Este texto não é sobre Nego Bispo


Publicado em: 30 de janeiro de 2026

Por Mayk Alves

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

Por Mayk Alves

Esquerda Online

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Quanta comédia! Eles não têm outra escolha senão acreditar. 

Seus horizontes estão sempre retrocedendo.

O quão irônico é isso? Sua ideia de liberdade é uma prisão de crenças

da qual eles nunca conseguirão sair.

Trecho da música Pure Comedy, de Father John Misty

 

Entre decolonialilidade e contracolonialidade

 

Para entrar em uma polêmica de maneira justa e honesta é preciso, antes de tudo, conhecer muito bem aquilo que se está propondo criticar. Assim sendo, começo confessando o básico: não conheço a obra de Nego Bispo o suficiente nem mesmo já li os escritos de Douglas Barros com profundidade.

 

Não sei a diferença entre decolonialidade e colonialidade. Ainda estou descobrindo.

 

Quero, com isso, ao mesmo tempo, restringir o escopo daquilo que vou dizer e despersonalizar os juízos que vou emitir.

 

A priori, o pouco contato que tive com produções decoloniais já permite concluir que não há muita homogeneidade entre seus autores. Reúnem uma gama ampla e eclética de abordagens e métodos. 

 

Portanto, antes de ser injusto ou ingrato com relação a qualquer pensador, em especial aqueles que se colocam junto da luta contra a exploração e subalternização da vida humana, quero me ater àqueles que considero os maiores erros cometidos pela tendência decolonial, deixando claro que crítica não é sinônimo de menosprezo.

 

O paradoxo da dominação epistêmica

 

Para mim, o calcanhar de Aquiles dos decoloniais é a forma como levam a um patamar insustentável a tese da “dominação epistêmica”. Essa tese surge a partir de um questionamento muito saudável: o que deve ser considerado como conhecimento legítimo? Quem tem o poder de determinar o que é conhecimento, o que é ciência, o que é saber?

 

Escancara-se a conclusão quase óbvia, canonizada por Foucault há aproximadamente meio século, de que a legitimação de um conhecimento perpassa intrinsecamente as relações de poder instituídas na sociedade.

 

Tal inferência, de tão facilmente assimilável, pode soar inofensiva. Todavia, é a partir dela também que surgem as maiores monstruosidades presentes no pensamento decolonial. No ímpeto de se contraporem à uma dominação real, acabam, por vezes, abandonando mais do que deveriam. 

 

Os limiares entre as abordagens e escolas de pensamento são, em geral, maleáveis ou relativamente imprecisos. Sempre há zonas cinzas ou de sobreposição, seja qual for o enquadramento feito. Isso é natural, especialmente em épocas dissensos teóricos tão profundos como a nossa. 

 

Entretanto, no que diz respeito à decolonialidade, a situação aparenta ser um pouco pior.

 

Isso se dá, acredito eu, porque essas correntes, ao mesmo tempo que buscam negar total ou parcialmente o arcabouço teórico/filosófico de origem europeia/ocidental, não conseguem se desvencilhar completamente deles. 

 

O resultado é uma grande imprecisão de conceitos e categorias. Quando falam de epistemicídio, por exemplo, estão, talvez sem perceber, usando a categoria foucaultiana de “episteme”. Ou seja, estão sendo essencialmente pós-estruturalistas. Quando abordam a ideia de mito, dificilmente fogem das categorias criadas por Lévi Strauss, um estruturalista.

 

O mundo foi colonizado. É impossível fugir da globalização. O nosso “eu” se confunde com o “eu” exportado pela Europa. Combater a “colonialidade” não é anular epistemologicamente o que foi imposto pela colonização/imperialismo, mas superar dialeticamente essas imposições!

 

O mito da origem

 

Para negar algo, precisamos antes de tudo saber o que ele significa. Portanto, façamos uma primeira reflexão: o que seria essa “episteme” europeia que nos foi imposta?

 

Se essa pergunta fosse feita em uma sala de aula de algum curso de humanidades, imediatamente surgiriam expressões como “capitalismo”, “cristianismo”, “machismo”, “racismo”, “heteronormatividade” etc.

 

São respostas intrinsecamente corretas. De fato, todas essas características da sociedade brasileira hoje vieram como herança ou desdobramento histórico da colonização de países europeus.

 

Ao se dar conta desse fato, nosso imaginário é levado imediatamente a negar tudo que supostamente tenha origem europeia, homogeneizando, cristalizando e universalizando algo que, na verdade, é completamente heterogêneo, contingente, parcial e localizado histórica e geograficamente.

