Não “acorregeia” senão “apioreia”
Escola cívico-militar e dualismo educacional na luta dos últimos contra os penúltimos
Publicado em: 6 de fevereiro de 2026
“Aí vareia, aí vareia.
O secretário não negoceia.”
(slogan dos professores da rede estadual de SP na greve de 1988)
Antes de mais nada muita calma nesse momento delicado; os erros de português acima são propositais e não têm a intenção de fazer gracejos ou qualquer tipo de piada com a situação de crise que vive a educação pública no estado – ainda – mais rico do país.
Tenho ciência que a aula inaugural de uma escola cívico-militar na região do Vale do Paraíba em São Paulo deve ter viralizado na internet como uma verdadeira piada; mas penso que expressa algo muito mais profundo; a crise da escola pública paulista produzida pelo governo fascista de Tarcísio de Freitas e seu lugar-tenente – o secretário da educação, o empresário Renato Feder.
Os dois deslizes acima ocorreram de fato e em seus contextos originais até se tornaram piada, são fatos verídicos dos quais fiz parte e estão aqui apenas a título de ilustração – também para atrair alguma atenção para o texto, com todo o respeito.
As escolas cívico-militares foram apresentadas no governo de Jair Bolsonaro como uma solução para a crise da educação pública nesse país e ao mesmo tempo como forma de combater a violência nas escolas e a necessidade, para a extrema direita no governo, de incutir valores cívicos e morais na juventude – que segundo os governantes de plantão seria a solução definitiva para a violência e o combate ao marxismo cultural que através dos professores estaria levando a escola pública a decadência.
Bolsonaro perdeu a eleição, o governo Lula revogou a legislação federal que instituiu as escolas cívico-militares. Mas, vários governadores de extrema direita mantiveram os projetos em seus estados em uma clara afronta ao MEC e ao governo federal encabeçado por Lula da Silva.
No caso de São Paulo, após várias ações impetradas pela Apeoesp e Psol – entre outras – na justiça, o governo de Tarcísio de Freitas obteve uma vitória no STF, com a maioria dos ministros autorizando a implantação das escolas-quartel em nosso estado.
Aqui cabe um pequeno parênteses, o STF – ou a maioria de seus membros – é, do ponto de vista institucional, um aliado do governo Lula e de todos que de alguma forma não simpatizam com autoritarismo e o golpismo da extrema direita na defesa da democracia formal – em várias ocasiões seus ministros, principalmente Alexandre de Moraes, enfrentaram a família de milicianos que comanda a extrema direita e seus asseclas tomando decisões juridicamente ousadas, culminando com o julgamento e condenação de todos que tramaram o golpe ou tentativa de golpe de estado de 8/01/2023 começando pelo chefe da quadrilha, Jair Bolsonaro.
Mas, não podemos confundir as relações; os senhores juízes do supremo defendem a democracia burguesa como forma de, em última instância, defender seus próprios privilégios – materiais e institucionais.
Uma prova do que estou falando é o fato de que em matérias que dizem respeitos aos direitos sociais e aos direitos dos trabalhadores o STF toma decisões sempre a favor do empresariado e de governadores e prefeitos de extrema direita – no caso de servidores públicos especificamente.
Assim foi com o caso das escolas cívico-militares; apesar de ser um projeto ilegal e inconstitucional – que não tem amparo nem na LDB e nem na Constituição Federal – nossos juristas do Supremo Tribunal Federal – que têm por função serem “os guardiões da Constituição Federal” – não titubearam em aprovar ou dar legalidade a essa excrescência jurídica e esse ataque à escola pública e ao direito de nossos jovens ao conhecimento – contando inclusive com o voto favorável de Flávio Dino foi legalizado o projeto de escola-quartel de Tarcísio de Freitas no estado de São Paulo.
Os senhores ministros do Supremo Tribunal Federal são aliados de ocasião, parceiros nada confiáveis de uma viagem muito curta, na defesa das instituições de nossa frágil democracia burguesa que está sob a ameaça e o cerco da extrema direita; mas nunca esqueçamos, estes senhores têm laços muito promíscuos com políticos da direita – governadores e parlamentares principalmente – e até com figuras da Faria Lima – como o recente escândalo do banco Marka está demonstrando – e muitos deles têm parentes e amigos envolvidos em escritórios de advocacia que advogam muitas para figuras da Faria Lima e outras envolvidas em escândalos de corrupção.
