Tapajós em Chamas: O Decreto 12.600 e a Resistência Indígena contra o Império da Soja
Publicado em: 5 de fevereiro de 2026
Foto: Comunicação/CITA
Enquanto os holofotes da “diplomacia climática” da COP30 em Belém ainda piscam nas retinas do mundo, a realidade nos rios da Amazônia revela a face cruel de um projeto de país que continua a tratar os povos originários como obstáculos ao lucro. Há 14 dias, parentes de 14 povos do Baixo e Médio Tapajós ocupam o porto da multinacional norte-americana Cargill, em Santarém. Não é apenas um protesto; é uma trincheira contra o que nossas lideranças chamam, com precisão cirúrgica, de “projeto de morte” .
O estopim dessa mobilização é o Decreto Federal nº 12.600/2025, assinado pelo governo Lula, que insere os rios Tapajós, Tocantins e Madeira no Programa Nacional de Desestatização (PND). Na prática, o Estado brasileiro está entregando a gestão da navegabilidade de nossos rios sagrados para as mãos da iniciativa privada, autorizando dragagens profundas e o derrocamento de pedrais para que as barcaças gigantes da Cargill e da Bunge possam escoar soja 24 horas por dia, ignorando o ciclo das águas e a vida de quem nela habita.
O governo justifica a entrega dos rios sob o manto da “sustentabilidade”, alegando que o transporte hidroviário emite menos carbono que o rodoviário . Para nós, essa é a definição de greenwashing. Não há nada de sustentável em transformar um ecossistema vivo e complexo em uma “estrada de ferro de águas”. A dragagem permanente de 250 quilômetros do Tapajós ameaça ressuscitar o mercúrio acumulado no leito do rio pelo garimpo, envenenando a principal fonte de proteína das aldeias: o peixe.
Além disso, a medida atropela a Convenção 169 da OIT. Onde está a consulta prévia, livre e informada?. O governo assinou o decreto de forma unilateral, repetindo o racismo ambiental e colonialista que marcou as grandes obras da ditadura militar. Vejo aqui uma violação flagrante da nossa soberania: protocolos autônomos de consulta estão sendo rasgados para garantir que o “Arco Norte” seja a joia da coroa da logística das commodities .
Cargill: O Rosto do Inimigo no Tapajós
A ocupação não escolheu a Cargill por acaso. Essa gigante transnacional simboliza o apagamento da nossa existência. Em seus estudos de impacto para o terminal de Miritituba, a empresa ignorou sistematicamente a existência do povo Munduruku em toda a região da “Mundurukânia”, limitando-se a citar apenas duas aldeias isoladas . Esse apagamento geográfico é uma estratégia deliberada para fugir da responsabilidade sobre os danos à saúde e à segurança alimentar das nossas comunidades .
Para os Munduruku, o Tapajós é Idixidi, o rio criado pelo herói Karosakaybu a partir de três caroços de tucumã. Locais como o Pedral de Monte Cristo são santuários de reprodução de quelônios e marcos mitológicos. Destruir esses locais com explosivos para facilitar o tráfego de barcaças é o equivalente espiritual a bombardear uma catedral ou profanar um cemitério sagrado dos pariwat (não indígenas).
Radicalizar a Luta: “Não vai ter COP” sem Revogação
A radicalização da luta em Santarém, que já levou ao fechamento do aeroporto local por barricadas de fogo , é o único caminho diante de um governo que nos oferece ministérios com uma mão e assina decretos de privatização com a outra . A mensagem dos parentes é clara: se o Decreto 12.600 não for revogado e se as licitações de dragagem não pararem, a Amazônia vai parar o Brasil.
Nós, jovens indígenas, não aceitaremos um futuro onde nossos filhos e netos herdem rios de lama e peixes contaminados . A solidariedade da classe trabalhadora e dos movimentos de esquerda deve estar com a ocupação da Cargill . A luta pelo Tapajós é a luta contra o agronegócio predatório e pelo direito de existir em nossos territórios ancestrais.
Lula, revoga o Decreto 12.600 já! O Tapajós não está à venda!
Irmãos e irmãs, acompanhem a cobertura e apoiem o Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA) nas redes (@citabt). A resistência é agora.
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