Sobre o Congresso da CNTE

Importante passo para unificar a educação contra o fascismo, porém é preciso avançar na organização das lutas


Publicado em: 3 de fevereiro de 2026

Por Conspiração Socialista, Insurgência e Resistência

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Entre 15 e 18 de janeiro, ocorreu em Brasília, o 35º Congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação (CNTE). Participaram mais de 1.800 delegadas/os , representando a base dos sindicatos da educação pública de todo o país.

O Congresso se realizou em um cenário internacional marcado pela intervenção militar na Venezuela promovida pelo líder mundial da extrema-direita, Donald Trump, incluindo o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores, além da intensificação de ameaças dirigidas à Colômbia, e a todo o continente, reavivando a chamada Doutrina Monroe. Essas ações se inserem na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, pelo controle econômico e político  do globo terrestre marcadamente na Palestina, Irã e Groenlândia.

Nesse contexto, uma das principais tônicas dos debates do Congresso foi a luta da classe trabalhadora contra a extrema-direita, uma das tarefas centrais desta quadra histórica. Nesse sentido, a CNTE aprovou participar da Conferência Antifascista, que ocorrerá em Porto Alegre no mês de março, bem como o engajamento das organizações da educação básica na disputa eleitoral brasileira, mais uma vez, colocando na ordem do dia o enfrentamento à extrema-direita e a necessidade da mais ampla unidade da esquerda para a reeleição do presidente Lula.

Nossas organizações se apresentaram ao Congresso com resoluções, sobre o conjunto de temas debatidos, assinadas pelo bloco “É preciso arrancar alegria ao futuro”, dialogando com as lideranças, as trabalhadoras e os trabalhadores presentes sobre quais devem ser as principais tarefas e políticas para fortalecer a CNTE como instrumento de defesa dos interesses imediatos e históricos dos profissionais da educação, de norte a sul do país, e do conjunto da classe trabalhadora brasileira, em especial de seus setores mais oprimidos e explorados: mulheres, negros, negras e a população LGBTQIAPN+.

Nosso bloco buscou contribuir com os debates a partir de uma avaliação crítica da política implementada pela maioria da direção da CNTE nos últimos anos. Embora reconheçamos posições corretas, mas limitadas, contra o arcabouço fiscal, o Novo Ensino Médio e a presença de setores empresariais no MEC, avaliamos que houve uma priorização excessiva da atuação institucional, em detrimento de uma aposta mais firme na mobilização nacional da categoria e na pressão direta nas ruas, diante dos limites da política educacional do governo Lula. 

Apontamos, também, a necessidade de avançar na unificação dos calendários de luta, o que fortaleceria as mobilizações municipais e estaduais contra governos que seguem atacando a categoria e o direito da juventude trabalhadora a uma educação pública-estatal, gratuita, democrática, laica e de qualidade, ao mesmo tempo em que aplicam o receituário neoliberal baseado na meritocracia, na privatização e no gerencialismo.

Reafirmamos, ainda, a necessidade da construção de uma frente de esquerda que dispute política e programaticamente o projeto da candidatura de Lula em 2026. A realidade demonstrou que a aposta em uma governança “a frio”, baseada em acordos com o centrão e setores da burguesia, não é capaz de garantir melhorias efetivas para a vida do povo trabalhador. 

Ao contrário, a mobilização popular é fundamental para definir os rumos da agenda política do país e alterar, de fato, a correlação de forças sociais e políticas. As mobilizações impulsionadas pelos movimentos sociais e pela esquerda em 2025 foram exemplares nesse sentido, evidenciando que apenas a ação direta pode fazer avançar nossas bandeiras, especialmente em um contexto de um Congresso Nacional dominado por forças reacionárias, sejam elas de extrema-direita ou neoliberais.

Infelizmente, a estrutura da pauta e a organização do Congresso não permitiram um aprofundamento mais qualitativo dos debates. A priorização dos painéis pela direção, apesar da qualidade das reflexões e análises apresentadas, limitou significativamente a participação ativa das delegações. Avaliamos que a retirada da plenária deliberativa sobre políticas permanentes — aprovada sem debate no último dia do Congresso — representou um grave erro político. Tal decisão impediu o enfrentamento necessário sobre como o machismo, o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia e outras formas de opressão agravam a realidade das trabalhadoras e dos trabalhadores da educação em todo o país, especialmente considerando o peso das mulheres, de negros e negras e da população LGBTQIAPN+ na categoria, que são também os setores mais afetados pelo avanço da extrema-direita nos governos estaduais e municipais.

Além de definir as orientações políticas da CNTE para o próximo período, o Congresso também elegeu a direção que estará à frente da Confederação nos próximos quatro anos. Nosso bloco construiu, ao longo dos meses que antecederam o Congresso, uma aliança com outros dois blocos — que também reuniam setores do nosso partido, o PSOL — com a perspectiva de lançar uma chapa de oposição, o Bloco de Oposição Alternativa. Essa decisão se deu a partir de nossas críticas à atuação da direção majoritária e das dificuldades encontradas para estabelecer um diálogo que possibilitasse uma composição mais ampla e representativa das distintas sensibilidades políticas existentes na base da CNTE.

Avaliamos que a unidade construída, do ponto de vista político e organizativo, entre parcelas dos setores que se opõem à linha política majoritária da direção da CNTE representou um passo importante neste Congresso, independentemente das legítimas opiniões decorrentes das diferenças táticas em relação à composição da chapa de unidade eleita. Ao contrário, a presença de companheiros e companheiras da Intersindical e dos setores do bloco, agora integrando a direção eleita pela Chapa Unidade para Lutar e Conquistar, poderá melhorar as condições para a organização das lutas nacionais e corrigir os rumos políticos da CNTE. 

Reafirmamos também, a despeito das divergências sobre lançar, ou não, uma chapa de oposição com caráter de demarcação política — mesmo sem condições objetivas de alcançar 20% dos votos —, que elas se situam no terreno da tática e, como tal, devem ser debatidas à luz das distintas possibilidades de atuação da esquerda socialista em cada conjuntura. São diversos os exemplos de composições entre setores da esquerda socialista e setores cutistas em sindicatos, tática aplicada inclusive pela direção da CSP-Conlutas, que encabeçou a chapa de oposição lançada no Congresso da CNTE.

De nossa parte, compreendemos que a unidade construída se deu no marco de nossa independência política, preservada ao longo de todo o Congresso na defesa de nossas resoluções e nos debates dos grupos de trabalho. Avaliamos essa orientação como correta, pois traz para a direção da CNTE uma composição política mais plural e democrática e dialoga, em certo sentido, com a unidade construída nos últimos anos a partir do trabalho comum entre a Frente Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular, que têm cumprido um papel importante na realidade política do país, tanto no combate à extrema-direita quanto na defesa de um programa em favor da classe trabalhadora.

Por fim, consideramos que a iniciativa da constituição desse bloco de atuação, com lastro na militância do PSOL, para atuar no sindicalismo no setorial de educação, é uma experiência que deve continuar na ordem do dia, envolvendo inclusive os companheiros e companheiras, desse campo, que optaram por não compor a chapa de unidade, mantendo o diálogo com a intersindical e setores petistas, como a articulação de esquerda , visando atuar para que a CNTE organize nas ruas de todo o país, o combate ao neoliberalismo e a ultradireita bolsonarista, avançando para a conquista do Piso Salarial Nacional para o conjunto das trabalhadoras e trabalhadores da educação, a revogação do Novo Ensino Médio e a expulsão das entidades patronais do MEC. 


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