inclusive para fins de composição de bancadas e distribuição proporcional de comissões.
A federação não é uma simples aliança. A legislação brasileira é clara ao defini-la como “um único partido para todos os efeitos”. A própria jurisprudência eleitoral reforça esse caráter. Conforme entendimento consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral, a opção pela formação de uma federação implica compromisso com atuação parlamentar conjunta nas Casas Legislativas, como se fosse uma única agremiação, sob liderança comum, inclusive para fins de composição de bancadas e distribuição proporcional de comissões. A atuação autônoma e desvinculada de partidos integrantes pode ser interpretada como violação da lógica do instituto, justamente porque a federação pressupõe unidade orgânica e estratégica prolongada. Esse aspecto jurídico evidencia que o debate não trata apenas de cooperação eleitoral, mas de redefinição concreta do funcionamento político e institucional dos partidos envolvidos.
Isso significa compartilhamento obrigatório de programa, estratégia eleitoral e atuação parlamentar por um período prolongado. Em outras palavras: não se trata apenas de caminhar juntos em uma eleição, mas de reorganizar o sujeito político. Esse caráter jurídico também levanta questões pouco debatidas sobre a autonomia institucional. Em uma federação, decisões parlamentares e iniciativas jurídicas, incluindo ações no STF e outras frentes institucionais, passam a exigir coordenação coletiva, o que pode limitar a capacidade de um partido agir de forma independente em temas estratégicos ou programáticos.
>> Leia também: A Federação do PSOL com o PT seria um erro
Para um partido como o PSOL, cuja identidade política foi construída também pela iniciativa própria em disputas judiciais e institucionais relevantes, esse aspecto merece análise cuidadosa antes de qualquer decisão. E, quando essa reorganização ocorre entre partidos profundamente assimétricos em tamanho, capilaridade territorial e força institucional, a consequência tende a ser igualmente clara: o maior define a linha política predominante.
A experiência recente da federação entre PT, PCdoB e PV oferece elementos concretos para essa reflexão. Em estruturas profundamente assimétricas, os partidos menores enfrentam dificuldades reais para incidir nas decisões estratégicas, na definição de prioridades eleitorais e na condução política cotidiana. Falo aqui também a partir da experiência vivida, tendo integrado o PCdoB, acompanhei nas duas últimas eleições como a lógica federativa entre partidos assimétricos, embora apresentada como espaço de cooperação, frequentemente produz redução de autonomia prática quando há uma diferença estrutural tão grande entre os partidos envolvidos. Não se trata de desqualificar a experiência, mas de aprender com ela antes de repetir escolhas que podem produzir efeitos semelhantes.
defender a federação como PT como solução automática implica ignorar uma questão fundamental: a autonomia política do PSOL não é um detalhe organizativo, mas a razão histórica da sua existência.
Isso não é um julgamento moral sobre o PT; trata-se de uma constatação estrutural. A unidade maior que hoje parece possível não elimina essa assimetria; apenas a torna menos visível no curto prazo. A história das organizações políticas mostra que, passada a conjuntura excepcional, as diferenças estratégicas retornam. E, em estruturas federadas, elas costumam ser resolvidas pela prevalência da força majoritária. Nesse sentido, defender a federação como PT como solução automática implica ignorar uma questão fundamental: a autonomia política do PSOL não é um detalhe organizativo, mas a razão histórica da sua existência.
Há ainda outro elemento que precisa ser enfrentado: o uso da cláusula de barreira como argumento central para justificar a federação. A cláusula é real. Ignorá-la seria irresponsável. Mas transformar o medo da cláusula em premissa organizadora do debate é um erro estratégico profundo. Até porque os números do PSOL nas últimas eleições são robustos e demonstram claramente que o partido é dinâmico e possui um eleitorado ascendente em todas as regiões do país.
Mas é importante lembrar que, quando a sobrevivência institucional passa a determinar as escolhas políticas, corre-se o risco de inverter a lógica: a tática eleitoral deixa de servir ao projeto partidário e passa a substituí-lo. Nesse cenário, vence quem apresentar o Excel mais pessimista e perde-se a discussão essencial sobre o que o partido quer ser e construir.
A pergunta correta não é “como sobreviver à cláusula?”, mas “qual estratégia política nos permite superá-la sem abdicar do projeto histórico que construímos?”.
