A Venezuela após 3 de janeiro

Mau Baiocco realiza um balanço das relações de força na Venezuela, enquanto Trump revive a Doutrina Monroe para o século XXI.


Publicado em: 15 de janeiro de 2026

Mau Baiocco

Esse post foi criado pelo Esquerda Online.

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Em 3 de janeiro, após meses de escalada militar e assassinatos extrajudiciais na costa da Venezuela, os EUA atacaram diretamente o governo venezuelano. Até agora, as imagens da operação estão gravadas nas mentes dos venezuelanos e do mundo que as assiste. Explosões e helicópteros pretos sobrevoando Caracas, Maduro sequestrado e sendo transportado com os olhos vendados para Nova York, a coletiva de imprensa em que Trump e Marco Rubio anunciaram sua intenção de “governar” a Venezuela a partir de agora. Além do espetáculo e das especulações que se seguiram – Maduro foi traído, como os EUA podem governar a Venezuela, Trump buscará a Groenlândia ou Cuba em seguida -, vale a pena fazer um balanço das forças dentro da Venezuela e além dela.

A operação militar dos EUA que removeu Maduro do poder pode muito bem ficar na história tanto por sua superficialidade e fanfarronice quanto por seu aparente sucesso. É evidente que não houve nenhuma mudança real de regime, nem no alto escalão do poder, nem na base da sociedade venezuelana. Nenhum soldado raso ou milícia teve que tirar o pó de seus rifles em defesa da nação contra um ataque imperialista terrestre. Poucas horas após o sequestro de Maduro, o governo encenou sua própria transição ordenada ao poder, quando a vice-presidente Delcy Rodríguez foi confirmada como presidenta interina pela Suprema Corte da Venezuela e empossada perante a Assembleia Nacional. Não ocorreram expurgos, recriminações ou divisões perceptíveis dentro do governo até agora. A vida normal parece estar gradualmente retornando a Caracas e às principais cidades da Venezuela.

Após a operação, a justificativa de capturar Maduro para julgá-lo nos EUA sob acusações de narcotráfico foi relegada a segundo plano, substituída pelas mensagens explícitas de Rubio e Trump de que, desde o início, se tratava simplesmente de apropriar-se de recursos venezuelanos e fazer com que o país servisse aos interesses hemisféricos dos EUA. A Doutrina Monroe (rebatizada com entusiasmo pelo presidente como “Donroe”) é revivida. Tornada explícita por meio de diplomacia das canhoneiras, das ameaças contra os presidentes Petro e Sheinbaum e de ações como a intervenção para salvar o governo argentino de extrema direita de Milei de uma crise econômica ou, ainda, o perdão ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández das acusações de narcotráfico. Está claro que a operação visou tanto os governos independentes do continente quanto a Venezuela. Com os EUA dispostos a ir tão longe quanto sequestrar e extraditar chefes de Estado em defesa de seus interesses, poucas opções parecem estar fora de cogitação daqui em diante. Uma confluência de fatores tornou possível o sequestro de Maduro. Sua fragilidade, tanto militar quanto como chefe de Estado, com apoio popular reduzido entre a população venezuelana, sua demonização como narcotraficante e a forma como a medida seria recebida pelos eleitores latino-americanos antissocialistas em Estados decisivos do campo de batalha eleitoral dos EUA tornou-a a opção mais conveniente para afirmar uma estratégia geopolítica que o restante da América Latina deverá agora seguir.

Se isso será bem-sucedido, no longo prazo, ainda está por se verificar. Contrário à afirmação de Trump e Rubio de que este é o alvorecer de uma nova era dourada para as companhias petrolíferas dos EUA, com acesso irrestrito às maiores reservas de petróleo do mundo, o capital petrolífero dos EUA ainda não sinalizou disposição para ser recrutado para a campanha de Trump. Para extrair o petróleo venezuelano em uma escala que fosse estruturalmente vantajosa aos EUA, seria necessário investir maciçamente na reconstrução da indústria petrolífera venezuelana colapsada. Os números apresentados por analistas da indústria petroleira são expressivos: mais de 100 bilhões de dólares em investimentos. Mais do que o dobro do que as empresas petrolíferas estadunidenses investiram globalmente no ano passado, apenas para que a Venezuela voltasse ao que era (em seus padrões) uma produção de petróleo historicamente baixa há quinze anos. Os retornos sobre o capital investido, em um momento em que o mundo enfrenta um excedente de petróleo e uma transição energética, simplesmente não são suficientemente significativos para incentivar o movimento do capital privado para a Venezuela. A extração de terras raras e minerais pode representar uma perspectiva melhor. Mas este setor é relativamente novo e pouco explorado na Venezuela, sendo que o que existe disso já se encontra bem integrado (por meio de práticas de hiperexploração do trabalho e tráfico ilícito) aos mercados globais de commodities. Como muitos outros têm escrito, a situação atual exige uma reformulação de como a esquerda compreende o imperialismo. Menos da compreensão da intervenção militar como mero pretexto para ampliar a acumulação de capital e mais na concepção de facções de capital alinhadas nacionalmente competindo entre si, monopolizando e privando reciprocamente umas às outras dos recursos.