 

No fundo, a ideia de “Europa”, assim como a ideia de qualquer nação, ou povo, ou raça etc. não passa de pura invenção humana, de um mito!

 

O mundo poderia muito bem ter sido colonizado pelos impérios chineses, árabes, japoneses, persas, eslavos, ganeses, malianos, incas, astecas etc. Por contingências históricas e coincidências geográficas, foram impérios europeus.

 

Ou seja, “colonialidade” é um termo demasiadamente genérico e pouco expressivo diante da compreensão do processo histórico e material de formação das nações e da disputa entre elas por domínio e expansão.

 

Assim, particularmente, prefiro as teorias que enquadram o “colonialismo” atual como a fase extrema do imperialismo. 

 

O mito do berço filosófico e a pós-modernidade 

 

Grosso modo, a separação entre o conhecimento mitológico e o conhecimento racional ocorrida na Grécia Antiga é o pilar fundacional daquilo que na modernidade se convencionou chamar de “ciência”.

 

Parte do que define o pensamento tido como “europeu” é justamente essa ideia. Em termos epistemológicos, a separação entre mitologia e ciência marca o fim da Idade Média e o surgimento da Idade Moderna no Ocidente.

 

Lembremos que o surgimento da Ciência Moderna foi uma forma de questionamento do poder monárquico e cristão. Quem definia o que era conhecimento legítimo eram os reis em conluio com a Igreja Católica. 

 

Tomando essa breve recapitulação como ponto de partida, queremos voltar ao que dissemos anteriormente. A saber, é um erro identificar a Ciência Moderna simplesmente como um conjunto de categorias “eurocêntricas”.

 

Os primeiros filósofos pré-socráticos surgiram na Jônia, uma colônia grega banhada pelo mar Egeu e localizada onde hoje é o extremo leste da Turquia. Os gregos, e especialmente os jônios, estavam situados geograficamente no baricentro das maiores civilizações do mundo antigo e nenhuma delas estava no continente europeu em si.

 

Amplo contato com civilizações cada vez mais complexas facilmente resulta em uma visão de mundo que busque abandonar explicações mitológicas para se ater a explicações racionais. 

 

Essa mesma separação poderia ter acontecido em qualquer outro lugar do mundo se as condições históricas e geográficas assim tivessem possibilitado. Muito do conhecimento pré-socrático não surgiu na Grécia em si. Apenas foi assimilado, adaptado e desenvolvido pelos gregos a partir das trocas com outras civilizações.

 

Os europeus fizeram o mesmo que os gregos dois mil anos depois. A Itália foi o berço do Renascimento não por que havia algo de especial em seu povo, mas porque, por uma casualidade, se tornou um centro de rotas comerciais com o Oriente.

 

Os perigos do irracionalismo subjetivista

 

Concluo, portanto, dizendo que considero perigoso abandonar parâmetros de racionalidade construídos ao longo de milênios de civilização humana sob a justificativa de serem “eurocêntricos”. 

 

Isso não quer dizer que devamos desprezar a racionalidade e conhecimento inerentes aos mitos, à sabedoria popular, à oralidade, à tradição e à ancestralidade. Mas tomemos cuidado com as escolhas epistemológicas e ontológicas que fazemos. 

 

Essas escolhas são como lentes. Enquanto algumas afinam nossa compreensão, outras tantas distorcem demasiadamente o foco da realidade. 

 

Particularmente, acredito que qualquer enquadramento do que é ser racional deve ser questionado, colocado à prova, levado ao escrutínio. 

 

Por outro lado,  vejo que a decolonialidade se propõe a combater o mito da superioridade europeia mas, quando identificam toda a racionalidade moderna, sem exceção, como sinônimo de eurocentrismo, em certa medida, reforçam eles mesmos o mito de origem sobre o qual discursamos acima.

 

Para mim, combater o mundo eurocêntrico é, primeiro, se opor à dominação econômica engendrada pelo imperialismo e, segundo, parar de enxergar os grandes avanços epistemológicos da humanidade como se fossem intrínsecos ou inatos ao europeu. 

 

Não foram apenas matérias primas que essas nações roubaram a partir da colonização. Eles souberam muito bem absorver dos povos que dominaram aquilo que consideraram avanços epistemológicos. Saberes astronômicos, arquitetônicos, agrícolas etc., todos tiveram origem ou influência árabe, persa, hebraica, mesopotâmica, egípcia, entre outros.

 

A partir dessa perspectiva, vejo como muito perigoso fugir do ideal moderno de objetividade para buscar refúgio em subjetividades contra-hegemônicas. Esse é um dos pontos presentes no texto de Barros com o qual tenho maior tendência a concordar.