O STF e seus ministros, até para defender seus privilégios corporativos, neste momento podem ser defensores das instituições da democracia em nosso país, mas em momento algum são defensores dos direitos dos trabalhadores e dos movimentos sociais; na hora de decidir entre o capital e o trabalho eles sempre ficam com o capital, na hora de decidir entre os direitos sociais e trabalhistas e as políticas antissociais da burguesia brasileira e de seus governantes de extrema direita nos estados e municípios eles sempre escolhem o lado de governadores e prefeitos, o lado dos empresários.
Isso é muito importante, sabermos quem efetivamente está do nosso lado – o lado do povo pobre e preto das periferias, o lado dos trabalhadores e dos movimentos sociais – e quem está frontalmente contra a maioria do nosso povo e aqueles que, por interesses específicos, ocasionalmente apoiam a manutenção das instituições da democracia liberal mas que, do ponto de vista estratégico, sempre estão a favor do capital contra o mundo do trabalho é de fundamental importância em um cenário político tão instável e polarizado como o que vivemos atualmente – como diz o ditado: tudo pode acontecer, inclusive nada.
O STF é um parceiro de ocasião, não um aliado estratégico na defesa dos trabalhadores e do povo pobre.
Encerrado esse parênteses, vamos ao motivo desse artigo.
As aulas inaugurais, de início de ano letivo, nas escolas cívico-militares do estado de São Paulo foram emblemáticas, explicitando meio que sem querer o sentido desse projeto de escola-quartel – tanto pela sua forma como também pelo seu conteúdo.
Começando pela forma; no vale do Paraíba – em uma escola cívico-militar – uma dupla de professores-monitores deram uma aula inaugural em sala de aula para adolescentes ensinando rituais da disciplina militar – ordem unida, prestar continência, posição de sentido.
Enquanto um dos professores militares se dirigia aos alunos ou a “tropa” o outro escrevia na lousa os conteúdos ministrados; escreveu “continêcia” ao invés de continência e “descançar” no lugar de descansar.
Antes que alguém pense que foi uma mera distração do “professor”, o “docente” se dirigiu algumas vezes a uma mulher que estava sentada em uma carteira próxima a porta da sala de aula e tentou corrigir seus erros crassos de ortografia.
Enquanto milhares de professores estão sendo demitidos por Tarcísio de Freitas e seu secretário Renato Feder, militares sem qualquer formação, em muitos casos analfabetos funcionais, estão assumindo a regência de turmas nas escolas-quartel no lugar dos professores habilitados.
É mais que descaso da parte do governo para com a educação, é uma política de socialização da ignorância, de substituir o direito ao conhecimento com a inseparável liberdade de ensinar e de aprender – de alunos e professores – pela disciplina e obediência – que necessariamente implicam na ignorância.
Não foi por acaso que Tarcísio de Freitas em um evento com seus amigos da Faria Lima chegou a declarar que pobre não precisa de diploma universitário; que o “mercado” não exige diploma para empregar quem o serve.
Logicamente Tarcísio de Freitas referia-se aos alunos pobres da escola pública de periferia; até porque o projeto de escola-quartel tem como prioridade as escolas das periferias pobres das cidades do estado de São Paulo, exatamente aquelas que mais necessitam de atenção por parte da secretaria de educação para garantir a aprendizagem e o acesso ao conhecimento de seus alunos.
A resposta do governo é militarizar essas escolas.
O governador de São Paulo e seu secretário de educação – o empresário Feder – estão substituindo a pedagogia do conhecimento – a garantia de acesso ao conhecimento por parte das crianças e adolescentes do ensino público de São Paulo – pela pedagogia da disciplina, da ignorância e do adestramento.
As escolas quartel são uma forma de aprofundar o dualismo perverso da educação brasileira (como afirmou o Professor José Carlos Libâneo-UFG); escola do conhecimento para aqueles que podem pagar, para os herdeiros do capital que continuarão mandando no país; e escola do acolhimento social – com programas compensatórios como merenda, uniforme, material didático que fazem a festa das empresas fornecedoras – e do passatempo – agora também da ignorância, do adestramento e da disciplina – para os filhos e filhas da classe trabalhadora.
