De Caracas a Teerã: Trump está operando a divisão do sul global
Publicado em: 11 de janeiro de 2026
Nesse início de segundo quarto de século, podemos ver com mais nitidez como a política externa americana está operando para dividir o seu maior obstáculo contemporâneo, que ameaça a continuidade da sua hegemonia no mundo – O Sul Global. Os acontecimentos na Venezuela e no Irã tem envolvimento direto dos EUA e aliados, e é muito importante que as forças progressistas e de esquerda, tomem cuidado para não se tornar um peão no jogo geopolítico maior, servindo de linha auxiliar dos interesses do império ocidental.
Após a derrota histórica da URSS e o fim do mundo bipolar, vimos a emergência de um poder global único liderado pelos EUA com a imponência inédita na história da humanidade de aproximadamente 800 bases militares em cerca de 80 países que lhe confere força para intervir em conflitos de interesse em qualquer lugar no mundo. O “privilégio exorbitante” do dólar que permite o controle da liquidez global, bem como a capacidade de investimentos e poder de sanções financeiras inigualáveis. E, ainda, possui liderança tecnológica capaz de controlar as principais bigtechs, a vigilância de dados em ampla escala, garantindo a mais eficiente produtividade e competitividade a longo prazo. Aqueles que julgam que o império norte americano está numa decadência terminal, estão como diz a juventude de hoje: “Emocionados!”
Mas é verdade que na virada do século, a ascensão extraordinária da China e as articulações que surgiram entre países do sul global para se defender das relações desfavoráveis com o império ocidental passaram a ser um motivo de preocupação para a elite norte americana que está muito bem informada e preparada para evitar a qualquer custo retrocessos em sua hegemonia. A crise econômica de 2008, o surgimento do BRICS, o desenvolvimento da Organização para Cooperação de Xangai (OCX), os avanços da nova rota da seda – belt and road – liderada pela China, o eixo da resistência liderado pelo Irã no oriente médio, a rebeldia anti colonial na região do Sahel na África e finalmente a derrota imposta à OTAN na Ucrânia, ligou o sinal de alerta no establishment norte americano para a necessidade de uma contra ofensiva – O Império contra ataca! A vitória eleitoral de Trump e dos republicanos que passaram a controlar a maioria do congresso americano foi uma resposta da fração burguesa majoritária que manda no mundo – Estão dispostos a esgarçar a normalidade da política interna nos Estados Unidos e a ordem internacional baseada em regras até arrebentar a corda se for preciso. Na visão do império, a soberania, solidariedade, cooperação e desenvolvimento do sul global é um problema de segurança nacional para os EUA.
A administração Trump 2.0 nem completou um ano ainda, e já lançou uma ampla guerra comercial tarifária contra todo o mundo, impôs à subserviente UE, um ajuste no financiamento da OTAN e ameaça anexar a Groenlândia por bem ou por mal. Em aliança com Israel intensificou o genocídio e o controle da faixa de Gaza, desmantelou o Hezbolah no Líbano, selou uma “perfumada” aliança com a nova liderança na Síria, patrocinou a guerra de 12 dias contra o Irã, fazendo inclusive uma participação especial. Em dezembro de 2025, o governo Trump com apoio do congresso, aprovou um pacote de fornecimento de armas para a auto defesa de Taiwan no valor de US$11,1 bilhões de dólares, o maior já feito para a ilha. O mar do Caribe foi ocupado militarmente, além de ameaças de ataques ao México, Colômbia, Nicarágua e Cuba, promoveu uma agressão inédita na história da América do Sul bombardeando e sequestrando o presidente da Venezuela Nicolás Maduro e a primeira combatente Cilia Flores.
A implosão da conexão Caracas -Teerã
Essa covarde e violenta intervenção contra a Venezuela, implodiu a sofisticada conexão entre Caracas e Teerã que envolve o comércio paralelo de petróleo e ouro, que permitia países altamente sancionados a lutarem por independência em relação aos EUA no hemisfério ocidental e seus aliados como Israel no Oriente Médio. A destruição dessa cooperação sul-sul faz parte do projeto em curso, que já está obtendo resultados muito positivos para a administração Trump. A República Bolivariana da Venezuela está neste momento com sua soberania ferida e é vítima de um sequestro que está impondo medidas econômicas coercitivas pesadas ao país. O extraordinário apoio popular de massas que ainda possui o chavismo é o grande ativo que ainda permite Delcy Rodrigues assumir o poder e ter condições de negociar concessões. Mas não há dúvidas que o império espera o melhor momento para o golpe final.
O bloqueio do comércio entre Irã e Venezuela, aprofundou a crise na República Islâmica do Irã, a guerra dos doze dias destruiu refinarias, debilitando o poder de produção energética do país. Assim como, a ameaça de retomada da guerra com Israel a qualquer momento canalizou recursos econômicos para o setor de defesa, precarizando outros setores da economia. Além de ser um dos países mais sancionados do mundo, o que intensifica o isolamento econômico, a ruptura da parceria com a Venezuela interrompeu uma das últimas artérias que dava vida à economia iraniana. O Banco Central do Irã (BCI) perdeu a capacidade de subsidiar a taxa de câmbio para a importação de bens essenciais – alimentos e medicamentos – ao eliminar o subsídio, a elite econômica que controla os bazares e que se enriquece também através da corrupção, passou a ter que importar produtos com dólares mais caros, e o efeito automático foi a elevação da inflação para níveis inacessíveis para a população. Essa situação deu início a revolta encabeçada pelos bazares que acabou inflamando toda a sociedade iraniana num movimento policlasista. Acontece que o apoio dessa mesma elite que comanda os bazares foi determinante para a revolução iraniana de 79 derrubar a monarquia pró-ocidental liderada pelo Xá. Como também é um pilar de sustentação do regime teocrático que comanda o país hoje, a ruptura dessa aliança tem potencial de levar à queda do regime.