Nos dias após o ataque, o governo dos EUA parece ter percebido isso: agora, sua estratégia parece ser a de manter a produção já existente de petróleo, ao invés de investir em aproveitá-la ou expandi-la e usar o bloqueio naval dos EUA para assumir a venda e a comercialização do petróleo venezuelano. As receitas da venda de petróleo pelos EUA, então, segundo Trump, seriam investidas exclusivamente na aquisição de bens e commodities estadunidenses pela Venezuela. É uma estratégia que rebaixa o governo venezuelano e a empresa petrolífera estatal PDVSA a uma condição de vassalagem. É difícil imaginar como qualquer governo venezuelano atual ou futuro justificará aos cidadãos venezuelanos o pagamento de commodities estadunidenses onerosas sem sofrer uma reação colossal e uma perda de legitimidade. É possível que essa venha a ser a questão central que o governo de Delcy Rodríguez, ou qualquer alternativa de oposição, terá que enfrentar. Quanto se esperará que os venezuelanos paguem, em sua vida cotidiana, pela coexistência com os Estados Unidos?

A presidenta interina Delcy Rodríguez não é alheia a submeter os venezuelanos a ajustes econômicos significantes. Sob Maduro, ela ocupou diversos cargos, incluindo os de ministra das Finanças, presidenta do Banco Central da Venezuela e ministra do Petróleo. Nessas funções, ela supervisionou programas de liberalização econômica, tais como a dolarização da economia, a Lei Antibloqueio de 2020 que concedeu às empresas petrolíferas privadas uma participação maior na produção de petróleo e na criação de zonas econômicas especiais. Como resultado de seu apoio à classe capitalista doméstica, o governo venezuelano tem conseguido retomar um crescimento econômico capaz de quebrar as sanções. Contudo, isso ocorreu ao custo do aumento da desigualdade e da queda dos salários para níveis historicamente baixos, assim como a marginalização dos elementos remanescentes da esquerda chavista e da repressão à atividade sindical. É provável que esse pano de fundo tenha tornado Rodríguez uma alternativa a Maduro aceitável para os Estados Unidos. Resta saber, entretanto, se ela será uma cliente dócil – sob as ameaças estadunidenses reais pairando sobre sua própria vida, bem como sobre a vida do resto do governo – ou se tentará demarcar uma posição independente que proteja a soberania venezuelana. Uma resposta mais estrutural, como destaca o economista político venezuelano Malfred Gerig, é que a transformação do Estado venezuelano em um Estado-cliente dos interesses capitalistas já se consumou como resposta à crise econômica entre 2016 e 2019. O que se testemunha agora é o surgimento de um alinhamento público, tornado completo pelo ataque dos EUA em 3 de janeiro.

A natureza da ação dos EUA, bem como do regime autoritário que Maduro conduzia, faz com que a análise do que aconteceu na Venezuela tome a forma de uma intriga palaciana, baseada na leitura das declarações públicas e coletivas de imprensa, bem como em análises especulativas. Pouco se tem dito sobre a composição de classe, o poder popular e sobre quem deveria, em última instância, determinar o curso dos acontecimentos: o povo venezuelano, exercendo sua livre e soberana vontade democrática. É fácil esquecer que nenhum dos atores atualmente em debate apresenta qualquer traço de legitimidade popular. A intervenção dos EUA é amplamente rejeitada entre a população venezuelana e, especialmente sob os desígnios de Rubio e Trump, caso signifique um regime de exploração permanente. A oposição encontra-se dividida, tendo orientações políticas contraditórias no plano interno e no exterior, com María Corina Machado marginalizada pelos EUA e percebida como uma ameaça existencial pela base chavista. Por fim, Rodríguez deve sua posição à intervenção dos EUA e à eleição de 2024, para a qual existe ampla evidência independente de fraude. Seus resultados foram legitimados por uma onda de repressão estatal e não por reconhecimento popular.

