A Groenlândia no tabuleiro do imperialismo estadunidense


Publicado em: 20 de janeiro de 2026

Lotte Rørtoft-Madsen

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Ato na Dinamarca em favor da Groelândia / Reprodução X

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Em 14 de janeiro, poucas horas antes da reunião histórica em Washington entre representantes da Groenlândia e da Dinamarca com seus pares estadunidenses, J. D. Vance e Marco Rubio, a Dinamarca e muitos de seus aliados da OTAN reforçaram sua presença militar na Groenlândia e anunciaram que mais reforços devem chegar.

 

Alguns interpretaram esta movimentação como uma pressão sobre o governo Trump antes da reunião. Mas alguém familiarizado com as políticas da OTAN e Dinamarca reconhece que o apaziguamento com o império é a explicação mais provável. Na reunião em Washington, os EUA reafirmaram sua exigência firme por “possuir a Groenlândia”: “Está claro que o presidente quer conquistar a Groenlândia”, declarou o Ministro das Relações Exteriores dinamarquês após o encontro [1]. As partes concordaram
em estabelecer um “um grupo de trabalho de alto nível” com o objetivo de conter a crise. Mas a crise continua e sua magnitude é enorme. A realidade é que, há mais de um ano, os quase 57 mil groenlandeses e sua vasta ilha se tornaram uma moeda de troca, um peão a ser movido à vontade no grande tabuleiro de xadrez do imperialismo estadunidense.

Trump repetidamente declara que os EUA buscam controlar e possuir a Groenlândia, até mesmo por meios militares se necessário. A agressão brutalmente efetiva contra a Venezuela em 3 de janeiro e o sequestro do chefe de Estado do país e de sua esposa eliminaram qualquer dúvida de que o governo da Casa Branca é capaz de colocar as palavras de Trump em ação. A ameaça é iminente e é sentida de forma aguda entre o povo groenlandês. A população está presa num dilema e os políticos do país têm de lutar hora a hora simplesmente para conseguir um lugar à mesa e serem ouvidos, não apenas pelos EUA, mas também pela
Dinamarca.

A Groenlândia ou “Kalaallit Nunnat” [em idioma groenlandês, “Terra do Povo”], tem sido habitada por 4.500 anos e seu povo está ligado com as comunidades inuítes ao redor do Ártico. É a maior ilha do mundo, com uma área maior que a França, a Alemanha, a Espanha, a Grã-Bretanha, a Itália, a Grécia, a Suíça e a Bélgica juntas. Se tornou uma colônia dinamarquesa com a criação da empresa estatal Royal Greenland Trading Company em 1774. A Royal Greenland Trading Company funcionou como administração colonial de fato até o início do século XX, quando o comércio e a administração foram separados. Durante este período, as empresas dinamarquesas extraíram diversos minerais, incluindo criolita, ferro, zinco, chumbo e prata.

A era colonial formalmente acabou em 1953, mas a igualdade política com a Dinamarca não aconteceu. Seguindo um referendo, o chamado autogoverno foi introduzido em 1979, que foi substituída em junho de 2009 pelo atual estatuto de autogoverno. Sob o autogoverno, os groenlandeses detêm os direitos sobre o subsolo da ilha e os minerais ali encontrados. No entanto, as políticas externas e de segurança continuam a ser decididas na Dinamarca, razão pela qual a Groenlândia é considerada território da OTAN.

A Groenlândia não é um membro da União Europeia. Em um referendo de 1982, 53% da população da Groenlândia votou para deixar a Comunidade Econômica Europeia, agora a União Europeia. Atualmente, a Groenlândia é classificada como um dos Países e Territórios Ultramarinos da União Europeia.

Em 1951, um acordo secreto entre o governo dos EUA e o enviado da Dinamarca aos Estados Unidos concedeu aos EUA o direito de intervenção militar na Groenlândia [2]. O acordo foi altamente controverso e prejudicial às políticas oficiais dinamarquesas da época. No entanto, continua em vigor até hoje e tem sido repetidamente ratificado. Na prática, concede direitos militares ilimitados aos EUA sobre a Groenlândia.

 

Então, durante décadas, os EUA mantiveram várias instalações militares na Groenlândia. A história destas instalações inclui despejos forçados de famílias inuítes em 1953, a queda de um avião americano B-52 que transportava quatro bombas atômicas em 1968 e outros danos infligidos à população local. O governo dinamarquês repetidamente declara que a Groenlândia pertence aos
groenlandeses e não está à venda. Mas, na realidade, a Dinamarca tem vendido a Groenlândia aos EUA durante décadas. “Já temos um acordo de defesa entre o Reino e os Estados Unidos, que concede aos Estados Unidos amplo acesso à Groenlândia”, declarou o Primeiro-Ministro dinamarques em comunicado oficial [3].

Isto levanta a questão: por que o governo Trump busca uma anexação da Groenlândia, quando o império estadunidense já mantém amplos direitos sobre a Groenlândia? A resposta reside em uma nova estratégia de segurança e a exigência de um controle
inquestionável e ilimitado sobre o petróleo, controle sobre os minerais e domínio militar. A Groenlândia possui pelo menos 25 dos 34 minerais designados como “matérias-primas essenciais” pela Comissão Europeia [4]. A Groenlândia tem depósitos significativos de terras raras, cobre, níquel, zinco, ouro, diamantes, minério de ferro, titânio, tungstênio e urânio. Trump quer que as empresas dos EUA, muitas das quais investiram pesadamente em sua reeleição, tenham acesso irrestrito aos recursos minerais da Groenlândia.

Além disso, a posição geográfica da Groenlândia, próxima do Ártico, é importante. O controle sobre as rotas marítimas do norte, tais como a Passagem Nordeste, está se tornando cada vez mais importante conforme avançam as mudanças climáticas. Uma
Groenlândia totalmente controlada, militarizada e rearmada também tem como objetivo servir como uma base avançada contra a Rússia e a China. Além da perspectiva de lucros exorbitantes, manter a China socialista longe da Groenlândia é uma meta estratégica tanto para os EUA quanto para a Dinamarca.

Até poucos anos atrás, a Groenlândia estava passando por um processo de tomada de decisões independentes e se libertando do neocolonialismo. Mas a atual era de imperialismo intensificado emanando da Casa Branca tem causado um sério revés à capacidade da Groenlândia de determinar seu próprio destino. As ameaças e pressões são enormes.

É importante manter o princípio do direito à autodeterminação. A forma como a Groenlândia organiza sua sociedade, com quem colabora e quais as alianças que estabelece para concretizar a sua autodeterminação na prática devem ser decididas exclusivamente em Nuuk [capital da Groenlândia].

[1] https://media.us12.list-
manage.com/track/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&id=c2d41fafc3&e=ab710e72ba
[2] https://www.ft.dk/samling/20141/almdel/gru/spm/25/svar/1178587/1430545.pdf
[3] https://media.us12.list-
manage.com/track/click?u=b02aceea9cb578af543d3029c&id=9f4b52c4da&e=ab710e72ba
[4] https://www.politico.eu/article/europe-neglect-greenland-mineral-wealth-regret/

 

Traduzido de https://www.counterpunch.org/2026/01/19/greenland-on-the-chessboard-of-u-s-imperialism/, por Paulo Duque, da equipe do Esquerda Online.


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