Há razões concretas para afirmar que o PSOL pode superar a cláusula por seus próprios meios. O partido acumulou presença social, inserção parlamentar e identidade política reconhecida nacionalmente. O risco só se tornaria estrutural diante de um processo ativo de esvaziamento político, algo que não pode ser assumido como destino inevitável sem que isso se transforme em profecia autorrealizável.
Há razões concretas para afirmar que o PSOL pode superar a cláusula por seus próprios meios. O partido acumulou presença social, inserção parlamentar e identidade política reconhecida nacionalmente. O risco só se tornaria estrutural diante de um processo ativo de esvaziamento político, algo que não pode ser assumido como destino inevitável sem que isso se transforme em profecia autorrealizável.
Os dados eleitorais recentes ajudam a sustentar essa afirmação. Nas últimas eleições, o PSOL alcançou resultados expressivos em grandes centros urbanos, superando a marca de 8% dos votos em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, consolidando-se como referência política relevante no campo progressista. No Rio Grande do Sul, o partido já apresenta votações significativas e, com a entrada de novas lideranças de projeção nacional, como Manuela D’Ávila, a qualidade da sua influência tende a se transformar, ampliando sua capacidade de articulação política e eleitoral. Além disso, resultados municipais recentes, especialmente no Nordeste, indicam um movimento de nacionalização da presença do partido. O que começou com maior concentração no centro-sul passa a alcançar novas regiões, demonstrando que o crescimento do PSOL não é episódico, mas parte de uma dinâmica estrutural de expansão política.
Essa trajetória reforça uma hipótese estratégica: é positivo para o Brasil e, para as perspectivas de transformação social, que parte do eleitorado de esquerda se organize em torno de uma alternativa anticapitalista com identidade própria. Longe de fragmentar o campo progressista, a existência de polos distintos fortalece a esquerda ao ampliar sua capacidade de representar a diversidade de ideias, projetos e sensibilidades que compõem o nosso campo histórico.
Mais importante ainda: a história do PSOL mostra que o partido cresceu justamente quando apostou na construção de um projeto político claro, não quando buscou atalhos organizativos. Nesse sentido, o PSOL precisa continuar se apresentando como um polo de aglutinação de novas lideranças políticas, movimentos sociais e militâncias que buscam uma alternativa combativa, socialista e enraizada na realidade brasileira. A capacidade de atrair novos quadros sempre esteve vinculada à existência de um partido com identidade própria, projeto estratégico claro e autonomia política reconhecida.
O derrotismo em relação às possibilidades eleitorais do PSOL não encontra respaldo nem nos números das eleições passadas nem em projeções realistas para o futuro próximo. Ao contrário, os sinais apontam para um espaço político em expansão, que pode crescer ainda mais se o partido mantiver sua capacidade de oferecer candidaturas próprias, símbolos próprios e uma narrativa política coerente com sua história e seu horizonte transformador.
Por isso, a formulação que melhor sintetiza o desafio atual talvez seja esta: construir um projeto eleitoral à altura do projeto partidário. A tática precisa projetar o futuro que queremos, não antecipar a dissolução do que já somos.
Há também uma ironia histórica que não pode passar despercebida neste debate. Se a criação do PSOL foi um gesto trágico no sentido político profundo, uma ruptura necessária para afirmar uma nova possibilidade, transformar agora o retorno institucional para dentro do espaço político do qual foi preciso sair em solução estratégica corre o risco de produzir uma espécie de caricatura histórica.
Não seria a história se repetindo; seria a história sendo encenada de forma distorcida. É sempre bom lembrar que o PSOL na sua origem era em sua maioria parte dissidente do PT, e federar agora, vinte anos depois, com o PT seria assinar um atestado de que a luta daquela geração da fundação do PSOL estava errada.
A força da esquerda brasileira sempre esteve na sua pluralidade estratégica e na capacidade de construir sínteses sem eliminar diferenças fundamentais. O debate sobre federação não deve ser conduzido pelo medo nem pela urgência conjuntural. Deve ser orientado pela pergunta que realmente importa: qual partido precisamos ser para enfrentar o Brasil real e construir o Brasil que ainda não existe?
No fim das contas, a história não volta ao ponto de origem. Quando tentamos forçá-la a isso, geralmente perdemos não apenas o passado, mas também o futuro.
Márcio Cabral é psicanalista e professor, mestre pela UFRGS
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