Os EUA e Israel estão nitidamente atuando para derrubar o regime, Donald Trump e Benjamin Netanyahu já deram declarações públicas de apoio entusiasmado às manifestações, chegando a dizer que estão prontos para agir militarmente se houver repressão contra os manifestantes. Além disso, estão dando sustentação a Reza Pahlevi, filho do último Xá do Irã, que por sua vez apoiou publicamente em junho de 2025 os ataques militares de Israel contra o Irã e convocou a população a aproveitar o momento para se insurgir contra o regime, naquela ocasião a população iraniana ignorou seus chamados e majoritariamente se colocaram contra a agressão promovida por Israel. O que estamos observando agora é uma mudança de qualidade na subjetividade de parte importante da sociedade iraniana. Nos dias 08 e 09 de janeiro Reza Pahlevi – que está no exílio em Washington nos EUA – emitiu mensagens de vídeo em Farsi convocando a população a se manifestar, e milhões de pessoas responderam a esses apelos com manifestações em várias cidades, incluindo a capital Teerã. Mas não só, já circula por todas as redes sociais imagens de manifestantes entoando palavras de ordem a favor de Pahlavi e da monarquia. Não por axaso o herdeiro do Xá publicou em suas redes sociais um vídeo convocando as manifestações. “Hoje, o mundo se solidariza com a sua revolução nacional e admira a sua coragem. Em particular, o Presidente Trump, como líder do mundo livre, testemunhou atentamente a sua extraordinária bravura e declarou estar pronto para ajudá-los”, afirmou Reza Pahlavi
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o governo iraniano teve inicialmente uma abordagem dupla, negociando com setores que buscavam o diálogo para suas demandas específicas e repressão para manifestantes que usavam de violência desmedida nos protestos. Na medida que os protestos se tornaram cada vez mais violentos, com incêndio de prédios públicos e enfrentamentos violentos contra as forças de segurança, milhares foram presos (incluindo agentes do Mossad) e já existem registros de mortos tanto de civis, como militares da guarda revolucionária iraniana. Nos últimos dias o governo cortou o sinal de internet e telefônico do país para tentar dificultar a articulação dos protestos, mas as poucas informações que chegam revelam que os protestos seguem permanentes e ainda mais violentos.
A oposição está dividida, trata-se de um movimento heterogêneo, se iniciou com a elite proprietária dos bazares, surgiu também um forte movimento monarquista que começa a ganhar protagonismo, setores sindicais em greve que tem influência de correntes de esquerda, intelectuais e estudantes nas universidades, organizações feministas e de direitos humanos, jovens que reivindicam a “ geração Z” e movimentos separatistas de minorias étnicas como curdos e balúchis. Por enquanto não há uma liderança é um programa que unifique os protestos, o que é um elemento subjetivo que joga a favor do regime, como também as forças de esquerda são frágeis e totalmente minoritárias, sem qualquer condição de dirigir o processo de lutas. O elemento político que pode forjar uma aliança capaz de derrubar o regime seria uma unidade entre os proprietários de bazares, as forças monarquistas e o imperialismo ocidental, o que ainda não se confirmou. Dificilmente haverá uma unidade total de todas as forças para derrubar o regime, pelo nível de diferenças que existe hoje entre as diversas frações que estão em protestos.
Na impossibilidade de uma direção alternativa – que apresente um programa mínimo emergencial para atender as reivindicações econômicas e democráticas do povo iraniano – com força suficiente para canalizar e dirigir o descontentamento geral, não é prudente apostar na queda imediata do regime, que na prática vai estabelecer o caos no país podendo se desdobrar numa guerra civil ou na ascensão de uma monarquia reacionária aliada do imperialismo ocidental consagrando o total domínio israelense na região. Infelizmente a curto prazo, não serão esses protestos que vão permitir uma saída progressiva para o povo iraniano, pelo seu caráter confuso, pela falta de uma direção consequente e pela forte influência de forças imperialistas entre os manifestantes, tentando aplicar sua política de “revolução colorida” no país. Ao mesmo tempo, se o atual regime não negociar e atender as reivindicações da classe trabalhadora e se recusar a dar concessões aos movimentos que reivindicam direitos civis e democráticos, poderão abrir um caminho para a sua derrota, se não agora, muito em breve. Pois a possibilidade de um novo ataque militar imperialista é iminente!
Por fim, na atual configuração do mundo de hoje, com a institucionalização do poder imperialista em escala global, a luta de classes e as lutas anti-coloniais são indissociáveis e ganham uma dimensão cada vez mais internacional. A elaboração tática das forças progressistas, da esquerda e das correntes revolucionárias não pode obedecer apenas aos elementos que se desenvolvem dentro das fronteiras nacionais, porque quase nada está fora do entrelaçamento das relações políticas mundiais. Trump apoiou enfaticamente a saída do Reino Unido da UE e dá um tratamento diferenciado às relações com a Inglaterra, não vacilou em ajudar Milei na hora da morte, não titubeou em apoiar Israel no seu projeto de dominação do Oriente Médio, está garantindo o fornecimento de armamento para proteger Taiwan e opera agressivamente para conter a influência não ocidental na América Latina. Isso tudo significa que se as nações do sul global, querem verdadeiramente avançar no enfrentamento anti imperialista para defender sua soberania, terão que fazer mais do que estão fazendo, caso contrário o objetivo de Trump de dividir o sul global para reinar, será vitorioso!
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