O que é a “Doutrina Donroe” e por que os EUA estão se retirando dos organismos multilaterais?


Publicado em: 9 de janeiro de 2026

Por Edson Xavier de Juazeiro do Norte (CE_

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Por Edson Xavier de Juazeiro do Norte (CE_

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Este ensaio analisa a chamada “Doutrina Donroe”, proclamada por Donald Trump durante a recente ofensiva contra a Venezuela, a partir do referencial do marxismo clássico, com base nas formulações de Lênin e Trotsky. Longe de ser compreendida como inovação conjuntural ou desvio de personalidade, a doutrina é interpretada como expressão ideológica do imperialismo, fase histórica do capitalismo marcada pela dominação do capital financeiro e pela subordinação violenta da periferia do sistema mundial.

De outra parte, os recentes anúncios do governo estadunidense, sob a presidência de Donald Trump, confirmam uma guinada estratégica na política externa imperialista: a retirada sistemática de organismos multilaterais da ONU, como a OMS, a UNESCO e o Conselho de Direitos Humanos, assim como a ruptura com acordos climáticos globais. Este movimento não é um episódio isolado, mas articula-se organicamente com outras agressões imperialistas contemporâneas – como a guerra híbrida e as ameaças de intervenção direta contra a Venezuela –, formando um quadro coerente de desmonte da arquitetura institucional do pós-guerra.

A tese central sustenta que os acontecimentos recentes confirmam o diagnóstico marxista: o capitalismo, em sua etapa imperialista, é estruturalmente produtor de crise, guerra e negação da autodeterminação dos povos. Contudo, o texto concentra-se nos princípios e estratégias gerais dessa dinâmica, dedicado ao diagnóstico, deixando as mediações táticas e as tarefas imediatas para para outros espaços.

Do multilateralismo instrumental ao unilateralismo agressivo

A ordem multilateral construída após 1945 sempre foi, em sua essência, um instrumento da hegemonia do capital norte-americano. Enquanto os Estados Unidos mantiveram uma supremacia econômica, militar e política incontestável, essas instituições serviram para mediar conflitos interimperialistas secundários, legitimar intervenções e universalizar normas favoráveis à acumulação de capital em escala global. No entanto, conforme diagnosticado pela teoria marxista do imperialismo, a lei do desenvolvimento desigual segue operando. A ascensão da China como potência rival, somada às crises estruturais internas do capitalismo estadunidense, corroeu a base material desse consenso.

A administração Trump não inventou o unilateralismo, mas tornou-o abertamente a doutrina oficial. A retirada de organismos internacionais representa o reconhecimento tácito de que a hegemonia relativa dos EUA já não é suficiente para garantir o controle pleno sobre essas arenas. Quando as instituições multilaterais deixam de ser veículos dóceis de seus interesses e podem se converter em fóruns de contestação ou em obstáculos jurídicos, o imperialismo dominante prefere abandoná-las e recorrer aos instrumentos diretos de coerção: sanções econômicas extraterritoriais, guerras híbridas, ameaças militares e a diplomacia da chantagem.

Como Leon Trotsky analisou em seus estudos sobre a dinâmica interimperialista, não existe uma harmonia estável sob o capitalismo. Os períodos de aparente equilíbrio são sempre provisórios e se desfazem quando as relações de força se alteram. A guinada unilateralista de Trump é a expressão política desse desequilíbrio. O imperialismo norte-americano, incapaz de dirigir o sistema com a mesma autoridade de antes, opta por dinamitá-lo, apostando na força bruta e na ação direta para preservar seus privilégios.

Contudo, esta estratégia carrega em si uma contradição profunda. Ao se retirar das instituições multilaterais, os Estados Unidos não recuperam o poder perdido; pelo contrário, aceleram a erosão de sua influência diplomática e moral. O vácuo de poder e liderança que criam é rapidamente ocupado por outras potências – principalmente a China –, aprofundando a fragmentação da ordem mundial e as rivalidades interimperialistas que, no limite, conduzem à guerra. Trump tenta resolver no plano da política externa uma crise que é, em última instância, do próprio capitalismo estadunidense, deslocando e intensificando as contradições para o cenário internacional.
As consequências desta política recaem com brutalidade sobre a classe trabalhadora e os povos oprimidos do mundo.

Organismos como a OMS, a UNESCO e as agências de direitos humanos, ainda que limitados e funcionalizados pelos interesses das potências, constituíam diques mínimos – frágeis e insuficientes, mas existentes – contra a barbárie social. Eram espaços onde se podia exercer alguma pressão por políticas de saúde pública, pela preservação ambiental e pela defesa formal de direitos. Seu enfraquecimento deliberado deixa milhões de pessoas ainda mais expostas aos efeitos predatórios do capital, às pandemias, à catástrofe climática e à repressão estatal, sem fóruns internacionais de apelação ou denúncia.