As escolas-quartel são uma clara política de “chutar a escada”, impedir a ascensão social dos “de baixo” através da educação, garantir que os 1% mais ricos e seus herdeiros continuem sozinhos no “andar de cima” com seus privilégios abusivos e continuem a mandar e desmandar em nosso país.
Agora chegamos ao “acorregeia”.
Quando eu era estudante de ensino fundamental, meados da década de 1970, ainda existia a crença de que era possível “vencer na vida” dando duro – trabalhando muito e estudando – e isso permitiu alguma ascensão social aos membros, como eu, do “andar de baixo” de nossa sociedade excludente e profundamente desigual.
Como alunos respeitávamos e até admirávamos nossos professores – chegávamos mesmo até a gostar de alguns deles pessoalmente – pois eles eram aqueles que nos levariam ao conhecimento e permitiriam, ao menos a alguns de nós e com muito trabalho duro, alguma forma de ascensão social – uma vida um pouco melhor do que aquela que nossos pais tiveram.
Nem todos conseguiam passar pelo funil da escola pública; não havia vaga para todos, para chegar ao ensino fundamental II era necessário prestar o exame de admissão onde nem todos tinham vaga garantida, para cursar o ensino médio havia o vestibulinho – processo seletivo em que mais uma vez nem todos tinham vaga garantida.
Sem falar no grau elevadíssimo de reprovações que produziam uma evasão escolar enorme.
Por isso, a maioria de nós estudantes de escola pública quando conseguíamos vaga aproveitávamos a chance dando o máximo de nossas forças.
Figuras irreverentes e pouco dadas aos estudos eram minoria; como um colega de classe que diante de uma professora para lá de zelosa que insistia em corrigi-lo todas as vezes que cometia erros de português, um tanto quanto irritado, disse a professora que ficou embasbacada: “não me acorregeia senão apioreia”.
Desnecessário dizer que meu irônico colega foi devidamente reprovado e engrossou a lista de evadidos do seletivo ensino público brasileiro na década de 1970.
Por mais antissocial que fosse, era uma forma de valorizar o conhecimento e a escola como mecanismos de ascensão social – mesmo que de forma distorcida.
Hoje, aos olhos da classe dominante brasileira, a função social da escola é diferente; não mais selecionar os poucos do andar de baixo que se juntarão aos comensais no olimpo dos deuses do andar de cima da sociedade, mas garantir que os de baixo permaneçam onde estão – tudo isso regado a uma cultura de disciplina e socialização da ignorância.
É a escola do conhecimento para os que podem comprar essa mercadoria e a escola do acolhimento, do passatempo, da disciplina e da ignorância para a patuleia; uma forma de garantir que a sociedade permaneça estática, imóvel, com o monopólio do conhecimento e do poder para os 1% de nababos e privilegiados do “andar de cima” – chutar a escada impedindo que alguém de baixo suba ao andar de cima da sociedade.
Essa nova escola – da disciplina, do adestramento e da ignorância – não precisa de professores habilitados e capacitados para socializar o conhecimento; precisa de adestradores, de chefes para disseminar a ideologia da hierarquia, da disciplina e socializar a ignorância – para isso basta monitores analfabetos funcionais.
Professoras como a dona Antônia – a fleugmática e zelosa professora de português da quinta série da EE Vicente Leporace em 1975, que fazia questão de nos corrigir toda vez que maltratávamos a língua de Camões e Machado de Assis – estão cedendo seu lugar – estão sendo demitidas aos milhares – para monitores e adestradores de alunos nas escolas públicas de periferia de nosso estado.
O tempo em que secretários de educação perdiam seus empregos por maltratar em público a língua pátria ficou para trás; em 1988 o secretário de educação de São Paulo Chopin Tavares de Lima – do governo de Orestes Quércia – perdeu seu emprego após o final de uma greve onde declarou no início do movimento para demonstrar força que “eu não negoceio com grevistas” – isso mesmo, maltratou em público nossa língua pátria.
Os professores – perderam o amigo mas não a piada, como reza o ditado popular – responderam com uma musiquinha que tornou-se um dos momentos pitorescos daquela greve: “aí vareia, aí vareia, o secretário não negoceia” – imitando um bordão muito popular a época de Didi, personagem de Renato Aragão no programa humorístico Os trapalhões.