As classes, em grande medida, se distanciaram suas filiações partidárias tradicionais, a tal ponto que já não se pode afirmar que qualquer partido específico detenha a liderança da classe trabalhadora politizada, como o PSUV o fez no auge do chavismo. Além disso, a migração em massa de venezuelanos e o colapso (e uma recuperação parcial) da economia tiveram efeitos relevantes. Existe o fenômeno do afastamento da juventude da vida política venezuelana, a burguesia enchufada que acumulou sua riqueza permanecendo no país durante a liberalização econômica tardia sob Maduro e um crescimento do eleitorado evangélico socialmente conservador, majoritariamente pertencente à classe trabalhadora, que encontrou certo grau de acomodação com o governo. A base revolucionária da Revolução Bolivariana – os movimentos comunais e cooperativos que Chávez buscou institucionalizar nos últimos anos de sua vida – desempenha um papel importante, ainda que frequentemente marginalizado, agora. Eles ocupam uma posição contraditória de dependência do Estado para sua sobrevivência, enquanto regularmente entram em conflito com o próprio Estado e com seus interesses no plano local da governança municipal e policiamento. Nos dias posteriores ao ataque, eles se tornaram os opositores mais visíveis da intervenção dos EUA, ocupando as ruas em protestos em todo o país. À medida que o governo desloca suas prioridades para a própria sobrevivência e cooperação com os EUA, permanece em aberto se os comuneros se tornarão uma força oposicionista e independente do Estado ou se formarão um bloco com o governo Rodríguez para se opor à ameaça de retorno ao poder da oposição tradicional de direita.

As perspectivas da Revolução Bolivariana estão em jogo. Caso a Venezuela pretenda evitar ser administrada como fruto de um pacto entre clientelas locais da classe dominante e os Estados Unidos, é imperativo que o campo do debate democrático e da disputa sejam reabertos, permitindo que partidos e lideranças locais se posicionem explicitamente com relação à principal questão que se coloca ao país daqui em diante: quem é o proprietário dos recursos da Venezuela? A legalização dos partidos políticos, a libertação dos presos políticos, de ativistas comunitários, de dirigentes sindicais, e o desmantelamento do aparato repressivo estatal constituem o único caminho viável para renovar as condições que desencadearam a Revolução Bolivariana como um movimento popular de massas. A vida política amortecida sob o governo Maduro, em que uma elite militarmente amparada ganhou destaque ao absorver a classe empresarial e reprimir seus críticos, ao mesmo tempo em que a oposição se exilava e se radicalizava no exterior, deve ser substituída por uma contestação aberta e de programas políticos explicitamente formulados. Sem uma base democrática de massas, as políticas anti-imperialistas são reduzidas a slogans, tornam-se facilmente capturadas por elites nacionais dominantes e morrem desde o início. Isto não é algo a ser dito apenas da Venezuela: é uma experiência que a Venezuela compartilha com a maioria dos Estados pós-coloniais no sul global.

Esta liberdade democrática à qual todos os venezuelanos aspiram, no entanto, nunca será completamente alcançada enquanto os EUA mantiverem seu bloqueio e ameaças de intervenção. É crucial que o Estado condene a intervenção e não conceda a Trump a cobertura diplomática e a cooperação material que torna possível a agressão dos EUA. Uma política anti-imperialista rigorosa deve estar em primeiro plano de qualquer programa político digno de ser chamado de esquerda. A oposição à OTAN, à proliferação nuclear, à exploração do trabalho e dos recursos naturais do sul global são apenas as correlações, em nível mais geral, da militarização, do racismo, dos regimes de fronteira e de um padrão de consumo material destrutivo para o planeta em nossas vidas cotidianas. A cada passo, é necessário estabelecer a conexão entre cada aspecto específico de nossas lutas com a ampla estrutura imperial que a determina. Cada intervenção que a esquerda faz em nossa vida pública deve ter, como seu critério de sucesso, o enfraquecimento das estruturas imperialistas e extrativistas, bem como a melhoria de nossas vidas em nossas situações específicas. Não podemos nos permitir que nos comprometamos nessas questões em um momento de violenta ação militar imperialista que divide o mundo em diferentes esferas e gera inúmeras vítimas no exterior.

A esquerda internacional deve manter uma linha de solidariedade consistente com os venezuelanos, uma rejeição da intervenção dos EUA e uma oposição pública e crítica da repressão que os venezuelanos enfrentaram em seu país. Embora difícil, esta posição não é impossível: como a esquerda latino-americana demonstrou na última década, nos países onde a maioria dos venezuelanos que fugiram do colapso econômico catastrófico de seu país e agora estão predominantemente proletarizados, explorados e em risco de deportação e ataques xenofóbicos buscando dividir a classe trabalhadora, é possível estabelecer laços significativos de solidariedade baseados em circunstâncias materiais comuns. As formas mais reflexivas e desdenhosas de campismo – muito abundantes em partes da esquerda anglófona – em breve se revelarão inadequadas à conjuntura que os venezuelanos enfrentam. Devemos aproveitar esta oportunidade para a solidariedade, a educação política e o estreitamento de laços significativos com os milhões de venezuelanos que agora vivem em nossas sociedades.

O artigo acima representa a opinião do autor e não necessariamente corresponde às opiniões do EOL. Somos um portal aberto às polêmicas e debates da esquerda socialista.

Traduzido de Venezuela after 3 January por Paulo Duque, do Esquerda Online


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