O impacto material é imediato e devastador. A ONU e suas agências, que já enfrentavam subfinanciamento crônico, são forçadas a cortes drásticos de pessoal e programas. Projetos humanitários e de desenvolvimento conduzidos por ONGs em todo o mundo são descontinuados devido ao corte radical da ajuda externa estadunidense, administrada pela USAID. Essas medidas concretas revelam o caráter de classe da política externa de Trump: uma ofensiva que sacrifica qualquer noção de bem-estar global ou cooperação técnica em nome da afirmação agressiva do poder imperial e dos interesses imediatos do grande capital.

A retirada dos EUA do multilateralismo não é, portanto, um acidente ou uma mera política de governo. É um sintoma da crise orgânica do imperialismo norte-americano e da ordem capitalista mundial que ele liderou. Demonstra que, em seu estágio atual, o capitalismo é incompatível com uma governança global estável e progressista. A burguesia imperialista, quando perde a capacidade de hegemonizar através das instituições, não hesita em recorrer ao unilateralismo mais regressivo e à coerção pura.

Imperialismo, bonapartismo e dominação no capitalismo contemporâneo

A proclamação da chamada “Doutrina Donroe”, realizada por Donald Trump em meio a uma operação militar contra a Venezuela, que culminou com o sequestro e cárcere do presidente Nicolás Maduro na prisão do Brooklyn, em Nova York, não pode ser compreendida como um episódio isolado, tampouco como mera excentricidade de um líder político. Trata-se, antes, de uma forma ideológica concreta mediante a qual se expressa uma determinação estrutural do capitalismo contemporâneo: o imperialismo enquanto fase histórica do modo de produção capitalista, conforme formulado por Vladimir Ilitch Lênin.

É necessário afirmar, de maneira inequívoca, que este ato flagrante de agressão militar imperialista contra um país soberano nada teve a ver com o narcotráfico, justificativa originalmente mobilizada por Trump. É sabido, inclusive pelos próprios serviços de inteligência estadunidenses, que o fentanil não provém da Venezuela, que o país não é produtor de cocaína e que desempenha um papel marginal em seu tráfico. A referência ao chamado Cartel de los Soles carece de fundamento; caso tenha existido como construção operacional, esteve vinculada a uma operação da CIA conduzida em conjunto com oficiais do Exército venezuelano na década de 1990, portanto muito antes da ascensão de Hugo Chávez ao poder. De modo análogo, os ataques aéreos contra pequenas embarcações no Caribe e no Pacífico ocorridos nos últimos cinco meses, que resultaram na morte de seus ocupantes, não possuíam relação com a epidemia de drogas nos Estados Unidos. Tais ações configuram, na verdade, mecanismos de intimidação imperialista destinados a submeter a Venezuela aos interesses de Washington.

Os governos norte-americanos historicamente dispensaram formalidades legais para realizar agressões militares no exterior, com ambos os partidos, republicano e democrata, infringindo leis nacionais e internacionais em diversas ocasiões. Quando obtêm cobertura das Nações Unidas para seus desígnios imperialistas, tal circunstância é aproveitada; quando não a conseguem, prosseguem independentemente das consequências jurídicas.

Em Imperialismo, fase superior do capitalismo, Lênin demonstra que o imperialismo não constitui uma simples orientação de política externa, mas uma necessidade objetiva derivada da concentração e centralização do capital, da fusão entre capital bancário e industrial e da hegemonia do capital financeiro. Conforme afirma o autor, “o imperialismo é o capitalismo chegado a uma fase de desenvolvimento em que se estabeleceu a dominação dos monopólios e do capital financeiro” (LÊNIN, 2012, p. 101). É nesse marco que se deve situar a ofensiva estadunidense contra a Venezuela: ela não decorre fundamentalmente da natureza política do regime venezuelano, mas de sua posição objetiva no sistema mundial, de seu controle sobre recursos estratégicos, notadamente o petróleo, e de sua tentativa, ainda que contraditória, de ampliar margens de soberania frente ao capital financeiro internacional.

O discurso de segurança nacional mobilizado por Trump, ao classificar a Venezuela como “ameaça”, cumpre uma função ideológica indispensável ao imperialismo, qual seja, revestir interesses materiais de justificativas morais, jurídicas ou civilizatórias. Lênin já havia identificado esse mecanismo ao observar que a burguesia imperialista procura “encobrir os seus objetivos de rapina com frases hipócritas sobre a paz, a cultura e a civilização” (LÊNIN, 2012, p. 144). No século XXI, essa mistificação reaparece sob a gramática da segurança, do combate ao terrorismo, ao crime organizado ou à chamada “influência estrangeira hostil”. A construção do inimigo externo converte a agressão imperial em ato de legítima defesa e transforma a dominação econômica em imperativo histórico.