 

Quando essas subjetividades surgem da práxis de resistência à imposição do mundo exploratório capitalista, elas são essencialmente progressistas e devem, sim, servir de ponto de apoio para nossas elaborações teóricas e políticas. 

 

Entretanto, nossa subjetividade pode ser traiçoeira. A escuridão da irracionalidade segue muito forte e ameaçando o pouco do que há de bom no mundo atual. 

 

A democracia moderna, por exemplo, apesar de ser um meio de dominação da burguesia, significou um avanço com relação a qualquer outra forma de organização social já construída pela humanidade dentro do escopo das grandes e numerosas civilizações que um dia existiram.

 

Foi resultado, na verdade, de uma gigantesca síntese de todos os povos com os quais a Europa teve contato, como viemos tentando expor desde o início deste texto.

 

O poder legitimador de crenças das grandes religiões monoteístas ainda está visceralmente presente no mundo, gerando todo tipo de desequilíbrio antidemocrático.

 

O ultraidentitarismo, tanto o de esquerda, quanto o de direita, segue fazendo com que as amplas parcelas dos dominados olhem para a realidade somente a partir de sua própria experiência individual, sem a capacidade de se conectar com a totalidade das margens que nos oprimem.

 

A recusa ao pensamento racional, o subjetivismo exacerbado e o apelo à ideia de origem, mais ou menos presentes nos ideais decoloniais, são uma das fontes do surgimento de ideais fascistizantes, em especial o messianismo-nacionalista e supremacista racial explorado pelas grandes figuras fascistas da história.

 

Obviamente, não estou dizendo que há alguma proximidade prática entre o neofascismo e o decolonialismo. De fato, eles estão em pólos opostos da luta de classes. Estou me restringindo ao âmbito epistemológico, uma vez que ambos se afastam, cada qual a sua maneira, de critérios erguidos pela racionalidade moderna. 

 

Para dar um exemplo banal, não acredito que a resposta para combater o messianismo fundamentalista neopentecostal característico do neofascismo brasileiro seja apostar no retorno nostálgico a mitologias politeístas, quaisquer que sejam  o lugar em que se originaram.

 

O organizador da Marcha para Exu em São Paulo, por exemplo, é bolsonarista. Seria mera coincidência? Com todo respeito a quem é de Exu, acredito que não. Quando unimos culturas diferentes, a tendência natural é o sincretismo. Grande parte do neopentecostalismo brasileiro está em sincronia com as religiões de matriz africana. O inverso não era para causar espanto.

 

Outro exemplo interessante é como o Yoga e, mais geralmente, os ensinamentos Vedas, fonte de encanto e admiração para muitos decoloniais, se tornaram parte de um grande movimento ultranacionalista Hindu na Índia. Para mim, esses fenômenos são consequência do irracionalismo, e não exatamente do colonialismo.

 

O que aprendo com a decolonialidade e contracolonialidade?

 

Feitas todas as ressalvas acima, há muito de progressivo nas propostas decoloniais e contracoloniais. 

 

Gosto de pensar que o irracionalismo é sintoma de uma sociedade decadente. É resultado do simples exercício de olhar para o presente e perceber que nos faltam perspectivas de futuro. Vivemos uma época na qual a distopia, o fim do mundo, nos aparece como a única alternativa vislumbrável.

 

Assim, ficamos desesperados em busca de utopias. Quando o futuro está obscurecido, a resposta natural de muitos é voltar seus olhos para o passado.

 

Nesse esteio, a decolonialidade quer impulsionar nossa visão para fora da lógica do capitalismo imperialista neoliberal. Ela nos provoca e nos instiga a perceber que o mundo nem sempre foi como é e, consequentemente, pode vir a se tornar algo diferente.

 

Não está buscando dizer, em essência, que deveríamos voltar a nos organizar como as sociedades pré-industriais ou nos guiar por gurus espirituais (embora não sejam poucos os que realmente fazem isso).

 

O que absorvo da decolonidade/contracolonialidade é a inspiração para pensar futuros onde as revoluções resgatem um modo de vida que a academia e os universitários têm dificuldade de perceber que pode estar logo ali, bastando para nós exercitar um pouco a criatividade do olhar.

 

Afinal, os quilombos, as comunidades tradicionais rurais, as aldeias indígenas, as periferias etc., que por muito tempo ficaram longe da academia e das políticas públicas, apesar de todas as suas contradições inerentes, são provas vivas de que um mundo diferente existiu, resistiu e seguirá resistindo. 

 

Por isso, só tenho a agradecer ao Nego Bispo.


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