Hoje os fascistas de extrema direita, entre eles aqueles que ocupam cargos públicos, ostentam publicamente sua ignorância falando e escrevendo toda a sorte de bobagens – principalmente em redes e plataformas antissociais – sem qualquer constrangimento – ser ignorante e ostentar a ignorância tornou-se uma virtude; como fez o governador de MG Romeu Zema em uma entrevista remota ao canal Globo News, perguntado se estava ouvindo os entrevistadores do estúdio respondeu: “ovo, perfeitamente”.
Mas, essa escola da ignorância, da obediência e do adestramento – escola cívico-militar – tem um conteúdo mais sombrio, que de uma certa forma já comecei a abordar.
Em 25 de outubro de 2025 houve a chacina no Rio de Janeiro onde 122 pessoas morreram, 117 civis e 05 militares – números oficiais – e onde causou espécie a condescendência da imprensa oficial com o ocorrido; chamaram de uma ação letal ou a mais letal da polícia nos últimos anos; nenhum dos veículos da grande imprensa se referiu ação policial ordenada pelo governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro pelo seu nome correto: chacina.
O governador que estava passando por um processo de cassação no TSE e com baixíssimos índices de popularidade, o que não lhe assegurava nenhum tipo de eleição para qualquer cargo que fosse, conseguiu com aquela ação atingir níveis impensáveis de popularidade – o processo de cassação no TSE foi devidamente congelado e seu apoio bateu recordes chegando até as comunidades onde a chacina foi perpetrada.
Imediatamente governador e seus asseclas decretaram que todos aqueles que morreram na chacina, exceto os cinco policiais, eram bandidos; a grande imprensa questionou levemente as declarações do governador e de seus secretários de segurança, mas acabou de fato aceitando a versão oficial sem que sequer todos os corpos fossem identificados – uma identificação parcial comprovou que pelo menos trinta dos que morreram não tinham ficha criminal.
Diante do silêncio da imprensa após o ocorrido e, obviamente, o interesse de Cláudio Castro e seus parceiros de extrema direita de fazerem uso político da chacina para denunciar o governo federal não sabemos exatamente quem era o quê; mas temos uma certeza, todos eram pobres e na sua maioria pretos.
O que isto tem a ver com a escola cívico-militar; é a pergunta que responderemos.
No final de 2025 – pouco depois do massacre do morro do alemão e da Penha no Rio de Janeiro – vazou um vídeo pela internet – youtube – onde alunos de uma escola pública do Paraná do projeto cívico-militar – devidamente comandados por um professor milico – marchavam em uma quadra poliesportiva cantando o hino do BOPE do filme Tropa de elite – “Homem de preto o que é que você faz? Eu faço coisas que assustam o Satanás. Homem de preto qual é sua missão? Subir o morro e deixar corpo no chão…”.
Essa é a educação que crianças e adolescentes estão recebendo nas escolas cívico-militares, adestramento e preparação para fazer a guerra contra os seus; preparar e adestrar pobres e pretos de uniforme para assassinar pobres e pretos sem uniformes nas periferias pobres dos centros urbanos de nosso país.
A elite dos 1%, que não abre mão de seus privilégios, prefere levar o país à guerra civil usando pobres e pretos de uniforme para assassinar exterminar pobres e pretos sem uniforme – essa é a finalidade, em última instância, das escolas-quartel.
A elite da Faria Lima se associou a extrema direita neofascista para manter seus privilégios absurdos e, no limite, levar o país a uma guerra civil, uma luta dos últimos contra os penúltimos.
Essa é a finalidade última das escolas cívico-militares; manter e aprofundar o dualismo educacional da educação brasileira – escola do conhecimento para os ricos x escola do acolhimento social, da ignorância e do adestramento para a grande massa da população – e chutar a escada impedindo que a educação seja um mecanismo de socialização do conhecimento e de ascensão social para parte daqueles que vivem no “andar de baixo” da sociedade mais desigual do planeta.
Os professores, os movimentos sociais e a esquerda estão chamados a combater o bom combate; lutar pela escola pública e pelo direito ao conhecimento para todos, derrotar o projeto de escola cívico-militar e derrotar a extrema direita.
Esta é uma tarefa que à primeira vista parece impossível; mas – nunca esqueçamos – as coisas são impossíveis até se tornarem inevitáveis.
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