A chamada guerra híbrida, que combina sanções econômicas, bloqueios financeiros, isolamento diplomático, lawfare e ofensiva midiática, constitui uma adaptação contemporânea das formas de coerção imperialista. Embora o conceito não pertença originalmente ao vocabulário marxista clássico, ele descreve com precisão a articulação atual dos instrumentos empregados pelo imperialismo para desestabilizar Estados dependentes sem recorrer, imediatamente, à ocupação militar direta. Tal estratégia confirma a análise de Leon Trotsky, segundo a qual o imperialismo prefere, sempre que possível, formas indiretas de dominação, capazes de manter nações periféricas em estado permanente de instabilidade e dependência. Como observava Trotsky, o imperialismo não busca a estabilidade dos países atrasados, mas sua submissão e desorganização interna (TROTSKY, 2008, p. 87).

A evocação explícita da Doutrina Monroe (1823) não constitui um anacronismo retórico, mas a reafirmação de um princípio estrutural da política imperial estadunidense: a América Latina como espaço subordinado, funcional à acumulação de capital no centro. A chamada “Doutrina Donroe” não rompe com essa tradição; ao contrário, expressa sua atualização histórica, plenamente ajustada à fase neoliberal-financeirizada do capitalismo. Se, no século XIX, a tutela hemisférica se exercia por meio de intervenções diretas e protetorados, atualmente ela opera sobretudo por mecanismos financeiros, jurídicos e informacionais, sem abdicar, quando necessário, do uso direto da força.

A personalização da doutrina em torno da figura de Trump revela, ainda, um fenômeno político que Trotsky analisou sob a categoria de bonapartismo. O bonapartismo não elimina a dominação de classe; ao contrário, a reorganiza, conferindo ao Estado uma aparência de autonomia frente às classes sociais, enquanto preserva intactos os interesses fundamentais do capital dominante. Conforme Trotsky, trata-se de uma forma de poder em que o Estado parece elevar-se acima da sociedade sem romper com as bases materiais da ordem burguesa (TROTSKY, 2015). No plano internacional, essa forma política se manifesta por meio de uma política externa agressiva, apresentada como expressão da “vontade nacional”, mas funcional à recomposição da hegemonia do capital financeiro transnacional em um contexto de crise orgânica do imperialismo.

A Venezuela ocupa, nesse processo, um lugar exemplar. À luz da teoria da revolução permanente, a reação imperialista confirma um ponto central do diagnóstico trotskista: nos países dependentes, as tarefas de soberania nacional, desenvolvimento econômico e autodeterminação não podem ser plenamente realizadas dentro dos limites do capitalismo. Trotsky foi categórico ao afirmar que, nessas formações sociais, as tarefas democráticas e nacionais só podem ser resolvidas pela ação independente do proletariado, abrindo caminho para a revolução socialista (TROTSKY, 2007). Assim, qualquer tentativa de ampliar o controle estatal sobre recursos estratégicos, redistribuir renda ou construir articulações regionais autônomas colide frontalmente com os interesses do imperialismo, independentemente das intenções subjetivas ou das limitações internas desses projetos.

A detenção, a prisão e o subsequente julgamento de Nicolás Maduro em solo estadunidense devem, portanto, ser compreendidos como um momento particular de uma totalidade histórica marcada por golpes, intervenções e tutelas no continente americano. Do Chile de 1973 ao Brasil de 2016, passando por Honduras (2009), Paraguai (2012) e Bolívia (2019), o imperialismo interveio sempre que a correlação de forças ameaçou, ainda que parcialmente, o padrão de dependência e superexploração característico da periferia capitalista.

Dessa perspectiva, a reafirmação da “Doutrina Donroe” não inaugura um novo ciclo histórico, mas reafirma a permanência do imperialismo em condições de crise hegemônica. Como advertia Lênin, enquanto subsistir o capitalismo, a guerra e a violência entre Estados continuarão a operar como elementos estruturais do sistema (LÊNIN, 2012, p. 176). Não há saída para essa lógica por meio de rearranjos discursivos ou de apelos à legalidade internacional burguesa. Sua superação só pode resultar da luta internacionalista da classe trabalhadora, orientada para a ruptura revolucionária com o sistema que produz e sustenta a dominação imperial em escala mundial.

No enfrentamento à presença chinesa na América Latina, o governo Trump esbarra em uma realidade incontornável. A China é atualmente o principal parceiro comercial de economias centrais da região, como Brasil, Chile, Argentina, Equador, Peru e Colômbia. Mesmo governos politicamente alinhados a Washington não dispõem de margem material para romper esses vínculos sem provocar profundas crises internas. O resultado necessário dessa contradição é o aprofundamento de choques, tensões e conflitos, o que confirma, conforme as análises de Lênin e Trotsky, que o capitalismo em sua fase imperialista é um sistema estruturalmente marcado pela crise, pela guerra, pela violência e pela opressão.

Edson Xavier é professor e militante da Resistência-PSOL em Juazeiro do Norte (CE)

Referências bibliográficas
LÊNIN, V. I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2012.
TROTSKY, L. A revolução permanente. São Paulo: Sundermann, 2007.
TROTSKY, L. Aonde vai a França? São Paulo: Sundermann, 2008.
TROTSKY, L. Bonapartismo e fascismo. São Paulo: Sundermann, 2015.


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