Cuba em perigo


Publicado em: 27 de janeiro de 2026

por Valério Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

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O que significa dizer defesa “incondicional” da URSS? (…) Quer dizer que, independentemente do motivo (…) defendemos as bases sociais da URSS, se esta for ameaçada pelo imperialismo.[1]

Leon Trotsky

 

1.A situação em Cuba mudou para pior, qualitativamente, após o ataque do passado 3 de janeiro e sequestro de Maduro e Cília Flores. A suspensão do abastecimento de petróleo venezuelano foi, parcialmente, compensada pelo Mexico, mas está ameaçada. A aposta de Trump é apertar o estrangulamento econômico para incendiar o mal-estar social, e ameaçou como iminente um desmoronamento do regime. A imprensa norte-americana divulgou declarações em off de autoridades em Washington confirmando a existência de um plano de derrubada do regime até o final de deste ano de 2026. Trump provocou anunciando ninguém menos que Marco Rubio, atual secretário de Estado, de família de origem cubana como um bom nome para a presidência. Esta dramática avalanche coloca um desafio estratégico para a esquerda mundial, em especial a latino-americana. A defesa de Cuba diante do imperialismo é uma questão de princípios. O projeto de deslocamento do governo cubano é contrarrevolucionário. A queda do governo seria uma derrota histórica de impacto somente comparável ao fim da URSS em 1991. A restauração do capitalismo seria selvagem, e Cuba seria recolonizada.  Um protetorado norte-americano em Havana, semelhante à condição de Porto Rico seria devastador para toda a América Latina.

 

2. A situação interna em Cuba é de imensa penúria, infelizmente, cada vez mais parecida com os anos noventa do período “especial”. Os blackouts castigam a ilha com a falta de luz por várias horas ao dia, e nem sequer as grandes cidades são poupadas. A escassez é generalizada, desde alimentos até os medicamentos. A maioria da população vive em condições materiais de sacrifício. Ainda em 2024, Cuba pediu apoio ao PMA, o Programa Mundial de Alimentos da ONU diante das necessidades das crianças. A pandemia produziu uma contração econômica estimada em mais de 10% do PIB. A crise sanitária reduziu a quase nada o turismo, e agudizou a escassez de divisas fortes, dólares e euros, essenciais para o financiamento de importações, e controle da inflação. Desde 2020 algo próximo um milhão de cubanos deixaram a ilha, na luta pela sobrevivência. Por que esta terrível vulnerabilidade? Porque Cuba permanece, dramaticamente, cercada pelo bloqueio de Washington, agravado por novas sanções do governo Trump. Somente a 150km da Florida, Cuba conheceu o triunfo da primeira revolução socialista nas Américas em 1959, e até hoje ainda resiste como um Estado independente. O imperialismo yankee considera esta situação inaceitável. A burguesia cubana nos EUA é hoje muito mais forte do que era quando fugiu para os EUA. Ela é uma fração da classe dominante yankee, a mais poderosa do mundo. Ao contrário dos capitalistas chineses na diáspora ela recusou qualquer negociação com Cuba e mantém, irreconciliavelmente, a defesa do bloqueio. Descartada uma estratégia militar que resultaria em uma guerra civil, a aposta é um cruel, lento, e inflexível asfixiamento econômico para fomentar uma crise social e a subversão interna.

 

3. O isolamento de Cuba, agravado com a evolução desfavorável da relação política de forças no sistema mundial diante da ofensiva de Trump pela preservação da supremacia dos EUA, explica o contexto atual. Cuba não é uma prova de que o socialismo não dá certo, mas, exatamente, o contrário. Durante décadas, Cuba entusiasmou o mundo com façanhas sociais extraordinárias, atingindo resultados na educação e saúde pública muito superiores aos de países com muito mais riquezas naturais, e realizações científicas como o desenvolvimento autônomo de vacinas contra o coronavírus em tempo recorde. A propriedade social e o planejamento econômico provaram sua superioridade, em comparação com Estados capitalistas em estágio semelhante de desenvolvimento econômico-social. Não faz sentido comparar Cuba com a Espanha. Mas é justo comparar Cuba com os vizinhos países centro-americanos ou caribenhos e o desempenho cubano foi, até o fim da URSS, um sucesso. O processo de transição pós-capitalista foi interrompido por muitos fatores. Mas a burguesia interna que veio se constituindo aproveitando oportunidades de negócios favorecidos pelo próprio governo, buscando aumentar a capacidade produtiva e, também, atrair investimentos externos, está fora do poder. Mas parece ser incontornável reconhecer que há uma fratura geracional em Cuba, depois de tantos anos de sacrifícios devastadores.

 

4. A estratégia de Trump é a subversão do regime provocada pelo estrangulamento externo. O mal estar social na ilha aumentou na medida que a vida foi ficando mais difícil. Mas as razões que podem levar as pessoas às ruas, mesmo quando são legítimas e compreensíveis, como em 2021, não são um fator suficiente para a caracterização de quaisquer mobilizações como progressivas. Ser de esquerda não nos obriga a apoiar qualquer mobilização. São quatro os critérios, na tradição marxista, para formar um juízo sobre a natureza de um protesto: quais são as reivindicações ou programa, qual é o sujeito social, quem cumpre o papel de sujeito político e quais são os resultados prováveis. Reivindicações justas não são o bastante. Se o sujeito social é popular tem importância, mas tampouco é o bastante. Se a direção é reacionária, ignorar o desfecho mais provável é uma leviandade. Trata-se de objetivismo. Objetivismo é a desvalorização do papel da direção e a desconsideração do desenlace que ela procura. A luta pelo poder é o coração da luta de classes. Uma desestabilização do governo cubano para devolver a ilha para a burguesia de Miami seria uma tragédia histórica.

 

5. Em Cuba a alternativa não é entre ditadura e democracia, mas, como na Venezuela e Irã, entre independência ou recolonização. Defender Cuba diante das pressões imperialistas não justifica alinhamento incondicional com ações do governo do Partido Comunista liderado por Diaz-Canel. Ao contrário, uma atitude solidária internacionalista honesta deve ser crítica, tanto na estratégia quanto na tática. O que significa que aqueles que defendem a revolução devem poder exercer os direitos democráticos de expressão. Inclusive diante de pressões burocráticas perigosas. Em dezembro de 2025, mês passado, Alejandro Gil, ex-ministro da Economia de Cuba, foi condenado à prisão perpétua. As acusações incluem espionagem, corrupção, suborno e crimes econômicos, segundo o Supremo Tribunal Popular de Cuba. Ele teria abusado de sua função para benefício pessoal e facilitado informações a entidades estrangeiras. Ainda assim, a sobrevivência de Cuba é uma prova impressionante das façanhas realizadas pela revolução até os anos noventa. A maioria dos Estados que conquistaram independência política na onda de revoluções anti-imperialistas que se seguiram à vitória da revolução chinesa e cubana perdeu esta conquista: Argélia e Egito são exemplos, desta regressão histórica, posterior a 1991. Neste marco a responsabilidade do Brasil e, em outra escala, da China na solidariedade é inescapável. Cuba está em perigo.


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